quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Tempo para isso...

Eu não tenho as provas necessárias para justificar minha desconfiança de que a música "Bom estarmos aqui" tenha sido escrita para repetir duas vezes na sequência a frase "tempo para isso", mas o fato é que muitos de nós não tem separado tempo para isso... tempo para educar os filhos como expressão de nosso amor a Deus sobre todas as coisas.
Você finalmente separa aquele tempo que lhe falta para um bom exercício, e vai caminhar com seu cônjuge. Você não está tão preparado fisicamente para isso, mas, até que cai bem uma caminhada no fim de tarde, quando se tem tempo para isso. Após alguns bons minutos, que por vezes parecem terem sido horas, você retorna para o lar. Lá você havia deixado suas crianças, que apesar de ainda o serem, você acredita que já sejam "crescidinhas" o bastante para sobreviverem sem você por alguns minutos. Cansados, suados e famintos vocês retornam para casa e são recebidos com uma calorosa recepção. Nada surpreendente, só aquela velha algazarra que mais parece um ninho de gatos brincando pelo último pedaço de pão.

Você não espera isso ao chegar em casa, mas, por que não deveria? Você deixou sem supervisão dois pecadores sozinhos, que não estão realmente preparados para lidar com seus próprios pecados e os pecados dos outros contra si. O que você esperava? Que o jantar estivesse pronto e posto à mesa?
Bom, a primeira coisa foi acalmar os ânimos e ouvir a história de como a coisa deu errado. Depois de alguns poucos minutos ouvindo a história, entre alertas para que a versão de uma não fosse interrompida pela versão da outra, você consegue montar as peças do quebra-cabeça com algum sentido.

Com perguntas simples e diretas (que precisaram ser reformuladas várias vezes para que chegasse à esse ponto, o que tomava ainda mais tempo), conduzimos às crianças ao verdadeiro problema: enquanto uma queria ardentemente o objeto, mais que a vontade de Deus se realizando em sua vida, ela se amou acima de todas a coisa, desprezando ao próximo com amor próprio. A outra, que interrompia a versão da irmã, estava mais preocupada em proteger-se de uma potencial disciplina, expondo o próximo de uma forma que ela não gostaria de ser exposta.

Quando uma criança toma da mão da outra o objeto de seu desejo, o coração da criança em questão, oprimido pelo seu próprio pecado e desejo intenso, esqueceu-se de seu compromisso cristão de amar o próximo como a si mesmo. Acima disso e como fator que dá consequência ao amor ao próximo, está o amor a Deus, que sempre deve vir primeiro, pois devemos amá-lo sobre todas as coisas.


À primeira, a história de Caim lhe coube bem, e a história foi contada de modo a mostrar que quando queremos muito o que o outro possui, seja objeto, afeto ou reconhecimento, nós estamos dispostos no coração a fazer o que Caim fez contra o irmão. Jesus deixa claro que mesmo no íntimo do coração, somos réus do mesmo crime: matar o irmão (Mateus 5.22). À segunda, lembramos de como Adão expôs a esposa na tentativa de não se meter em maiores problemas. Em todo caso, o amor a Deus expressado no amor ao próximo estava ausente. Depois das explicações, refizemos a cena do crime, só que numa versão redimida, onde uma se importava e a outra ouvia pacientemente.

Amar a Deus ao ponto de desejar para o outro o que tanto queremos é um desafio que todos temos que lidar, e dissemos isso às crianças. É importante relembrar para si e lembrar aos filhos que o que eles enfrentam é enfrentado também por nós, pais, ainda que sob formas diferentes. Lidar com isso na vida adulta nos parece mais difícil quando não fomos treinados para tanto desde a infância.

Depois nos pusemos a pensar mais adiante, e ver como toda a questão exigiu de nós que amássemos a Deus acima de todas as coisas, separando tempo para isso, tempo para guiar os corações pecadores dos filhos aos pés da cruz, onde qualquer separação foi anulada. Chegar cansado, suado e faminto e colocar todas essas coisas em segundo plano para cumprir seu chamado paternal de educar seus filhos na disciplina e admoestação do Senhor pode parecer uma atitude óbvia, mas exige que você pense, em frações de segundos, qual problema exige ação mais urgente da sua parte. Qual dos problemas receberá solução e atenção antes do outro? Como pais, temos que nos perguntar o quanto desejamos nos livrar do cansaço se comparado ao quanto queremos ver os corações de nossos filhos livres do pecado que lhes oprime naquele mesmo instante.

Quanto estamos ensinando os nossos filhos a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmos, separando tempo para isso, estamos nós mesmos aprendendo a amar o próximo como a nós mesmos como expressão de que amamos a Deus sobre todas as coisas.

Muitos cristãos sérios e sinceros estão dispostos a servir a Deus aconselhando biblicamente, e este até pode ter sido o motivo que o trouxe até aqui. Mas ao mesmo tempo, se sentem frustrados por terem que gastar tanto tempo no ensino das próprias crianças na expectativa de colocar em prática tudo o que vem aprendendo daqueles bons livros que você leu. Mas se esquecem que a cada vez que os filhos se desentendem, ou que um filho em particular está lidando (para não dizer praticando abertamente) com o pecado, Deus o está "convocando" para uma sessão de aconselhamento que você não agendou.

Por isso o título: Quem agenda ou separa "tempo para isso" não é você. Deus tem uma agenda, digamos, muito própria, que não respeitará suas particularidades, pois quem sabe o melhor tempo é o sábio e amável Deus, que agendou para aquela hora que lhe parece bem "imprópria" um tempo para isso...

Paul Tripp ilustra em seu livro "Instrumentos nas mãos do Redentor" uma situação semelhante, na qual se preparava para descansar, mas ao chegar em casa, se deparou com seu filho que o aguardava para uma conversa que duraria mais do que ele estava disposto a empenhar no momento. E apesar de todas as leituras, experiências e testemunhos, você será convocado para a sua própria, mais cedo do que imagina, e terá uma oportunidade para praticar aquilo que provavelmente terá que reprovar ou ensinar. E nessa hora, você terá que responder, na prática, o quanto você está disposto a separar tempo para isso, tempo para amar a Deus sobre todas as coisas...

  
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