quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Ano Novo!

 Sem título

Cada ano que se inicia nos enche de expectativas. Olhamos para trás, fazemos o balanço do que aconteceu e sempre planejamos aquilo o que queremos para o ano novo.

Existe uma música sobre o ano novo, bastante conhecida, que retrata claramente isto: “Adeus ano velho, feliz ano novo, que tudo se realize no ano que vai nascer. Muito dinheiro no bolso, saúde para dar e vender.”

Não existe problema, mesmo para o cristão, em esperar ou sonhar com tudo isso. O problema está na motivação de querermos essas coisas. Como cristãos, devemos, em tudo, buscar a glória de Deus. Creio que muitas vezes Deus não nos concede aquilo que queremos porque seria ruim para nós.

Não sabemos o que nos espera no ano novo. Não sabemos o que enfrentaremos, quais serão as lutas, não sabemos se teremos saúde nem se seremos bem sucedidos naquilo que planejamos. Deus não nos deu a capacidade de “prever” o futuro, o que é uma bênção, pois se soubéssemos, poderíamos sofrer por antecipação.

Deus, entretanto, nos concedeu a dádiva de conhecê-lo através da sua Palavra, e a Escritura afirma que a vontade de Deus é boa, agradável e perfeita (Rm 12.2). A Escritura nos traz, também, a promessa do Senhor Jesus de que estaria conosco todos os dias, até a consumação dos séculos (Mt 28.20).

Diante disso, podemos ter a certeza de que o ano novo será abençoado para aqueles que temem ao Senhor. Se tudo correr bem, e, ainda que tudo vá mal, o Senhor está conosco e é isso que nos ajuda em nossa caminhada. O mais importante já temos: a presença do Senhor conosco.

Foi por causa dessa certeza que Davi escreveu: “O Senhor é meu pastor, nada me faltará”, ou, em outras palavras, “O Senhor é meu pastor, isso me basta.” Que a nossa certeza seja a mesma de Davi, hoje e no ano que se aproxima.

Este é o último texto deste ano. Agradecemos a todos que caminharam conosco em 2016 e rogamos que o Senhor continue abençoando abundantemente a todos nós.

Até ano que vem!

Milton Jr.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Não exija, sempre, os seus direitos!

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Em tempos do “Código de defesa do consumidor”, talvez você fique espantado com a declaração do título. Entretanto eu não estou aqui pensando nas leis que visam proteger aqueles que compram produtos de má qualidade, ou que são lesados por prestadores de serviços, ou qualquer coisa parecida.

Quero chamar a sua atenção para algo que tem sido recorrente no meio cristão e que eu chamo de “mentalidade Procon” aplicada à convivência com os irmãos. Já explico!

Somos chamados a viver em comunidade, como corpo de Cristo. Paulo exortou aos efésios que se esforçassem para “preservar a unidade do Espírito Santo no vínculo da paz” (Ef 4.3). A grande questão é que dentro do corpo de Cristo temos irmãos em diferentes níveis de crescimento na fé, há irmãos maduros, há aqueles que estão chegando na maturidade, há os novos convertidos, que ainda engatinham na fé, e em meio a toda essa diversidade, precisamos estar em unidade.

Acontece que muitos irmãos, maduros na fé, que já entenderam que em Cristo têm liberdade para fazer qualquer coisa que não esteja proibida pelas Escrituras, não têm lidado bem com a sua liberdade. Eles têm pensado que em nome da liberdade podem fazer o que bem entendem, sem preocupar-se com aqueles que ainda não têm a mesma maturidade que eles.

É claro que este não é um assunto inédito. Desde os tempos apostólicos a igreja teve de lidar com a tensão entre o relacionamento dos fortes com os fracos na fé, razão de não ser possível falar sobre liberdade cristã sem pensar também na unidade da Igreja.

Na epístola aos Romanos vemos Paulo tratando desse assunto nos capítulos 14 e 15. Havia em Roma um grupo de irmãos que sabiam que poderiam comer e beber o que quisesse e outro que, ainda por familiaridade com as prescrições dietéticas da antiga aliança, entendiam que deveriam abster-se de alguns tipos de comida.

O apóstolo traça alguns princípios para a liberdade cristã, afirmando que eles não podiam considerar pecado o que o Senhor não tratava como tal, ou seja, não poderia haver constrangimento nem de um lado, nem de outro. Os abstinentes não poderiam julgar os que comiam e bebiam e estes deveriam acolher os “débeis”, mas não para discutir opiniões. Paulo demonstra, ainda, que a liberdade não diz respeito, primariamente, com aquilo que eu posso fazer para o meu prazer, mas em como devo fazer tudo para a glória de Deus (14.6), além de ordenar que eles deixassem o julgamento por conta de Deus (14.10-1).

Com base nisso, muitos, em nossos dias, têm “esfregado” sua liberdade na cara de outros, afirmando que o único que pode julgá-los é Deus, e esquecem-se que Paulo não parou por aí, mas afirmou também que os fortes não poderiam escandalizar os fracos. O argumento de Paulo é forte: Se ao querer comer (ou beber, ou fazer qualquer outra coisa que somos livres para fazer) você não liga se vai ou não escandalizar a seu irmão, significa que você ama mais a comida (ou sua liberdade) que a seu irmão, por quem Cristo deu a própria vida (14.15).

Ele assevera ainda que “o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (14.17) e que a obra de Deus não deve ser destruída por causa de comida (14.20), portanto, em nome da comunhão cristã, é preciso abrir mão daquilo que se gosta em favor de irmãos mais fracos.

Alguns, nesse ponto, podem dizer: “Isso é muito difícil” ou “está errado abrir mão de algo que gosto por causa de outro...”. É preciso, então, lembrar que “nós, que somos fortes devemos suportar as debilidades dos fracos e não agradar-nos a nós mesmos. Portanto, cada um de nós agrade ao próximo no que é bom para a edificação” (15.1-2). Agradar o outro, para a edificação, é um ato de amor. Já o uso da liberdade cristã, sem amor, é puro egoísmo, logo, não honra a Deus.

Na carta aos coríntios, Paulo instruiu irmãos que estavam fazendo uso, não de comida ou bebida, mas dos dons, para a própria vanglória. A fim de demonstrar o erro dessa atitude ele afirmou que sem amor ao próximo, os dons não teriam benefício algum. O apóstolo ilustrou seu ponto dizendo que ainda que ele distribuísse todos os seus bens aos pobres, se não tivesse amor, isso não seria proveitoso (1Co 13.3).

Agora, mudando o que deve ser mudado, pense por um instante! Se fazer algo bom (doar os bens) em favor de outrem, sem amor, não é proveitoso, imagine fazer o mal (escandalizar) em favor de si mesmo (não abrir mão de algo que você goste)? Ou, mais precisamente, se fazer o bem ao outro, sem amor, não presta para nada, imagine usar a sua liberdade para satisfazer a sua própria vontade, sem levar em conta o seu irmão fraco? Isso passa longe do espírito cristão.

Infelizmente pode ser visto, principalmente em redes sociais, irmãos que não têm se importado em ferir a consciência de irmãos mais fracos, sob o pretexto de estarem honrando a Deus com sua liberdade. Aqui, vale lembrar a exortação de Paulo aos gálatas, afirmando que eles não poderiam usar a liberdade para dar ocasião à carne, mas que deveriam servir uns aos outros em amor, pois toda a lei se cumpre em um só preceito, “amarás a teu próximo como a ti mesmo”. Viver ao contrário disso seria morder e devorar uns aos outros, destruindo-se mutuamente (Gl 5.13-15).

O próprio Paulo, que se via como um forte na fé (Rm 15.1), afirmou que se a comida servia de escândalo ao irmão, nunca mais comeria carne (1Co 8.13), a fim de não golpear sua fraca consciência, pecando, assim, contra Cristo. Você pode e deve, então, fazer uso de sua liberdade, desde que não fira a consciência alheia.

