terça-feira, 25 de agosto de 2015

Príncipe da Paz, mas também, homem de guerra

20040816Você já parou para pensar que aquele que é chamado na Bíblia de “Príncipe da Paz” (Is 9.6) e que disse a seus discípulos “deixo-vos a minha paz, a minha paz vos dou” (Jo14.27) é o mesmo que afirmou: “Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra.” (Mt 10.34)?

Como pôde o Senhor Jesus fazer afirmações aparentemente tão contraditórias? Como harmonizar essas duas declarações?

Quando Deus criou o primeiro casal à sua imagem e semelhança (Gn 1.26-28) e colocou-os no jardim do Éden havia paz. O homem obedecia ao seu Senhor e gozava de intimidade e comunhão com ele. Mas para que isso perdurasse, era necessário que o homem continuasse em obediência. Enquanto confiaram na bondade do Senhor isso ocorreu, mas a partir do momento em que deram ouvidos à voz da Serpente, que colocava em dúvida essa bondade, afirmando que a proibição de comer o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal se dava pelo fato de Deus não querer que eles fossem como ele, conhecedor do bem e do mal (Gn 3.5), desobedeceram.

A mulher comeu do fruto e deu ao seu marido que também comeu. A partir de então, com o pecado, a sentença de morte que havia sido anunciada por Deus, caso eles desobedecessem, foi efetuada. O homem morreu espiritualmente, não tendo mais comunhão com Deus e estando separado dele por causa do pecado (Is 59.2). Mais à frente viria ainda a morte física, como consequência também da queda e, após essa, a morte eterna que é a justa ira de Deus sobre o homem que lhe deu as costas (Jo 3.19).

Diferente do primeiro cenário, de paz, o que impera agora é a guerra. O homem é agora inimigo de Deus e antes que você pense que não tem nada a ver com essa guerra, lembre-se de que Paulo afirma que o homem é por natureza filho da ira de Deus, morto em seus delitos e pecados, nos quais andam segundo o curso desse mundo (Ef 2.2-3).

Pura e exclusivamente por sua graça, o Senhor resolveu que iria redimir o homem. Ao amaldiçoar a serpente ele afirmou que haveria inimizade (guerra) entre a descendência da serpente e o descendente da mulher e que este descendente esmagaria a cabeça da serpente, a despeito de ser ferido no calcanhar (Gn 3.15). Esse é o primeiro anúncio acerca do Redentor, Cristo Jesus.

Foi na cruz do Calvário que o Senhor Jesus recebeu a justa ira do Pai a fim de estabelecer a paz. Ali ele tomou sobre si a dívida que era dos eleitos e, com sua morte, satisfez toda a justiça de Deus. Ainda mais, a sua justiça é atribuída a todo aquele que crê no evangelho que anuncia essa boa notícia ao revelar a justiça de Deus (Rm 1.16-17)! Àqueles que creem o apóstolo Paulo anuncia: “justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 5.1).

Foi nesse sentido, então, que o Senhor Jesus afirmou: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (Jo 14.27). O sacrifício de Cristo em favor dos seus satisfez plenamente a justiça de Deus e reconcilia com o Pai aqueles que, sendo por natureza filhos da ira (Ef 2.2), passam a ser filhos de Deus, ao crerem no nome de Jesus como afirmou o apóstolo João (Jo 1.12). Em relação a Deus, não há mais guerra!

Resta ainda entender a afirmação de Jesus de que não veio trazer paz, mas guerra, e creio que agora fica mais simples de se compreender. Deus havia dito à serpente que haveria inimizade entre a sua descendência e o descendente da mulher. O homem sem Cristo, que por natureza é filho da ira, conforme Paulo, ou, nas palavras de Jesus, que tem por pai o diabo (Jo 8.44), não é inimigo apenas de Cristo, mas também daqueles que, pela fé, fazem parte do seu reino. Como afirma Carson, “o mundo rejeitará tão violentamente a ele [a Jesus] e seu reino que os homens e as mulheres se dividirão em relação a ele” (Comentário de Mateus).

Isso fica evidente já no livro de Gênesis, quando Caim mata seu irmão Abel e é corroborado no Novo Testamento pelas palavras de João. Quando ele ordenou que os irmãos amassem uns aos outros, advertiu, “não segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão; e porque o assassinou? Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas” (1Jo 3.12). O apóstolo já havia dito no começo do mesmo capítulo que o mundo não nos conhece, da mesma forma que não conheceu ao Senhor Jesus, exatamente pelo fato de sermos filhos de Deus (1Jo 3.1).

Haverá um dia, porém, em que a serpente será derrotada de uma vez por todas. Quando a igreja de Roma sofria com os falsos mestres, instrumentos de Satanás para provocar divisão entre eles, Paulo afirmou: “E o Deus de Paz, em breve, esmagará debaixo dos vossos pés a Satanás” (Rm 16.20) numa clara alusão à guerra anunciada em Gênesis 3.15. Não é à toa, então, que a Escritura se refira ao Deus de paz também como “o Senhor é homem de guerra; Senhor é o seu nome” (Ex 15.3).

Naquele dia a paz estará plenamente estabelecida para os que creem. Para os que não creem, entretanto, a advertência do salmista continua a ecoar: “Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no caminho; porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira. Bem-aventurados todos os que nele se refugiam” (Sl 2.12).

Que o Senhor conceda paz a você!

Milton Jr.

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