quarta-feira, 27 de abril de 2011

A história, nossa percepção e a soberania de Deus

descansando Creio que todos já passamos pela situação de reinterpretar fatos que ocorreram em nossa história de vida. Como seres finitos, não temos como saber o que o futuro nos reserva e, não poucas vezes, acabamos mudando a nossa visão sobre a história.

 

Deixem-me citar um exemplo: Suponhamos que uma pessoa tenha uma quantia aplicada em um fundo de capitalização qualquer e não possa retirar seu dinheiro antes de um determinado prazo. Nesse meio tempo, surge a oportunidade de investir em ações de uma boa empresa, o que seria um excelente negócio, mas que não pode ser concretizado em virtude de o dinheiro que possibilitaria a compra das ações estar “preso” no banco. Isso poderia trazer muita tristeza e frustração: “Que droga, acabei de perder um excelente negócio porque estou com o dinheiro preso no banco”, seria a interpretação sobre o fato.

 

Passado algum tempo, aquela empresa, que era um excelente negócio meses atrás, entra em processo de falência. A tristeza agora dá lugar ao sentimento de alegria e alívio: “Ainda bem que meu dinheiro estava preso no banco. Se tivesse investido, teria perdido tudo agora.”

 

Temos então a mesma pessoa interpretando o mesmo fato de maneiras totalmente opostas. O que mudou não foi a história, mas a percepção acerca dela.

 

Não é por acaso que a Escritura ensina: “Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele, e o mais ele fará” (Sl 37.5). O Deus soberano, que conhece todas as coisas de antemão, que de modo providencial governa sobre tudo e sobre todos, insta cada um de nós a confiar em sua vontade que, nas palavras de Paulo, é boa, agradável e perfeita (cf. Rm 12.2).

 

Diante das dificuldades, das provações, das tribulações que nos sobrevêm, temos dois caminhos: ficar conjecturando, especulando sobre o porquê de estar enfrentando provações e ansiosos tentar resolver tudo da nossa forma; ou confiar no que é o descrito pelo Salmo 37.5 e entregar o nosso caminho ao Senhor confiando no seu sábio governo.

 

Paulo exorta: “Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus” (Fp 4.6,7).

 

Mesmo com a garantia da Escritura sobre o cuidado de Deus para conosco, a exortação para que confiemos nesse cuidado e, ainda mais, tendo experimentado esse cuidado a cada instante, continuamos muitas vezes tentando entender completamente a história sem poder ter a dimensão do todo.

 

Que paremos de conjecturar e confiemos plenamente no Deus que soberana e providencialmente guia a história, sabendo que ela não muda. Certamente, ao olhar para trás, teremos uma percepção diferente dos fatos e perceberemos que todas as coisas cooperaram para o nosso bem (cf. Rm 8.28).

Milton Jr.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Consulte o manual

read_me_bibleÉ comum vir nos produtos que compramos, principalmente nos eletroeletrônicos, uma etiqueta com a advertência: “Antes de utilizar o produto, consulte o manual.” Porém, há pessoas que, de fato, odeiam manuais e, ignorando qualquer recomendação, aventuram-se tentando descobrir como funciona o aparelho.

 

É bem verdade que muitos até obtêm algum êxito, apesar de muitas vezes não aproveitar todas as utilidades do equipamento, mas é também verdade que muitos já ficaram no prejuízo por tentar manipular um “estranho” sobre o qual pouco sabiam.

 

Os manuais vêm com os mínimos detalhes, a ponto de eu muitas vezes me perguntar o porquê da instrução: “Ligue o aparelho”. Para mim é algo óbvio, mas descobri em histórias de que tomei conhecimento que para muitos não é assim tão óbvio.

 

A verdade nisso tudo é que ninguém melhor do que o fabricante para ensinar a manusear o produto.

 

O homem também foi “fabricado” ou, usando a linguagem bíblica, criado, à imagem e semelhança do próprio Criador. Após ter criado nossos primeiros pais, o Senhor Deus tratou de instruí-los em como deveriam agir. A primeira voz ouvida por eles foi a de seu Criador, ensinando como eles deveriam “funcionar”.

