terça-feira, 24 de julho de 2012

O maravilhoso conselheiro e a parábola do filho pródigo

O rapaz entra no gabinete pastoral entristecido por ter se visto pelo espelho da Palavra de Deus. Suas lágrimas atestam de sua dor. "Pastor, precisamos conversar... eu não presto, eu não sou a  boa pessoa que todos pensam que eu sou...". A resposta do pastor pode parecer chocante à primeira vista, mas reflete um detalhe encontrado na história do filho pródigo. "Sim, meu caro, vamos conversar" - responde o pastor; "Afinal, você é um bem-aventurado, porque existem muitos que nunca chegam a se verem como realmente são, e não é o seu caso. É claro que este descobrimento, de primeira, não nos parece bom, mas você verá que ele abre as portas para o universo maravilhoso da graça de Deus".


A parábola do filho gastador ou pródigo, está registrada no evangelho de Lucas 15.11-32. Nela o Senhor Jesus conta a história de um rapaz que, sendo o filho mais moço, pede adiantado sua parte da herança. Alguns entendem que a atitude do filho era o equivalente a considerar o pai como morto. De qualquer forma, é claro para qualquer leitor, independente da época ou cultura, que o filho faltou com respeito para com seu pai. Seu desejo era se ver livre do que ele considerava serem amarras, e viver sua vida "intensamente".


A aventura durou muito pouco, e logo ele estava faminto e humilhado. Naquela lamentável situação ele se deu conta de seu estado, e o Senhor Jesus retrata seu arrependimento da seguinte forma: "Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Levantar- me- ei, e irei ter com o meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata- me como um dos teus trabalhadores" (Lucas 15:17-19). O que é importante notar aqui é a maneira como Jesus constrói a parábola. Jesus é o narrador e autor, ele descreve a cena, direciona o enredo e determina os diálogos. A primeira pergunta que levanto para nossa reflexão é "por que o Senhor Jesus nos fez saber o que o rapaz pensou e ensaiou dizer a seu pai?". Entendo que esta é uma pergunta importante a ser feita, pois mais à frente vemos o rapaz cumprindo, pelo menos em parte, o que intentou fazer quando ainda estava distante do lar.


A narrativa segue, e somos supreendidos com o amor gracioso daquele pai que, avistando o jovem de longe, correu ao seu encontro. É notável que esta tenha sido a reação do pai, uma vez que, mesmo em nossa cultura, conhecida pelo seu caloroso trato e jeito alegre, teria dificuldades em agir de forma tão afável diante do acontecido no passado. Mais notável, porém, é a tentativa do filho mais moço em falar aquilo que havia ensaiado, e o lugar em que Jesus interrompe a fala do jovem. Repare na sequência da narrativa: "E o filho lhe disse: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. O pai, porém, disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, vesti- o, ponde- lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei também e matai o novilho cevado. Comamos e regozijemo- nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado. E começaram a regozijar- se (Lucas 15:21-24).


Enquanto estudamos esta parábola, e mais especificamente estes detalhes que são aqui salientados, é importante lembrar que Jesus está, todo o tempo, controlando a dinâmica da história. Observe o seguinte: O jovem planejou dizer a seu pai que houvera pecado gravemente (contra o céu e diante de ti); também planejou dizer que diante deste fato ele perdera o direito de ser reconhecido e honrado como seu filho e então, no terceiro momento, implorar que fosse tratado como um dos servos trabalhadoes, pois este tratamento ainda seria melhor do que o que estava recebendo longe do lar. Mas quando ele e seu pai se encontram, apenas os dois primeiros momentos de fato acontecem, e o pai interrompendo a emocionante confissão do filho pródigo, conclama seus servos a que o tratem justamente da forma que o filho sabia que não deveria ser tratado.