Entretanto, é preciso frisar: irmão fraco é aquele que não compreendeu sua liberdade em Cristo e não alguém que sabe, por exemplo, que beber não é pecado, mas que acha melhor que crentes não bebam e tentam constranger a outros, dizendo-se escandalizados. Esses também devem ouvir a exortação de que não podem condenar o que Deus não condena.

Quanto ao irmão fraco, ao abster-se de algo em favor dele você demonstrará seu amor e poderá ter uma excelente oportunidade de instruí-lo, levando o seu pensamento cativo à Cristo, o que não seria possível ao escandalizá-lo, ferindo sua consciência.

Portanto, usufrua da liberdade que você tem em Cristo para servir e dar glória a Deus, lembrando que não é preciso exigir, sempre, os seus direitos.

Milton Jr.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Ele não se envergonha de vós

 

Muitas coisas podem nos trazer vergonha. Normalmente tais coisas revelam algo sobre nós que publicam nossas fraquezas, imperfeições e erros. A pior dessas coisas é o pecado. Como reação corriqueira, escondemos a todo custo nossos pecados porque ele revela a feiura que carregamos dentro de nós, como no caso da botija com água, que quando quebrada não molha o chão por causa da quebradura, mas porque esta abre espaço para a água armazenada vazar para fora, revelando-se...

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Quando pequeno, se a memória que costuma falhar não me envergonhar agora, recebi uma aula de escola dominical na qual a professora procurava nos ensinar valores e princípios que nos impedisse de colocar a vida em risco. No processo ela procurava exaltar a preciosidade que era ter a presença de Jesus ao nosso lado, e o quão triste seria não privar de tão doce presença. Mas o exemplo que deu me intrigou. Ela disse que se entrássemos em ambientes que desagradassem a Deus, que potencialmente entristecessem o Espírito Santo, ele ficaria lá fora, esperando o meu retorno. Sua tese era de que Deus não tomaria parte nas sujeiras e pecados que tanto nos envergonham.

Cresci e descobri que algo muito pior acontece. Existe alguém de quem nada se pode esconder. Dele, nem os mais ocultos dos segredos está envolto em trevas, pois as mais densas trevas lhe são como luz (Sl 139.12), e o mais profundo dos abismos partilha de sua companhia (Sl 139.8). Na verdade, em todos os momentos da nossa vida Deus caminha conosco e não nos abandona. Se por uma lado isso nos conforta, pois isso significa que ele caminha conosco no vale da sombra da morte (Sl 23.4), isso também quer dizer que ele nos vê debaixo da figueira (Jo 1.48). Em resumo, descobri que Deus não fica lá fora esperando, triste e impotente. Na verdade, carrego junto a mim o Deus santo e puro para dentro dos meus pecados, tendo-o como testemunha fiel de todos os meus atos. Ai que vergonha!

Certa feita ouvi um amigo pastor dizer que a admiração que as pessoas lhe tinham era em boa parte devida àquilo que elas não sabiam dele. Num tom de brincadeira ele avisava: "Paulo dizia ser o principal dos pecadores... porque não me conheceu!" E em outra ocasião acrescentou: "Se você me conhecesse como sou, não seria meu amigo..." Eu particularmente acho que ele está certo, afinal, temos um senso de julgamento tão falso e hipócrita que esperamos que as pessoas sejam melhores do que parecem, ou pelo que atinjam a medida do que estabelecemos. Certo adágio popular diz que "as pessoas vêem as pingas que tomo, mas não os tombos que levo". Piada à parte, frequentemente nos esquecemos do quanto todos somos indignos das amizades e bênçãos que recebemos do Senhor Deus como ato de pura graça. Mas o que aconteceria se alguém nos conhecesse como realmente somos? Qual seria a reação de alguém que soubesse cada passo errante que demos e cada queda que tivemos?

Vergonha alheia é a expressão que vem à mente. As pessoas se afastariam, como realmente alguns experimentam tal afastamento, porque as pessoas não querem ser vistas ou associadas a certos tipos de pessoa. Isso lhes envergonha. E olha que nunca sabemos a verdade mais profunda sobre ninguém. Mas há quem saiba. Deus é o único que sabe tudo sobre todas as coisas, e por implicação, sabe tudo sobre você e eu. Sim, Deus conhece a minha afronta, a minha vergonha e o meu vexame (Ps 69.19). E é cada vexame que a gente passa, não é? Novamente, se por um lado isso é consolo, pois ele sabe e conhece nossas limitações, sofrimentos, angústias e profundas motivações; por outro é aterrador saber que alguém sabe os mais profundos sentimentos, pecados e temores do coração.

cruz-frameEntão, preste atenção à boa notícia que o autor aos Hebreus nos traz: "Pois, tanto o que santifica como os que são santificados, todos vêm de um só. Por isso, é que ele não se envergonha de lhes chamar irmãos" (Hb 2.11) e "Mas, agora, aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso, Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes preparou uma cidade" (Hb 11:16).

O único que poderia com justiça se envergonhar de nós em sua companhia, não se envergonha de nós. Nosso passado não nos condena, pois antes do passado existir, Deus resolveu que seríamos dele, nos amou e enviou seu filho para nos salvar. Nossos erros não nos condenam porque os acertos de Cristo Jesus nos justificam. E por causa dele, Deus apaga as nossas transgressões por amor de si mesmo e dos nossos pecados não se lembra mais (Is 43.25). Ele perdoou as nossas iniquidades e dos nossos pecados jamais se lembrará (Jr 31:34). Aquilo que encurvava nossa fronte de vergonha foi tomado por Jesus, que colocou sobre os próprios ombros toda ignomínia da nossa vergonha, no lugar de usufruir da alegria que lhe estava proposta, suportando a cruz em nosso lugar (Hb 12.2). Na prática da esperança diária e do aconselhamento, ao lidar com o pecado e suas consequências, é sempre um bálsamo relembrar ao aconselhado (e a si mesmo) de que Deus não se envergonha de nós. A vergonha que nos cobre no momento será tornada em glória, quando as vestes sujas do vexame forem trocadas pelas brancas veste de louvor (Is 61.3; Ap 3.18, 7.13). Então quando o autor aos Hebreus diz em alto e bom som que das mãos dele vieram o santificador e o santificado e por isso ele não se envergonha de nós é porque um dia, passado o vexame, a vergonha e a afronta, e já habitando na pátria superior, seremos troféus da sua graça.

livreQuando o foco sair da necessidade de confissão para a dura e dolorida luta contra a vergonha, saiba encorajar o fraco e animá-lo (verdadeiro sentido e exortação) com a bendita verdade apresentado na Escritura sobre como Deus lidou com nossa vergonha e em como sua glória pode agora brilhar em nós. Não é a nossa perfeição, obediência à lei ou exemplar vida cristã que manifesta a abundante graça sobre nós derramada, mas quando a perfeição de Cristo, sua perfeita obediência e vida são apropriadas por nós pela fé. Se podemos viver vidas diferentes, é porque Cristo nos redime. Então, de cabeça erguida, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura. Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel (Hb 10.19-23).

Jônatas Abdias

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Motivação

 

motivação-498x273Manter-se motivado tem sido um grande desafio atual. O mundo corporativo investe pesado nesta área, promovendo encontros, seminários, palestras, visando motivar seus empregados para o bem da empresa.

Na igreja também encontramos este desafio. É cada vez mais comum ouvirmos reclamações do tipo: “a igreja está muito fria”, “o louvor na igreja não empolga”, “não encontro forças para sair de casa e ir para a igreja” ou, “hoje o culto foi frio” portanto, “não sei se voltarei mais a igreja deste jeito”.

Estas afirmações, evidentemente, refletem algo a ser observado bem de perto, afinal, tais afirmações ou pensamentos refletem a teologia da pessoa, a forma como ela crê e como ela interpreta o mundo e seus desdobramentos.

Não ignoramos o fato de que tribulações, pecado e as próprias dificuldades naturais da vida, tendem a gastar ou dissipar nosso vigor. Entretanto, não podemos ficar reféns de uma impressão sentimental, subjetiva e secularista sobre como interpretaremos os fatos.

