terça-feira, 8 de setembro de 2015

Intimidade com Deus: um estudo de caso

Dias atrás lemos o Evangelho de João, na igreja. Eu tenho uma fraqueza pelo evangelho de João. Escrito pelo "discípulo amado", estruturado de uma maneira única e magnífica, o texto é uma obra de arte, tanto na fidelidade dos acontecimentos registrados quanto na habilidade de tratar de maneiras emocionantes certos episódios.

Para mim, que sou cristão e acredito que Jesus seja quem diz ser, não consigo evitar o caráter extremamente emocionante de se ter privado da amizade do Redentor da forma como tanto Lázaro e suas irmãs privaram, quanto João, o escritor do evangelho, também privou. Você consegue imaginar o que é ter sido um amigo próximo de ninguém menos que Jesus? Muitos foram discípulos, mas um só foi "o discípulo amado"! Já pensou no que isso significava para João? 
Então, quando a leitura no capítulo 11 do evangelho de João começou a ser feita, eu fui transportado pelos poderes da imaginação até à cena ali descrita. Se por um lado este evangelho me chama a atenção de modo especial, por outro eu sou ainda mais intrigado pela proximidade que a família de Lázaro tinha com Jesus Cristo.

Me pus, depois, a pensar sobre alguns detalhes deste texto... Somos informados do relacionamento especial que eles tinham com Jesus, pois, primeiro, Maria é identificada como aquela que, no capítulo seguinte, seria a mulher que devotaria a Jesus um perfume caríssimo, enxugando seus pés com os próprios cabelos, e também pela maneira com que Marta e Maria se referem a Lázaro, com vistas a trazer o quanto antes a Jesus para ver o adoentado: "aquele a quem amas" (vs3). Não obstante isso, é dito que Jesus amava a Marta, Maria e Lázaro (vs4), e posteriormente a multidão testemunhou: "Vede quanto o amava" (vs36). Não restam dúvidas que eles três eram amigos chegados do Redentor.

No mundo de hoje é difícil de imaginar uma amizade tão pura e singela quanto a deles quatro. É comovente e até tem o poder de nos arrancar lágrimas dos olhos, o meditar nesta pura amizade e no amor mútuo que eles devotavam uns aos outros. Adianto que, o ambiente em que este amor desabrochava era o ambiente da fé em Jesus Cristo como Messias, ou seja, a fé naquele que dizia que "quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá eternamente..."

Muitas pessoas pensam que uma maior intimidade com Deus é justamente o fator de proteção necessário para se evitar passar por desventuras e infortúnios. Os menos afetados por esta deturpação teológica ainda nutrem a expectativa de que uma maior proximidade com Deus o faça atendê-los com mais rapidez. Contudo, todo amor e proximidade que tinham com Jesus não o demoveu de seu intento de fazer brilhar na história daquela família a glória do Pai, sua primeira e mais importante missão, ao passo que revelaria a si mesmo como quem ele realmente era, o Filho de Deus. Esta foi a resposta que deu quando soube da doença que acabaria por ceifar a vida do amigo Lázaro: "Esta enfermidade não é para morte, e sim para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado". A manifestação da glória de Deus é a missão da existência de tudo, e a razão da nossa vida (cf. BCW, perg.1).

Aprendemos colateralmente (digo isso porque este não é foco deste texto) que não precisamos encontrar um equilíbrio entre nosso amor aos amigos e nosso amor a Deus. A vida é complicada, sem dúvidas, mas podemos descomplicá-la aos poucos, quando nosso amor aos amigos é uma expressão do nosso amor a Deus.

Ainda que certos do amor de Jesus para com eles, foi de se estranhar que tenha se demorado mais dois longos dias antes de partir em jornada rumo à casa de Lázaro e suas irmãs. Quando finalmente decidiu ir, os discípulos tentaram dissuadir Jesus do plano, visto o perigo iminente. Contudo, como quem não tem o que temer (vs7-10), Jesus os repreende alertando-os quanto ao fato de Lázaro ter adormecido. Eles não entendem no princípio de que Jesus já sabia da morte do amigo, mas quando lhes é explicado, fica claro que tudo sempre esteve debaixo de seu governo e o plano era que as coisas acontecessem como estavam acontecendo.

