terça-feira, 20 de setembro de 2016

Andando meio desequilibrado?


Dr. Wadislau Gomes dizia em suas aulas sobre aconselhamento que andar é uma façanha que envolve equilíbrio e desequilíbrio. Eu comigo pensava: então desequilibrar não é algo tão mal assim se for seguido de equilíbrio. Mas se eu me manter equilibrado o tempo todo, não saio do lugar... Você não acha curioso que a Bíblia se refira à vida muitas vezes como uma caminhada, como "andar" com Deus ou distante dele? Mas ultimamente uma teoria tem avançado, dizendo que andamos meio desequilibrados aqui dentro da cabeça, e não é labirintite.

Há quem diga que esse assunto, o do desequilíbrio químico cerebral, não deveria fazer parte das preocupações dos conselheiros bíblicos. "É doença!" diz alguém com ar de conhecimento, enquanto outro grita "sai pra lá, vá cuidar da alma, que da mente já tem médico pra isso". Nesse empurra, empurra, me lembro da anedota do rapaz que no telhado de celeiro, à conserta-lo, perde o equilíbrio e precipitando-se para baixo só tem tempo de orar: "Senhor me acode". Na queda suas roupas se prendem a um dos muitos ganchos espalhados pelas paredes, e ele então ora aliviado: "Não precisa mais, Senhor... Fui pego pelo gancho...".

Existe uma tensão muito grande entre os que defendem o tratamento da dor emocional com remédios e o grupo contrário aos medicamentos psiquiátricos para esse fim (Valenstein, 2002:3). Para muitos, gratos ou não pelos ganchos que Deus põe no caminho da vida, ser medicado para procurar manter o equilíbrio químico no cérebro tem o mesmo status da Aspirina ou Novalgina (escolhe o seu...) que atua na mesma cabeça, mas para aliviar dor diferente. Na abordagem do assunto, é importante levar em consideração a advertência levantada pela Dra. Hendrickson, para não cair nem no julgamento legalista, nem tampouco na vitimização irresponsável: "os membros do grupo contra medicamentos podem chegar perigosamente perto de cometer o mesmo tipo de erro dos 'consoladores de Jó'", querendo com isso dizer que existe uma tendência para se condenar a pessoa acusando-a de ter pecados não confessados; ao passo que os membros do grupo pró-remédios "querem fazer com que todos entendam que o seu sofrimento não é devido ao pecado" (Hendrickson, 2013:170).

A insistência dos conselheiros bíblicos em questionar o uso, muitas vezes indiscriminado, de drogas (fármacos) psicoativas não é à toa, entretanto. Embora a ciência que estude os fármacos seja a Farmacologia, não a Teologia, esta última nos informa que a raiz que compõe a palavra [pharmakon (droga) e logos (palavra)] pisou nas páginas das Escrituras Sagradas. Por exemplo, em Gálatas 5:20, Apocalipse 9:21 e 18:23, a palavra "pharmakeia" foi traduzida por feitiçaria, justamente por conta da palavra fazer alusão à poções e encantamentos. Já em Apocalipse 21:8 e 22.15 encontramos as palavras "pharmakeus" e "pharmakos"; estas foram traduzidas por encantadores e mágicos. O sentido mudou com o tempo e hoje os usos dessas palavras anda longe daqueles usados nas Sagradas Letras, mas as pegadas indicam correspondência.

Quando caminhamos nesse tipo de terreno, muitas vezes somos "convidados" a nos retirar. Às vezes de modo bem ríspido. Afinal, falar de remédios é um assunto bíblico? Conquanto muitos respondam automaticamente com um sonoro "não", esta pode ser a resposta errada. Neste post minha intenção é sacudir um pouco a nossa certeza de que médicos e conselheiros estejam de lados opostos da estrada, e nesse desequilíbrio, dar um passo para frente, encontrar equilíbrio e avançar.

Uma das maiores dificuldades, (senão a maior) para se continuar no caminho é a transposição do "modelo médico". Por este termo refiro-me ao que a sociedade adotou como modelo estrutural de vida e pensamento (o que também pode ser chamado de cosmovisão), no qual tudo pode ser resumido, explicado e tratado em termos médicos. Segundo este modelo, há pouco espaço (se houver) para teologia.

Com a palavra, então, os médicos:
A afirmação à seguir poderia soar deselegante se vinda de outras fontes, mas a psiquiatra Dra. Laura Hendrickson (2013:173), não exitou em afirmar que "quando os comerciais de televisão dizem a você que os sentimentos dolorosos são causados por um desequilíbrio químico em seu cérebro, eles estão simplificando excessivamente uma informação complexa" (grifo meu). O Dr. Darshak Sanghavi, membro da equipe clínica da Escola de Medicina de Harvard, também está entre os muitos que publicamente reprovam a teoria do "desequilíbrio químico" (Anon, 2008:2).