Nossa geração foi destreinada na lida com dificuldades e sofrimentos. Lembro-me de um medicamento muito usado na minha infância, o famigerado “Merthiolate”, ainda com a fórmula que “ardia”. Quando machucávamos, chorávamos duplamente. Chorávamos por causa do machucado e por causa da proximidade da aplicação do remédio. Hoje, com a nova fórmula, não há mais dor provocada pela aplicação.

Nossa geração está sendo treinada a não tolerar a dor, como se a dor não fizesse parte da vida. Nossa geração não sabe ouvir um não, não sabe ser reprovada, não suporta a ideia da não visibilidade. Vemos como isso funciona, por exemplo, nas mídias sociais. Após postar algum texto, foto, ou algum comentário, todos ficam aguardando para ver quantos “likes” a referida postagem terá. Se ninguém clica no “like”, há um abatimento e tristeza.

Quando o assunto é a igreja, o culto a Deus, a vida cristã, devemos ter a motivação correta, mesmo não obtendo os “likes” necessários, ou mesmo em meio a algum sofrimento.

17Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, 18 todavia, eu me alegro no SENHOR, exulto no Deus da minha salvação. (Habacuque 3.17 e 18)

Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra. (Salmo 73.25)

Ao pensar em motivação (ou na falta dela), consideremos algumas perguntas.

1 – Nossa motivação ocorre somente quando as coisas acontecem de acordo com a nossa vontade?

2 – Nossa motivação depende da compreensão e aceitação de outras pessoas?

3 – Nossa motivação depende do aprovação e aplausos dos outros?

4 – Nossa motivação gira em torno do nosso próprio bem-estar?

5 – Nossa motivação depende de encontrarmos forças dentro de nós?

6 – Nossa motivação depende do que podemos ver?

7 – Nossa motivação é para a glória pessoal?

8 – Nossa motivação é para a glória de Deus?

Sei que muitos cristãos atuais já leram que Jesus foi o maior motivador de todos os tempos. Vejamos como Jesus motivou seus seguidores:

Respondeu-lhe Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. (Mateus 8.20).

À vista disso, muitos dos seus discípulos o abandonaram e já não andavam com ele. 67 Então, perguntou Jesus aos doze: Porventura, quereis também vós outros retirar-vos? (João 6. 66 e 67).

Isso não soa como palavras motivacionais, conforme o atual padrão. O Senhor Jesus está desestimulando seus seguidores, especialmente os apóstolos, a ter o comprometimento de barganha, para um comprometimento eterno com a cruz, com o reino de Deus e com o próprio Senhor Jesus, mesmo que isso custe perder tudo.

O Salmo 77 revela claramente como a angústia e a dureza de coração podem impedir, temporariamente, vermos a grandeza de Deus. Vejam a sequência de perguntas que Asafe apresenta:

Rejeita o Senhor para sempre? Acaso, não torna a ser propício? 8 Cessou perpetuamente a sua graça? Caducou a sua promessa para todas as gerações? 9 Esqueceu-se Deus de ser benigno? Ou, na sua ira, terá ele reprimido as suas misericórdias? (Salmo 77. 7-9)

Em sendo assim mesmo, ou seja, se tudo o que Asafe estava pensando sobre Deus era assim mesmo, evidente que ele estava mesmo angustiado. Entretanto, ele esclarece no versículo 10: Então, disse eu: isto é a minha aflição; mudou-se a destra do Altíssimo.

O coração e a mente de Asafe foram iluminados e finalmente ele conseguiu reencontrar alegria e real motivação para continuar louvando a Deus (Salmo 77.13 – Que Deus é tão grande como o nosso Deus?).

A Palavra do Senhor é o instrumento usado por Deus para nos ajudar a lembrar que o nosso bom Deus é o Deus Altíssimo. As tentativas em transformar as pregações em mensagens de autoajuda, temporariamente apresenta um efeito anestésico e parece ser o melhor. Entretanto, no dia mau, no dia da sequidão, no dia da tribulação, diante da tentação, onde encontrará forças para resistir ao pecado, ao desespero e ao desânimo? Onde encontrará forças? Em si mesmo? Olhará para o próprio interior? Buscará o exemplo falho de homens pecadores e limitados? Ou erguerá os olhos para além das nuvens para contemplar o Senhor assentado em um alto e sublime trono? (Isaias 6.1).

Evidentemente não se deve desprezar aquele momento angustiante da falta de motivação. Porém, não podemos correr o risco de sermos complacentes e ignorar o pecado e a dureza de coração. Deveríamos ser eternamente gratos a Deus pela salvação em Cristo. Cristo é a razão para não desanimarmos. Cristo é a razão para termos sempre a correta motivação para absolutamente tudo nesta vida.

Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus.                          (1 Coríntios 10.31).

Tudo o que fazemos devemos fazer para a glória de Deus e de Cristo Jesus. Sendo assim, encontraremos real motivação, mesmo diante de grandes desafios, mesmo em fraqueza e grande temor, se realmente nos comprometermos em fazer tudo para a glória de Deus.

Qual a sua real motivação? Sua felicidade é o que o motiva? Seu prazer é o fator motivacional? Se assim for, sua motivação será sempre como uma poeira ao vento, frágil e volátil.

Nossa motivação está baseada na vitória de Jesus na cruz do calvário. E, porque Cristo já fez, agiremos sempre em resposta ao bem que ele já nos proporcionou.

Seremos felizes em Cristo e tão somente nele.

Oro para que sua motivação seja santificada para a glória de Deus!

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Orando a um Deus soberano e providente

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“O que Deus é?”. Esta pergunta, de número 4 do Breve Catecismo de Westminster, traz uma resposta maravilhosa: “Deus é espírito, infinito, eterno e – repare bem o que vem a seguir – imutável eu seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade”.

A verdade de que Deus é imutável traz segurança àqueles que confiam em sua Palavra. A segurança da salvação, por exemplo, está firmemente enraizada nesse conceito, o que explica a convicção de Paulo quando escreveu aos filipenses afirmando que estava “plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).

Entretanto, em se tratando de oração, muitos cristãos não têm levado em conta a doutrina da imutabilidade de Deus. Por essa razão entendem que de alguma forma podem mudar a vontade de Deus, por meio de suas orações.

Enquanto escrevo, me vem à mente um episódio ocorrido em meu primeiro ano de seminário. Eu e alguns amigos tínhamos ido a uma igreja dita evangélica a fim de entrevistar líderes sobre o tema: “a oração muda a vontade de Deus?”. Liguei o gravador e o pastor começou a responder convicto com um firme “sim”. Ele tentou, então, provar biblicamente sua posição, dizendo: “Você lembra a história daquele homem (ele não lembrava o nome de Abraão!) que pediu a Deus para não destruir a cidade se houvesse nela trinta justos?”. Acho que enquanto contava a história ele lembrou que a cidade foi destruída, até que por fim afirmou: “Se a oração não muda a vontade de Deus é melhor servir ao diabo”.

Por mais chocante que possa parecer, o que esse homem disse reflete aquilo que não é dito, pelo menos não tão abertamente assim, por muitos outros cristãos que entendem que Deus deve estar pronto a ceder a seus desejos (ou caprichos?), ao ouvir uma oração feita “com muita fé”. Esses acabam se igualando aos pagãos que, nas palavras de Jesus, “presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos”. O interessante é que na sequência desse texto, o Senhor exortou a seus discípulos, dizendo: “Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais” (Mt 6.7,8).

Daí, então, vêm aqueles que, não menos enganados, dizem que não é preciso orar, pois Deus já sabe o de que necessitamos e não vai mudar de ideia, caso peçamos o contrário. Esquecem-se, esses, que após afirmar que o Pai sabe o de que seus discípulos têm necessidade, Jesus ordenou: “Portanto, vós orareis assim” (Mt 6.9); e que Paulo ordenou aos tessalonicenses que orassem sem cessar (1Ts 5.17).