Se os olhos comandarem a vida, há que se fazer força para acreditar que haja amor em alguém que, diante da urgência, ainda demore dois dias para partir. Mas quando o amor sincero é conhecido no coração, e a fé é a certeza daquelas coisas que não se veem, então, mesmo que demore, ficamos certos da amizade, amor e carinho declarados. Isto deve ser verdade quando tratamos do próximo, tanto quanto do Senhor Deus: pense nos clamores fervorosos que elevamos a Deus em oração, na expectativa de que ele nos atenda em nosso limite de tempo, e não acontece como planejamos. Sabemos que Deus poderia ter alterado o resultado final, mas, confiamos de que o resultado que temos diante de nós é o melhor e a manifestação da sabedoria de um Deus que nos ama e opera todas as coisas para o nosso bem? Que desafio é crer que o pior, tanto quanto o melhor segundo nossos padrões, são sempre expressões da boa vontade de um Deus que nos ama!?
Quando oramos pedindo que Deus faça o que pensamos ser a melhor solução, que atue antes do pior acontecer, não nos ocorre que Deus queira que justamente o pior aconteça e que tal coisa seja, portanto, parte de seu plano soberano e uma expressão de sua "boa, perfeita e agradável" vontade.

O tempo da chegada e a distância que percorreram dão ao leitor o contexto geográfico da história. E João agora passa a narrar o encontro das irmãs do falecido com Jesus, recém-chegado em Betânia.
Marta, ativa como lhe era peculiar, sai ao encontro de Jesus e derrama sobre ele sua constatação pessoal que seria depois repetida por sua irmã: "Se estiveras aqui, não teria morrido meu irmão...". Elas sabiam que Jesus tinha como curar seu irmão daquela doença. Sabiam e o buscaram à tempo. Bastaria que uma palavra fosse dita, um pensamento naquela direção, e Lázaro estaria bem. Mas agora, 4 dias após, pouco, senão nada, poderia ser feito. Morreu o doente. Dizem que para tudo na vida tem conserto, menos para morte. Acredito que assim dizem porque, tal como as irmãs pensavam, o que tem que ser feito e dito tem de o ser enquanto a pessoa está viva. O objetivo principal da atuação de Deus em nossa vida não é nos fazer felizes conforme os nossos parâmetros de felicidade, mas fazer bilhar sua glória e graça nos eventos de nossa vida, e assim, na medida que nos conforma à semelhança com Cristo, nos preparar para a felicidade eterna e verdadeira, reservada para nós no céu.

A esta altura é digna de nota a fé de Marta, evidenciada quando disse "também sei que, mesmo agora, tudo quanto pedires a Deus, Deus to concederá". Mesmo assim, nem ela poderia imaginar o que estava prestes a testemunhar. Antes de mandar chamar a Maria, Jesus e Marta falam da ressurreição de Lázaro. Marta entende se tratar daquela que acontecerá no último dia. Jesus lhe responde: "Eu sou a ressurreição e a vida". Pense por um minuto no que esta resposta significa. Não esqueça de incluir a cara de "interrogação" de Marta enquanto ouvia a resposta, ainda que ela não tivesse nenhuma predisposição de duvidar daquelas fortes e enigmáticas palavras. Vivemos num mundo cheio de explicações. Uma rápida pesquisa na internet e podemos encontrar os porquês de quase tudo que se imaginar. Um mundo assim oferece pouco incentivo para que confiemos naquilo que nem sempre entendemos. Para confiar e crer, queremos antes entender e compreender bem. Mas algo que esteja dentro dos limites da nossa razão não pode chamar a si mesmo de infinito, não é? Não sei como você reagiria, mas por vezes me pego menos propenso que Marta a descansar em palavras que entendo, mas não compreendo seu inteiro significado... Bom para Marta... Creu e viu.

