terça-feira, 15 de agosto de 2017

Você creu de todo o coração?

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Quando Deus ordenou a Filipe, que vinha fazendo um bom trabalho pregando em Samaria, onde as multidões atendiam às coisas que ele dizia, que fosse a um caminho que se achava deserto, havia um propósito específico. Em sua providência, o Senhor levou Filipe até um eunuco, oficial da rainha dos etíopes, que voltava da adoração em Jerusalém e vinha lendo o profeta Isaías.

Filipe, obedecendo ao Espírito Santo, se aproximou do carro em que estava o eunuco e perguntou se ele entendia o que estava lendo. Diante da negativa e do pedido para que Filipe explicasse o texto, aquele homem entendeu o evangelho e chegando perto de um lugar onde havia água, questionou: “Eis aqui água; que impede que seja eu batizado?” – ao que Filipe respondeu – “É lícito, se crês de todo o coração” (At 8.36,37a).

Para que alguém receba a água do batismo, que aponta para a purificação do coração realizada pelo Espírito Santo, é preciso que se creia em Jesus Cristo. Por essa razão foi que Filipe não se negou a batizar o eunuco que o respondeu: “Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus” (At 8.37b).

É claro que essa confissão não é mera declaração do entendimento intelectual dessa verdade, mas deve vir acompanhada de arrependimento genuíno, seguido de uma mudança de vida, na força e no poder do Espírito Santo. Foi por causa dessa verdade que Paulo, então, ordenou aos filipenses que desenvolvessem a salvação, ou seja, que buscassem uma vida de santidade que era possível porque o Deus que os tinha salvado operava neles o querer e o realizar, de acordo com a sua boa vontade (Fp 2.12,13).

Crer de todo o coração significa viver em santidade diante do Senhor e não somente fazer uma declaração formal de arrependimento e fé em Cristo.

Um episódio que demonstra a importância da coerência entre a declaração de fé e a vida de prática está no início dos evangelhos, quando João Batista batizava no Jordão.

É verdade que o batismo de João não era o batismo cristão. Prova disso é que ao encontrar alguns discípulos em Éfeso, Paulo perguntou em que batismo haviam sido batizados e, após ouvir que tinha sido no batismo de João, batizou-os em nome do Senhor Jesus (At 19.1-5).

O batismo de João, conforme Paulo, era um batismo para arrependimento, possivelmente semelhante às cerimônias de purificação do AT. Como João era o precursor do Messias ele exigia uma vida de retidão para que alguém fosse batizado, daí ele exortar enfaticamente: “Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” (Mt 3.7,8).

Acontecia que alguns daqueles que iam se apresentar ao batismo achavam que o simples fato de submeter-se àquele rito os livraria da ira do Messias. O fruto que demonstrava arrependimento, mencionado pelo Batista era a adequação ao que ordenava a Lei. Isso fica claro no evangelho de Lucas, quando as multidões perguntam a ele o que fazer e ele reponde: “Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo. Foram também publicanos para serem batizados e perguntaram-lhe: Mestre, que havemos de fazer? Respondeu-lhes: Não cobreis mais do que o estipulado. Também soldados lhe perguntaram: E nós, que faremos? E ele lhes disse: A ninguém maltrateis, não deis denúncia fala e contentai-vos com o vosso soldo” (Lc 3.10-14).

Tudo o que João Batista responde tem fundamento na Lei que ordenava a repartir o pão com o faminto e cobrir o nu (Is 58.7), a não furtar (Ex 20.15) e a ter contentamento (Ex 20.17).

É interessante e importante notar essa questão, pois se aqueles que aguardavam a vinda do Messias não conseguiriam fugir da ira vindoura simplesmente por submeter-se a um rito ao mesmo tempo em que viviam em pecado, tampouco estarão seguros aqueles que, após a vinda do Messias, fazem uma confissão correta, submetem-se a um rito ordenado pelo Senhor, mas vivem em pecado.

