terça-feira, 30 de outubro de 2012

Tu me amas?

coraçãoNão são poucas as vezes que nos enganamos acerca do nosso estado espiritual. Esquecendo-nos de que somos pecadores, ainda que redimidos, acabamos pensando de nós mesmos além do que convém e mesmo confessando que somos salvos pela graça depositamos nossa esperança naquilo que fazemos.

Prova disso é a maneira como muitos reagem quando ficam sabendo que alguém que era reputado por um “bom crente” caiu em pecado. Expressões como “não acredito que fulano foi capaz de fazer isso” na realidade dizem o seguinte: “eu nunca seria capaz de fazer algo assim”.

Antes que você afirme que nunca confiou em sua própria justiça, deixe-me demonstrar que esse não é um problema somente nosso.

Em seu ministério, bem perto de ser traído por Judas, Jesus afirmou aos discípulos que todos eles o abandonariam, ao que depressa respondeu Pedro: “Ainda que todos o abandonem, eu nunca te abandonarei!” (Mt 26.33 – NVI). O que Pedro estava afirmando era que o seu amor pelo Senhor era bem maior que o de seus companheiros e, por isso, sua reação seria diferente da dos demais. Jesus então afirmou que ainda naquela noite, antes que o galo cantasse, Pedro, de fato, o negaria e não somente uma, mas por três vezes. É claro que Pedro não acreditou e replicou: “Mesmo que seja preciso que eu morra contigo, nunca te negarei” e, agora, diante de tamanha intrepidez, os outros discípulos também dizem o mesmo (Mt 26.34,35 – NVI).

Após isso Jesus vai ao Getsêmani a fim de orar com seus discípulos e é ali naquele lugar que Judas entrega o Senhor aos soldados, traindo-o com um beijo. Ele é levado perante o Sinédrio e, enquanto era humilhado e condenado à morte, do lado de fora, no pátio, está Pedro assentado quando uma criada o vê e afirma que ele estava com Jesus. Ele nega. Ele ainda negou mais duas vezes e, ao fim da terceira negação, cantou o galo, fazendo com que Pedro se lembrasse das palavras do mestre (Cf. Mt 26.36-75).

Jesus estava certo! Apesar da declaração enfática de Pedro de que nunca abandonaria o Senhor, ao ter a sua vida em risco ele demonstrou que amava mais sua própria vida que aquele que veio para dar a vida eterna. Isso o leva a pecar.

É verdade que o primeiro mandamento ordena: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.3), mas é igualmente verdadeiro que não cumprimos isso de forma absoluta e a todo tempo e é por isso que pecamos. Pecamos porque amamos mais a nossa alegria que o Senhor, porque amamos mais o nosso conforto que o Senhor, porque estamos mais interessados em nossos planos que nos do Senhor, porque estamos mais envolvidos como o nosso reino que com o Reino de Deus.

O cristianismo consiste justamente em deixarmos de lado a nossa própria vida para fazer a vontade do Senhor. Foi isso que Jesus ensinou ao afirmar: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16.24).

A boa notícia é que, em Cristo, e somente por meio dele, cumprimos de forma perfeita o mandamento de amar ao Senhor de todo o nosso coração, alma e entendimento. A obediência completa e perfeita de Jesus a seu Pai é atribuída a todo aquele que nele crê, por isso, nele, somos salvos.

Por ter Cristo amado a seu Pai sobre todas as coisas e cumprido toda a sua vontade, morrendo na cruz maldita em lugar dos seus, ele pode perdoar nossos pecados.

Ele fez isso com Pedro, ainda que tenha lembrado ao apóstolo que ele não amava tanto a Cristo como dizia. Você já reparou no detalhe da primeira pergunta feita por Jesus, no momento da restauração de Pedro?: “Simão, filho de João, você me ama mais do que estes?” (Jo 21.15 – NVI).

Fuja da tentação de achar que sua salvação e caminhada cristã dependem primariamente do seu amor por Cristo. Graças a Deus não dependem, pois estaríamos todos condenados, visto não termos condições de amá-lo a todo o tempo com inteireza de coração.

O amor a Deus é mesmo ordenado, mas ele é consequência e não causa da salvação. Como afirmou o apóstolo João: “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 4.10).

Em vez de se orgulhar por seu amor a Cristo, louve a Deus por tê-lo amado, sendo você ainda um pecador (cf. Rm 5.8) e, bem consciente disso, lute, com o auxílio do Espírito Santo, para viver de modo digno do Evangelho de Cristo Jesus (cf. Fp 1.27).

Milton Jr.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Perdão - uma questão de obediência

forgivenessUm dos maiores desafios na vida cristã é o exercício do perdão, e um fato que comprova essa tese está registrado no Evangelho segundo escreveu Lucas. No capítulo 17.3-10 o Senhor ensinou aos discípulos que se um irmão pecasse contra eles deveria ser repreendido e, havendo arrependimento, deveria ser perdoado. Ensinou ainda que, se durante sete vezes no dia o irmão pecasse e voltasse arrependido, deveria ser perdoado.

 

Diante de um ensino tão difícil de ser colocado em prática, os discípulos pedem ao Senhor: Aumenta-nos a fé!

