terça-feira, 22 de setembro de 2015

A graça de Deus no sofrimento

Aqueles que dizem não gostar de teologia se rendem diante de um grande livramento afirmando coisas do tipo: Deus é bom; ou, não existem coincidências e sim, providência; ou ainda, em lágrimas, afirmam que Deus é soberano.

Há uma péssima e falsa teologia chamada teologia da prosperidade que vende uma mensagem triunfalista aos cristãos. Esta falsa teologia afirma que basta exercitar a fé para que a dor, o sofrimento, o desemprego, as doenças e qualquer outra realidade difícil, seja superada pelo uso da fé. Desta forma, considera-se qualquer sofrimento algo antinatural, antibíblico ou satânico.

Vez por outra quando preciso passar pelo assunto, ou, explicar a alguém os problemas encontrados nesta falsa teologia, há a seguinte indagação: “essa não é mais a onda do momento”. Os que pensam assim, parecem ignorar o estrago que essa falsa teologia provocou e como ela conseguiu tornar-se uma cultura ruim estabelecida. Afinal, quando conversamos com as pessoas, cristãos de diversas denominações, em sua grande maioria não conseguem apresentar uma resposta bíblica, um propósito bíblico para um fato que aflige cristãos e não cristãos, que é o sofrimento e todas as suas implicações.

Será que a Bíblia se pronuncia sobre este assunto? Posso encontrar algo na Palavra de Deus para me orientar, mesmo que seja confrontador? Será que há um propósito para a dor, angustia, morte, tribulações e sofrimento? A resposta é um altissonante sim. Não estamos desamparados em meio ao sofrimento. A Palavra de Deus tem muito a nos dizer sobre o sofrimento e como devemos encará-lo.

Ao falar sobre o sofrimento, à luz da Palavra de Deus, precisamos lembrar pelo menos três marcas essenciais: autoridade, inerrância e suficiência. E por que esta lembrança? Pelo fato de muitos cristãos ignorarem ou desconfiarem da Palavra de Deus, gerando motivação para procurarem recursos ímpios e seculares para tratar do sofrimento.

A resposta e orientação da Palavra de Deus é melhor o melhor recurso. Melhor do que qualquer outro recurso criado pelos homens, cujo intento é o de afastá-los cada vez mais de Deus.

Crer de todo o coração na Palavra de Deus é uma maravilhosa e segura jornada.

Dito isto, vejamos o que a Bíblia tem a nos dizer sobre o sofrimento e como Deus o usa em benefício dos seus filhos.

Em primeiro lugar, precisamos entender que é natural, neste estado de pecado em que nos encontramos, haver dor, angústia, morte e sofrimento.

A queda de Adão e Eva inauguraram este estado. Por meio dos nossos primeiros pais, o pecado entrou no mundo, pela desobediência a Deus, e desde então, neste estado de pecado, enfrentamos a dor, a angústia, a morte e o sofrimento. Ainda que soe estranho, é natural, neste estado de pecado, as brigas, os desentendimentos, as traições, as brigas familiares, as desavenças entre irmãos, a frieza e a barbárie. Vivemos em um ambiente hostil e culturalmente infectado pelo pecado. A consequência da desobediência a Deus é o sofrimento.

Sei que muitos terão dificuldades para aceitar isso. Entretanto, ao olharmos para a Palavra de Deus, vemos o rápido avanço do pecado promovendo desobediência, inveja, insatisfação, morte e sofrimento. Adão e Eva desobedeceram a Deus, dando ouvidos a Satanás (Gn. 3.6), Caim matou Abel (Gn. 4. 8), Caim não se arrependeu do crime cometido. (Gn. 4.9), Lameque rompeu com os laços conjugais, inaugurando a traição conjugal. (Gn 4. 19). A violência, o assassinato, o orgulho e a soberba foram encarados como um procedimento louvável (Gn. 4. 23). Por fim, lemos a triste declaração sobre o nível de maldade humana declarada por Deus. (Gn. 6. 5).

Não podemos proceder ingenuamente. Precisamos agir de forma prudente (Mt. 10.16) e encararmos a maldade humana como ela é, conforme a Palavra de Deus a descreve.

Em segundo lugar, precisamos entender que o sofrimento confronta nossa teologia (ou pelo menos revela) e confronta nossa fé.

É muito comum em nossos dias fugirmos deste confronto. Nossa geração rejeita veementemente qualquer desagrado, qualquer ideia de sofrimento, qualquer que seja o motivo. Muitos abraçaram o falso evangelho do bem-estar, onde absolutamente tudo deve atender aos gostos particulares do cristão que se comporta como um consumidor olhando uma prateleira de um supermercado. Ávido por consumir bem-estar, rejeita qualquer possibilidade de confronto diante do padrão apresentado pela Palavra de Deus.

