terça-feira, 18 de julho de 2017

Como a mudança de perspectiva muda tudo

Escrevo aqui o que já usei algumas vezes pra ajudar meus irmãos e irmãs a mudarem de perspectiva e ver a situação que enfrentavam de uma “nova” perspectiva, durante sessões de aconselhamento. Acredite, a mudança de perspectiva muda tudo!
Faz algum tempo, porém, que escrevi que como a nossa busca por simplificar a vida acaba nos conduzindo à uma visão limitada que pode ser prejudicial (http://aconselhandocombiblia.blogspot.co.za/2016/04/a-vida-debaixo-vista-de-cima.html). Meu argumento era que a vida aqui em baixo, quando vista de cima, ganhava uma espectro mais rico, amplo, capaz de abranger a complexidade da vida tal como ela se mostra cá embaixo.
Hoje gostaria de convidar-lo a refletir, mais uma vez, sobre a importância de ver a vida por esse ângulo. O convide parece ser aleatório, mas não é. Como cristãos, nos cabe olhar todas as coisas - tanto as que causam imenso prazer, quanto as que nos deixam indignados - pelas lentes da nossa fé. E é aí que a coisa aperta: nem sempre o fazemos. Então, me permita repetir: a mudança de perspectiva muda tudo! Veja à seguir.
O texto que me vem à mente é amplamente conhecido, e muitas vezes mal-interpretado. Ele está registrado no evangelho que escreveu o apóstolo João, no capítulo 3, verso 16 (quase que não preciso transcrevê-lo, não é?):
"Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna"
Quando disse que esse texto já foi mal-interpretado, é porque já ouvi e li quem enfatizasse o amor de Deus, que nesse texto parece ter sido retratado como “de tal maneira”. Já ouvi a história de quem teve que explicar que Deus de fato amou o mundo, pois a pessoa havia entendido que Deus havia amado o mundo “de jeito maneira”, ou seja, “de modo nenhum”. A explicação a que me referi (que enfatiza o amor de Deus como que caracterizado nessa passagem) argumentava que a condição do homem era de tal sorte terrível, que só um amor que tivesse o mesmo alcance da profunidade do pecado a que o homem foi parar, poderia alcançar-lo. E esse foi o amor divino como demonstrado em Cristo. Acho que por causa do que esse amor cobrou - o sacrifício de sangue que Cristo ofertou na cruz - esse tipo de explicação parece fazer sentido.
Mas esse texto tem tudo a ver com perspectiva, e se você por acaso via o texto pela perspectiva que retratei acima, eis o convite para vê-lo (ao texto), por outro ângulo: um que, acredito, faça mais justiça ao que João pretendia ao registrar os eventos do capítulo 3.
O capítulo 3 de João nos conta a história de Nicodemus, um fariseu que foi procurar a Jesus durante a noite, intrigado por tudo quanto havia ouvido e visto Jesus dizer e fazer. Ele queria confirmar que Jesus falava da parte de Deus. Para Nicodemus, essa era a única explicação capaz de satisfazer seu espírito inquieto (v.2). Jesus deixa claro para Nicodemus de início que tudo dependia o ângulo pelo qual ele o via. Jesus, entretanto, adiante: o ângulo certo é “de cima”.
É realmente uma pena que nossa tradução em português tenha resolvido traduzir o termo por “de novo”. Desta forma, o leitor desavisadamente é conduzido a pensar que Jesus falava meramente de um segundo nascimento, e não de sua fonte. Mas é compreensível, afinal, Nicodemus também entendeu se tratar de um “segundo nascimento” (v.4), o que foi, devo dizer, um entendimento errado corrigido pelo próprio Senhor Jesus (v.5). Confuso, o fariseu mestre da lei perguntou como isso seria possível. A dificuldade de Nicodemos era ver "a coisa toda do alto". Por isso a pergunta dele parece boba: voltar pra dentro da mãe? Como? Veja que Jesus toma a palavra (v.5) pra explicar que o nascimento a que ele se refere vem da água e do Espírito, mas parece que Nicodemus ficou ainda mais perdido (v.9). É quando, então, que somos informados que a resposta fica “ainda mais em cima” (v.12).
A resposta completa, portanto, está compreendida entre os versos 13-21. Quando lidos juntos, esses versos realmente são bem coesos:
"Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem [que está no céu]. E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna. Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem argüidas as suas obras. Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus."
Eis aí meu ponto: tudo o que acontece em nossa vida tem um propósito maior, quando visto "de cima”, como deve ser. Por propósito maior, não quero dizer eterno, ou futuro, como que implicando que no céu, quando Cristo voltar entenderemos. Não. Esse propósito tem efeitos imediato, porém é maior, abrangente... e nem sempre estamos conscientes disso. Creio firmemente que esse propósito maior dos acontecimentos de nossa vida, que a gente sabe que foram dados (não permitidos) por Deus, como prova e expressão de seu amor, é a conformidade com seu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor!
Em outras palavras, estou dizendo que Deus está mais empenhado em nos tornar mais semelhantes a Cristo do que com qualquer dessas pequenas bênçãos passageiras que a gente tanto dá valor, inclusive à nossa efêmera vida - e o que nessa se contém. Sim, afinal, se nos custar essa vida, ainda é preferível sacrifical-la a perder a eternidade no céu!
Essa parece ter sido precisamente a lição que Jesus ensinou a Nicodemos em João 3. Como disse no início, a gente esquece que o famoso verso 16 (talvez um dos poucos que saibamos de cor) de João 3, está inserido naquela conversa entre Jesus e Nicodemos, no meio da noite. Jesus, com compassiva paciência, explica que quando a gente vê a vida do ângulo de Deus, a gente entende que até a cruz é prova de amor da parte de Deus. Essa manifestação de amor é estranha, por isso o Senhor Jesus repete duas vezes (e aqui está o “pulo do gato”) (veja os versos 14-16) que da mesma forma esquisita com que Deus salvou o povo das mordidas das víboras, no tempo de Moisés, não menos misteriosamente, o filho do Homem seria igualmente levantado numa estava de madeira, para a salvação de todo aquele que nele cresse. E sim, tal como foi no caso da serpente de bronze, a cruz seria uma demonstração do amor salvador de Deus.
Essa não seria uma lição fácil de assimilar. Para isso seria necessário que o Espírito Santo, vindo dos mesmos céus de onde o filho foi enviado, e de onde esses planos foram previamente traçados, agisse no coração de Nicodemos e assim seus olhos pudessem ver. Só quando seu entendimento fosse renovado pelo poder regenerador do Espírito é que ele veria a vida pelo ângulo certo: o de cima.
Tudo o que passamos nessa vida ganha sentido quando entendemos a realidade tal como Deus a entende e vemos a vida pela sua perspectiva. E graças ao Espírito Santo, podemos ter acesso à esse privilegiado ponto de vista.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

