quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Não exija, sempre, os seus direitos!

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Em tempos do “Código de defesa do consumidor”, talvez você fique espantado com a declaração do título. Entretanto eu não estou aqui pensando nas leis que visam proteger aqueles que compram produtos de má qualidade, ou que são lesados por prestadores de serviços, ou qualquer coisa parecida.

Quero chamar a sua atenção para algo que tem sido recorrente no meio cristão e que eu chamo de “mentalidade Procon” aplicada à convivência com os irmãos. Já explico!

Somos chamados a viver em comunidade, como corpo de Cristo. Paulo exortou aos efésios que se esforçassem para “preservar a unidade do Espírito Santo no vínculo da paz” (Ef 4.3). A grande questão é que dentro do corpo de Cristo temos irmãos em diferentes níveis de crescimento na fé, há irmãos maduros, há aqueles que estão chegando na maturidade, há os novos convertidos, que ainda engatinham na fé, e em meio a toda essa diversidade, precisamos estar em unidade.

Acontece que muitos irmãos, maduros na fé, que já entenderam que em Cristo têm liberdade para fazer qualquer coisa que não esteja proibida pelas Escrituras, não têm lidado bem com a sua liberdade. Eles têm pensado que em nome da liberdade podem fazer o que bem entendem, sem preocupar-se com aqueles que ainda não têm a mesma maturidade que eles.

É claro que este não é um assunto inédito. Desde os tempos apostólicos a igreja teve de lidar com a tensão entre o relacionamento dos fortes com os fracos na fé, razão de não ser possível falar sobre liberdade cristã sem pensar também na unidade da Igreja.

Na epístola aos Romanos vemos Paulo tratando desse assunto nos capítulos 14 e 15. Havia em Roma um grupo de irmãos que sabiam que poderiam comer e beber o que quisesse e outro que, ainda por familiaridade com as prescrições dietéticas da antiga aliança, entendiam que deveriam abster-se de alguns tipos de comida.

O apóstolo traça alguns princípios para a liberdade cristã, afirmando que eles não podiam considerar pecado o que o Senhor não tratava como tal, ou seja, não poderia haver constrangimento nem de um lado, nem de outro. Os abstinentes não poderiam julgar os que comiam e bebiam e estes deveriam acolher os “débeis”, mas não para discutir opiniões. Paulo demonstra, ainda, que a liberdade não diz respeito, primariamente, com aquilo que eu posso fazer para o meu prazer, mas em como devo fazer tudo para a glória de Deus (14.6), além de ordenar que eles deixassem o julgamento por conta de Deus (14.10-1).

Com base nisso, muitos, em nossos dias, têm “esfregado” sua liberdade na cara de outros, afirmando que o único que pode julgá-los é Deus, e esquecem-se que Paulo não parou por aí, mas afirmou também que os fortes não poderiam escandalizar os fracos. O argumento de Paulo é forte: Se ao querer comer (ou beber, ou fazer qualquer outra coisa que somos livres para fazer) você não liga se vai ou não escandalizar a seu irmão, significa que você ama mais a comida (ou sua liberdade) que a seu irmão, por quem Cristo deu a própria vida (14.15).

Ele assevera ainda que “o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (14.17) e que a obra de Deus não deve ser destruída por causa de comida (14.20), portanto, em nome da comunhão cristã, é preciso abrir mão daquilo que se gosta em favor de irmãos mais fracos.

Alguns, nesse ponto, podem dizer: “Isso é muito difícil” ou “está errado abrir mão de algo que gosto por causa de outro...”. É preciso, então, lembrar que “nós, que somos fortes devemos suportar as debilidades dos fracos e não agradar-nos a nós mesmos. Portanto, cada um de nós agrade ao próximo no que é bom para a edificação” (15.1-2). Agradar o outro, para a edificação, é um ato de amor. Já o uso da liberdade cristã, sem amor, é puro egoísmo, logo, não honra a Deus.

Na carta aos coríntios, Paulo instruiu irmãos que estavam fazendo uso, não de comida ou bebida, mas dos dons, para a própria vanglória. A fim de demonstrar o erro dessa atitude ele afirmou que sem amor ao próximo, os dons não teriam benefício algum. O apóstolo ilustrou seu ponto dizendo que ainda que ele distribuísse todos os seus bens aos pobres, se não tivesse amor, isso não seria proveitoso (1Co 13.3).