 

A despeito de conhecer o manual, o primeiro casal resolveu dar ouvidos à voz daquele que não queria saber das instruções do Criador, antes, intentava destruir o que fora criado. O pecado entrou assim no mundo, levando o homem ao estado de miséria e separação do Senhor.

 

O benevolente Senhor, mesmo diante da rebeldia da criatura, fez promessas de redenção e, durante a história, inspirou homens para registrá-las de modo infalível e inerrante. Temos na Palavra infalível de Deus o manual de funcionamento do homem.

 

É na Bíblia que aprendemos como é consertado o “defeito” (leia-se pecado) que nos assola desde a desobediência de Adão (cf. Rm 5.1-21), e é nela também que entendemos que o que governa o nosso coração governará nossa vida (cf. Mt 6.21). Nas Escrituras temos instruções de como viver uma vida agradável a Deus e, conforme afirma Pedro, temos “todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude” (2 Pe 1.3).

 

É triste perceber que, como nossos primeiros pais, muitos continuam deixando de lado o manual e, como conseqüência, têm vivido de forma medíocre. O Senhor afirmou que veio para que tivéssemos vida em abundância e isso será realidade a partir do momento em que dermos ouvidos à voz do Senhor e a colocarmos em prática com o auxílio do Espírito Santo.

 

Se você não sabe como ter alegria, não tem esperança, tem se deixado abater pelas circunstâncias, tem vivido ansioso e não tem vivido de modo agradável aos olhos de Deus honrando-o em seus pensamentos, palavras e ações, dê ouvidos à advertência: Consulte o manual e ponha-o em prática na sua vida.

Milton Jr.

sábado, 9 de abril de 2011

Estariam Herodes e Faraó também endemoninhados?

marionete [1]A pergunta é puramente retórica. Aqueles que conhecem um pouco da história bíblica sabem que não. Ela foi feita, porém, como ponto de partida para pensar um pouco sobre uma afirmação que li em um blog, a de que Wellington Menezes de Oliveira, o cruel assassino das crianças na escola de Realengo – RJ, seria alguém insano e possuído por demônios.

 

A tragédia entristeceu o Brasil e não era para menos. O saldo de tamanha brutalidade são 12 crianças mortas e 11 que permanecem internadas. A sociedade está chocada e muitos começam questionar as causas. Teria o assassino algum distúrbio mental? Estava ele possuído por demônios? O crime foi tão bárbaro que muitos se negam a acreditar que alguém em sã consciência seja capaz de uma monstruosidade como essa.

 

Como cristão, não posso deixar de pensar em toda essa questão à luz da Palavra de Deus. Faço, então, algumas considerações:

 

1. A queda afetou profundamente o homem

 

Ainda que o homem tenha sido criado santo, à imagem de Deus (Gn 1.26-28), com a desobediência de Adão (Gn 3) todos passaram, a partir de então, a ser inclinados para o mal. Tudo aquilo que o homem deseja, pensa e faz, está afetado pelo pecado. Paulo, citando vários textos do Antigo Testamento, pinta um retrato nada agradável do homem pós-queda. Diz o apóstolo:

como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está nos seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos – Rm 3.10-18 (grifos meus).

A isso chamamos “depravação total”, resultado da queda de Adão. Nesse ponto você, leitor, pode estar dizendo: “mas eu não me enquadro nessa descrição tão horrível”, e eu respondo: não seja tão apressado. Repare que o texto afirma peremptoriamente que “não há um sequer”, portanto, eu e você, inevitavelmente fazemos parte do grupo.

 

É claro que o conceito de depravação total diz respeito à extensão e não à profundidade, ou seja, a doutrina quer ensinar que o pecado afetou todas as faculdades do homem e não que o homem é tão mal quanto poderia ser. Apesar de todos serem potencialmente capazes das piores atrocidades, não são todos que as cometem e isso por pelo menos 3 razões: a) Mesmo com a queda, o homem é ainda imagem e semelhança de Deus, ainda que essa imagem esteja distorcida; b) A graça comum de Deus, que alcança até os que se opõem a ele, refreia o pecado; c) O Espírito Santo, por meio da Palavra, santifica aqueles que foram regenerados pelo Senhor.