Como entender corretamente a oração? Aprendamos com o rei Davi. Ao ler o Salmo 139 você pode notar que Davi tinha convicções bem firmadas a respeito da vontade soberana de Deus em sua vida. Ele escreveu: “Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Sl 139.16). Uma convicção dessas talvez fizesse com que muitos deixassem de orar, o que não foi verdade na vida de Davi, pois, a começar desse Salmo, podem ser encontradas várias outras orações do rei, em diversos momentos de sua vida.

Pois bem, você deve lembrar de um desses momentos. Em determinado ponto de sua vida Davi cometeu adultério com Bate-Seba, que veio a engravidar. Após toda a trama do rei para trazer Urias da guerra a fim de que se deitasse com sua esposa e pensasse que o filho era dele (plano que não foi bem-sucedido) e que terminou com a ordem de Davi para que Urias fosse colocado à frente do exército para morrer o que, de fato, ocorreu, Davi tomou Bate-Seba por esposa e tudo parecia bem. Ele tinha “resolvido” o seu problema (2Sm 11).

Entretanto, Deus enviou Natã a Davi e este foi confrontado pelo profeta acerca de seu pecado. Após arrepender-se, Davi ouviu de Natã que Deus o havia perdoado, mas que por causa do que havia feito seu filho, fruto do relacionamento adúltero com Bate-Seba, morreria (2Sm 12.1-14). O versículo seguinte informa que, após Natã ir para casa, o Senhor fez enfermar a criança (12.15).

O que faria, diante de uma palavra tão enfática do Senhor, um homem que entendia que todos os seus dias estavam escritos e determinados? O texto nos informa: “Buscou Davi a Deus pela criança; jejuou Davi e, vindo, passou a noite prostrado em terra” (12.16). Davi orou e jejuou por sete dias, ao cabo dos quais a criança morreu. Diante disso, Davi levantou-se da terra, lavou-se, ungiu-se, adorou a Deus, foi para casa e alimentou-se. Seus servos, espantados, perguntaram o que ele estava fazendo, pois pela criança viva ele havia jejuado e orado, e agora que era morta ele havia levantado e comido pão.

A resposta de Davi aponta para a sua submissão: “Vivendo ainda a criança, jejuei e chorei, porque dizia: Quem sabe se o Senhor se compadecerá de mim, e continuará viva a criança? Porém, agora que é morta, por que jejuaria eu? Poderei fazê-la voltar? Eu irei a ela, porém ela não voltará para mim” – o texto continua – “Então, Davi veio a Bate-Seba, consolou-a e se deitou com ela; teve ela um filho a quem Davi deu o nome de Salomão; e o Senhor o amou” (cf. 2Sm 12.17-25).

O que pode ser notado aqui é que Davi, ainda que tivesse ouvido de Deus acerca da morte de seu filho, não se privou de clamar ao Senhor, mas com uma atitude de submissão, notada na expressão “quem sabe”, ou, em outras palavras, “se o Senhor quiser...”. Deus havia dito que a criança morreria, mas não havia dito quando e Davi, então, rogou pela misericórdia. Talvez isso soe para alguns como uma contradição, mas é bom lembrar que o próprio Senhor Jesus orou ao Pai pedindo que, se possível, o livrasse da cruz, mas que frisou, “contudo, não seja o que eu quero, e sim o que tu queres” (Mc 14.16).

Aqui o ensino do Breve Catecismo pode nos ajudar mais uma vez: “Oração é um oferecimento dos nossos desejos a Deus, por coisas conformes com a sua vontade, em nome de Cristo, com a confissão dos nossos pecados, e um agradecido reconhecimento de suas misericórdias” (P. 98) – e mais – “Na terceira petição, que é: ‘Faça-se tua vontade, assim na terra como no Céu’, pedimos que Deus, pela sua graça, nos torne capazes e desejosos de conhecer a sua vontade, de obedecer e submeter-nos a ela em tudo, como fazem os anjos no Céu” (P. 103).

A soberania de Deus (ele fará a sua vontade) e a responsabilidade humana (eu preciso orar sem cessar) caminham juntas. Ouvi, certa vez, uma ilustração sobre um puritano que precisava sair de sua casa no meio da floresta para ir à uma vila. Ele vestiu-se, pegou sua espingarda e quando saia sua esposa questionou: “Para que a arma?”, ouvindo como resposta que era para o caso de encontrar algum urso pelo caminho. A esposa, então, disse que a arma não seria necessária, pois se ele estivesse predestinado para morrer naquele dia, morreria, se não, chegaria ao destino. A resposta que ela ouviu do marido foi: “E se no caminho eu encontrar um urso predestinado para morrer hoje, como farei sem minha espingarda?”.

Não divorcie essas duas verdades! Desta forma, ao orar ao Deus soberano e providente, você não tentará mudar a sua vontade. Antes, em submissão, entenderá que ele fará exatamente o que já decretou na eternidade e que, providencialmente, decretou que ouviria orações que estivessem de acordo com essa vontade soberana.

Milton Jr.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Jesus, o poder do aconselhamento

Gosto muito de uma frase de uma certa música que diz: "O que Cristo oferece, ele é". A música se refere a Jesus e como sua entrada na nossa vida altera tudo. Mas não é o que ele faz ou traz, mas que ele é que opera a mudança que matam a sede a curam as vistas.

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Gosto da frase porque creio que ela resume bem muito do que queremos oferecer às pessoas como coisas, mas que estão personificadas em Jesus Cristo. O lamentável desse situação é que inúmeras vezes desejamos os efeitos da presença de Cristo, mas não queremos o relacionamento com ele que efetua tais efeitos. Mas como conselheiros bíblicos não podemos esquecer que a riqueza, beleza e grandiosidade do trabalho que empreendemos ministrando a Palavra de Deus aos particulares da vida particularmente (pois publicamente chamamos de "pregação"), não reside em técnicas, dicas ou novos hábitos. Toda a excelência está Cristo, em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos (Col 2:2-3).

Então, vamos passar por algumas coisas que o aconselhamento oferece, não como coisas, mas como os efeitos da presença de Cristo na nossa experiência. Muito mais poderia ser dito, pois aqui não vou vasculhar os Salmos, que por exemplo, nos traria tanta informação que tornaria o texto inviavelmente extenso para o nosso propósito. Ainda assim, te convido a ver como o que Cristo oferece, ele é:

As pessoas procuram por aconselhamento porque muitas vezes elas precisam de esperança. Sejam as lutas que podem ter se prolongado, ou derrotas que nos querem fazer crer que nosso caso não tem solução, ou o que mais opera para lhe roubar a esperança, tem horas que tudo o que precisamos é aquele fio de esperança que nos encoraja a prosseguir. Pois bem, Paulo escrevendo ao Timóteo se apresenta em nome de "Cristo Jesus, nossa esperança" (1 Tim 1:1). Se queremos oferecer às pessoas esperança, então não podemos dissocia-la daquele que a dá. Quando apresentamos Cristo Jesus às pessoas, oferecemos a elas esperança.

Mas quem precisa daquele descanso, daquela paz vinda de Deus, que sabemos excede todo entendimento (Fp 4.7). Como ofertar paz, quando muito do que dela depende não está sob nosso controle, e às vezes nem sob o da pessoa que dela tanto precisa? É confortador saber que podemos apresentar Jesus Cristo, não somente como aquele que "vai trazer" a paz, como algo diferente de si mesmo, ou como um efeito secundário de sua presença. Apresentamos Jesus, "porque ele é a nossa paz", diz o apóstolo Paulo em Efésios 2:14. Mas do que ofertar paz, oferecemos o conhecimento e o relacionamento com aquele é a nossa paz, e pode ser a dele também.

Aos perdido, não damos mapas ou direções simplesmente, mas as apresentamos àquele que é "o caminho, e a verdade, e a vida" (Jo 14:6). E veja que, por consequência, nele encontramos a verdade para o enganado, e vida para quem antes estava morto em seus delitos e pecados (Ef 2.1). Lembremos que esta vida, eterna e bendita, é o resultado da ressurreição, que não apenas nos é apresentada como um fato a ser operado em nós no futuro, mas como algo de que nos apropriamos tão logo desfrutamos de um relacionamento íntimo com Cristo, que é "a ressurreição e a vida"; e assim cremos quando o Senhor Jesus diz de si: "Quem crê em mim, ainda que morra, viverá! (John 11:25).