Agora, mudando o que deve ser mudado, pense por um instante! Se fazer algo bom (doar os bens) em favor de outrem, sem amor, não é proveitoso, imagine fazer o mal (escandalizar) em favor de si mesmo (não abrir mão de algo que você goste)? Ou, mais precisamente, se fazer o bem ao outro, sem amor, não presta para nada, imagine usar a sua liberdade para satisfazer a sua própria vontade, sem levar em conta o seu irmão fraco? Isso passa longe do espírito cristão.

Infelizmente pode ser visto, principalmente em redes sociais, irmãos que não têm se importado em ferir a consciência de irmãos mais fracos, sob o pretexto de estarem honrando a Deus com sua liberdade. Aqui, vale lembrar a exortação de Paulo aos gálatas, afirmando que eles não poderiam usar a liberdade para dar ocasião à carne, mas que deveriam servir uns aos outros em amor, pois toda a lei se cumpre em um só preceito, “amarás a teu próximo como a ti mesmo”. Viver ao contrário disso seria morder e devorar uns aos outros, destruindo-se mutuamente (Gl 5.13-15).

O próprio Paulo, que se via como um forte na fé (Rm 15.1), afirmou que se a comida servia de escândalo ao irmão, nunca mais comeria carne (1Co 8.13), a fim de não golpear sua fraca consciência, pecando, assim, contra Cristo. Você pode e deve, então, fazer uso de sua liberdade, desde que não fira a consciência alheia.

Entretanto, é preciso frisar: irmão fraco é aquele que não compreendeu sua liberdade em Cristo e não alguém que sabe, por exemplo, que beber não é pecado, mas que acha melhor que crentes não bebam e tentam constranger a outros, dizendo-se escandalizados. Esses também devem ouvir a exortação de que não podem condenar o que Deus não condena.

Quanto ao irmão fraco, ao abster-se de algo em favor dele você demonstrará seu amor e poderá ter uma excelente oportunidade de instruí-lo, levando o seu pensamento cativo à Cristo, o que não seria possível ao escandalizá-lo, ferindo sua consciência.

Portanto, usufrua da liberdade que você tem em Cristo para servir e dar glória a Deus, lembrando que não é preciso exigir, sempre, os seus direitos.

Milton Jr.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Ele não se envergonha de vós

 

Muitas coisas podem nos trazer vergonha. Normalmente tais coisas revelam algo sobre nós que publicam nossas fraquezas, imperfeições e erros. A pior dessas coisas é o pecado. Como reação corriqueira, escondemos a todo custo nossos pecados porque ele revela a feiura que carregamos dentro de nós, como no caso da botija com água, que quando quebrada não molha o chão por causa da quebradura, mas porque esta abre espaço para a água armazenada vazar para fora, revelando-se...

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Quando pequeno, se a memória que costuma falhar não me envergonhar agora, recebi uma aula de escola dominical na qual a professora procurava nos ensinar valores e princípios que nos impedisse de colocar a vida em risco. No processo ela procurava exaltar a preciosidade que era ter a presença de Jesus ao nosso lado, e o quão triste seria não privar de tão doce presença. Mas o exemplo que deu me intrigou. Ela disse que se entrássemos em ambientes que desagradassem a Deus, que potencialmente entristecessem o Espírito Santo, ele ficaria lá fora, esperando o meu retorno. Sua tese era de que Deus não tomaria parte nas sujeiras e pecados que tanto nos envergonham.

Cresci e descobri que algo muito pior acontece. Existe alguém de quem nada se pode esconder. Dele, nem os mais ocultos dos segredos está envolto em trevas, pois as mais densas trevas lhe são como luz (Sl 139.12), e o mais profundo dos abismos partilha de sua companhia (Sl 139.8). Na verdade, em todos os momentos da nossa vida Deus caminha conosco e não nos abandona. Se por uma lado isso nos conforta, pois isso significa que ele caminha conosco no vale da sombra da morte (Sl 23.4), isso também quer dizer que ele nos vê debaixo da figueira (Jo 1.48). Em resumo, descobri que Deus não fica lá fora esperando, triste e impotente. Na verdade, carrego junto a mim o Deus santo e puro para dentro dos meus pecados, tendo-o como testemunha fiel de todos os meus atos. Ai que vergonha!