Até o presente momento, para a esmagadora maioria das chamadas doenças mentais e desordens categorizadas nos DSM's, ainda não existe causa fisiológica conhecida. O Dr. Joseph Glenmullen, da Escola de Medicina de Harvard e autor do livro Prozac Backlash (2001), diz que apesar da "ausência de doenças verificáveis" a psicofarmacologia "não tem hesitado em construir um 'modelo de doenças' para diagnósticos psiquiátricos". Ele continua dizendo que "esses modelos são sugestões hipotéticas do que pode ser a explicação fisiológica - por exemplo um desequilíbrio de serotonina". (Anon, 2008:2). Dra. Hendrickson sobre isso afirma: "Mas não há provas de que os níveis anormais dessas substâncias químicas tenham se desenvolvido por si mesmos, causando, assim, a sua dor emocional" (Hendrickson, 2013:173). Aliás, já se sabia há muito que não havia qualquer confirmação científica de que a depleção de serotonina teria qualquer papel determinante sobre o assunto (Valenstein, 1998:3). Então, quando conselheiros bíblico como Heath Lambert afirmam que "não há exame de sangue para 'depressão clínica', nem biópsia que detecte desordem bipolar, ou tomografia que identifique desordem de personalidade boderline" (Lambert, 2014:Loc 329), ele não está sendo nem simplista, nem ignorante; mas refletindo sobre aquilo que especialistas têm escrito e publicado ao longo do percurso.
Não obstante as evidências, ainda perdura a aceitação da teoria, como quem está perdido mas não pára para perguntar qual é o caminho de volta. Mas alguém poderia perguntar quem estaria interessado na aceitação dessa teoria, afinal? Iona Heath, clínica geral do Caversham Pratice, de Londres, em artigo publicado no The Guardian, sugeriu que as companhias farmacêuticas seriam as maiores interessadas no grande aumento da gama de anormalidades, visto que o mercado de seus respectivos tratamentos cresce proporcionalmente (Anon, 2008:3). Um estudo de 2006, publicado em Psychotherapy and Psychosomatics mostrou que 100% dos psiquiatras que foram responsáveis por descobertas de doenças mentais na seção de desordens psicóticas, foram financiados por alguma companhia de drogas psiquiátricas (Anon, 2008:3). Anos antes, Dr. Sydney Waler III, neurologista e psiquiatra, já havia escrito em seu livro A dose of Sanity (1996:239-230) que a influência de companhias farmacêuticas tinha seu como foco "a expansão do número de 'desordens psiquiátricas' reconhecidas pela APA e o número de drogas recomendadas para essas desordens". E conclui: "Afinal, todo diagnóstico no DSM é uma potencial mina de ouro para as firmas farmacêuticas".

Novamente uma série de afirmações chocantes. Para nós, leigos desconhecedores do universo todo próprio da medicina, seria muito afirmar que a indústria psicofarmacológica tenha influenciado diretamente no aumento do catálogo do DSM (Manual Diagnóstico de Desordens Mentais). Contudo, não fossem essas afirmações vindas de autoridades no assunto, estaríamos prontos a duvidar. Talvez estas afirmações estejam alicerçadas sob o seguinte dado: o crescimento do número de desordens e doenças mentais, em um período de 5 anos fez com que o DSM  experimentasse um crescimento de 300%. Isso não indicaria nada se desde a publicação da quarta edição do DSM, em 1994, não houvesse um aumento de 256% nas vendas de drogas antipsicóticas e antidepressivas (Anon, 2008:3).

Quando nosso mapa está confiado no "assim diz a ciência", corremos o risco de nos perder. Como cristãos, que caminham entre desequilíbrios e novo equilíbrio, confiamos no "assim diz o Senhor". Sabemos onde queremos chegar, pois nosso mapa, a Bíblia, não somente nos aponta o destino, como uma bússola, mas também nos indica o Caminho, a Verdade e a Vida, provendo assim mais do que um mapa: companhia para viagem. Se nossa confiança inabalável nas descobertas farmacológicas e médicas se desequilibram aqui, um novo passo, à frente, traz equilíbrio... e assim, um dia, quando olhar para trás, poderemos dizer, como dito de Enoque, que andamos com Deus.
Jônatas Abdias

Referências bibliográficas
Anon.  2008.  Mental Health Care: What is the Alternative to Psychotropic Drugs?
Hendrickson, L.  2013.  Sobre os medicamentos: encontrando um equilíbrio.  (In Fitspatrick, E., ed.  Mulheres Aconselhando Mulheres: respostas bíblicas para os difíceis problemas da vida.  São Paulo: NUTRA.  p. 169-179).
Lambert, H.  2014.  The Gospel and Mental Illness: ACBC.
Valenstein, E.S.  1998.  Blaming the Brain: The Truth About Drugs and Mental Health: Free Press.
Walker III, S. & Kellogg, J.  1996.  A dose of sanity.  Nature Medicine, 2(11):1270.