Há também aqueles que precisam de pão para o vazio existencial inquietante que experimentam. Não podemos oferecer só que Jesus ensinou, como muitos ainda insistem na tentativa. Os valores, ensinos e conselhos de Jesus não estão dissociados de sua pessoa. Quando ofertou pão à multidão faminta, percebeu que eles se interessavam mais no pão em si do que em sua pessoa. O esclarecimento veio: "Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá eternamente" (John 6:35,51). Se quisermos dar desse pão, temos que apresenta-lo pessoalmente, na pessoa de Cristo.

E por fim, do muito que se poderia dizer a respeito do Salvador e Senhor Jesus Cristo, gostaria de lembrar-nos de que por mais que ele tenha nos permitido compartilhar da nobreza que o nome carrega, somos pastores de almas que operam sob a tutela e missão do verdadeiro e supremo pastor. Afinal, ele mesmo diz de si: Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas. (Jo 10:11). De fato, o pastor é quem deu sua vida pelas ovelhas, e o apóstolo Paulo sabiamente relembra seus leitores Coríntios disso: "Foi Paulo crucificado em favor de vós ou fostes, porventura, batizados em nome de Paulo?" (1 Co 1:13). Então, que sejamos mais uma vez lembrados que o poder do papel que desempenhamos como pastores e/ou conselheiros bíblicos não está em nós, mas naquele de quem falamos e que apresentamos às pessoas que nos procuram.

A honra e a glória pertencem àquele que oferece a si mesmo, àquele que oferece o que é: Cristo Jesus, nossa paz, esperança, pão, caminho, verdade e vida.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Aflição – Uma Perspectiva Bíblica

 

sofrer1Em certa ocasião precisei levar minha filha mais nova (quatro anos) para fazer exame de sangue. Minha filha foi chorando de casa até o local do laboratório. Ao chegar, precisei conversar um pouco com ela e disse que iria doer um pouco, mas que ela conseguiria suportar a dor. Depois de algum tempo tentando convencê-la a parar de chorar, não houve outra opção, senão, coloca-la na posição adequada para a retirada do sangue. Insisti para minha filha olhar para o outro lado... ela não atendeu. Em meio a muito choro, quando ela viu a agulha se aproximar, em meio ao choro e desespero ela disse, “aí meu Deus, me ajuda”. O procedimento terminou rapidamente, e seu chorinho também. Ao entrarmos no carro para voltarmos para casa, pude conversar com ela dizendo que ela fez o certo, afinal, no momento de desespero, ela clamou para quem poderia de fato ajuda-la. Graças a Deus o resultado do exame foi normal. Além disso, ficou o aprendizado para ela, ou seja, em nossa fraqueza ou medo, devemos pedir o socorro a Deus.

Sei que muitos cristãos estão passando por aflições perturbadoras. Os problemas se avolumam, a procrastinação é um mal crescente. Os pecados, gradativamente estão sendo tratados como problemas, e a Palavra de Deus é cada vez menos utilizada para a devida correção dos rumos do coração.

As respostas mais comuns, ultimamente, para a aflição, infelizmente têm sido para procurar respostas para além do que diz a Palavra de Deus.

De forma breve, gostaria de sugerir a leitura do Salmo 77 como um salmo que instrui contra a cultura vigente no meio evangélico. Sim, uma contracultura está claramente apresentada no belíssimo Salmo 77.

Vemos no Salmo 77 um homem em profunda aflição, queixando-se precisamente com Deus, ou contra ele. O tormento expresso logo nas primeiras linhas deste salmo, mostra claramente a confusão e o sofrimento impactando a alma do salmista. E percebam que o salmista não apresenta dúvidas sobre a existência de Deus. Seu questionamento repousa sobre sua providência.

A aflição de fato é perturbadora. Tira o sono, acelera os batimentos cardíacos, nos deixa ansiosos, ávidos para resolvermos rapidamente o problema, pecado ou tribulação.

A grande questão aqui é que, conforme o dilema avança, menor é a confiança do salmista na intervenção de Deus (providência). Assim, ele começa uma trajetória de fato angustiante e crescente, ao ponto de esquecer-se que as misericórdias de Deus não têm fim (Sl 77.9).

As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim. Lamentações 3.22

O salmista usa termos que nós conhecemos muito bem para descrever sua perspectiva do seu próprio estado. Vejamos: elevar a Deus a voz e clamar; no dia da minha angústia; erguem-se as minhas mãos (como o mendicante ergue a mão por um pouco de alimento); minha alma recusa consolar-se; o salmista medita diante de Deus e geme; seu espírito está desfalecido (suas forças estão se esvaindo); está tão perturbado que não consegue dormir nem falar.

Alguns termos acima descritos pelo salmista ainda são usados até hoje, outros foram atualizados, porém, o sentido para a aflição continuou o mesmo e o seu estrago continuou o mesmo.

Diante deste quadro conhecido de tristeza profunda, melancolia e aflição, não apenas a realidade é afeta, mas a própria perspectiva de Deus é contaminada. A aflição pode provocar uma visão distorcida de Deus. E é exatamente o que muitos cristãos estão enfrentando atualmente. Os dilemas estão presentes, as tribulações são uma constante, os pecados que deveriam ser confessados são guardados no coração como um bichinho de estimação, e, evidentemente, quando olham ou quando buscam a face de Deus, só conseguem encontrar uma visão distorcida de Deus.

Para aqueles cristãos que estão passando e estão sentindo exatamente o que está descrito no Salmo 77, há uma palavra bíblica de esperança. O próprio salmista apresenta tanto o problema quanto a solução. Após acusar sistematicamente Deus, encontramos uma declaração corajosa no versículo 10: Então, disse eu: isto é a minha aflição; mudou-se a destra do Altíssimo.

Aflição (do hebraico chalah – tornar-se fraco, doente ou triste), era o que estava encobrindo os olhos do salmista para enxergar a beleza do Altíssimo para poder deleitar-se nele, encontrar gozo e alegria em Deus.

Agora, restaurada sua comunhão com Deus, o salmista pode olhar para o passado e considerar todos os poderosos feitos do Senhor. Agora, o salmista rapidamente recobra sua gratidão e alegria. Seu vigor foi restaurado. Quando leio sua declaração do verso 10, tenho a impressão que ele volta a respirar aliviado. Mesmo contemplando as forças hostis (Sl 77. 16), ele consegue contemplar a força do Senhor.

Sei que há aqueles que estão “diagnosticando” aflição como um problema apenas. Biblicamente falando, aflição precisa ser confessada. Aflição, ou seja, nossa fraqueza moral ou espiritual, nossa falta de fé e de confiança na ação de Deus em conduzir todas as coisas, mesmo que não entendamos, deve ser reconhecida como pecaminosa e deve ser confessada. Após o reconhecimento de sua debilidade é que o salmista tem seus olhos iluminados.

Reconheçamos nossa fraqueza diante de Deus. Confessemos a ele nossos pecados, nossa falta de fé e de confiança plena nele e confiemos nele e na força do seu poder, porque, quando sou fraco, então, é que sou forte. (2 Co 12.10).

sábado, 15 de outubro de 2016

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Antes de engolir, reflita

Nas últimas semanas, você que é leitor mais assíduo deste blog, tem sido desafiado a repensar algumas premissas que são dadas como certas na sociedade (Hey, você que chegou agora... fica o convite para conhecer os posts anteriores, okay?!). Como cristãos, estas reflexões são afazeres normais da vida com Cristo, pois precisamos rever nossos caminhos quase como que diariamente.
 