Durante o processo de sofrimento somos mais exigidos a responder biblicamente. E, neste momento ficamos mais expostos. Ou externamos confiança em Deus ou externamos nossa desconfiança para com Deus.

Quando Deus nos confronta, não deseja exibir nossa fragilidade para vergonha pública, antes, seu interesse é moldar o nosso coração e a nossa mente, conforme sua santa vontade e santidade assim exigem. Vejam os textos abaixo:

Tiago 1.2 - Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, 3 sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança.

Romanos 5. 3 - 3 E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança;

Filipenses 1. 29 - 2Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele,

2 Pedro 2. 9: Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;

O sofrimento é parte intrínseca da vida do servo de Deus. O Senhor tem conduzindo nossos caminhos de forma justa, santa e amorosa. Nascemos de novo tão somente para refletir sua glória, em confiança e fidelidade. Quando confrontados pelo Altíssimo por meio do sofrimento, deveríamos entender como uma oportunidade de Deus a fim de crescermos na graça e no conhecimento dele mesmo.

Encontramos esta realidade descrita em Filipenses 1:29: Porque vos foi concedida a graça de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele...

Em terceiro lugar, aprendemos que o sofrimento pode tumultuar o coração e a realidade.

Muitos cristãos sinceros, ao passar por tribulações, correm o risco de ter o coração agitado pelo sofrimento a tal ponto que a própria realidade se torna angustiantemente confusa. Mesmo os apóstolos, quando precisaram atravessar o mar da Galileia, foram surpreendidos por uma tempestade e ali, exigidos pela circunstância, ficaram aflitos pela possibilidade da morte. Com seus corações agitados por uma situação de grande perigo, elaboraram uma pergunta estranha a Jesus Cristo: “não te importa que pereçamos” (Marcos 4.38). Uma pergunta elaborada pelo medo e pela incerteza, questionando se Jesus Cristo não se compadecia deles! O Filho de Deus, Jesus Cristo, que veio fazer a vontade do Pai, cumprir a Lei, proteger e santificar os filhos de Deus, veio para sofrer e morrer por causa dos nossos pecados... evidente que Jesus se importava. Seus discípulos sabiam disso, porém, quando agitados em seus corações pela tempestade e a iminência da morte, questionaram o cuidado de Jesus sobre eles. Quantas vezes usamos o mesmo argumento? Quantas vezes duvidamos do amor e do cuidado de Jesus. Mesmo sabendo de sua presença em nós e do seu cuidado pastoral (João 13.1), quantas vezes nos sentimos sozinhos, os mais solitários do mundo? Com certeza posso afirmar que o sofrimento nubla nossa percepção da realidade.

O salmo 77 registra a percepção de um servo de Deus em meio ao sofrimento. O salmista buscava desesperadamente por consolo e amparo. Temporariamente não sentiu a presença de Deus ao ponto de duvidar da renovação das misericórdias do Altíssimo (Salmo 77. 1 a 10a). Quando foi alcançado por santa iluminação, entendeu que o problema não era Deus, mas ele mesmo. Então ele escreveu: “isso é a minha aflição; mudou-se a destra do Altíssimo. ” Na realidade não foi Deus quem mudou, pois Deus não muda (Tiago 1.17). O que mudou foi que Asafe voltou seu coração para Deus, e fixou nele e em seu caráter, sua confiança – finalmente descansou e pôde exaltar a Deus.

Asafe encontrou forças em Deus pois lembrou do caráter de Deus.

Semelhantemente, o filho pródigo foi confrontado pela dura realidade da humilhação (comer junto aos porcos foi apenas um dos capítulos da história). Ao lembrar-se do caráter do pai (o pai da parábola aponta para Deus) encontrou forças para retornar.

Davi encontra forças em Deus para clamar perdão pelo crime cometido.

Pedro encontra forças em Jesus Cristo para ir ao encontro do seu mestre e ser devidamente tratado por ele.

Assim como Deus usou momentos dificílimos na vida de muitos servos no passado, continua usando tais momentos para nos fazer entender que dependemos exclusivamente dele. Por santa prudência, ninguém deveria orar pedindo provações. Entretanto, como parte da vida, devemos encarar o sofrimento como uma maravilhosa oportunidade de Deus para moldar nosso caráter, para nos fazer mais dependentes dele, para nos humilhar a fim de moldar nosso coração conforme a imagem de seu filho.

Por fim, é bom lembrar que Deus, nosso Pai celestial, jamais desamparará seus filhos. Ele nunca nos abandonará. Ele afirmou isso e aquele que jurou não nos abandonar, cumprirá sua palavra.

Jean Carlos Serra Freitas

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