 

É importante perceber que o Senhor Jesus não diz em momento algum que faria isso acontecer, mas lhes conta uma parábola sobre um senhor e seu servo. Jesus começa perguntando se, tendo um servo, os discípulos deixariam que ele, ao chegar cansado do trabalho na lavoura ou com o gado, se assentasse para comer antes de lhes servir. O mestre pergunta ainda se o senhor teria de agradecer ao servo porque havia feito o que lhe foi ordenado.

 

A resposta era lógica! Os discípulos tinham plena consciência de que o senhor poderia fazer quaisquer exigências ao servo, que, mesmo cansado, deveria efetuar o trabalho sem esperar qualquer recompensa por isso. Fica fácil perceber esse ponto no desfecho da parábola: “Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer” (Lc 17.10).

 

Diante do exposto, entendemos que, com essa parábola, o Senhor estava ensinando aos discípulos que eles deveriam ser obedientes ao seu ensino sobre o perdão porque ele estava ordenando. Se é verdade que o servo deveria obedecer ao senhor, muito mais os discípulos a Jesus. Aprendemos então que perdoar não é questão de ter uma fé grandiosa, mas de atender à ordem do nosso Senhor. Aqueles que obedecem podem orar como ele ensinou: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores (Mt 6.12), atentando às suas palavras após o ensino dessa oração: “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas” (Mt 6.14,15).

 

Resta ainda uma questão: E se a pessoa não se arrepende ao ser repreendida? Devemos perdoá-la? Jesus ensina em Mateus 18.15-20 que se um irmão peca contra nós devemos ir até ele e argüi-lo e, se ele nos ouvir, está resolvido o problema. Se não ouvir, devemos chamar testemunhas e procurá-lo novamente; depois a igreja, e, se não ouvir também a igreja, aí o processo é de disciplina: ele deve ser considerado gentio e publicano.

 

Uma coisa é certa: seja o irmão nos procurando arrependido ou sejamos nós a procurá-lo para que se arrependa, o perdão é uma obrigação, para que andemos como ordena Paulo: “se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens” (Rm 12.18).

Milton Jr.

sábado, 4 de agosto de 2012

Desejos que podem matar

coração (3)“Cada um, porém, é tentado pelo próprio mau desejo, sendo por este arrastado e seduzido. Então esse desejo, tendo concebido, dá à luz o pecado, e o pecado, após ter se consumado, gera a morte” (Tiago 1.14,15 - NVI).

Tiago nos ensina sobre a dinâmica do pecado. Conquanto muitas vezes queiramos dar desculpas para nossas ações pecaminosas, a verdade retratada nesse texto é que pecamos por causa dos desejos do nosso coração. Atente, porém, para um detalhe. Tiago não está falando de qualquer desejo, mas daquele que ele qualifica como “mau desejo”.

Podemos pensar sobre o “mau desejo” em dois sentidos: primeiro, é mau desejo tudo aquilo que é diretamente proibido pela lei de Deus. Só para exemplificar, o desejo de adulterar é em si mau, pois é explicitamente contrário à santa Lei de Deus.

Porém, há outro sentido que devemos considerar. Bons desejos podem tornar-se maus, quando queremos que se concretizem custe o que custar. A Bíblia não proíbe que os filhos de Deus desejem coisas lícitas, mas quando começamos a ser “controlados” por elas a ponto de pecar para conseguir o que queremos ou pecar por não ter conseguido o que queremos significa que um bom desejo tornou-se um mau senhor. Não é sem razão, portanto, que o Senhor Jesus adverte que “onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6.21).

Quando estamos com os olhos fixos somente nos desejos do coração, acabamos por ignorar as ordenanças do Senhor. Permita-me ilustrar isso.

Sempre gostei muito de mergulhar. Quando coloco máscara, canudo (snorkel) e pés de pato (nadadeiras) e me lanço ao mar, quase me esqueço da vida “aqui fora”. Quando eu era ainda um adolescente, costumava pegar, com amigos, peixinhos ornamentais para vender a um revendedor de peixes de aquário, que havia em minha cidade. Alguns peixes eram mais caros e quando encontrávamos um desses era uma grande alegria. Um dia foi a minha vez de achar um desses. Ele era lindo e logo pensei no dinheiro da venda (que hoje reconheço que não era tanto assim... rs) e no prazer de capturar um daqueles. Tomei fôlego, prendi a respiração e mergulhei atrás. Era um peixe arisco! Eu cercava por um lado com a mão, tentando levá-lo à direção da “redinha” que estava do outro lado e ele se escondia atrás de alguma pedra. A vontade de ter aquele peixinho era tanta que me esqueci de uma lei básica: sem oxigênio eu morro! Quando me vi já quase sem fôlego e olhei para cima, os poucos metros de água até a superfície pareciam quilômetros. Tive de nadar muito rápido e cheguei à superfície ofegante. O desejo pelo peixe me fez esquecer uma lei e isso poderia ter me levado à morte.

Creio que é isso que Tiago está ensinando. O mau desejo me leva a desprezar a lei de Deus e eu peco para consegui-lo ou por não tê-lo conseguido. O que se segue é a morte! O mau desejo se torna senhor, um ídolo, que determina como o homem deve agir, desprezando a Lei do verdadeiro Senhor.

Ao exortar Caim, Deus falou exatamente sobre isso: “Se procederes bem [de acordo com a Lei do Senhor], não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal [pecando por obedecer ao desejo], eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas cumpre a ti dominá-lo (Gn 4.7 – grifo meu).