 

Diante disso, afirmar, ou mesmo cogitar, que o assassino só poderia estar insano ou endemoninhado para cometer tal barbárie é subestimar o poder do pecado e a consequência do afastamento entre o homem e Deus. O homem não precisa da ajuda do diabo para manifestar sua maldade inerente. Ele é capaz por si só, e muitas vezes o faz quando tem oportunidade.

 

2. As ações são resultado dos desejos do coração

 

Em um texto anterior demonstrei que o homem é governado pelo seu coração. Esse ensino é abundante nas Escrituras, o que controla o coração controla o homem. Salomão, com a sabedoria que lhe era peculiar escreveu que “como na água o rosto corresponde ao rosto, assim, o coração do homem, ao homem” (Pv 27.19). Jesus enfatizou que do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mt 15.19).

 

Há quem diga que o homem é aquilo que ele come, referindo-se à saúde do corpo. A verdade bíblica, porém, é que o homem é aquilo que ele crê (e isso engloba também a forma como se relaciona com os alimentos). As ações são resultado de convicções, e as convicções resultado daquilo que controla o coração.

 

Muitos tentam desculpar o homem apontando para as questões sociais ou culturais como causa do “comportamento inadequado”, porém, mesmo sabendo que essas questões podem influenciar, elas não são determinantes, antes, tais circunstâncias servem para revelar o que está latente no coração do indivíduo que acaba por agir em conformidade com ele.

 

Demonstrarei isso de forma prática com duas histórias que também envolvem o assassinato de crianças, ambas dos personagens citados no título, Herodes e Faraó.

 

A Bíblia relata que por ocasião do nascimento de Jesus alguns magos chegaram a Belém inquirindo sobre o nascimento do Rei dos judeus. Herodes ficou alarmado com a notícia e mandou que os magos o avisassem. Quando percebeu que os magos o haviam iludido, pois foram divinamente advertidos em sonho, enfureceu-se e mandou matar todas as crianças abaixo de dois anos (cf. Mt 2.1-18).

 

O que governava o coração de Herodes era o desejo de permanecer sendo rei. Sua convicção era a de que qualquer ameaça à sua condição de rei deveria ser eliminada, e foi isso que tentou fazer, mandando matar as crianças.

 

A segunda história é bem anterior a essa, aconteceu logo depois que José, filho de Jacó morreu. O livro de Êxodo afirma que logo após sua morte, levantou-se um novo rei no Egito que não conhecia a José. Ele começou a preocupar-se com o crescimento dos hebreus e temendo que o povo, em vindo a guerra, se ajuntasse aos seus inimigos e saíssem da terra, mandou colocar feitores sobre o povo para afligi-lo. Porém, quando mais afligido, mais o povo crescia. O rei arquitetou então outro plano, mandou que as parteiras matassem todos os meninos que nascessem das hebréias, o que não aconteceu somente porque as parteiras foram desobedientes (Ex 1.1-22).

 

O que governava o coração do rei era o desejo de continuar dominando os hebreus. Sua convicção era a de que nada poderia atrapalhar isso e sua ação foi para que seu intento prevalecesse.

 

As histórias confirmam ainda mais a tese de que o homem é governado pelo seu coração quando percebemos que os guardas, temendo Herodes, mataram as crianças, enquanto as parteiras, por temer ao Senhor, desobedeceram ao rei.

 

Em nossos dias não é diferente. Os homens bomba muçulmanos explodem-se em atentados terroristas convictos de que receberão como recompensa vinho e 72 virgens. Certamente o assassino do Rio tinha também suas motivações, ainda que não saibamos quais eram e talvez nunca venhamos saber. Uma coisa é certa, atribuir o assassinato a distúrbios mentais ou a endemoninhamento implica em retirar dele toda a responsabilidade moral pelo ato.

 

3. Devemos ter cuidado com o nosso coração

 

Quando nos deparamos com um crime tão bárbaro como esse do Rio os sentimentos se misturam. Tristeza, revolta e ira, são apenas alguns deles, mas, diante do Senhor, devemos examinar nosso coração. Esse exame deve levar em consideração algo que vai além desta tragédia e deve ser abrangente o suficiente para abraçar outros acontecimentos ao redor do mundo, que são igualmente tristes e revoltantes.