Falando de Maria, gosto de pensar nela como a irmã mais nova do grupo de irmãos. Ela agora aparece na cena, seguida daqueles que a consolavam, e acabaram testemunhando seu encontro com o Redentor. Suas lágrimas, intensas, verdadeiras e doloridas, somada às dos demais que a acompanhavam, comoveram a Jesus. Neste ponto muita discussão se levanta sobre a dupla natureza do Redentor. Há quem queira um redentor sisudo, desprovido de emoções humanas, absolutamente indiferente ao turbilhão de emoções que acomete nosso coração, alguém que está tão somente comprometido com seus objetivos. Outros, igualmente exagerados, querem um redentor em extremo emocionado, com sentimentos à flor da pele e mais comprometido com nosso bem-estar do que com a Glória de Deus, a quem veio revelar e glorificar.
Por mais que veja alguma pertinência na discussão, não a vejo no evangelho de João, senão o emblemático registro de que "Jesus chorou". Oras, a Bíblia diz que "vendo-a chorar, e bem assim aos judeus que a acompanhavam", em seu espírito ele ficou bravo, e aquilo o comoveu, ou seja, ele ficou inquieto, perturbou-se lhe a paz interior. Uma boa forma de dizer que suas afeições internas começaram a se movimentar intensamente... Ele se emocionou. Indignado com o resultado do pecado, e comovido pela tristeza que a morte traz, seus olhos, humanos como os nossos, reagiram como tais enquanto caminhava em direção ao túmulo com Maria e os demais que lamentavam o ocorrido e quando finalmente chegam, Jesus chora!Os que criam se emocionaram juntos, enxergando o amor que tinha pelo amigo. Os incrédulos, cegos, nada podiam ver senão a própria incredulidade (vs 36 e 37).

Tomado novamente por sentimentos que lhe nasciam do coração, Jesus ordena que tirem a pedra e... bom, antes que ele pudesse fazer alguma coisa, Marta se adianta lembrando que a esta altura a decomposição do corpo já resultaria em mau cheiro. Fico comovido com este relato todo, e ainda mais agora, quando Jesus carinhosa e pacientemente pede que Marta não interfira, mas que apenas creia, e veja. Sempre me maravilho com a capacidade do Senhor Jesus em pegar situações, pessoas e contextos estragados, destruídos, malcheirosos e fazer brotar vida, como flores em galhos secos...

Jesus ora e ordena que Lázaro saia ressurreto do túmulo. Para surpresa de todos, Lázaro sai pulando, não porque está alegre, mas porque seus pés estão amarramos e seu rosto coberto por um lenço... E é aqui que as palavras de Jesus ficaram inquestionavelmente claras para Marta, Maria e os demais: Ele realmente era, como de fato é, a ressurreição e a vida. No final, toda a multidão presente à época e as multidões incontáveis dos que se unem na leitura deste relato, ficaram sabendo que Deus havia enviado Jesus Cristo para este mundo. Descobrem também que a ressurreição e a vida não são um evento tão somente, mas uma pessoa, cuja ordem é capaz de fazer levantar a quem já havia morrido há 4 dias, 4 anos, séculos ou milênios. Bastará uma só palavra, e à voz de sua ordem, os mortos ressuscitarão, uns para vida, outros para o terro eterno.

Fico imaginando os olhos das irmãs, cheios de lágrimas... antes, eram de tristeza, agora de indizível alegria, confundidas nos olhos de quem parece não crer no que vê (curioso, pois só viram porque creram...). Olham para Lázaro saindo, olham para Jesus, olham de novo para Lázaro, e novamente para Jesus. Depois, aquela chuva de abraços, beijos e risos. Nesse contexto de grande emoção, carinho e amor, ainda ressoavam nos ouvidos as palavras "eu sou a ressurreição e a vida"...  Mesmo para nós, agora, se crermos, veremos. Não já, mas algum dia, nem que seja naquele dia final, e partilharemos desta alegria, maravilhados, o fato que aqui é descrito em palavras: ressurreição e vida. Para quem crê, desde já, Jesus é a ressurreição e a vida. É sempre muito difícil para um aconselhando que acaba de entrar na sala, imaginar o final extraordinário que Deus lhe reserva. Pode não ser imediato, pode parecer até impossível, mas é aqui que a fé no que Jesus pode fazer perfaz fundamental diferença, dá esperança de glória e paciência para aguardar, perseverando por todo o caminho que o aconselhamento a fará trilhar, certos somente de que Deus, de uma forma ou outra, manifestará sua glória em e através de nós.

Jônatas Abdias

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