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Por isso, os convido novamente à reflexão desse assunto, pois pode ser que ou você ou alguém que você conheça, se veja numa situação em que tenha que considerar o uso de remédios para solucionar alguma aflição ou "doença mental". Em sendo o caso, peço que considere:


1) A falência do modelo médico que defende o desequilíbrio químico

Alguns psiquiatras, mais conscientes de suas limitações e dos abusos comuns, questionam a validade das chamadas "doenças mentais". Por um lado encontramos crítica mais gerais, endereçadas ao modelo como um todo, como no caso do dr. T. C. Colbert, que em 2001 publicou um livro com um chocante título: Rape of the Soul: How the Chemical Imbalance Model of Modern Psychiatry has Failed its Patients [Estupro da alma: Como o modelo do desequilíbrio químico da psiquiatria moderna falhou com seus pacientes]. Há também aqueles que o fazem de modo muito específico. Este é o caso do dr. John Modrow, no seu livro How to become a schizophrenic: The case against biological psychiatry [Como se tornar um esquizofrênico: o processo contra a psiquiatria biológica] de 2003, onde aborda tanto a questão da falta de informação crônica que atinge pacientes e familiares, quanto as muitas teorias a cerca do problema específico (esquizofrenia), tais como "defeito cerebral", "desequilíbrio bioquímico" e "defeito genético".

Elliot Valenstein, médico e bioquímico, autor de Blaming the Brain, disse que "Não há nenhum teste disponível para acessar o status químico do cérebro de uma pessoa viva". A proposta da dra. Hendrickson por outro lado, que ela acredita ser consistente com o que a Bíblia ensina, é que haja uma sinergia entre os sentimentos e pensamentos do coração e o equilíbrio químico do cérebro. Ou seja, é uma via de mão dupla, onde um pode afetar/influenciar o outro(Hendrickson, 2013:173).

De maneira bem geral, poderíamos resumir a questão a uma das críticas levantadas: a de que, no máximo, esses problemas poderiam ser catalogados como "desordens". Uma desordem pode ser definida e classificada de várias maneiras, mas geralmente nada são além de manifestações daquilo que "não deveria ser assim", ou seja, comportamentos, pensamentos, ações ou reações que não estão em conformidade com a ordem.

A pergunta, entretanto, que devemos nos fazer é quem determina a ordem, para que algo seja estabelecido como uma desordem? Onde e com que está o paradigma de ordem?


2) As esperanças de descobertas que hoje funcionam como base de fé

Muitos psicólogos e psiquiatras trabalham sob uma premissa de fé que precisa ser cuidadosamente analisada. Creem que a ciência, seja ela representada pela fisiologia, biologia ou qualquer área da medicina, descobrirá, em um futuro que esperam esteja próximo, as causas físicas e bio-químicas para as atuais "doenças", fornecendo assim a prova final que justificará a já presente administração de medicamento.

Esta postura não é nova, no entanto. Em Blaming the Brain: The Truth About Drugs and Mental Health [Culpando o Cérebro: A verdade sobre as Drogas e a Saúde Mental], de 1998, Elliot S. Valenstein, professor emérito de psicologia e neurociência da Universidade de Michigan, escreveu que desde as décadas de 50 e 60 os psiquiatras já administravam drogas que não compreendiam bem seu funcionamento. A indústria farmacêutica, diz Valenstein, investiu na pesquisa tanto de novas drogas como na descoberta de seu funcionamento (pg. 59). Ele chega a dedicar um capítulo inteiro para esse assunto em seu livro (Valenstein, 1998:165-202). Ou seja, eles firmemente acreditam em fatos que ainda não se veem...


3) Que entre ignorantes e sábios, ninguém sabe muito mesmo

Nas conversas entre leigos e entendidos, sempre sobra uma acusação de que quem defende o aconselhamento bíblico seja ignorante, ou obtuso. Como se o quadro já não fosse suficientemente confuso, as agência e associações ligadas aos profissionais da área entendida admitem que não sabem a causa ou a cura para qualquer desordem mental, e em muitos casos, também desconhecem os efeitos do tratamento em seus pacientes.

Hendrickson acredita que o ensino bíblico seja o de que as suas emoções vêm de seu coração, não de seu corpo (Hendrickson, 2013:174), embora o contrário possa acontecer também. Para sustentar a tese de que a Bíblia ensina que o que acontece com seu corpo influencia o seu coração, Hendrickson oferece o exemplo de Elias, cuja fé perdeu o vigor depois do confronto com os profetas de Baal e da fuga prolongada para escapar das mãos de Jezabel. Embora ela reconheça que ele estivesse, após os eventos, física e emocionalmente exausto e faminto, nada disso, em sua avaliação, o fez desistir mas tão somente abriu margem para que a tentação para fazê-lo ficasse mais difícil de resistir. (Hendrickson, 2013:172).  Hendrickson entende que Deus foi sensível às necessidades físicas de Elias, não deixando-o sem alimento e descanso. Mas insiste:"Ele queria desistir porque julgou que sua situação era desesperadora e seu ministério, uma causa perdida". Adiante ela nota que descanso e comida não solucionaram a situação do profeta Elias, e conclui: "Foi necessário um encontro com a verdade de Deus para colocar o coração de Elias no devido lugar" (Hendrickson, 2013:174).


4) Riscos não considerados, mas que podem ser fatais

Uma outra questão a se considerar é o risco de suicídio que algumas dessas drogas induzem, quer pelo seu abuso, quer por sua má prescrição. É possível que alguém ainda sinta que, desde que evitadas as más administrações da droga, seu uso seria seguro.

Procure se informar, pois quando a decisão de caminhar pela via do medicamento é tomada, é importante levar em consideração que a maioria dos remédios psiquiátricos possivelmente farão duas coisas: ajudar a diminuir a dor, e trazer fortes efeitos colaterais (Hendrickson, 2013:173).

O livreto "Mental Health Care: What is the Alternative to Psychotropic Drugs?", alerta que qualquer um que esteja tomando drogas psicotrópicas jamais deverá dispensá-las imediatamente, pois devido aos efeitos perigosos que a abstenção repentina causa, o acompanhamento com um competente médico deve ser feito. No aviso em questão, o livreto indica que tal profissional seja preferencialmente um não psiquiatra.

Entre aqueles profissionais de saúde que se deparam com as evidências, com os efeitos nocivos e com a falta de sustentação científico-médica para muito do que é alegado no Manual de Diagnóstico, a busca por tratamentos alternativos aos medicamentos é crescente. Hendrickson, por exemplo, entende que as drogas psiquiátricas não são necessárias, sob condições normais, e talvez tenham alguma valia em casos extremos, desde que considerados os efeitos colaterais. Em sua opinião, a Bíblia continua sendo, apesar de haver algum possível benefício na administração medicamentosa, a fonte primária de auxílio. (Hendrickson, 2013:176). A pergunta que paira é: Quais benefícios os medicamentos realmente trazem?


Então?

   1. Saiba, não o nome comercial do remédio que estão te receitando ou que seu aconselhado está tomando, mas o "princípio ativo", ou seja, o nome do fármaco. Você se surpreenderá com a quantidade de nomes fictícios para o mesmo tipo de remédio. Pergunte em qualquer balcão de farmácia quantos diferentes "remédios" existem para o ibuprofeno, um analgésico não-narcótico,  não-adictivo. Mas repare: este é apenas o começo da descoberta. Agora procure saber o que ele faz, onde exatamente ele age no organismo e quais são os seus efeitos colaterais. Pessoalmente já vi dentista receitar anti-depressivos, e fiquei a me perguntar quanto pacientes atendidos por ele já precisaram deste tipo de medicamento e qual a influência do estado emocional de alguém que precisa de um tratamento dentário.

2. Saiba o motivo pelo qual você deveria tomar esta medicação. Remédio tem uma direta ligação com o diagnóstico, que por sua vez deveria ter uma direta relação com o "problema", a doença sob trabamento. Esta é uma questão simples: se você foi diagnosticado com alguma desordem de pânico (o que não é muito difícil), e lhe foi prescrito um medicamento, a pergunta natural que se segue é: onde o pânico reside? Em que parte do corpo ele está ou "começa"? E a segunda questão que se segue a esta é: Como o remédio em questão agirá sobre o problema? Agirá sobre o local do meu corpo onde o pânico se aloja? Qualquer profissional capaz de lhe receitar um antidepressivo prontamente lhe dirá que o motivo básico para que você tome o remédio prescrito se deve ao fato de você experimentar um desequilíbrio químico no cérebro, ou uma doença mental ou problemas emocionais. Mas repare: Qual foi o exame capaz de provar que exista qualquer doença no cérebro ou mal funcionamento orgânico que justifique o diagnóstico? Geralmente a base sobre a qual se fundamental para fazer tais afirmações é o Manual Diagnóstico e Estatístico das Desordens Mentais, cuja sigla é DSM, hoje em sua 5 edição.