Embora as Escrituras sejam claras, constantemente deixamos que os desejos tomem conta do nosso coração e se tornem falsos deuses que fazem promessas de alegria, satisfação, paz, tranquilidade, etc. que nunca poderão cumprir. Essa é razão de pecarmos. Se amássemos absolutamente ao Senhor sobre todas as coisas, nunca pecaríamos, pois faríamos sempre a sua vontade. Isso implica que qualquer pecado que cometamos seja uma consequência de um primeiro pecado, a quebra do primeiro mandamento em que Deus nos ordena: “Não terás outros deuses diante de mim” (Êx 20.3).

Muitos servos de Deus têm tomado decisões pautadas não na Lei do Senhor, mas na simples satisfação de seus desejos e têm colhido as consequências trágicas que resultam da desobediência.

É lícito desejar um bom emprego, um bom casamento, a casa própria dos sonhos, o reconhecimento pelo bom trabalho, respeito, liderança na igreja, etc. Todas essas coisas não são más em si mesmas, mas quando estamos dispostos a pecar por elas ou ficamos irritados, irados, mal-humorados, enfim, quando pecamos não respondendo de forma piedosa quando não as conseguimos, estamos diante do “mau desejo” que Tiago afirma que conduz à morte.

O Senhor Jesus nos ensina de forma prática como devemos colocar nossos desejos diante do Pai. Em sua oração, antes de ser preso e morrer em lugar do seu povo, ele expressou seu desejo: “Aba Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice” – entretanto, não se rebelou e submeteu-se a vontade do Pai, que era totalmente diferente do que ele estava pedindo, quando terminou a sua oração – “contudo, não seja o que eu quero, e sim o que queres” (Mc 14.36).

A Bíblia afirma que a vontade de Deus é “boa, agradável e perfeita” (Rm 12.2) e também que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28).

Se estivermos convictos dessas verdades poderemos colocar sempre os nossos desejos diante do Senhor, já abrindo mão deles, e afirmar: “faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10), pois saberemos que para nossa alegria e satisfação dependemos somente do Senhor e não daquilo que ele pode ou não nos conceder.

Agindo assim, honraremos sempre o Redentor.

Milton Jr.

terça-feira, 24 de julho de 2012

O maravilhoso conselheiro e a parábola do filho pródigo

O rapaz entra no gabinete pastoral entristecido por ter se visto pelo espelho da Palavra de Deus. Suas lágrimas atestam de sua dor. "Pastor, precisamos conversar... eu não presto, eu não sou a  boa pessoa que todos pensam que eu sou...". A resposta do pastor pode parecer chocante à primeira vista, mas reflete um detalhe encontrado na história do filho pródigo. "Sim, meu caro, vamos conversar" - responde o pastor; "Afinal, você é um bem-aventurado, porque existem muitos que nunca chegam a se verem como realmente são, e não é o seu caso. É claro que este descobrimento, de primeira, não nos parece bom, mas você verá que ele abre as portas para o universo maravilhoso da graça de Deus".


A parábola do filho gastador ou pródigo, está registrada no evangelho de Lucas 15.11-32. Nela o Senhor Jesus conta a história de um rapaz que, sendo o filho mais moço, pede adiantado sua parte da herança. Alguns entendem que a atitude do filho era o equivalente a considerar o pai como morto. De qualquer forma, é claro para qualquer leitor, independente da época ou cultura, que o filho faltou com respeito para com seu pai. Seu desejo era se ver livre do que ele considerava serem amarras, e viver sua vida "intensamente".


A aventura durou muito pouco, e logo ele estava faminto e humilhado. Naquela lamentável situação ele se deu conta de seu estado, e o Senhor Jesus retrata seu arrependimento da seguinte forma: "Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Levantar- me- ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata- me como um dos teus trabalhadores" (Lucas 15:17-19). O que é importante notar aqui é a maneira como Jesus constrói a parábola. Jesus é o narrador e autor, ele descreve a cena, direciona o enredo e determina os diálogos. A primeira pergunta que levanto para nossa reflexão é "por que o Senhor Jesus nos fez saber o que o rapaz pensou e ensaiou dizer a seu pai?". Entendo que esta é uma pergunta importante a ser feita, pois mais à frente vemos o rapaz cumprindo, pelo menos em parte, o que intentou fazer quando ainda estava distante do lar.


A narrativa segue, e somos supreendidos com o amor gracioso daquele pai que, avistando o jovem de longe, correu ao seu encontro. É notável que esta tenha sido a reação do pai, uma vez que, mesmo em nossa cultura, conhecida pelo seu caloroso trato e jeito alegre, teria dificuldades em agir de forma tão afável diante do acontecido no passado. Mais notável, porém, é a tentativa do filho mais moço em falar aquilo que havia ensaiado, e o lugar em que Jesus interrompe a fala do jovem. Repare na sequência da narrativa: "E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti- o, ponde- lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei também e matai o novilho cevado. Comamos e regozijemo- nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar- se (Lucas 15:21-24).


Enquanto estudamos esta parábola, e mais especificamente estes detalhes que são aqui salientados, é importante lembrar que Jesus está, todo o tempo, controlando a dinâmica da história. Observe o seguinte: O jovem planejou dizer a seu pai que houvera pecado gravemente (contra o céu e diante de ti); também planejou dizer que diante deste fato ele perdera o direito de ser reconhecido e honrado como seu filho e então, no terceiro momento, implorar que fosse tratado como um dos servos trabalhadoes, pois este tratamento ainda seria melhor do que o que estava recebendo longe do lar. Mas quando ele e seu pai se encontram, apenas os dois primeiros momentos de fato acontecem, e o pai interrompendo a emocionante confissão do filho pródigo, conclama seus servos a que o tratem justamente da forma que o filho sabia que não deveria ser tratado.