A Soberania de Deus e a Nossa Alegria

downloadSabemos que cristãos e ímpios sofrem neste mundo caído, neste estado de pecado em que nos encontramos.

...porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos.” Mateus 5.45b

Mesmo que a falta teologia da prosperidade tenha criado um mundo inexistente, afirmando que os verdadeiros cristãos não sofrerão, a realidade é bem diferente. Essa falsa teologia envenenou uma geração inteira. Como uma espécie de cultura tácita, ela imprimiu uma perspectiva desastrosa. Cristãos que compraram a ideia de que não sofrerão dano algum neste mundo expressam uma teologia ruim. E para alimentar ainda mais esse erro, nossa geração foi destreinada a encarar o mundo real, as contrariedades, a dor, o sofrimento e morte. Pensando assim, não conseguem lidar com os momentos difíceis pela perspectiva bíblica. Ver irmãos em Cristo padecendo por crerem numa falsa teologia ou, por ignorarem a Palavra de Deus, tem sido de fato um fator encorajador para lembrarmos que a Palavra de Deus continua sendo a melhor fonte de ajuda. Digo a melhor fonte de ajuda, pois muitos irmãos estão bebendo água salobre, (outra fonte) procurando entre ímpios, conselhos para a alma cansada, abatida, desanimada, em luto, ou mesmo lutando contra algum pecado recorrente.

Penso ser salutar lembrarmos que há uma fonte de água pura, há um farol que brilha sem erro, há uma fonte de sabedoria celestial à nossa disposição que é a Palavra de Deus.

Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. 

Hebreus. 12.4

Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos.

Salmo 119.105

É evidente que uma geração que cresceu ouvindo e sendo instruída a procurar o poder e não a Palavra de Deus sofrerá muito. Pensemos rapidamente o que faríamos sem as orientações da Palavra de Deus. Na antiga União Soviética, durante décadas houve a proibição do uso da Bíblia. Bíblias foram contrabandeadas para aquela nação, a fim de prover alimento aos irmãos em Cristo e sim, eles recebiam a Palavra do Senhor com intensa alegria.

Doutrinas bíblicas não engessam o coração. Doutrinas bíblicas não aprisionam o Santo Espírito de Deus, pois nada nem ninguém pode conter o Deus Todo Poderoso que nos deu sua Palavra para a devida segurança do seu povo, contra o pecado e contra as armadilhas de Satanás.

Pensando em doutrinas para o coração ser devidamente admoestado, corrigido, confortado e santificado, pensemos em como podemos nos alegrar na maravilhosa doutrina da soberania de Deus.

Lembrar que Deus é soberano não é um favor à alma, mas uma obrigação ao servo fiel e leal a Deus, afinal, ele é o soberano Deus. Não podemos defender a soberania de Deus e, ao mesmo tempo, viver como se ela não existisse. Lembrar que Deus é soberano implica em lembrar que Deus controla todas as coisas. Lembrar que Deus controla todas as coisas implica em lembrar que ele está no controle e que devemos descansar e confiar nele, pois todo bem procede de Deus. Lembrar que Deus é soberano, implica em submissão santa àquele que detém todo o poder para fazer valer sua vontade.