Por que Jesus não permitiu que a confissão do jovem seguisse até o fim? Ou então, por que o Senhor não colocou nos lábios do pai o que é tão corrente hoje em nossa cultura globalizada, ou seja, uma palavra de ânimo e exaltação da estima? Os leitores do século 21 não ficariam chocados se o pai dissesse alguma coisa como: "Que isso, filho... não diga uma coisa dessas. Não foi pra tanto! Deixemos o passado para trás", ou então "Mas que baixa auto-estima é essa? Você sempre será o meu filho, não importa o que aconteça!". Curiosamente, Jesus deixa somente a parte final da confissão de fora, embora nos tenha privilegiado com a informação de que haveria mais a ser dito. Seria isto sem propósito? Creio que não. Creio que o silêncio do pai com respeito ao que disse o filho é revelador: É a concordância implícita do pai com relação às palavras ditas pelo jovem e tolo filho. Mas é também um gesto de amor e carinho, pois Deus não jogará na cara do pródigo uma verdade que já dita e reconhecida. A experiência pela qual o filho passou foi útil para que ele reconhecesse sua real condição, de indignidade. O retorno, porém, deixa claro ainda outra coisa.


Conquanto a atitude do jovem no começo seja em muito similar à de alguns filósofos que gritam uns para os outros que Deus morreu, o Pai deixa bem claro que o motivo da festa era que o aquele filhos estivera perdido e foi achado, estava morto e reviveu. Quando agimos como se Deus não existisse, ou fazemos como se estivesse morto, de fato quem morreu foi outrem. O filho não era só pródigo, era indigno e morto.


Estes detalhes que nem sempre atentamos quando lemos esta maravilhosa parábola revelam a maneira como o maravilhoso conselheiro nos ensina a aconselhar:


1) Se o aconselhado percebeu sobre si alguma realidade, ainda que seja a desesperadora indignidade de não merecer ser chamado de filho, não negue, não diminua a descoberta. As experiências pelas quais Deus nos faz passar são pedagógicas e servem aos seus propósitos santos e soberanos de nos revelar o seu amor e graça àqueles que não podem exigir nada, senão confessar seu verdadeiro estado de miséria espiritual (Mt. 5.3). Se negarmos a confissão, ou diminuirmos o seu peso, impedimos a maturidade espiritual do aconselhado que o faz cantar em coro com o salmista: "Foi- me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos" (Sl 119:71).


2) Seu silêncio fala. O conselheiro deve procurar exercitar a sensibilidade e perceber a ora de se calar. Tal como o pai fez, o silêncio na hora certa faz com que o aconselhado perceba por si só algo que bem poderia ser dito, mas a descoberta pessoal apresenta algumas vantagens, dentre as quais ressaltamos duas: a descoberta pessoal é revestida de um caráter indelével na memória. Uma coisa é aprender por ouvir, outra bem diferente é aprender por descobrir... é importante levarmos em conta que Deus nos fez à sua imagem, e isto significa que pessoas são inteligentes (por mais que algumas vezes algumas pessoas desafiem grandemente esta máxima). E a segunda questão é que o silêncio revela amor, candura e graça. Tal como Deus, que não nos humilhará além do necessário, nem lançará no nosso rosto nossas misérias, o conselheiro, tampouco, o precisa fazer.


3) Uma lição teológica final: O pai tratou o filho indigno como filho, mesmo quando seu desejo era ser tratado como um de seus trabalhadores. O filho sabia que o tratamento que o pai dava aos menores dos seus servos ainda seria melhor do que o tratamento que ele recebia das mãos do "mundo". Mas Deus, que é rico em graça, retratado ali pelo pai, nos é revelado como o Deus de toda a graça. Ele nunca deixará de tratar como a um filho aquele que se aproxima arrependido. Esta é uma nota de esperança e graça que pode e deve ser abundantemente derramada sobre o aconselhado que se arrepende. Deus o aceitará, o revestirá e festejará, pois ali está, na parábola ou no gabinete, um filho que estava perdido e foi achado, estava morto e reviveu!

Jônatas Abdias

Reações:

5 comentários:

Ivo Tavares disse...

Excelente, muito edificante!!

Junior Borges disse...

Observações riquíssimas. Me fez lembrar que a Palavra de DEUS é muita rica!

Junior Borges disse...

Excelentes observações! Úteis e edificantes. Me fez lembrar a riqueza da Palavra de DEUS! Obrigado!

Junior Borges disse...

Excelentes observações. Úteis e edificantes. A Palavra de DEUS é sem igual!

Junior Borges disse...

Excelentes observações. Úteis e edificantes. A Palavra de DEUS é sem igual!

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