A Escritura é bem clara a esse respeito: “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática do pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (1Jo 3.9). O batismo cristão é, então, para aquele que crê de todo o coração e essa atitude é evidenciada numa busca de santidade, que é viver no padrão estabelecido pela Lei do Senhor e que pode ser buscado na força e poder do Espírito Santo.

Você creu de todo o coração? Tem buscado conhecer a Palavra a fim de poder viver em acordo com ela? Tem procurado honrar ao Senhor? Se sim, saiba que há uma má e uma boa notícia. A má é que mesmo que busque viver dessa forma, ainda pecará. A boa é a garantia de que “se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9).

Sonde o seu coração e se perceber que, ainda que batizado e membro de uma igreja, ainda não crê de todo o coração arrependa-se e busque verdadeiramente a Cristo. Ele é poderoso para perdoar os seus pecados e transformar a sua vida.

Milton Jr.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Confissão de fé desalinhada com a prática: o que fazer?

Normalmente as pessoas vivem a vida sem preocupações maiores com a relação que os eventos cotidianos possam ter com seus compromissos de fé. Este já poderia ser considerado como um quadro ruim, mas pode piorar: as pessoas podem reagir a estes eventos ainda menos conscientes do quanto seus compromissos de fé devam interferir e guiar estas mesmas reações.
 
Normalmente é o pastor quem costuma ver e se preocupar com esta lacuna no entendimento prático das pessoas. Esta preocupação (no bom sentido) pode ser vista pela constante abordagem do tema "cosmovisão" e das consequentes exortações para que o crente viva de acordo com a visão de mundo defendida por sua fé cristã. Em outra ocasião me referi ao fenômeno resumindo-o na anedótica frase "na prática a teoria é outra!", que intitulou post em outro blog. Lá eu escrevia sobre a incoerente inconsistência de uma vida que, na prática, acaba mostrando valores opostos (ou no mínimo desalinhados) com aqueles valores que alguém diz "oficialmente" defender. Sob a premissa de que aquilo que temos arraigado no coração será invariavelmente o controlador da conduta, defendi que a teoria internalizada é aquela que conduz a prática.
 
O problema todo reside na ausência de reflexão e exame dessa teoria, que já pode estar enraizada no coração, mas não feita explícita em confissão pública. O resultado final era (e ainda é) uma esquizofrenia cosmovisional: vivo pelo que não professo - professo o que não conheço - não conheço aquilo pelo que vivo... Apesar de todos os esforços pastorais, parece que o incômodo permanece.
 
Toda vez, porém, que um aconselhado apresenta essa característica tão comum a todos nós, somos desafiados a, mais uma vez, vasculhar o tema e a melhor forma de abordá-lo. Você reconhecerá facilmente o problema quando, após algum tempo de atenta coleta de dados, perceber que apesar da confissão cristã, seu aconselhado toma decisões práticas pautadas num entendimento alheio ao evangelho de Cristo. Confusos, eles pedem por ajuda uma vez que os resultados pretendidos, ou a satisfação prometida (pelo ídolo), não foi alcançada. Em alguns dos casos, Deus é discretamente mencionado como um elemento incógnito, visto que abertamente é difícil assumir que nossa frustração é dirigida contra Ele.
 
 
À guisa de corrigir esta lacuna importante, muitas vezes ainda escondida do entendimento do aconselhado, nosso primeiro ímpeto é apresentar uma bem-estruturada aula de cosmovisão bíblico-cristã. Compreendo que até seja necessária uma boa dose de ensino no processo, mas uma coisas precisa ficar clara para o conselheiro de início: que somente Deus pode realmente alterar a cosmovisão de alguém.
 