Andando meio desequilibrado?


Dr. Wadislau Gomes dizia em suas aulas sobre aconselhamento que andar é uma façanha que envolve equilíbrio e desequilíbrio. Eu comigo pensava: então desequilibrar não é algo tão mal assim se for seguido de equilíbrio. Mas se eu me manter equilibrado o tempo todo, não saio do lugar... Você não acha curioso que a Bíblia se refira à vida muitas vezes como uma caminhada, como "andar" com Deus ou distante dele? Mas ultimamente uma teoria tem avançado, dizendo que andamos meio desequilibrados aqui dentro da cabeça, e não é labirintite.


Há quem diga que esse assunto, o do desequilíbrio químico cerebral, não deveria fazer parte das preocupações dos conselheiros bíblicos. "É doença!" diz alguém com ar de conhecimento, enquanto outro grita "sai pra lá, vá cuidar da alma, que da mente já tem médico pra isso". Nesse empurra, empurra, me lembro da anedota do rapaz que no telhado de celeiro, à conserta-lo, perde o equilíbrio e precipitando-se para baixo só tem tempo de orar: "Senhor me acode". Na queda suas roupas se prendem a um dos muitos ganchos espalhados pelas paredes, e ele então ora aliviado: "Não precisa mais, Senhor... Fui pego pelo gancho...".


Existe uma tensão muito grande entre os que defendem o tratamento da dor emocional com remédios e o grupo contrário aos medicamentos psiquiátricos para esse fim (Valenstein, 2002:3). Para muitos, gratos ou não pelos ganchos que Deus põe no caminho da vida, ser medicado para procurar manter o equilíbrio químico no cérebro tem o mesmo status da Aspirina ou Novalgina (escolhe o seu...) que atua na mesma cabeça, mas para aliviar dor diferente. Na abordagem do assunto, é importante levar em consideração a advertência levantada pela Dra. Hendrickson, para não cair nem no julgamento legalista, nem tampouco na vitimização irresponsável: "os membros do grupo contra medicamentos podem chegar perigosamente perto de cometer o mesmo tipo de erro dos 'consoladores de Jó'", querendo com isso dizer que existe uma tendência para se condenar a pessoa acusando-a de ter pecados não confessados; ao passo que os membros do grupo pró-remédios "querem fazer com que todos entendam que o seu sofrimento não é devido ao pecado" (Hendrickson, 2013:170).



A insistência dos conselheiros bíblicos em questionar o uso, muitas vezes indiscriminado de drogas (fármacos) psicoativos não é à toa, entretanto. Embora a ciência que estude os fármacos seja a Farmacologia, não a Teologia, esta última nos informa que a raiz que compõe a palavra [Pharmakon (droga) e Logos (palavra)] pisou nas páginas das Escrituras Sagradas. Por exemplo, em Gálatas 5:20, Apocalipse 9:21 e 18:23, a palavra "pharmakeia" foi traduzida por feitiçaria, justamente por conta da palavra fazer alusão à poções e encantamentos. Já em Apocalipse 21:8 e 22.15 encontramos as palavras "pharmakeus" e "pharmakos"; estas foram traduzidas por encantadores e mágicos. O sentido mudou com o tempo e hoje os usos dessas palavras anda longe daqueles usados nas Sagradas Letras, mas as pegadas indicam correspondência.

Quando caminhamos nesse tipo de terreno, muitas vezes somos "convidados" a nos retirar. Às vezes de modo bem ríspido. Afinal falar de remédios é um assunto bíblico? Conquanto muitos respondam automaticamente com um sonoro "não", esta pode ser a resposta errada. Neste post minha intenção é sacudir um pouco a nossa certeza de que médicos e conselheiros estejam de lados opostos da estrada, e nesse desequilíbrio, dar um passo para frente, encontrar equilíbrio e avançar.

Uma das maiores dificuldades, (senão a maior) para se continuar no caminho é a transposição do "modelo médico". Por este termo refiro-me ao que a sociedade adotou como modelo estrutural de vida e pensamento (o que também pode ser chamado de cosmovisão), no qual tudo pode ser resumido, explicado e tratado em termos médicos. Segundo este modelo, há pouco espaço (se houver) para teologia.

