terça-feira, 7 de julho de 2015

Por que eu deveria preferir o aconselhamento bíblico a outras alternativas? – Parte 1

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No que diz respeito ao aconselhamento cristão, tivemos um renascimento no século passado. Seu protagonista principal foi o pastor norte-americano Jay Edward Adams. Como todos antes dele, o início de seu ministério foi uma busca pelas técnicas e entendimentos que a ciência do comportamento providenciava. Depois de muitos anos em busca delas, havia chegado a hora dele dar algumas respostas, e isto aconteceu quando o dr. Adams foi convidado para lecionar no Seminário de Westminster. Adams desafiou-se a si mesmo em busca de respostas que viessem das Escrituras Sagradas. Como pastor, dominicalmente ele subia ao púlpito para pregar, e com isso, publicamente ensinava o que o povo de Deus deveria crer e como deveriam reagir aos estímulos da vida; e entendeu que aquelas respostas pastorais poderiam ser sistematizadas no aconselhamento particular. Seu livro "Conselheiro Capaz" reuniu suas primeiras descobertas sobre o tema, e trouxe muita movimentação para um campo que aparentemente viva certa paz. O tempo e o desenvolvimento do que ficou conhecido como "aconselhamento Noutético" provou que aquela paz revelava-se tanto enganosa quanto negligente. Os pastores haviam deixado de oferecer respostas bíblicas à igreja e às pessoas em geral, deixando que estas fossem dadas por "pastores seculares de almas".

Essa expressão foi cunhada por Sigmund Freud. Ele cria que a psicanálise seria o instrumento de correção dos instintos naturais abrigados no homem, que o conduziria à uma vida mais civilizada e possível. Felicidade não era bem um alvo, visto que em muitos casos, o que Freud cria ser um objetivo possível era tão somente "baixar" a níveis suportáveis a dor, a ansiedade e as neuroses. O efeito de suas publicações e suas ideias aparentemente geniais foram aceitas quase que generalizadamente, e o uso praticamente incorporado no cotidiano de um vocabulário eivado de "psicologismos", seria o resultado quase um século depois.

Com o renascimento do interesse em aconselhamento bíblico, a discussão agora considerava o que era visto como um "avanço" do entendimento do homem e seus problemas, realizado pela psicologia.

Diferente da psicanálise, mas influenciada por ela, a psicologia se propunha ser uma ciência que entendia dos mecanismos da mente humana. Seu primeiro desafio foi provar-se uma ciência, pois tanto seus métodos como seus resultados não podiam ser verificados ou reproduzidos em laboratório, ou confirmados por leis naturais, sendo dependente da experiência comum da interação social e sua identificação subjetiva. A insistência parece ter ajudado no salto que a firmou como a ciência do estudo do ser humano, que não só o entendia, mas propunha soluções. Se tivesse permanecido em seu campo observacional, até que poderíamos derivar de suas observações algum benefício, mas alguns problemas se colocam no caminho:

1. Quando se trata da psicologia secular, estamos falando de observadores afetados pelo pecado, observando pecadores afetados pelo pecado.

2. Também estamos falando de conclusões que são profundamente influenciadas pela disposição do coração na análise do resultado final.

3. Não há qualquer consideração metafísica ou espiritual que corrija os rumos das conclusões, porque cada escola de psicologia se firma em bases distintas e cosmovisões conflitantes.

Não precisamos descartar por completo as observações da psicologia, como não descartamos por completo as observação do mundo natural que foram feitas por engenheiros, físicos, linguistas ou químicos que não temiam a Deus. Mas há que se fazer uma diferenciação importante: ao longo da história da ciência, houve muito mais cientistas tementes a Deus, cujo objetivo era entender o que tinham diante de si, de tal sorte que o resultado fosse um conhecimento mais profundo do Criador e como sua sabedoria se manifestava. A psicologia nasce num abismo gerado pela ausência de respostas pastorais, cujo interesse não só era providenciar entendimento, mas oferecer uma alternativa ao trabalho do "ministro religioso".

De qualquer forma, as observações da psicologia ajudam se resguardamos a "soberania da fé cristã revelada na Escritura como o elemento crítico da sua validade" (Gomes, 2004, pag.9). Como isso se dá, e como é possível, veremos noutro post.

Por hora, é importante enfatizar que quando saímos em busca de ajuda para o tratamento dos problemas que afetam nossa alma, nossos relacionamentos, e nossa visão de mundo, é importante considerar o que foi disposto acima com cuidado. Permita-me ilustrar: Eu tenho miopia, mas me incomodo com usar óculos. Prefiro lentes, não só pelo resultado estético, mas por uma série de confortos que considero bons. Mas até o uso de lentes, com o tempo, tende a "cansar a beleza". Resolvi buscar alternativas, como uma cirurgia de correção. Já no oftalmologista, conversávamos sobre a cirurgia, seus efeitos e riscos. Eu estava para ser convencido quando me dei conta de que o oftalmologistas usava um óculos. Minha pergunta parecia obvia: "Se a cirurgia é tão boa e tão segura, por que é que o senhor não a fez?" Ao que respondeu: "Não confio nos oftalmologistas, e como os conheço bem, não os deixaria tocar nos meus olhos". Sabe o que aconteceu comigo? Continuo usando meus bons e velhos óculos.

Às vezes, o que parece ser uma alternativa interessante, viável e até melhor, pode ser no fim, um grande perigo. Eu ainda pretendo fazer a cirurgia, mas ainda não encontrei alguém em quem confiar, para pôr as mãos nos meus olhos. Se alguém se propõe trata minha alma, o cuidado é redobrado.

Jônatas Abdias

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