terça-feira, 25 de abril de 2017

Os resultados de nossas escolhas: meditando sobre as escolhas de Saul e Davi como reis de Israel

Qual é, afinal, o perigo de acharmos que podemos governar o nosso próprio destino? Qual é o problema de se querer governar, ainda que só por um pouco, o curso da própria vida? Na busca por respostas, devemos evitar extremos, tal como acabar exaltando o papel das escolhas individuais, como que querendo determinar o futuro a partir delas. Entretanto, é inegável que elas, as escolhas, tenham seu papel e sua importância.

Mesmo assim, algumas vezes é difícil convencer um aconselhado de que a maneira como ele vem fazendo suas escolhas não leva em consideração a vontade revelada de Deus para sua vida, por conta da dificuldade de mostrar com clareza como Deus rejeita este ou aquele tipo de escolha. A tarefa pode parecer fácil à primeira vista. Contudo, quando o aconselhado enfrenta decisões com respeito a coisas importantes são levadas em conta uma centena de detalhes, cuja análise pode ser bem trabalhosa, principalmente quando o conselheiro não vê como fazê-lo de modo biblicamente convincente.

A comparação dos detalhes das escolhas de dois reis em Israel, qual sejam Saul e Davi, pode ser de grande valor nestas horas. Esta comparação pode prover os subsídios bíblicos para se comprovar que há sim um tipo de escolha, ou se preferir, uma maneira de fazer escolhas que Deus rejeita.

Saul se tornaria o primeiro rei de Israel. Antes dele, porém, Israel estava sob o governo dos juízes. Alguns juízes se destacaram na história do povo israelita, mas o profeta Samuel teve papel especial. O mesmo não se pode dizer de sua descendência. Os filhos de Samuel cresceram, mas para infelicidade do profeta e do povo, esses filhos se tornam maus e eram um péssimo exemplo (1 Sam 8:3). A dificuldade se tornava a cada mais óbvia: Samuel envelhecera, e a experiência com os filhos na qualidade de novos juízes (1 Sam 8:1) levaram os anciãos do povo a clamar por nova liderança antes que Samuel partisse, antes que fosse tarde demais para uma transição pacífica. Alguém poderia dizer que nada há de condenável na motivação, entretanto, quando a estratégia toma corpo, lemos que eles, os anciãos, propões que Israel tenha um rei, não tanto em virtude do contexto, mas também porque todas as nações ao redor já tinham o seu (1 Sam 8.5).

Para entendermos os perigos que cercam a motivação por trás do pedido, é importante se perceber o que se escondia no coração do povo, mas que fora evidenciado pelo pedido. Note que as racionalizações apresentadas pelo povo ali representado por seus anciãos não agradaram a Samuel. Os motivos do desagrado do profeta não ficam claro, mas sabemos o que ele fez: Samuel buscou ao Senhor (1Sam 8:6). Então é que somos informados que a rejeição do regime até então adotado por Israel, qual seja, o ser governada pelos juízes, na verdade se perfazia como rejeição ao próprio Deus (1 Sam 8.7; 10.19). O povo rejeitava a regência de Deus através dos juízes e profetas, mas Deus, ainda assim, lhes atenderá à voz (1 Sam 8.9, 22).

Saul-011

Em seguida ao relato dos avisos quanto ao que estavam pedindo e os perigos que envolviam ter um rei (1 Sam 8:10-20), segue-se a narrativa da escolha de Saul (1 Sam 9:1ss). Ao começar o capítulo 9 porém, temos uma descrição de Saul bastante chamativa e reveladora, que destaca sua beleza e altura. Saul atendia ao padrão de rei de qualquer povo à sua volta: era alguém com "presença". Ele tinha postura, chamava a atenção, era bonito. Era um rei que poria medo nos inimigos por conta de sua estatura, mas seria ao mesmo tempo uma figura agradável para povo, por conta de sua beleza. Saul era um rei conforme a escolha do povo. Ele era um rei conforme o coração de Israel... A escolha parecia perfeita.