Com a palavra, então, os médicos:

A afirmação à seguir poderia soar deselegante se vinda de outras fontes, mas a psiquiatra Dra. Laura Hendrickson (2013:173), não exitou em afirmar que "quando os comerciais de televisão dizem a você que os sentimentos dolorosos são causados por um desequilíbrio
químico em seu cérebro, eles estão simplificando excessivamente uma informação complexa" (grifo meu). O Dr. Darshak Sanghavi, membro da equipe clínica da Escola de Medicina de Harvard, também está entre os muitos que publicamente reprovam a teoria do por "desequilíbrio químico" (Anon, 2008:2).

Até o presente momento, para a esmagadora maioria das chamadas doenças mentais
e desordens categorizadas nos DSM's, ainda não existe causa fisiológica conhecida. O Dr. Joseph Glenmullen, da Escola de Medicina de Harvard e autor do livro Prozac Backlash (2001), diz que apesar da "ausência de doenças verificáveis" a psicofarmacologia "não tem hesitado em construir um 'modelo de doenças' para diagnósticos psiquiátricos". Ele continua dizendo que "esses modelos são sugestões hipotéticas do que pode ser a explicação fisiológica - por exemplo um desequilíbrio de serotonina". (Anon, 2008:2). Dra. Hendrickson sobre isso afirma: "Mas não há provas de que os níveis anormais dessas substâncias químicas tenham se desenvolvido por si mesmos, causando, assim, a sua dor emocional" (Hendrickson, 2013:173). Aliás, já se sabia há muito que não havia qualquer confirmação científica de que a depleção de serotonina teria qualquer papel determinante sobre o assunto (Valenstein, 1998:3). Então, quando conselheiros bíblico como Heath Lambert afirmam que "não há exame de sangue para 'depressão clínica', nem biópsia que detecte desordem bipolar, ou tomografia que identifique desordem de personalidade boderline" (Lambert, 2014:Loc 329), ele não está sendo nem simplista, nem ignorante; mas refletindo sobre aquilo que especialistas têm escrito e publicado ao longo do percurso.

Não obstante as evidências, ainda perdura a aceitação da teoria, como quem está perdido mas não pára para perguntar qual é o caminho de volta. Mas alguém poderia perguntar quem estaria interessado na aceitação dessa teoria, afinal? Iona Heath, clínica geral do Caversham Pratice, de Londres, em artigo publicado no The Guardian, sugeriu que as companhias farmacêuticas seriam as maiores interessadas no grande aumento da gama de anormalidades, visto que o mercado de seus respectivos tratamentos cresce proporcionalmente (Anon, 2008:3). Um estudo de 2006, publicado em Psychotherapy and Psychosomatics mostrou que 100% dos psiquiatras que foram responsáveis por descobertas de doenças mentais na seção de desordens psicóticas, foram financiados por alguma companhia de drogas psiquiátricas (Anon, 2008:3). Anos antes, Dr. Sydney Waler III, neurologista e psiquiatra, já havia escrito em seu livro A dose of Sanity (1996:239-230) que a influência de companhias farmacêuticas tinha seu como foco "a expansão do número de 'desordens psiquiátricas' reconhecidas pela APA e o número de drogas recomendadas para essas desordens". E conclui: "Afinal, todo diagnóstico no DSM é uma mapa está confiado no "assim diz a ciência", corremos o risco de nos potencial mina de ouro para as firmas farmacêuticas".

Novamente uma série de afirmações chocantes. Para nós, leigos desconhecedores do universo todo próprio da medicina, seria muito afirmar que a indústria psicofarmacológica tenha influenciado diretamente no aumento do catálogo do DSM. Contudo, não fossem essas afirmações vindas de autoridades no assunto, estaríamos prontos a duvidar. Talvez estas afirmações estejam alicerçadas sob o seguinte dado: o crescimento do número de desordens e doenças mentais, em um período de 5 anos fez com que o DSM (Manual Diagnóstico de Desordens Mentais) experimentasse um crescimento de 300%. Isso não indicaria nada se desde a publicação da quarta edição do DSM, em 1994, não houvesse um aumento de 256% nas vendas de drogas antipsicóticas e antidepressivas (Anon, 2008:3).

Quando nosso mapa está confiado no "assim diz a ciência", corremos o risco de nos perder. Como cristãos, que caminham entre desequilíbrios e novo equilíbrio, confiamos no "assim diz o Senhor. Sabemos onde queremos chegar, pois nosso mapa, a Bíblia, não somente nos aponta o destino, como uma bússola, mas também nos indica o Caminho, a Verdade e a Vida, provendo assim mais do que um mapa: companhia para viagem. Se nossa confiança inabalável nas descobertas farmacológicas e médicas se desequilibram aqui, um novo passo, à frente, traz equilíbrio... e assim, um dia, quando olhar para trás, poderemos dizer, como dito de Enoque, que andamos com Deus.

Jônatas Abdias