Por que Jesus não permitiu que a confissão do jovem seguisse até o fim? Ou então, por que o Senhor não colocou nos lábios do pai o que é tão corrente hoje em nossa cultura globalizada, ou seja, uma palavra de ânimo e exaltação da estima? Os leitores do século 21 não ficariam chocados se o pai dissesse alguma coisa como: "Que isso, filho... não diga uma coisa dessas. Não foi pra tanto! Deixemos o passado para trás", ou então "Mas que baixa auto-estima é essa? Você sempre será o meu filho, não importa o que aconteça!". Curiosamente, Jesus deixa somente a parte final da confissão de fora, embora nos tenha privilegiado com a informação de que haveria mais a ser dito. Seria isto sem propósito? Creio que não. Creio que o silêncio do pai com respeito ao que disse o filho é revelador: É a concordância implícita do pai com relação às palavras ditas pelo jovem e tolo filho. Mas é também um gesto de amor e carinho, pois Deus não jogará na cara do pródigo uma verdade que já dita e reconhecida. A experiência pela qual o filho passou foi útil para que ele reconhecesse sua real condição, de indignidade. O retorno, porém, deixa claro ainda outra coisa.


Conquanto a atitude do jovem no começo seja em muito similar à de alguns filósofos que gritam uns para os outros que Deus morreu, o Pai deixa bem claro que o motivo da festa era que o aquele filhos estivera perdido e foi achado, estava morto e reviveu. Quando agimos como se Deus não existisse, ou fazemos como se estivesse morto, de fato quem morreu foi outrem. O filho não era só pródigo, era indigno e morto.


Estes detalhes que nem sempre atentamos quando lemos esta maravilhosa parábola revelam a maneira como o maravilhoso conselheiro nos ensina a aconselhar:


1) Se o aconselhado percebeu sobre si alguma realidade, ainda que seja a desesperadora indignidade de não merecer ser chamado de filho, não negue, não diminua a descoberta. As experiências pelas quais Deus nos faz passar são pedagógicas e servem aos seus propósitos santos e soberanos de nos revelar o seu amor e graça àqueles que não podem exigir nada, senão confessar seu verdadeiro estado de miséria espiritual (Mt. 5.3). Se negarmos a confissão, ou diminuirmos o seu peso, impedimos a maturidade espiritual do aconselhado que o faz cantar em coro com o salmista: "Foi- me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos" (Sl 119:71).


2) Seu silêncio fala. O conselheiro deve procurar exercitar a sensibilidade e perceber a ora de se calar. Tal como o pai fez, o silêncio na hora certa faz com que o aconselhado perceba por si só algo que bem poderia ser dito, mas a descoberta pessoal apresenta algumas vantagens, dentre as quais ressaltamos duas: a descoberta pessoal é revestida de um caráter indelével na memória. Uma coisa é aprender por ouvir, outra bem diferente é aprender por descobrir... é importante levarmos em conta que Deus nos fez à sua imagem, e isto significa que pessoas são inteligentes (por mais que algumas vezes algumas pessoas desafiem grandemente esta máxima). E a segunda questão é que o silêncio revela amor, candura e graça. Tal como Deus, que não nos humilhará além do necessário, nem lançará no nosso rosto nossas misérias, o conselheiro, tampouco, o precisa fazer.


3) Uma lição teológica final: O pai tratou o filho indigno como filho, mesmo quando seu desejo era ser tratado como um de seus trabalhadores. O filho sabia que o tratamento que o pai dava aos menores dos seus servos ainda seria melhor do que o tratamento que ele recebia das mãos do "mundo". Mas Deus, que é rico em graça, retratado ali pelo pai, nos é revelado como o Deus de toda a graça. Ele nunca deixará de tratar como a um filho aquele que se aproxima arrependido. Esta é uma nota de esperança e graça que pode e deve ser abundantemente derramada sobre o aconselhado que se arrepende. Deus o aceitará, o revestirá e festejará, pois ali está, na parábola ou no gabinete, um filho que estava perdido e foi achado, estava morto e reviveu!

Jônatas Abdias

sábado, 19 de maio de 2012

Aconselhe a Palavra de Deus

aconselhamentoCristianismo e aconselhamento são duas coisas que estão intrinsecamente ligadas. Os membros do corpo de Cristo são chamados a aconselhar, admoestar, repreender, instruir, corrigir, e consolar uns aos outros (Rm 14.4; Cl 3.16; Gl 6.1; 1Ts 5.14).

 

Para isso, o cristão deve crer que na Escritura Sagrada temos tudo aquilo que é necessário para nossa vida e para a nossa piedade (cf. 2Pe 1.3). O apóstolo Paulo, escrevendo ao jovem pastor Timóteo, afirmou que “toda a Escritura é inspirada por Deus” – e por isso – “útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2Tm 3.16). Diante disso, o resultado do uso das Escrituras no aconselhamento não poderia ser outro, senão o que Paulo afirma no versículo seguinte: “A fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda a boa obra” (2Tm 3.17).