Certa feita ouvi um amigo pastor dizer que a admiração que as pessoas lhe tinham era em boa parte devida àquilo que elas não sabiam dele. Num tom de brincadeira ele avisava: "Paulo dizia ser o principal dos pecadores... porque não me conheceu!" E em outra ocasião acrescentou: "Se você me conhecesse como sou, não seria meu amigo..." Eu particularmente acho que ele está certo, afinal, temos um senso de julgamento tão falso e hipócrita que esperamos que as pessoas sejam melhores do que parecem, ou pelo que atinjam a medida do que estabelecemos. Certo adágio popular diz que "as pessoas vêem as pingas que tomo, mas não os tombos que levo". Piada à parte, frequentemente nos esquecemos do quanto todos somos indignos das amizades e bênçãos que recebemos do Senhor Deus como ato de pura graça. Mas o que aconteceria se alguém nos conhecesse como realmente somos? Qual seria a reação de alguém que soubesse cada passo errante que demos e cada queda que tivemos?

Vergonha alheia é a expressão que vem à mente. As pessoas se afastariam, como realmente alguns experimentam tal afastamento, porque as pessoas não querem ser vistas ou associadas a certos tipos de pessoa. Isso lhes envergonha. E olha que nunca sabemos a verdade mais profunda sobre ninguém. Mas há quem saiba. Deus é o único que sabe tudo sobre todas as coisas, e por implicação, sabe tudo sobre você e eu. Sim, Deus conhece a minha afronta, a minha vergonha e o meu vexame (Ps 69.19). E é cada vexame que a gente passa, não é? Novamente, se por um lado isso é consolo, pois ele sabe e conhece nossas limitações, sofrimentos, angústias e profundas motivações; por outro é aterrador saber que alguém sabe os mais profundos sentimentos, pecados e temores do coração.

cruz-frameEntão, preste atenção à boa notícia que o autor aos Hebreus nos traz: "Pois, tanto o que santifica como os que são santificados, todos vêm de um só. Por isso, é que ele não se envergonha de lhes chamar irmãos" (Hb 2.11) e "Mas, agora, aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso, Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes preparou uma cidade" (Hb 11:16).

O único que poderia com justiça se envergonhar de nós em sua companhia, não se envergonha de nós. Nosso passado não nos condena, pois antes do passado existir, Deus resolveu que seríamos dele, nos amou e enviou seu filho para nos salvar. Nossos erros não nos condenam porque os acertos de Cristo Jesus nos justificam. E por causa dele, Deus apaga as nossas transgressões por amor de si mesmo e dos nossos pecados não se lembra mais (Is 43.25). Ele perdoou as nossas iniquidades e dos nossos pecados jamais se lembrará (Jr 31:34). Aquilo que encurvava nossa fronte de vergonha foi tomado por Jesus, que colocou sobre os próprios ombros toda ignomínia da nossa vergonha, no lugar de usufruir da alegria que lhe estava proposta, suportando a cruz em nosso lugar (Hb 12.2). Na prática da esperança diária e do aconselhamento, ao lidar com o pecado e suas consequências, é sempre um bálsamo relembrar ao aconselhado (e a si mesmo) de que Deus não se envergonha de nós. A vergonha que nos cobre no momento será tornada em glória, quando as vestes sujas do vexame forem trocadas pelas brancas veste de louvor (Is 61.3; Ap 3.18, 7.13). Então quando o autor aos Hebreus diz em alto e bom som que das mãos dele vieram o santificador e o santificado e por isso ele não se envergonha de nós é porque um dia, passado o vexame, a vergonha e a afronta, e já habitando na pátria superior, seremos troféus da sua graça.

livreQuando o foco sair da necessidade de confissão para a dura e dolorida luta contra a vergonha, saiba encorajar o fraco e animá-lo (verdadeiro sentido e exortação) com a bendita verdade apresentado na Escritura sobre como Deus lidou com nossa vergonha e em como sua glória pode agora brilhar em nós. Não é a nossa perfeição, obediência à lei ou exemplar vida cristã que manifesta a abundante graça sobre nós derramada, mas quando a perfeição de Cristo, sua perfeita obediência e vida são apropriadas por nós pela fé. Se podemos viver vidas diferentes, é porque Cristo nos redime. Então, de cabeça erguida, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura. Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel (Hb 10.19-23).

Jônatas Abdias