Essa conclusão equivocada só seria posta à prova quando da escolha do rei Davi. O Senhor se desagradou de Saul e agora enviara Samuel a ungir um novo rei (1 Sam 17.35; 16.1). É curioso notar que a escolha de Saul trouxe resultados nefastos, e Israel precisava de um novo rei justamente como resultado da escolha do primeiro. Os parâmetros, entretanto, para a escolha da Davi, contrariavam todos os anteriormente usados na escolha de Saul (1 Sam 16.7). Davi não se sobressaia por sua altura ou imponência, mas por seu coração. Desse, do coração, diz o Senhor ter se agradado. E tal como fez com Saul anos antes, Samuel ungi Davi como rei. Como os novos parâmetros deveriam ficar claros, cada um dos irmãos de Davi passaria por Samuel para mostrar que a escolha do Senhor obedecia a outros padrões (1 Sam 16.8-12). Davi era um rei conforme a escolha de Deus. Ele era um rei conforme o coração de Deus (1 Sam 13.14)... A escolha parecia tudo, menos perfeita.

davi

É possível ver, em linhas gerais, que os parâmetros das escolhas foram bem diferentes. Saul era o retrato da aparência, Davi do homem interior. Saul era alto, Davi não. Saul ganharia facilmente qualquer concurso de beleza israelita... Davi era agradável de se ver, mas não seria capa de revista. Saul impressionaria os povos vizinhos pela simples aparição de sua figura, ao passo que Davi teria que se provar inúmeras vezes por seus atos. Saul desobedeceu sem retroceder enquanto Davi humildemente confessou seu pecado. Saul era equivalente ao que se podia ver lá fora, no "mundo" ao redor do povo de Deus. Davi era uma amostra da humildade do povo sobre o qual governou. Em resumo, Saul retratava a escolha do povo conforme os padrões mundanos, mas Davi tinha qualidades que o olho não poderia ver, sem o auxílio da revelação de Deus.

Nossas escolhas hoje não diferem das de Israel no passado, e nossos aconselhados quando chegam em busca de ajuda sofrem, em muitos aspectos, os resultados de suas escolhas do passado. Ainda que as escolhas não determinem restritivamente o resultado final, é inequívoco que Deus controle soberanamente os resultados de nossas escolhas de modo que colhamos o que plantamos, estejamos conscientes ou não do plantio. Tal como a escolha de Saul, os caminhos errados que o aconselhado toma pode pedir por uma revisão dos parâmetros adotados para tomadas de decisões. E esta bem que poderia ser apontada como a primeira e mais básica lição a aprender, respondendo à pergunta inicial sobre qual é o problema de se querer governar, ainda que só por um pouco, o curso da própria vida: insistir nos moldes que resultaram no sofrimento atual, como quem diz que basta tentar de novo, só que agora "com mais força, empenho", não é só tolice, mas o prenúncio de mais sofrimento.

Uma segunda lição, mais geral e ainda assim valiosa diz respeito ao método de Deus nos ensinar como nossas escolhas refletem os parâmetros equivocados que adotamos. O método de Deus pode levar tempo, mas ele atinge o objetivo pedagógico intentado por Deus. Obviamente que podemos nos fazer surdos ao ensino de Deus, mas como disse C.S. Lewis, o sofrimento é o megafone de Deus para um mundo ensurdecido. Então, quando o sofrimento faz sua voz ser ouvida pela dor, e este é o resultado de escolhas baseadas em parâmetros desaprovados por Deus, é sensato parar e reavaliar o que conduziu àquele estado de coisas.

Esta comparação, em terceiro lugar, nos ensina mais uma última lição sobre o perigo de acharmos que podemos governar o nosso próprio destino: não podemos nos esquivar de levar em consideração que Deus pode deixar-nos usufruir dos efeitos de nossas escolhas malfeitas, como foi o caso com Israel em relação a Saul. Por mais essas consequências não sejam eternas, elas podem não ser assim um tempo tão curto. Deus tem propósitos maiores nesta permissão, mas não podemos deixar de fora da equação o fato: Deus nos deixa provar de nossas escolhas ruins para que fique evidentemente claro que elas não nos levam a santos e bons resultados, tais como as que Ele quer que tomemos.