Devemos estar atentos às intempéries da vida. Devemos estar atentos quando as abruptas tempestades e tribulações nos alcançarem repentinamente. Devemos estar atentos para não permitir que o nosso coração produza a dúvida, a incerteza, a desconfiança sobre os eternos desígnios de Deus. Muita da nossa fadiga e aflição vem precisamente do triste fato de não confiarmos plenamente em Deus e nele descasar.

Em tempos de alegria, prosperidade e a chegada de bênçãos, somos apressados em declarar como Deus é soberano! Em tempos de aflição e descontentamento, como somos tardios para declarar esta mesma verdade.

Quando o coração reluta em descansar no fato de Deus ser soberano, rapidamente nossas obras tornam-se frutos amargos, nossa alegria se esvai e olhamos com desconfiança para o futuro.

Parafraseando o reformador Lutero, “não sei por quais caminhos Deus me guia, mas confio no meu guia”. É assim que devemos proceder, confiando em nosso Pai celestial, pois ele é soberano. Sua majestade não tem fim, e nenhum dos seus planos pode ser frustrado!

Deus é soberano e soberanamente aplica sua bondade e seu perdão. De outra forma, não haveria esperança, não haveria redenção, não haveria comunhão. Nosso senhor Jesus Cristo veio para nos salvar, e nos ensinar a honrar o Deus eterno. O mundo, a impiedade, a maldade crescente, a tragédia dos péssimos testemunhos, não podem e não devem impedir que o cristão se alegre e se regozije na bendita realidade da soberania de Deus.

Ainda que esta doutrina ora seja esquecida, ora seja rejeitada no todo ou em parte, não pode ser diminuída, maculada ou anulada. Esta doutrina é a pérola preciosa para a segurança do cristão, conforme revelada nas Escrituras Sagradas. O pecado e a maldade não anulam quem Deus é. Absolutamente nada nem ninguém pode fazer isso.

Ele é o Deus soberano! Seu braço é forte e não pode ser detido. Sua vontade é sempre satisfeita. Seus planos são sempre cumpridos conforme sua vontade e o seu tempo.

Uma das minhas maiores alegrias como ministro da Palavra de Deus é ver, com regozijo e contentamento em meu coração, a vontade do soberano Deus alcançar seus eleitos. Por isso, podemos ler com confiança: ... o meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade. (Isaías 46:10).

Jean Carlos Serra Freitas

Pesquisar este blog

Pesquisar por assunto

Aconselhamento Bíblico (24) Adultério (1) Aflição (2) Agradar a Deus (3) Alegria (6) Amor (2) Amor ao próximo (1) Anarquia (1) Ano Novo (2) Ansiedade (1) Argumentação (7) Arrependimento (5) Auto-estima (2) Auto-justiça (4) Autoridade (1) Casais (2) Casamento misto (1) Compaixão (3) Comportamento (13) Comunhão (2) Comunicação (5) Confiança (6) Conflitos (2) Confrontação (2) Conhecimento de Deus (4) Consolo (5) Contentamento (3) Convencimento (5) Coração (5) Coração de pedra (1) Cosmovisão (7) Criação de filhos (6) Cuidado da alma (5) Cuidados do conselheiro (2) Culpa (3) Dependência de Deus (2) Depravação total (1) Depressão (1) Desejos do coração (7) Deus conosco (1) Direitos (1) Dor (2) Edificação do irmão (1) Egoísmo (3) Emoções (6) Encorajamento (9) Engano (4) Escolhas (2) Esperança (3) Estudo (1) família (2) Farisaísmo (2) Fariseu (3) (1) Filosofia (1) Fundamentos (12) Glória de Deus (5) Guerra (3) Idolatria (10) Ídolos do coração (3) Imagem de Deus (1) Instrução (3) Intentos do coração (1) intimidade com Deus (1) Inversão de valores (2) Ira (2) Jean Carlos (12) Jean Carlos Serra Freitas (10) Jônatas Abdias (26) Justiça de Deus (1) Justiça própria (2) Justificação (1) Legalismo (2) Liberdade cristã (2) luta por poder (1) Más lembranças (3) meios de graça (1) Mentira (2) mil (1) milt (1) Milton Jr. (55) Monismo (1) Motivação (11) Motivações (4) Obediência (1) Objetivos (1) Oração (1) Orgulho (2) Paciência (2) Palavra de Deus (10) Passado (3) Paz (5) pecado (3) Perdão (5) Piedade (4) Plano de Deus (3) Planos (1) Prática da Palavra (17) Prática do aconselhamento (5) Presença de Deus (2) Pressupostos Teológicos (18) Psicologia (4) Psiquiatria (1) Racionalização (1) Redenção (7) Relacionamentos (6) remédios psiquiátricos (1) Remorso (2) sabedoria (5) Salvação (1) Santificação (2) Soberania de Deus (7) Sofrimento (6) Suficiência das Escrituras (22) Tarefas (1) Temor de homens (2) Temor do Senhor (1) Tesouros (1) tristeza (5) Unidade (1) Verdade (4) Vida cristã (23) Vontade de Deus (3)