sexta-feira, 3 de junho de 2011

Saindo do fundo do poço!

Há experiências na nossa vida que deixam marcas, e por isso acabem se tornando um paradigma com o qual avaliar outras situações. Alguns chamam de trauma, outros de dor recorrente... Achar o nome certo pode até ajudar, mas não resolve. Muito embora a experiência não seja autoridade infalível, ouvir quem já tenha experimentado a agonia de ter sofrido um grande trauma, mas que não tivesse ficado traumatizado, poderia ser útil. Se for assim, podemos contar com José para nos ensinar.

José era um adolescente hebreu, um dos muitos filho de Jacó. Das duas esposas do patriarca, José era o primogênito da amada, Raquel. Privilegiado dentre seus irmãos por seu pai, tinha deles apenas um ódio crescente.

Sua história começa com um sonho que tive certa noite. Ele o contou como se fora coisa normal, mas aos ouvidos dos irmãos o relato soava como desatino: “Reinarás, com efeito, entre nós; e nos curvaremos ante ti?” O Pai, mais vivido e prudente, ouve consternado como quem aguarda o querer do Soberano.

Certa feita o jovem José é mandado por seu pai para vigiar e levar comida aos irmãos, que não os encontra no lugar programado; mas um estranho aparece e lhe indica o caminho, para que não se deixasse perder do seu destino. Quando se aproximava, e tendo sido visto ao longe, seus irmãos  tramavam sua morte. Convencidos pelo mais velho a não derramarem sangue inocente, o jovem José é colocado num cisterna vazia. José foi, então, literalmente, parar no fundo do poço. Ainda desorientado, José aguarda emudecido.
Na sequência lemos que José é traiçoeiramente vendido como um escravo pelos próprios irmãos a mercadores que viajavam rumo ao Egito, onde seria vendido novamente a Potifar, chefe da guarda egípcia. Lá, sob a benção de Deus, tudo o que lhe era entregue às mãos prosperava grandemente. Potifar, percebendo isso, resolve entregar seus bens e a administração deles a José, e acaba enriquecendo.

Entretanto, não era apenas suas qualidades administrativas que chamavam à atenção. Dono de uma  beleza física chamativa, José se torna objetivo do desejo da Esposa do Oficial, que se insinua constantemente, até que, num atentado ao pudor, ela o ataca. José de desvencilha da tentadora, mas sua capa fica para incriminá-lo injustamente de um crime que a todo custo tentou evitar. A continuidade da injustiça vem quando, sem verificação, julgamento ou coisa que o valha, Potifar lança José no cárcere. Ele resolvera que era melhor acreditar na esposa.

A injustiça parecia uma inconveniente companheira de José, que mesmo após tudo o que passara nas mãos dos irmãos, não se compadeceu dele e de seu pequeno sucesso em terras egípcias; antes, o pequeno "refresco" se tornara uma preparação para um poço ainda mais fundo, nos calabouços da prisão do Egito. José havia novamente ido parar no fundo do poço...

Gênesis 37, 40 e 50

Mas oras, ir parar no fundo do poço nem é tão difícil, não é mesmo? Duro é saber o caminho de volta, como como sair do fundo do poço! Queremos lidar com a ira que é suscitada quando uma injustiça é perpetrada contra nós. Queremos lidar com a tristeza e o desânimo que toma conta quando tudo vira de cabeça-para-baixo na hora em que esperamos que melhorem. Mas precisamos lidar biblicamente com o que comumente as pessoas chamam de trauma.

Estes capítulos de Gênesis oferecem um santo remédio. Estes capítulos do livro de Gênesis que registram esses episódios na vida de José, embora apresentem histórias de decepção, fornecem também grande ajuda, pois, se entendermos como entramos no poço, decidiremos se os mais tristes acontecimentos vividos terão ou não o poder de traumatizar nossa vida, ou se serão o ambiente em que a graça de Deus florescerá no guiando a um entendimento mais profundo da providência.

No capítulo 37, José é vendido pelos irmãos. Ao que tudo indica, a decepção começa com a descida ao poço. Seus irmãos mais velhos, no lugar de lhe dar proteção engendraram perverso mal. 

Em Gênesis 40, após ter passado pela injusta acusação de assédio sexual, e já estando na prisão, José interpreta o sonho do copeiro. Na ocasião José fala do que o coração está cheio, explicando que nada tinha feito para que tivesse sido posto naquela “masmorra”. A Palavra hebraica usada ali também é encontrada em Gênesis 37:24 (lá traduzida por “cisterna”). Agora pense: O que faria José usar a palavra “poço” ou “cisterna” aqui? Por que mesmo estando no Egito, para José era como se ainda não tivesse saído daquele poço hebreu? 
É curioso notar, portanto, que embora José estivesse à milhas da cisterna em que seus irmãos o puseram, seu coração ainda permanecia lá dentro. José havia estado confuso dentro daquela sombria cisterna, e mesmo fisicamente fora dele, sua alma ainda habitava lá. O poço passou a ser um paradigma de injustiça, confusão e desorientação, com o qual avaliar os acontecimentos posteriores. Para José, estar na prisão egípcia, era estar no "poço".

Quando os funcionários de Faraó foram aprisionados e algum tempo depois sonharam, acendeu em José um sonho de liberdade. Após interpretar o sonho do copeiro, vendo que seu fim era aprazível, pediu que se lembrasse dele quando as coisas se lhe melhorassem, visto as injustiças que havia sofrido. O problema foi que José, humano, falho e num momento de fraqueza, esquece-se daquele que realmente deveria se lembrar dele, e pede lembrança da pessoa errada. Nem sempre nossa compreensão e confiança são inabaláveis, não é?