A última nota dessa sinfonia, contudo, não é triste. O arrependimento e a busca pelo Senhor e sua vontade nos conduzem a novos caminhos, que ensejam esperança e renovo. Davi representava isso. Ele era o resultado da vontade de Deus para o povo, e os resultados falam por si: Davi se tornou o padrão de rei em Israel, de modo que quando um rei fazia o que era "bom e reto diante do Senhor", não importando quanto tempo ele viesse, ele fazia "conforme Davi, seu pai". Quando nos voltamos aos caminhos do Senhor e procuramos fazer escolhas estabelecidas sobre Seus parâmetros, ou seja, que reflitam Seu querer e seus padrões, mostramos disposição em seguir Sua vontade e não de guiar nossa vida. Desta forma estamos a caminho da restauração, da felicidade e da bem-aventurança. E embora tais coisas sejam benditos efeitos colaterais de escolhas abençoadas, o grande e maior benefício se resume em glorificar a Deus e desfruta-lo para sempre.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Deus cuida de nós enquanto cuidamos de outros – ou – Lições aprendidas ao aconselhar minha filha

eunandaelipe

Filhos são herança do Senhor. Deus nos concede a bênção de ter filhos e, juntamente com isso, o privilégio e responsabilidade de instruí-los no caminho da justiça. De acordo com o texto de Deuteronômio esta instrução não deve acontecer somente em momentos específicos e/ou pontuais, mas as palavras ordenadas por Deus devem estar no coração dos pais para que “inculquem” e falem delas aos filhos “assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te” (6.7), ou seja, em todo o tempo.

Pais devem estar atentos a todas as oportunidades concedidas pelo Senhor para pastorear e ministrar ao coração dos filhos e hoje tive um desses momentos. Tenho dois lindos filhos, herança preciosa do Senhor, mas, como puxaram os pais, pecadores. Triste sorte, não fosse a esperança que há no evangelho do Redentor Jesus Cristo. Pela manhã um episódio simples serviu para eu ver como o Senhor Deus opera graciosamente em seus filhos.

Eu tinha pegado em uma lanchonete fast-food alguns gorros dos Smurfs de papelão, para montar, e Fernanda, minha filha mais velha, montou para ela e para Filipe, meu mais novo. Ele reclamou que o dele tinha rasgado e eu fui ver. Constatamos (eu e Fernanda) que não havia rasgado e que somente havia desencaixado uma parte da outra. Eu, entretanto, verifiquei também que Fernanda tinha encaixado da forma errada e disse isso a ela que prontamente respondeu: “Está certo, eu li as instruções”. “-Minha filha, está errado”. “-Não está não!”, falou ela já em tom choroso.

Como recentemente havia acontecido outros episódios em que ela não se deixava instruir, demonstrando todo o seu orgulho, eu lhe disse: “-Tá bom sabichona, você está certa”. Isso a deixou inquieta: “-Não sou sabichona”. “-É claro que é minha filha, você sabe mais que seu pai”, dizia eu enquanto ela me ignorava. Esta última atitude me fez falar de forma mais dura com ela que ouviu um pouco mais sobre o quanto estava sendo orgulhosa, sobre o não querer aprender e me viu ir para o quarto ajudar Filipe com outra coisa.

Não passou muito tempo, vem ela, chorosa, pedindo perdão. Perguntei a respeito da razão para o pedido e ela disse que era por ter me ignorado e ter sido orgulhosa. Como conselheiro bíblico que sou, vi então a oportunidade de ministrar ao coração da minha primogênita, afinal, conheço bem Deuteronômio 6! Falei que ela ainda estava em fase de aprendizado e que, por mais que já soubesse algumas coisas, ainda não sabia mais que o seu pai. Disse que o orgulho leva as pessoas a não aprenderem, pois se já entendem que sabem tudo, nunca irão querer aprender com outros. Disse ainda que Deus não se agrada de soberbos (Tg 4.6) e que o Senhor Jesus, a pessoa mais sábia que existe, era humilde, então, precisamos olhar para ele e buscar nele o desejo de ser semelhante ele é e que somente nele temos a ajuda para tudo isso.