 

Nosso coração é enganoso e pode pregar uma peça nada engraçada nos fazendo impactar com este evento e, contudo, expressar sentimentos que não tem direta relação com a glória de Deus e a compaixão com o próximo. Podem, antes, expressar um coração que, em seu egoísmo, pensa de si mesmo ser alguém que é melhor e procura desesperadamente alguém pior do que ele mesmo! O que estou tentando dizer é que a forma como lidamos com o pecado alheio pode revelar que, no fundo, achamos que somos capazes por nós mesmos de não fazer coisas semelhantes. Uma história que acho formidável e que revela um coração consciente da sua pecaminosidade e do cuidado de Deus envolve o pastor presbiteriano Matthew Henry. Conta-se que, ao voltar da universidade onde lecionava foi assaltado e fez a seguinte oração:

Quero agradecer, em primeiro lugar, porque eu nunca fui assaltado antes. Em segundo lugar, porque levaram a minha carteira, e deixaram a minha vida. Em terceiro lugar, porque mesmo que tenham levado tudo, não era muito. Finalmente, quero agradecer porque eu fui aquele que foi roubado e não aquele que roubou”.

A percepção de Mattew Henry é perfeita. O que o diferenciava do ladrão era a maravilhosa graça de Deus que o havia regenerado e o conservava firme.

 

Devemos estar também muito bem conscientes disso. Aquele que é o único com poder para transformar um coração de pedra em um de carne (Ez 36.26) é o mesmo que nos ordena a guardar a Palavra nesse novo coração a fim de não pecar contra ele (Sl 119.1). É ele também que nos exorta a confiar nele, abandonando a autoconfiança, ao invés de presumirmos estar de pé por nossos próprios méritos, arriscando-nos a cair (1Co 10.11-13).

 

Para terminar...

 

Minha oração é para que o Deus de toda a consolação guarde e console o coração dos familiares e amigos das vítimas e para que o Senhor nos dê plena convicção de que, pecadores que somos, estamos sujeitos a atitudes também horríveis, a não ser que sejamos plenamente sustentados por sua graça e misericórdia.

 

Que agradeçamos ao Senhor porque se outrora éramos escravos do pecado, fazendo a vontade da carne e estando sob a justa ira de Deus, pela sua infinita graça, viemos a obedecer ao Evangelho e tivemos as disposições do coração corrupto modificadas, a fim de podermos servir de coração ao Redentor.

 

Que entendamos, sinceramente, que o que nos diferencia de homens que cometem esse tipo de atrocidade não é a nossa bondade em relação à maldade deles, mas a graça de Cristo Jesus que nos sustenta.

 

Que proclamemos que o Deus que nos redimiu é poderoso para salvar todos aqueles que, arrependidos, se achegam a ele pela fé. Lembre-se que o maior pregador cristão, Paulo, perseguia e matava os crentes, até que foi transformado pelo Senhor. Há redenção em Cristo Jesus!

 

Que busquemos, pela Escritura, conhecer mais o Redentor e que vivamos plenamente para sua glória e louvor.

Milton Jr.


[1] Sou devedor aos meus amigos Alan Rennê, Filipe Fontes, Jônatas Abdias e Ricardo Moura pela leitura que fizeram do texto antes de eu publicá-lo e pelas considerações importantíssimas para o resultado final.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Ensaio sobre a minha Cegueira: o objetivo do aconselhamento bíblico!

É claro que o título é inspirado no livro que virou filme “ensaio sobre a cegueira”. O filme trabalha algumas questões ligadas à ética ou falta dela, quando a visão é roubada da humanidade. Depois do filme, comecei a duvidar que, em terra de cego, quem tem olho é rei…

 

Neste últimos dias, tive que ficar privado parcialmente do dom da visão! As leves lesões nas córneas, causadas pelo uso (constante e provavelmente incorreto) das lentes de contato, me privaram de seu desfrute. Por alguns dias, até que um exame real pudesse ser feito e os óculos confeccionados, fui forçado a encarar dias de pouca visão e algumas limitações… o que me permitiu meditar e pensar um pouco sobre o que minha condição poderia me ensinar diante de Deus! Minhas reflexões sobre a minha “cegueira” geraram as seguintes ideias sobre o aconselhamento bíblico, que espero sirvam para edificar que você que faz aconselhamento bíblico. Ei-las:

 

A cegueira do aconselhado

 

A miopia não permite nitidez. O míope enxerga como que através de um vidro estilhaçado. Ficar sem enxergar corretamente me fez pensar naqueles que se achegam para aconselhamento. Ele até que vê a situação, mas de um modo completamente equivocado. Basicamente, o míope não enxerga de longe. Exatamente como o aconselhado que se aproxima em busca de ajuda. Sua situação configurou-se por sua miopia espiritual. Ele enxerga pouco, e só de perto, não consegue ver adiante, ver além! Não olha para o futuro, não ergue os olhos para antever os efeitos de suas reações exageradas, pecaminosas e pouco edificantes. Pior ainda: mesmo que erguesse os olhos para o alto, não veria a Deus e como sua pessoa, caráter e obras estão ligadas à situação, pois é míope! Os efeitos aparecem, como as canelas roxas de quem não viu a mesa de centro na sala, e vão até acidentes mais graves de quem não viu os que as palavras fizeram ao coração ferido. Sua reação à situação formada, por não ser biblicamente orientada, é incorreta, causando os conflitos que o trazem ao aconselhamento. Me lembro de quando descobri que era míope, lembrança que não se apaga da memória: voltando da escola, à noite, dei sinal para o ônibus. Os colegas que estavam no ponto de ônibus comigo perguntaram se eu não iria para casa àquela noite. Eu respondi que iria para casa, sim! Então eles perguntaram de novo: “por que então você vai pegar esta ônibus que vai para outro lugar?” Foi quando que percebi que há muito eu não lia o nome do local para onde o ônibus se dirigia, mas me guiava pelo seu formato, o que acabou por me enganar naquela noite… o formato era igual, mas o veículo caminhava para lugar diferente!

 

Quando o aconselhado chega, ele acha que está indo para o lugar correto, porque não enxerga os detalhes de como sua situação vivencial tem relação e referencia com Deus e seu relacionamento com Ele. Enxergar Deus num problema pode ser um enorme desafio para alguém que é míope, mesmo após ter contato com alguém que sabe de sua situação. Contudo, ainda que todos nós manifestemos em grande medida a cegueira que o pecado nos lega, há esperança: Deus não está longe de cada um de nós, onde a vista não alcança(At 17:27 ARA). Saber que há um Deus que possa ser visto em nossa condição míope traz esperança, pois este mesmo Deus que está lá é o Deus que vai curar esta cegueira!

 

Paulo experimentou fisicamente a sua e a nossa realidade espiritual. Por ser um perseguidor voraz e dedicado, não “viu” que perseguia a Cristo, até que Ele se mostrou a ele no caminho para Damasco. Assim é ao procura por ajuda: não enxerga que seu real problema esteja ligado diretamente à Cristo ou à cruz, até que, pela ministração da Palavra, Jesus se mostra e redime o aconselhado.

 

A cegueira parcial do crente

 

O crente precisa de aconselhamento? Esperemos um momento… esta não é uma pergunta legítima. Ao gabinete de aconselhamento não apresentam-se somente incrédulo cegos, mas crentes míopes. Uma pergunta melhor seria: como devemos entender este fato, de que crentes também apresentam cegueira, ainda que parcial?

É bom lembrar que a cegueira do crente está praticamente curada, mas como a santificação é um processo progressivo, e em certa medida depende dos exercício piedosos particulares, o crente pode manifestar alguns “graus” de miopia espiritual. Afinal, a boa obra que começou em nós, ainda não está terminada, mas está em vias de… (Filipenses 1.6).

 

O crente se mete em enrascadas parecidas com as dos incrédulos, e cabe ao conselheiro corrigir o foco do crente apontando-o para a cruz. O mito de que o crente, por sê-lo, não enfrenta mais problemas, ou que estes acabarão quando sua conversão for genuína, é um mito que ignora a condição terrível em que o pecado nos coloca, seu poder profundamente corruptor e o ambiente contaminado em que habitamos.