 

Deus nos escolheu antes da fundação do mundo, a fim de sermos conformes à imagem de seu Filho, nosso Redentor, Cristo Jesus (cf. Rm 8.29). Dia após dia ele nos aperfeiçoará, santificando as nossas vidas e o meio que ele usará para isso será sempre a sua Palavra. Ao orar pelos seus discípulos, foi isso que o Senhor Jesus pediu ao Pai: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17).

 

Se queremos, portanto, ser eficazes ao cumprir a ordenança de aconselhar uns aos outros, precisamos:

 

a) Conhecer a Escritura – O apóstolo Paulo exortou Timóteo a que procurasse se apresentar diante de Deus como um obreiro aprovado e que maneja bem a palavra da verdade (cf. 2Tm 2.15). Devemos investir tempo na leitura da Bíblia Sagrada, não simplesmente fazendo uma leitura superficial, mas procurando entender os textos dentro de seus devidos contextos a fim de poder aplicá-los de forma correta às situações que nos sobrevêm em nossa vida cotidiana.

 

Foi por entender a importância do conhecimento da Palavra de Deus que o salmista afirmou que o homem bem-aventurado é aquele que tem o seu prazer “na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite” (Sl 1.2).

 

b) Praticar a Escritura – Não basta conhecer a Palavra de Deus, é necessário colocá-la em prática. Jesus afirma que aqueles que ouvem a Palavra e não a praticam são insensatos (cf. Mt 7.26). Seu irmão, Tiago, ensina que aqueles que somente ouvem a Palavra e não a praticam enganam a si mesmos (cf. Tg 1.22). Entretanto, continua Tiago: “Aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar” (Tg 1.25).

 

Podemos e devemos colocar em prática a Lei do Senhor, não por causa da nossa própria capacidade, mas porque contamos com o auxílio daquele que opera em nós o querer e o realizar, conforme a sua boa vontade e, por isso mesmo, nos ordena a desenvolver a nossa salvação (cf. Fp 2.12,13).

 

A razão de buscar o conhecimento da Palavra (“Guardo no coração as tuas palavras” – Sl 119.11a) não pode ser outra, senão o desejo de honrar o Senhor ao praticá-la (“para não pecar contra ti” – Sl 119.11b).

 

Devemos ser como Esdras, que dispôs “o coração para buscar a Lei do Senhor, e para cumprir, e para ensinar em Israel os seus estatutos e juízos” (Ed 7.10). A última das atitudes de Esdras é a que veremos a seguir e que precisamos também fazer.

 

 

c) Aconselhar com a Escritura – Vivemos em meio a uma sociedade na qual várias vozes querem se fazer ouvir, e dizem saber como entender o homem, resolver seus conflitos interiores e modificar o seu comportamento.

 

Como afirmou Paulo, devemos ter todo o cuidado para não ser enredados com filosofias e vãs sutilezas que são conformes à tradição dos homens e os rudimentos do mundo e não segundo Cristo (cf. Cl 2.8).

 

No tempo do profeta Jeremias, falsos profetas confundiam o povo de Israel, “instruindo” o povo de acordo com os sonhos que diziam ter. O Senhor, por meio de Jeremias, então afirmou: “O profeta que tem sonho conte-o como apenas sonho; mas aquele em que está a minha palavra, fale a minha palavra com verdade” (Jr 23.28).

 

Guardadas as devidas proporções, devemos entender que as teorias seculares que tentam explicar o homem e a forma como ele se comporta também acabam instruindo de forma errada. Nessas teorias, o pecado passa a ser visto como doença (ou transtorno) e a responsabilidade pessoal é deixada de lado, pois o problema geralmente está no meio em que se vive ou naquilo que outros fizeram contra nós. O homem, na maioria das vezes, é visto como “vítima”.

 

É dever da Igreja do Senhor fazer ecoar a voz daquele que entende perfeitamente o homem e sabe exatamente qual é a razão de todos os seus problemas. Devemos proclamar a voz do Criador e único capaz de redimir o homem.

 

Sendo a Escritura suficiente para a vida e para a piedade (cf. 2Pe 1.3), devemos ter a mesma convicção de Davi: “A Lei do Senhor é perfeita e restaura a alma” (Sl 19.7a). O que ele afirma aqui, literalmente, é que a Lei do Senhor traz a alma de volta para Deus.

 

É por tudo isso que devemos ser diligentes em nossa tarefa de aconselhar uns aos outros, instruindo-nos mutuamente pela Palavra de Deus. A Bíblia deve ser o nosso livro texto para avaliar os problemas e trazer a solução.

 

Que “habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração” (Cl 3.16).

 

Isso será trabalhoso? Certamente! Mas permaneça firme e inabalável, sendo abundante na obra do Senhor, sabendo que nele o nosso trabalho não é vão (cf. 1Co 15.58).

 

Milton Jr.

sábado, 5 de maio de 2012

Quem ama educa... com Bíblia!

Educar sem Bíblia é bons modos, não educação. Se quisermos demonstrar amor aos nossos filhos, não será enchendo-os de presentes, mas ensinando-os a encherem-se do Espírito, no qual não há dissolução (Ef. 5.18. Aproveite para fazer a conexão entre este texto e o de Tt 1.6, pois lá são acusados de “dissolução” os filhos mal educados).

 

Um outro aviso inicial é importante: bater pura e simplesmente, por qualquer motivo, sem acompanhamento bíblico e paciente instrução, é agressão, não disciplina bíblica.