3. Saiba que o abuso de drogas, lícitas ou não, dificulta e muito o processo de aconselhamento. Elas nublam o pensamento, dão falsas sensações, de mal e bem-estar, e na maioria das vezes, escondem o perigo verdadeiro, camuflando-o atrás de uma aparente solução. Citei acima propositalmente o Ibuprofeno, pois ele ilustra bem a questão. Nem todos sabem que ele não é só um analgésico, mas possui também propriedades anti-inflamatórias. Qualquer médico poderá confirmar (e pais de crianças pequenas também) que ministrado sem prescrição, ele pode camuflar o problema, sem tratá-lo apropriadamente. Em resumo, "...tomar uma medicação sem considerar os assuntos espirituais pode deixar uma questão muito importante sem ser tratada." (Hendrickson, 2013:171) .
 
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Então, não engula diagnósticos, comprimidos nem explicações com um simples gole d'água. Seja criterioso peça a Deus por sabedoria, pois neste mundo somos enviados como ovelhas para o meio de lobos, e é mister que sejamos prudentes como as serpentes, ainda que símplices como as pombas (Mateus 10.16).

Jônatas Abdias

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Nem grilo falante, nem muro das lamentações

Israel Adventures. Jerusalem. Matan

Uma piada antiga conta que um médico do interior enviou seu filho a fim de cursar medicina na capital. Após um logo tempo de estudo o jovem retornou para assumir a clínica do pai, que havia se aposentado. O primeiro paciente entrou e ele soube que o cliente já se consultava com o seu pai há 10 anos. O jovem doutor o examinou, prescreveu o remédio e com poucas semanas o paciente já estava bom, muito grato e não poupando elogios ao novo doutor. O jovem médico, então, foi visitar o pai e disse: Meu pai, já estava em tempo mesmo de o senhor se aposentar. A medicina avançou muito e aquele paciente que o sr. já tratava há dez anos ficou curado em três semanas com o tratamento que prescrevi. O velho médico olhou bem para o filho e exclamou: Pois é, meu filho, mas foi o dinheiro desses dez anos de consultas que ajudou a pagar o seu curso de medicina...

Pensando já na vida real, não são poucos os casos de pessoas que, ao enfrentar problemas existenciais, recebem junto com o “diagnóstico” a notícia, pelo especialista, de que o tratamento terá de ser bem longo (muitas vezes, “coincidentemente”, durando o mesmo tempo das prestações a serem pagas pelos profissionais). É claro que aqui, não posso ser leviano. Mesmo discordando das abordagens seculares, tenho plena consciência de que há muitos terapeutas que estão mais preocupados com os pacientes que com as parcelas a vencer e levam seu trabalho a sério. Sei também que a questão de “manter o cliente” não é uma prerrogativa de conselheiros seculares. Por várias razões, incluindo finanças, no caso daqueles que cobram para aconselhar (tenho aqui minhas críticas a essa prática, mas isso é assunto para outro post), desejo de ser reconhecido, ouvido, considerado, etc., conselheiros bíblicos podem cair na tentação de se tornar uma espécie de “Grilo Falante gospel”.

Você deve conhecer o Grilo Falante, ele é o amigo do Pinóquio, um boneco de pau que se tornou um menino, e age como sua consciência, tentando livrar o garoto de problemas. Curiosamente, enquanto eu escrevia fui buscar saber um pouco mais sobre a personagem que eu já conhecia e descobri que vários sites trazem a informação de que o nome do grilo, em inglês Jiminy Cricket, inicialmente era apenas um eufemismo para Jesus Christ. Essa nova informação torna minha ilustração ainda mais precisa, pois é isso que muitos conselheiros acabam tentando fazer, servir eles mesmos de redentores dos aconselhados.

Em meu ministério encontrei alguns aconselhados que foram uma tentação para que eu começasse a agir assim. Um, especificamente, me ligava a cada decisão que tinha de tomar. Em princípio até me senti importante, já que alguém estava considerando minhas “opiniões” a fim de tomar decisões em sua vida. De repente começaram as ligações tarde da noite ou durante os períodos em que eu estava me exercitando fisicamente, também na hora em que eu estava almoçando e em vários outros momentos do dia, para perguntar sobre as coisas mais simples.

É claro que tive de conversar e explicar que o objetivo do aconselhamento era que, diante do Senhor, ele pudesse tomar, por si mesmo, decisões que honrassem ao Redentor. Conselheiros devem estar bem cientes de que seus dons, assim como os demais dons concedidos pelo Senhor, têm por finalidade o “aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para o outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro” (Ef 4.12-14).

A ideia é que o aconselhado dependa de Cristo, não do conselheiro, e para que isso aconteça as tarefas são de essencial importância no processo de aconselhamento bíblico. Conselheiros devem ouvir as histórias, os dilemas, buscar e apontar nas Escrituras a forma como os aconselhados podem e devem responder biblicamente às diversas circunstâncias de suas vidas e providenciar tarefas criativas para que eles coloquem em prática o que estão aprendendo e comecem a crescer em graça, sempre na dependência de Deus, aquele que efetua nos crentes o querer e o realizar conforme sua boa vontade (Fp 2.13), por meio de seu Filho Jesus Cristo, que afirmou: “Quem permanece em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer (Jo 15.5).

Quando isso não ocorre há outro perigo para os conselheiros que é o de se tornarem nada mais que um “muro de lamentações dos pecados alheios”. Funciona mais ou menos assim, os aconselhados vêm para o aconselhamento, contam suas crises, seus pecados, choram, ouvem alguma exortação e/ou esperança que flui do evangelho, recebem suas tarefas, não as fazem, não buscam crescer em graça e pensar biblicamente, mas sempre retornam ao conselheiro a fim de tentar aliviar a culpa do pecado ou o peso sentido em meio aos dilemas da vida, por meio de um mero desabafar ou de um “pôr tudo para fora”.

Com Maísa (nome fictício) aconteceu exatamente assim. Apesar do prévio combinado, de que se ela não realizasse as tarefas não haveria como seguir como aconselhamento, por algumas vezes acabei transigindo com sua falta de compromisso, achando que conseguiria ajuda-la, mesmo ela tendo deixado de fazer uma tarefa simples como voltar a frequentar regularmente a sua igreja. Quando entendi que ela não queria levar a sério o compromisso com o corpo de Cristo, mas somente ter alguém para desabafar, não tive outra opção a não ser encerrar os encontros para aconselhamento. O princípio exposto em Provérbios 21.25 cabe muito bem aqui, “o preguiçoso morre desejando, porque as suas mãos recusam a trabalhar”. Nunca haverá resultado na passividade (ou preguiça) dos aconselhados, pois a piedade é algo que deve ser exercitado e que exige esforço (1Tm 4.7; At 24.16). É bom lembrar que no Salmo 1 a promessa de ser bem-sucedido é em tudo o que o justo “faz” (1.3).

Você pode ser uma bênção aconselhando seus irmãos sendo usado, pela graça de Deus, para exortar, confortar, animar, apontar caminhos, dar esperança, mas sem nunca querer tomar o lugar do Redentor, quer seja nas decisões que os aconselhados devem tomar, quer seja no alívio paliativo, ao simplesmente servir como uma boa pessoa com quem desabafar.

Lembre-se sempre disso: conselheiros não são chamados para ser um Grilo falante, tampouco um muro das lamentações, mas, nas palavras de Paul Tripp, simples “instrumentos nas mãos do Redentor: pessoas que precisam ser transformadas ajudando pessoas que precisam de transformação”. Que o Senhor Jesus Cristo, o Maravilhoso Conselheiro, use nossa vida para a sua própria glória.