 

Lentes corretivas

 

A figura das Escrituras como um espelho através do qual se enxerga bem, que é usada por Tiago é bastante conhecida. Podemos incluir, também, a figura de lentes corretivas, pois com as Escrituras “enxergamos as mãos de Deus na criação”. Sem elas o grau de miopia é tão expressivo que alguns chegam a crer que o mundo, que carrega as impressões digitais de seu Autor, não passa do um fruto aleatório de forças impessoais. As Escrituras Sagradas corrigem nossa visão de mundo, dão a maneira correta de interpretar a vida; são as lentes através das quais se vê a realidade!

 

O conselheiro não pode pensar que ele mesmo é o espelho ou a lente através do qual a realidade será vista. Esta seria uma visão Rogeriana da situação. Para Carl Rogers sim, o conselheiro é a lente que lê e interpreta a realidade para o aconselhado. Para o cristão, esta lente é a Palavra de Deus. É ela que é a luz que ilumina os olhos (Salmo 19.8) e ao mesmo tempo é a lâmpada para os pés vacilantes pisarem altaneiramente (Salmo 119.105). Assim como as lentes que carrego nos óculos, a Bíblia que é carregada no coração corrige nossa maneira de ver e interpretar o mundo e os eventos à nossa volta. Com as Escrituras em mãos, o conselheiro é capaz de ver e fazer ver quem dele se aproxima. Como o oftalmologista fez comigo no exame de vistas, Deus nos faz perceber as trevas em que o mundo está mergulhado, para em seguida nos direcionar para a luz, que ilumina a todo homem.

 

O “trabalho” do conselheiro bíblico

 

O trabalho do conselheiro não é fazer ver, mas jogar luz no ponto correto! O único capaz de conceder o dom da visão é Jesus Cristo, o conselheiro participa deste ministério, mas confia na ação sobrenatural, graciosa e soberana do Maravilhoso Conselheiro!

Devo confessar que o escuro é mais confortável quando estou sem lentes ou óculos. Deve ser por isso que as trevas chamam mais a atenção dos cegos e míopes! O conselheiro que assim percebe a condição do aconselhado providencia pela luz da Palavra o caminho seguro, que não vai falhar; sobre o qual o aconselhado poderá trilhar e encontrar vida e esta em abundância!

 

Este é o motivo pelo qual o conselheiro busca com tanta avidez manejar bem a Palavra da verdade! Quem expressou isto muito bem foi Paul D. Tripp: “Um dos efeitos trágicos da queda é a cegueira pessoal do coração. É um efeito universal e um dos fatores que fazem o aconselhamento bíblico ser tão difícil” (Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, Vol.2 – Abrindo Olhos Vedados, pág. 30).

 

Somos, na condição de conselheiros bíblicos, instrumentos usados por Deus para que o aconselhado enxergue o próprio Deus na situação, e sob Sua luz, aproxime-se dele. Em outras palavras, o missão do conselheiro bíblico não é resolver o problema, mas apresentar a Deus ao aconselhado… é participar do gracioso ministério que dá “vista aos cegos”!

 

Enxergando de novo!

 

Ver não depende tão somente da luz, mas da habilidade presente nos olhos.

 

Uma parte do ministério de Jesus Cristo, Nosso Senhor e Salvador, consistia em “dar vistas aos cegos”. Jesus em seu ministério o fez tanto física quanto espiritualmente, em cumprimentos às profecias entregues no passado com respeito ao seu ministério messiânico: “Guiarei os cegos por um caminho que não conhece, fá-los-ei andar por veredas desconhecidas; tornarei as trevas em luz perante eles, e os caminhos escabrosos, planos. Estas coisas farei, e jamais os desampararei” (Is. 42.16).

 

Você pode fazer parte deste ministério também, você pode dar vista aos cegos! Mais uma vez, cito o Dr. Tripp, que acuradamente o disse: “A cegueira espiritual é sempre um elemento presente no processo de aconselhamento e, como conselheiros bíblicos, precisamos estar preparados para lidar com ela”. Acontece que nem sempre a esperamos! Num outro post falarei sobre presumir; mas se há algo que o conselheiro pode, e me atrevo a dizer “deve” presumir, é a presença desta triste miopia espiritual no rebanho, nas pessoas ao seu redor: “Os aconselhados contam conosco para penetrar seu mundo com uma perspectiva divina que os ajuda a vencer a própria cegueira espiritual” (Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, Vol.2 – Abrindo Olhos Vedados, pág. 40).