 

Disciplinar é bater? Sim e não.

 

Primeiro, vamos começar corrigindo a motivação principal para criar filhos, pois “o objetivo supremo que você deve buscar para os seus filhos é o mesmo que o apóstolo Paulo tinha para os filhos dele na fé – que fossem conformados (gradativamente transformados) à imagem de Cristo” (Lou Priolo, O caminho para seu filho andar, pág. 19). Este princípio está alicerçado no que Paulo escreveu aos gálatas: “Meus filhos, por quem de novo sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós” (Gl. 4.19).

 

Segundo, que bater sem explicações e exortações bíblicas é recebido como ato de injustiça. Pense em si, por um momento: como reagiria se um policial o parasse na estrada e então o levasse para a cadeia sem falar nada? Somente dizer que você está errado não adianta, afinal, se foi para a cadeia, certo não está não é? Não? Você quer justiça? Quer saber o motivo da prisão? Pois é, a criança não vai entender “automaticamente” que está errada só porque apanhou, assim como você, que nem sempre presume que porque alguém foi preso está compulsoriamente errado.

 

Terceiro, cabe aos pais ensinar aos filhos como reagir corretamente à disciplina. Eles não reagem naturalmente à disciplina, e Deus bem o sabe. No momento ela não parece uma demonstração de amor (Hb 12.11). Ensine seu filho a não ignorar ou desprezar a disciplina. Ensine-o a atentar (Pv 1.23) e a acolher a disciplina (Pv 13.18). Mas se seu filho faz pouco caso quando disciplinado verbalmente, ou sai enquanto você ainda fala com ele, então o ensine que é preciso escutar a repreensão (Pv 15.31). Lembre-se sempre que a vara não é toda a disciplina, mas um instrumento de ajuda.

 

Quarto, entenda o raciocínio por traz da vara (correção física). Este raciocínio começa com o problema básico de seu filho. Ele não é um anjo que caiu do céu. Ele é a sua imagem e semelhança, e por isso, pecador desde o ventre (Gn. 5.1; Sl 51.5). “Existem coisas, dentro do coração do mais doce bebezinho, que, ao permitir-se brotar e crescer à plenitude, acarretam sua eventual destruição” (Tedd Tripp, Pastoreando o Coração da Criança, pág. 121). Há questões envolvendo a educação infantil em que a conversa, tão somente, não supre, e é neste contexto que a vara funciona.

 

Qual é a função da vara? Se você quiser dar sabedoria ao seu filho, usará a vara, pois “a vara e a disciplina são sabedoria...” (Pv 29.15). Não usar a vara equivale a deixar a criança entregue a si, o que, em outras palavras é desejar que sua estultícia se desenvolva e tome conta do seu caráter, tornando-se em grande vergonha para seus pais no futuro. Em resumo: com objetivo de dar sabedoria, a vara “fornece uma demonstração táctil imediata da insensatez produzida pela rebelião. Propriamente administrada, a disciplina torna humilde o coração da criança, deixando-a sujeita à instrução dos pais. Cria-se uma atmosfera em que a instrução pode ser dada. A surra torna a criança complacente e pronta a receber palavras de vida” (Tedd Tripp, Pastoreando o Coração da Criança, pág. 123). Deus ordenou o uso da vara na disciplina, mas esta não é a única medida, embora precisemos utilizar este recurso.

 

O que é a vara? Tedd Tripp faz um excelente resumo do que o uso da vara por parte dos pais representa:

1.    Um ato de Fé. Deus ordenou seu uso e a obediência dos pais aponta para uma profunda expressão de confiança na sabedoria de Deus e não na sabedoria deste mundo.

2.    Um ato de Fidelidade. A Deus e a à criança. À Deus porque, embora sem ira ou raiva, o pai administra a vara em obediência a Deus. À criança porque esta é uma expressão de amor e compromisso. O que a criança vê em seus olhos quando você bate nelas? Lágrimas ou ira? Por amor derramamos lágrimas porque almejamos bem maior para nossos queridos.

3.    Uma responsabilidade. Pai e mãe não decidem a hora de bater, Deus sim! Quando um pecado precisa ser punido, a vara tem seu lugar. Quando usam a vara, os pais atuam como representantes de Deus, assumindo o seu chamado como pais.

4.    Uma punição física. “A vara é o uso cuidadoso, oportuno e controlado da punição física”, nunca deve ser uma forma de extravasar e externar a ira ou a frustração dos pais. Por não causar prazer é um antegosto do resultado final de uma atitude que pode trazer mais sofrimentos do que algumas palmadas podem proporcionar.

5.    Uma missão de resgate. “A criança que precisa de uma surra tornou-se distante de seus pais pela desobediência”, e a correção desta insensatez aproxima. Sabemos que a opinião dos “especialistas” caminha da direção contrária. Mas não é assim que Deus nos aproxima dele, corrigindo-nos?

 

A vara não funcionará se for usada de modo inconsistente, inconstante, ou como forma de expressar os sentimentos pecaminosos dos pais, como frustração e ira. Mas é um santo remédio para que os filhos cresçam obedientes, amáveis e educados.