A maneira como interpretamos o mundo e como sobre ele agimos são afluentes do coração ("Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida". Pv 4:23). Como afluentes de um rio, recebemos de fora dos nossos leitos as águas amargas e doces que nos vêm, e também despejamos de nossas águas para fora de nós. À menos que a nascente do rio do coração seja alterada, tanto a maneira como recebemos águas, como a maneira como as despejamos, será contaminada pela forma como interpretamos ambos os fenômenos, e tudo nasce no mesmo ponto: do homem interior do coração (1 Pe 3.4). Ainda assim, a missão dos pastores de alma, quer na condição oficial de pastores (de ofício), quer no chamamento por Deus no corpo de Cristo como conselheiros, não podem realmente mudar o ser interior de ninguém. Tanto um como outro não foram chamados para mudar pessoas, mas para 1. proclamar as virtudes daquele nos chamou das trevas para sua maravilhosa luz (1 Pe 2.9), 2. vivendo vidas dignas do evangelho pregado (Fp 1.27), 3. ministrando com zelo e fidelidade as verdades que receberam (2 Tm 2.15; 1 Co 4.2), 4. na esperança que não frustra (Gl 5.5; Cl 1.5; Tt 1.2; Hb 6.11) que Deus soberana e graciosamente agirá através deles como seus instrumentos (1 Pe 1.12; 1 Co 3.5; 4.1) na captura de seus escolhidos e edificação e crescimento dos já capturados (Jo 4.23; 1 Co 3.6; 1 Pe 4.10; Rm 14.19; Ef 4.12).
 
Dito isso, prosseguimos na busca por servir a Deus, servindo ao próximo naquilo que for bom para edificação (Rm 15.2). Ajudar ao nosso irmão/próximo aconselhado a interpretar os acontecimentos e nossas reações a eles, sob a ótica (ou cosmovisão se preferir) da fé cristã tal qual disposta nas Escrituras Sagradas serve bem a este propósito.
 
O convite ao exame nem sempre vem de modo direto. Na maioria das vezes ele vem formatado na conversa simples e aparentemente despretensiosa do aconselhamento, servida como pergunta, que põe junto o princípio esquecido e a reação prática. Na busca por ouvir coerência entre princípio e comportamento, como numa dança haverão movimentos que visam se esquivar das conclusões lógicas mais óbvias. Endurecer sem perder a ternura não vai adiantar. Será preciso mais.  Será preciso mais paciência, mais amor e mais criatividade principalmente. O que ajuda muito nesse processo é refazer a pergunta de outras formas ou refazer o quadro com outros personagens ou situação. Entretanto, não esqueça de manter a conclusão estritamente igual. Se quiser aprender mais sobre isso, procure o professor e profeta Natan. Ele dá uma aula de como fazer seu aconselhado chegar à conclusão de que a profissão de fé não "bate" com a atitude tomada (ou pretendida). [A aula pode ser encontrada aqui: 2 Sm 12.1-14].
 
Como numa dança (ou num embate no tatame, se preferir), pode haver muita movimentação mental. Corre pra lá, esquiva de cá. O importante é não desistir de fazer a confrontação entre teoria e prática, mantendo a criatividade em amor e graça nos movimentos, porque o aconselhado precisa reconhecer seus padrões de procedimento.
 
A importância do reconhecimento do esquema (estrutura) de interpretação de um aconselhado dá aquela consciência que ajuda na sondagem dos padrões que dominam o pensamento e as ideias que moldam as ações humanas. À isso há quem chame de "ato antes do ato". É o mesmo que dizer que o esquema de interpretação revela a base teórica para a prática. Veja que tais coisas não são elementos distintos, ou seja, como coração e atitude não estão dissociados, quando houver entendimento de um, haverá compreensão do outro, e quando houver mudança em um, haverá alteração no outro... Então, é importante que tenhamos em mente a importância central que este processo inicial do coração tem sobre as atitudes, e de igual modo, a crescente consciência e habilidade para fazer nosso irmão aconselhado enxergar isso na vida dele também, pelas lentes transformadoras da Escritura Sagrada.

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