A compreensão final de José, entretanto, difere bastante. Em Gênesis 50 muita coisa havia mudado. O jovem nobre, vendido como escravo e aprisionado injustamente, agora é o homem mais poderoso do antigo Egito. Nesse tempo seu pai já havia morrido e seus irmãos eram hóspedes naquela terra que havia se tornado a sua. Os antigos algozes agora são humildes vassalos. Eles ainda não haviam provado do arrependimento, e com mentiras tentam convencer o poderoso José de não os punir pelos odiosos atos passados. Em suas mãos está o poder de fazer justiça e corrigir os atos do passado; e alguns diriam  com direito a vingança e revanche.

Falando em providência


O que há de recorrente na vida de José, além das constantes injustiças sofridas, é a presença de Deus, cujas mãos poderosas dirigiam seu destino. A providência divina parece ser a atmosfera em que a história do jovem José se desenrola. Mas a escuridão do poço nem sempre deixava isso perceptível. Note, entretanto, que nós queremos ver com cores mais vivas a presença da providência; mas esse tema poderoso é, ao mesmo tempo, sutil.

Tal como no caso de José, o desenrolar da nossa história no tempo nem sempre é claro quanto ao alvo providencial de Deus para nós. De fato, a experiência dos santos é quase nunca ver para onde nossa vida caminha, restando-nos confiar em Deus. Fazemos coro com o autor sacro que escreveu que não sabia o que de mal ou bem era destinado a si, mas sabia em quem tinha crido; ou como Lutero disse: "não sei por quais caminhos Deus me conduz, mas conheço muito bem o meu guia".

Embora nem sempre a possamos ver mais vividamente, temos que ter por certo que a providência está sempre presente. Quando, então, olhamos para os singulares acontecimentos na vida de José, por sabermos o fim que os fatos ensejaram, não há desespero, dúvidas ou angústia. Mas se, por outro lado, levarmos em conta o contexto de José, nos colocando no lugar dele, tendo em vista o pouco conhecimento de que dispunha enquanto tudo acontecia, inclusive a ignorância do fim daquela jornada, (tal como nós estamos em relação à nossa própria história de vida) então será somente a verdade da presença providente de Deus que teremos como única garantia e certeza de que nosso destino está em boas mãos. E, apesar da luta interna, não haverá lugar para desespero, dúvidas ou angústia. O alvo final pode até não estar claro, mas o que tem que ser bem claro para nós é quem Deus é, e que ele sempre nos acompanha...

Pela graça de Deus, José viu essa providência com clareza tal, que para ele, Deus não somente o havia tirado de uma condição de humilhação para outra de exaltação, mas tirara sua alma da cisterna, fazendo-o entender que quem dele haveria de se lembrar era o próprio Deus. Quando Deus dele se lembrou, fez o copeiro lembrar-se, e José pôde usar seus dons de modo tão abençoador que não só livrou o Egito da fome, como a muitos povos que puderam recorrer ao Egito, incluindo sua família, que agora esta diante de um José bem diferente.
Em Gênesis 50, José, já fora do poço, diz aos irmãos que na verdade eles tramaram o mal contra ele,  mas Deus estava durante todo o tempo tramando o bem, através dos males pelos quais ele passou, começados no fundo daquela cisterna. 

Entendendo na prática

Um entendimento real e experiencial de um Deus providente, que intervém ativa e graciosamente, levou José a não somente sair do poço em que sua alma houvera ficado, mas também a tirar outros de lá. Diz o relato de Gênesis que José "falou ao coração" dos seus irmãos mentirosos, como um profeta da verdade, que crente num  num Deus soberano, apresentava-o a eles como que estivera, o tempo todo, presente em amor, operando em graça através dos atos maus daqueles homens maus.

Quando nós experimentamos esse conhecimento, como quem conhece do fundo do coração, a vida que de lá procede já sai alterada pelo conhecimento transformador e libertador da providencia redentora de Deus.

Jesus, muitos anos depois, disse que o conhecimento da verdade liberta (João 8.32). Esse conhecimento  não é meramente intelectual, mas opera no centro motor da vida, no coração. Foi um conhecimento deste tipo que José teve. Lembrou-se Deus de José e José saiu do fundo do poço. Lembrou-se José de Deus, e seus irmãos começaram a jornada de saída de seus poços...

Você também pode sair do fundo do seu poço, e ajudar outros a sair do fundo do poço, mas para isso você também tem que entender o que José entendeu: Quem deve se lembrar de nós é Deus! É Ele quem opera providencialmente nos acontecimentos de nossa vida. Sua vontade sempre prevalece, e ela  é boa, perfeita e agradável, mesmo quando os acontecimento não são.
Reações:

5 comentários:

2ª IGREJA PRESBITERIANA DE CARATINGA disse...

Muito bom o texto Jonatas, que Deus o abençõe e vou colocar no boletim aqui da igreja rsrsrs. Um abraço.

francine disse...

Maravilhoso texto, bem numa hora em que eu clamava por uma palavra verdadeira, o que me trouxe neste exato momento a esperança que o Senhor quis me dar!!! Glórias a Deus por isso, Rev Jonatas!

Unknown disse...

Boa noite Pastor Jonatas. vivo uma vida de conflito, orar e pecar, e o meu pecado me mantem no fundo do poço. Que Deus se lembre de mim e me retire de dentro do poço, assim como retirou José e o fez "missionário" entre os seus. Deus o abençoe sempre, Claudinei Barbosa - Barretos SP

Nino Veneno disse...

Foi exatamente isso que aconteceu comigo, quando eu tinha 17 anos, eu sonhei que caia em um poço todo escuro e vil, e deus me tirou dele , glória a deus porque se lembrou de mim, e deus o abencoe irmão jonattas.

Marta Costa disse...

Glórias a Deus, mensagem edificante.

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