Jônatas Abdias

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O uso da Escritura Sagrada pelo conselheiro bíblico – uma experiência fundamental.

imagesTenho a impressão de que o aconselhamento pastoral tem sofrido em dois aspectos. O primeiro aspecto ocorre em relação ao fascínio pelas ciências sociais, especialmente em relação a psicologia secular, que apresenta e imprime uma visão antibíblica na mente e no coração de muitos pastores acerca da estrutura do ser, em detrimento do que informa a revelação bíblica sobre o ser.

 

Como tenho outro interesse neste artigo, pretendo resumir os principais aspectos da psicologia secular, pelos fatos que seguem:

 

         1. Considera o homem essencialmente bom, sendo o meio o agente corruptor de suas almas;

         2. Possui uma interpretação subjetivista sobre bem e mal, certo e errado, verdade e mentira;

         3. Afirma, tacitamente, não haver outra forma de compreender o ser humano, senão pelas ferramentas que apresenta;

         4. Repudia a ideia da culpa, alegando ser a culpa uma espécie de patologia religiosa;

         5. É essencialmente evolucionista (darwinista).

 

Reconhecemos os avanços e a validade da ciência médica e da pesquisa biológica como aplicação para genuínos problemas orgânicos. Entretanto, há preocupação quando a psicologia secular retira qualquer outra possibilidade de atender aos dilemas morais de qualquer outra fonte que não seja ela mesma.

 

Todos estes aspectos ditatoriais da psicologia não deveriam surpreender ninguém que esteja lendo ou estudando sobre o assunto. O que me surpreende é o rápido avanço da psicologia secular, a moldar toda uma cosmovisão de cristãos que se deixaram seduzir pelo sistema filosófico da psicologia.

 

E é disto que se trata este artigo. Observar o avanço da cosmovisão psicológica secular em detrimento do que as Escrituras Sagradas ensinam.

 

Segundo uma ordem cronológica mais adequada, penso que, em primeiro lugar, o que aconteceu foi um empobrecimento ou esquecimento da riqueza, do poder e da sublimidade da revelação especial, que é a Palavra de Deus. E, uma vez que a Palavra de Deus foi sendo relegada, o terreno estava, não apenas preparado, mas abandonado, a espera do preenchimento de algo.

 

Quando vejo a multiplicação de cursos preparatórios para futuros conselheiros nas igrejas, usando essencialmente psicologia secular ou mesmo usando a psicanálise, prometendo e apresentando as ferramentas adequadas para ler o coração do homem e encontrar respostas para seus dilemas morais, deveríamos perguntar: então, qual a validade da Palavra de Deus? Será ela ainda suficiente ao homem pós-moderno?

 

Veja que nosso maior problema não é a ampliação da psicologia secular na igreja, mas um abandono lento e sistemático da Palavra de Deus. Entendo que o avanço da cosmovisão psicológica é um sintoma e não a causa.

 

Sendo assim, como deve ser usada a Escritura Sagrada no aconselhamento? Em primeiro lugar, o cristão conselheiro deve compreender claramente a Palavra de Deus, sua veracidade, seu poder, sua autoridade e sua aplicabilidade. Deve saber que de fato e de verdade, a revelação especial de Deus é suficiente. Ele deve amar a Palavra de Deus. O conselheiro deve, antes de qualquer outra pessoa, ser corrigido, confrontado, consolado, instruído e desafiado pela Palavra de Deus como sua experiência pessoal. Ele deve saber pessoalmente que há um caminho sobremodo excelente pela Palavra. Ele deve ser confrontado pela Palavra. Sua consciência deve ser confrontada com a Palavra. O conselheiro cristão deve saber que a Palavra de Deus é a única ferramenta capaz de “discernir os pensamentos e os propósitos do coração”(Hebreus 4.12).

 

O conselheiro deve ter a experiência cristã, produzida pelo Espírito de Deus, de ser consolado pela Palavra de Deus em tempos de aflição, quando estiver se sentindo solitário, quando estiver com dúvidas cruciais na vida, quando os dilemas morais aparecerem, quando for tentado a abandonar o amor a Deus e quando for tentado a amar a si mais do que a Deus.

 

O conselheiro cristão deve saber usar a Palavra de Deus para si antes de usá-la para outros. Deve aprender sobre a história da Palavra de Deus, como ela foi preservada ao longo de todos estes séculos “para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo... (Confissão de fé de Westminster, I. 1.)"

 

O conselheiro cristão deve ter tido a experiência de ser transformado pela Escritura Sagrada e de estar sendo moldado, segundo “a mente de Cristo” (1 Coríntios 2.16). Deve também ser treinado na arte de submeter a mente e o coração, ou seja, submeter a vontade, as faculdades à Palavra de Deus. Deve fazer uso das Escrituras Sagradas para ler corretamente o mundo e o homem em seus caminhos.

 

Deve aprender com o salmista a exclusividade do coração, referente a Palavra de Deus e poder dizer “Quanto amo a tua lei! É a minha meditação, todo o dia!” (Salmo 119.97.

 

Se a grande questão é usar ferramentas para ler, interpretar e compreender adequadamente os dilemas do ser humano, que o conselheiro cristão seja de fato fascinado pela perfeita Palavra de Deus e use-a para aproximar-se de Deus e, depois, saberá o caminho para dizer e ajudar outros a seguirem pelo mesmo caminho.