Instruí que ela orasse pedindo perdão também a Deus por seu orgulho e para que ele a concedesse coração mais humilde, o que ela fez prontamente. Meu trabalho como pai e como conselheiro estava feito!

O que eu não esperava

Após a oração, Fernanda começou a chorar novamente. Pensei “com meus botões” que havia mais a ser tratado com ela e perguntei a razão do choro. Ela respondeu: “-O sr. debochou de mim, falou que não ia mais me chamar de sabichona e debochou de mim de novo”. Pensei, então, na minha falta!

Ela estava coberta de razão. Dias antes, por conta de seus episódios de orgulho em que achava saber mais do que eu, teimando a respeito das coisas mais bobas (por exemplo, sobre quem teria sido o descobridor do Brasil, ela insistia em D. Pedro I, confundindo as histórias) eu, que sou bastante cínico (um pecado contra o qual tenho de lutar e vigiar constantemente) comecei a chama-la de sabichona, com um tom de voz que ela entendeu acertadamente não se tratar exatamente de um elogio. Ela se ofendeu, disse que era pecado o que eu estava fazendo e que eu havia dito a ela que não faria mais isso, o que não cumpri no episódio que estou narrando aqui.

Agora pense comigo. O que seria o meu cinismo senão, também, uma demonstração de orgulho? Diante de uma criança que não se dobra à minha sabedoria, o deboche não seria uma tentativa de impor, pelo constrangimento, o que eu estava ensinando? Aqui ficou constado que ela tem o meu DNA, e ambos temos o dos nossos primeiros pais que, orgulhosos, deixaram de lado a instrução de Deus seguindo o caminho proposto pela serpente na ânsia de serem como o Senhor.

Confesso que na hora pensei em não admitir meu erro. Mesmo trabalhando com aconselhamento a tanto tempo sei que é bem fácil esquecer a primeira parte de Gálatas 6.1: “Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma fata, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura”. Ainda que eu estivesse falando com “brandura”, minha atitude foi parecida com a de um instrutor “calejado” ensinando a um aluno que ainda não sabia como agir. Pior ainda, isso revelou que não atentei para a segunda parte do versículo: “e guarda-te para que não sejas também tentado”. Minha filha confrontou em mim o mesmo pecado que eu estava percebendo nela e, pela graça de Deus, ouvi o que ela disse, afirmei que ela estava correta no que estava me cobrando, pedi perdão a ela e orei, junto com ela, pedindo perdão ao Senhor.

Conselheiros não devem olhar para os seus aconselhados como se fossem pessoas que já chegaram à perfeição e que agora podem ajudar aqueles que ainda não chegaram lá. É preciso lembrar que nossa realidade é a mesma do apóstolo Paulo que dizia: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus” (Fp 3.12). Como diz o título do excelente livro de Paul Tripp, somos apenas “Instrumentos nas mãos do Redentor – pessoas que precisam ser transformadas ajudando pessoas que precisam de transformação”.

Com esta experiência pude trazer à memória que ambos, eu e minha filha, precisamos a cada dia de um Redentor amoroso que não se cansa de formar em nós o seu próprio caráter (Gl 4.19), pois para isso o Pai nos escolheu, para sermos conformes a imagem de seu Filho (Rm 8.29). Em um momento que para mim seria apenas de instrução para minha filha acabamos, eu e ela, experimentando o amor gracioso do Salvador e Redentor de nossas vidas, que é o único que é perfeito e que, por isso, pode aperfeiçoar aqueles que estão a seus pés, Jesus Cristo, o Senhor!

Milton Jr.