 

O ministério a que o conselheiro bíblico é chamado não é o de revolvedor de problemas! O conselheiro bíblico não dá solução aos problemas do aconselhado, mas é o Instrumento do Redentor para apresentar o Deus de toda luz ao aconselhado preso em sua cegueira, pra que, no conhecimento deste Deus, conhecendo-o e amando-o, aproxime-se do Senhor, fonte da qual jorra todas as soluções para todos os problemas! 

domingo, 3 de abril de 2011

Amar a quem?

eu_thumb[2] Em nossos dias a palavra “amor” tem perdido o seu sentido e isso ocorre porque a compreensão sobre ela é equivocada. Um poeta secular, ao falar sobre esse assunto, expressa sua compreensão dizendo que o amor não é imortal, posto que é chama, mas deve ser infinito enquanto durar. Juntemos a isso um agravante que é a compreensão também errônea sobre o alvo do amor. Muito temos ouvido falar sobre a necessidade do amor próprio e de como o homem deve cultivá-lo. Há inclusive uma música da década de 80 celebrando o amor-próprio. Na última estrofe e no refrão temos:

“Foi tão difícil pra eu me encontrar

É muito fácil um grande amor acabar, mas

Eu vou lutar por esse amor até o fim

Não vou mais deixar eu fugir de mim

Agora eu tenho uma razão pra viver

Agora eu posso até gostar de você

Completamente eu vou poder me entregar

É bem melhor você sabendo se amar

Eu me amo, eu me amo

Não posso mais viver sem mim”[1] (grifos meus)

A Escritura, porém, caminha na contramão de tudo isso. Vemos no Evangelho que, ao ser questionado por um intérprete da Lei sobre qual seria o grande mandamento, Jesus respondeu que o principal era amar a Deus de todo o coração, alma e entendimento e que o segundo era amar ao próximo como a si mesmo. Disse mais ainda: “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22.40). Devemos notar que Jesus não fala em momento algum de amor próprio, ainda que muitos tentem enxergar no texto este “terceiro mandamento”.

 

O mais triste é que raciocínio dos cristãos que pensam assim é semelhante ao do autor da música citada acima: se alguém não se ama não conseguirá amar o próximo.

 

Esse “terceiro mandamento” não está no texto por uma simples razão: o homem, por natureza, já se ama demais e não precisa ser estimulado a se amar mais ainda. Jesus parte do princípio de que esse amor por si mesmo já existe. As palavras de Paulo corroboram esse pensamento. O apóstolo afirma: “Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida” (Ef 5.29).

 

Quando a Escritura menciona o amor próprio, trata-o como um problema: “Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, pois os homens serão egoístas (amantes de si mesmos na versão Revista e Corrigida de Almeida)” (1Tm 3.1,2), afirma Paulo a Timóteo.

 

Devemos sempre agir de forma bíblica, e, para isso, precisamos entender o que a Escritura ensina sobre o amor e o que ela requer que façamos. Somos alvo do amor maior, o amor do Senhor demonstrado na cruz do Calvário, e, por isso, podemos e devemos amá-lo da forma correta, colocando-o em primeiro lugar em nossas vidas e também dispensando esse amor ao próximo.

 

Segundo Paulo, “o amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba” (1Co 13.4-8). Esse amor deve ser sem hipocrisia (Rm 12.9), cordial, fraternal, preferindo o próximo em honra (Rm 12.10), edificante (1Co 8.1), demonstrado de fato e de verdade (1Jo 3.18).

 

Diante de tudo isso, devemos deixar de lado o que o mundo nos ensina sobre o amor egoísta (amor próprio) e viver o amor bíblico, por Deus e pelo próximo, para a glória daquele que nos amou primeiro.

 

Milton Jr.

 



[1] Música: Eu me amo; Banda: Ultraje a rigor. Para ler toda a letra clique aqui.

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