Jean Carlos Serra Freitas

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Quem ama educa... mas não com palmada! Será?

lei da palmadaO ano passado terminou como testemunha de leis e decisões aprovadas que só concorrem para o avanço do declínio moral de nosso país, como, por exemplo, a decisão do Supremo Tribunal em reconhecer como núcleo familiar com plenos direitos a união homossexual, Sobre isto houve muita manifestação do povo evangélico no país deixando claro a sua postura contrária.

 

Mas, recentemente, outra coisa aconteceu: Uma lei que machuca mais que palmadas foi aprovada por unanimidade. Quando a unanimidade em torna desta decisão acontece, e sabendo que dentre os votantes estava o líder da bancada evangélica, nos resta pouco a fazer, além de lamentar e arregaçar as mangas, prontos para a desobediência civil.

 

Mas antes, uma palavra sobre a questão. Por quê? Porque o universo evangélico não está se mobilizando em torno da questão. Isto pode ser uma evidência de que concordam com a indigna lei e esperam que seja aprovada pelo Senado.

 

Esta deplorável opinião, certamente, é sustentada por alguns evangélicos. Um exemplo é o da famosa “Super Nanny”, Cris Poli. Na condição de celebrada psicóloga da educação afirmou: “Eu não acredito em palmada educativa. Ele é uma invenção que não sei de onde saiu, acho que veio para justificar o fato de bater na criança e que foi colocado como um processo de educação... Eu vejo que bater, mesmo que seja a tal palmada pedagógica, é uma coisa violenta, por mais que os pais digam que não faz mal, ninguém gosta de receber um tapa, nem mesmo um adulto”. Piorando uma situação que já se mostraria ruim, o (a) repórter já fazia a chamada da matéria dizendo que “Evangélica, Cris Poli não faz ­alarde sobre sua fé, mas sabe que por meio de seu trabalho pode ensinar os princípios do Reino de Deus para as famílias, fazendo com que voltem a experimentar os planos do Senhor”. Talvez este seja justamente o problema: os evangélicos não fazem alarde de sua fé.  Cômico se não fosse trágico! Por quê? Explico a seguir.

 

Como pode alguém desejar ensinar os princípios do Reino de Deus, e negá-los simultaneamente? Como alguém quer ensinar os princípios do Reino de Deus se não os conhece? Ela, bem como muitos evangélicos possuem uma verdadeira ignorância bíblica sobre o assunto. Não saber de onde saiu? Muitos já responderam[1], e nós fazemos coro: da Bíblia!

 

Mas, para que você não venha a cair neste engano, vamos tratar a questão diretamente. A Bíblia fala sobre correção física? Sim, e muito! Diz, por exemplo, que Deus é como um pai para nós, e por isso nos corrige (Hb 12.6-7), o faz por amor, provando que a disciplina, que inclui a correção física, é uma prova de amor. De fato, o contrário, ou seja, não corrigir fisicamente, é uma prova de falta de amor. Mas é claro que o mundo e Satanás querem que você pense o contrário, afirmando que amar um filho é mimá-lo até não poder mais... Caso restem dúvidas que o exemplo de Deus como pai em Hebreus trate “vara”, repare em: “açoita a qualquer que recebe por filho”.

 

A Escritura também fala que a correção física é um veículo para afastar a congênita (que nasce com...) estupidez do coração da criança (Pv 22.15). Também fala dos efeitos eternos que a correção, ou a falta dela, podem ter ao longo do tempo (Pv 22.13-14), dizendo que a vara da disciplina livra a alma do disciplinado do inferno e da morte. Contudo, há uma clara proibição: Nada de exageros! Confira:Castiga a teu filho, enquanto há esperança, mas não te excedas a ponto de matá-lo” (Pv 19:18).

 

Curiosamente, mesmo diante de tantos textos bíblicos ainda há quem diga ser cristão e posiciona-se contra a “palmada”. Vangloriam-se de nunca haver “batido” nos filhos, ensinam que assim não se faça e reprovam os que insistem na prática. Aqui é necessário dizer que em nenhum momento se está defendo qualquer tipo de agressão. Repare que há quem nunca tenha levantado a mão para seu filho, mas o agride verbalmente e abandona das mais variadas formas. Uma e outra coisa está errada, tanto agressão física, verbal e abandono, quanto à ausência de disciplina física, e mimos a despeito do erro.

 

Para que não sejamos tidos por ignorantes, vale a exortação: “se você, como muitos pais cristãos que conheço, disciplina fisicamente seus filhos sem ministrar a Palavra simultaneamente, você não está disciplinando biblicamente” (Lou Priolo, Caminho para seu filho andar, pág. 141).

 

Finalizamos este post afirmando uma última coisa: Os cristãos não disciplinam fisicamente seus filhos porque seus pais assim o fizeram e deu tudo certo no final (a prova somos nós!). Pensar assim seria pragmatismo, ou seja, porque entendemos que alguma coisa deu certo, então será certa. Não! Os cristãos corrigem e açoitam os filhos que tanto amam porque é mandamento bíblico. A regra de PRÁTICA da vida de um cristão é a Palavra de Deus e não os exemplos dos pais ou a prática dos antigos, por mais adequada, certa e benéfica que sejam. A motivação correta para disciplinar um filho começa com a obediência a Deus. Passa pela demonstração de amor e cuidado, e alcança os fim supremo da salvação do filho e a educação dele para a glória de Deus.

 

Mas, então, como disciplinar fisicamente, sem agredir? O que é e como deve ser ministrada a disciplina e o castigo físico é o assunto da próxima pastoral.

 

JAM

 

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