terça-feira, 18 de agosto de 2015

O fariseu e sua touca: a luta constante contra o legalismo

O texto de Lucas 18 contém duas parábolas fascinantes, dentre elas a conhecidíssima passagem do Fariseu e do Publicano que sobem ao templo para orar. Exemplos opostos de uma realidade facilmente verificável, cada um apresenta sua oração no templo. Prontamente percebemos que eles não ofertam suas orações para o mesmo destino: Jesus ao contar a parábola deixa claro que enquanto o publicano suplicava por uma imerecida propiciação, dirigindo sua oração a Deus, o fariseu o fazia "de si para si mesmo". O resultado foi que o publicano sai justificado, e quem se achava justo só fez ajuntar mais um bocado de culpa na bagagem. Nem sempre temos a "ajuda pedagógica" que esta parábola, em específico, nos dá. O evangelista introduz as palavras de Jesus explicando seu propósito: "Propôs também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezarem os outros" (Lc 18:9). 

Uma palavrinha sobre legalismo

Esta é precisamente uma descrição do legalismo: A ênfase na forma e a consequente desatenção ao conteúdo nos impede de ver a touca da confiança em nós sendo deixada na pia do nosso próprio coração, nos levando ao foco no (erro) próximo, e na comparação resultante com as boas obras que possamos apresentar diante de Deus, unido ao insensível desprezo pelas dificuldades e pecados dos "demais". O legalista se vê condescendentemente no que diz respeito aos seus "deslizes morais", mas confiante quanto à sua guarda da lei. Mas seus olhos e julgamento são rápidos em condenar os que estão ao alcance de seu radar de comparação. Mas antes de prosseguir, dois avisos. Primeiro, não se esqueça de que o legalismo assume inúmeras formas, desde as mais evidentes, até as mais discretas, como abordarei em seguida. Segundo, que esta é uma luta que todos travamos, e ninguém está isento de se ver na pele do fariseu.

Que história é essa da touca?

Ah, essa parece até ser outra história. Digo "parece" justamente por conta de nossa dificuldade de ver nos momentos comuns da vida, aquilo que Jesus via, e buscar aprender deles e neles. A história da touca começou na hora do banho. Não sendo o dia para lavar os cabelos, cada filha tinha que, em seu momento, colocar sua touca para proteger-se da água, mas colocá-la no devido lugar após seu uso. Quando a filha mais velha entrou para se banhar, não pode se conter ao ver a touca da irmã na pia, e prontamente comentou com a mãe sobre o ocorrido. Em sua voz não havia o costumeiro tom de reclamação, mas o despretensioso tom do comentário de quem subia farisaicamente para orar: Graças eu dou, ó mãe, porque não sou como as demais irmãs ...

Mas eis que, já tendo as crianças banhadas, e a máquina de lavar roupas cumprida sua missão, a mãe resolveu ir conferir o resultado. Talvez aqui seja um bom momento para explicar que pela pequenez do apartamento e a vida sob a influência de uma cultura britânica, a máquina de lavar roupas não só fica no banheiro, como a água que usa para lavar a roupa, após seu uso, é despejada na pia. Pode parecer estranho, mas Deus sabia o que estava fazendo, pois a touca do fariseu estava lá, na pia, curiosamente ocupando o lugar da touca anterior, só que no momento errado. Numa sequência de acontecimentos desastrosos, a touca é deixada, a máquina despeja sua água, a pia transborda, e o banheiro tem seu chão molhado. A ironia aparece e apresenta quem falava da touca alheia, agora tendo que tirar a própria touca da pia, e ainda tendo que enxugar o chão.


Legalismo sempre esconde pecado

Não interessa quantas vezes isso seja dito, esta é uma verdade que continua sendo necessária ser repetida. Quando nos comparamos uns com os outros, e os medimos com a régua da nossa lei, facilmente nos veremos maiores e melhores. Enquanto não chega a nossa vez, e nenhum teste é realmente aplicado, confortavelmente criticamos de longe a touca do próximo. De exemplos pueris a pecados escandalosos , o legalismo ainda é a técnica mais comum para esconder a feiura do coração pecador e orgulhoso. A casca do legalismo fragilmente protege um ovo podre. O Senhor Jesus aqui não quer nos dar um retrato falado do fariseu de touca, para que ele seja desmascarado no próximo, antes está fazendo uma touca que cabe em qualquer cabeça. Que reação temos quando percebemos que deixamos a touca no lugar errado e as consequências escorrem pelo chão? Enquanto usava o acontecimento do dia para ilustrar o texto, expliquei que não resolvemos o problema desligando a luz do banheiro e fechando a porta. Lidamos com a touca como lidamos com o pecado. Tiramos a touca pecaminosa da pia da vida, para que a redenção absorva as águas sujas do mal. Limpamos as consequências dentro do possível, e não negamos o ocorrido: aprendemos com ele, mas aprendemos daquele que nos ensina em sua Santa Palavra. E o arrependimento nos conduz a não mais esquecer a touca na pia outra vez.

Redenção para fariseus e publicanos

Como todas as demais histórias, a que Jesus contou também apontava para ele. Sua morte na cruz trouxe perdão e redenção para o pecador arrependido que consciente de sua deplorável situação, clama por uma misericórdia que ele sabe que precisa, mas não merece. O publicano é um retrato daquela que sabe que sem a orientação do pai, deixará a touca na pia novamente. E sua oração reflete a aflição de quem sabe as consequências: "Sem ti, ó Deus, eu nem banho sei tomar. Me ajuda a pôr e a tirar a touca, e sair limpa..." Quando falamos de toucas, pode parecer coisa pequena, mas quando a touca do pecado tampa o escape da redenção, as águas das consequências transbordam.

Pondo a "touca de molho" no aconselhamento

Conselheiros e aconselhados lida e lutam com o legalismo, na vida e na sessão de aconselhamento. Não podemos abordar o publicano diante de nós como se nós estivéssemos em posição melhor. Todos somos ou fariseus legalistas precisando de arrependimento, ou publicanos arrependidos precisando de compaixão. Tanto um como outro, precisam de redenção, precisam dar ouvidos e a vida ao Redentor. Isto é o equivalente a dizer que quer você seja o conselheiro ou o aconselhando, você precisa de Jesus Cristo. Portanto, atenção à nossa touca legalista que impede de quebrantar os endurecidos e nos compadecer dos fragilizados.

Jônatas Abdias

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