Milton C. J. Jr.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Algumas Considerações sobre o Aconselhamento Bíblico

aMuitos pastores e líderes evangélicos estão alertando a igreja contra o chamado secularismo na igreja.

Uma definição prática para o secularismo no contexto religioso é, a cosmovisão ímpia que rejeita a influência e as regras de Deus e de sua Palavra. A raiz latina saeculum referia-se a uma geração ou a uma era. “Secular” veio a significar “pertencente a esta era, mundana”.

Dito isto, ouvimos o alerta de forma generalizada sobre a influência do secularismo sobre a igreja. O secularismo tem influenciado rapidamente o comportamento e a percepção de toda a realidade da igreja. E, por isso mesmo o alerta está soando em diferentes vertentes dentro da igreja evangélica brasileira.

Estranhamente, os mesmo que erguem a voz para alertar a igreja sobre a influência do secularismo, apontam somente para alguns aspectos da sua prática ou da sua influência, destacando somente alguns frutos, ou seja, alguns aspectos mais gritantes do secularismo, como a mercantilização da fé.

Obviamente que isso é um problema muito grave e tal mercantilização da fé deve mesmo ser combatida e rejeitada. Entretanto, não podemos ignorar a raiz desta secularização. Se não conseguirmos diagnosticar o problema em sua raiz, toda abordagem ou alerta será sempre um paliativo. Devemos encarar com sobriedade e coragem o início deste gravíssimo problema que tem afetado todas as denominações.

Antes de avançarmos, é necessário entender que há uma disputa em andamento. O secularismo também pode ser visto como um movimento de ideias a disputar mentes e corações, afinal, o secularismo tem exercido grande fascínio e tem anestesiado a mente e o coração de inúmeros cristãos e igrejas.

Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, 2 pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, 3 desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, 4 traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, 5 tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes. (Grifo meu) (2 Timóteo 3. 1-5).

A influência do secularismo sobre a vida da igreja foi profunda. Todas as áreas da vida da igreja foram afetadas. Casamento, criação de filhos, trabalho, estudos, relação fraterna, culto e liturgia, discipulado, missões, enfim, todas as áreas sofreram a influência danosa do secularismo.

Quando a igreja começa a sofrer mais intensamente os frutos desta influência, ao invés de tentarmos identificar a raiz do problema, ouvimos afirmações genéricas dos efeitos da influência secular sobre a igreja.

Ao pensarmos sobre o que fazer para impedir o avanço do secularismo na igreja, gostaria de sugerir que pensemos seriamente na prática do aconselhamento bíblico como uma ferramenta santa a ser usada para reorientar uma cultura ruim já estabelecida no meio evangélico. Para que isso aconteça, devemos desmistificar alguns conceitos equivocados e preconceituosos sobre o aconselhamento bíblico.

Primeiro: não é verdade que o conselheiro bíblico não é bem preparado.

O conselheiro bíblico precisa se preparar muito, precisa conhecer profundamente a Palavra de Deus. Deve ser e se preparar teologicamente. Sua análise bíblica não pode ser rasa ou displicente. Há cursos de altíssimo nível aqui no Brasil e no exterior, dedicados exclusivamente para treinar conselheiros a fim de ajudar seus aconselhados. Um bom preparo teológico é imprescindível para a prática do aconselhamento bíblico.

1 Tessalonicenses 5:11: Pelo que exortai-vos uns aos outros e edificai-vos uns aos outros, como na verdade o estais fazendo.

Hebreus 3:13: antes exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado;

Colossenses 3.16: Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração.

Segundo: Não é verdade que a resposta primeira do conselheiro bíblico é “falta de oração e leitura da Bíblia”.

Por falta de conhecimento e de boa instrução, ou, por má fé, muitos líderes contrários ao aconselhamento bíblico elaboraram uma caricatura do conselheiro e da disciplina. Sou fã da arte da caricatura. Entretanto, não posso dizer que caricaturar propositalmente uma área da teologia, com o intuito de demostrar demérito ou mesmo para demonstrar insignificância ou perigo, jamais será o melhor procedimento para alertar a igreja contra algo danoso. Devemos agir sempre à luz da verdade, não da caricatura.

2 Coríntios 13.8: Porque nada podemos contra a verdade, senão em favor da própria verdade.

Um conselheiro bíblico bem treinado jamais agirá de forma tão infantil e inconsequente. Jamais o conselheiro bíblico bem treinado apresentará respostas como se fosse um “passe de mágica”. Porém terá a coragem, em momento apropriado, de confrontar seu aconselhado sobre a ausência de exercícios espirituais tão importantes quanto a oração e a leitura da Palavra de Deus.

Terceiro: Não é verdade que o conselheiro bíblico é um alienado.

Os homens e mulheres que se preparam para servir na igreja como conselheiros, estão atentos ao que acontece ao seu redor e não ignora a boa observação. Entretanto, mesmo antenados e bem informados sobre assuntos diversos, toda informação passa pelo crivo da Palavra de Deus, não importando a fonte. A autoridade primeira e fundamental será sempre a Palavra de Deus. E, se por alienado entenderem aquele que efetivamente crê que o conselheiro bíblico usa em “demasia” a Bíblia, nenhum conselheiro bíblico se importará com mais um rótulo caricato.

Porque não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Romanos 1.16

Quarto: Não é verdade que o conselheiro bíblico é insensível ao sofrimento do outro.

Por fim, mesmo não sendo uma lista exaustiva, será bom esclarecer que o conselheiro bíblico sofre juntamente com seu aconselhado. Cada vitória sobre o pecado é uma imensa alegria. Entretanto, cada derrota, ainda que temporária para o pecado, é um punhal a estraçalhar o coração e a mente do conselheiro. O conselheiro bíblico sente e sofre intensamente. Lamenta pela fracasso e luta em oração para que o santo evangelho santifique seus aconselhados. Afirmar que o conselheiro bíblico é insensível é tomar o lugar do verdadeiro juiz e julgar irmãos e irmãs que estão trabalhando com afinco para o bem, para a santificação dos aconselhados. Assim, o que encontramos nesta falsa acusação de insensibilidade, é tão somente mais uma caricatura a desfigurar o conselheiro bíblico e o aconselhamento bíblico.

Voltando ao ponto inicial, o que o secularismo tem a ver com o aconselhamento bíblico e a igreja?

A igreja foi buscar fora da Palavra de Deus instrução para: educar seus filhos; resolver conflitos conjugais; resolver conflitos relacionais; abdicou do poder de Deus e se rendeu ao marketing; as estratégias humanas tomaram o lugar da ação do Espírito Santo de Deus; o dinheiro é a medida de sucesso... muito dinheiro, sucesso, pouco ou falta dele, fracasso. Ateus estão instruindo os membros da igreja. Um semestre numa faculdade é suficiente para elevar pensadores marxistas acima do senhorio de Jesus Cristo. Esses jovens viram os adultos renderem devoção a homens mais que a Deus. Muitos adultos e anciãos da igreja levam mais em consideração a palavra de homens pecadores acima da Palavra de Deus. Sexo entre jovens já não é mais visto como um pecado, mas como algo típico da juventude. A autoestima é a hermenêutica da nossa geração e, por isso mesmo, é a tragédia da nossa geração. A mente não suporta 40 minutos de exposição bíblica, mas a mente pós moderna suporta duas horas de palestra motivacional, mesmo que travestida de mensagem bíblica. Falar somente sobre Deus, Cristo, Espírito Santo, sobre o avanço do reino, sobre a igreja, são inconvenientes e cansativos, se não houver alguma pitada de tempo para “erguer os ânimos” ou elevar a autoestima. Homens e mulheres esqueceram do dever do bom testemunho fora das quatro paredes. Evangelho da cruz é um termo estranho. Há pessoas ansiosas para ouvir uma mensagem “linda”, ao mesmo tempo em que rejeitam a mensagem transformadora e desafiadora do santo evangelho. O entretenimento é a “bola da vez”. Se não há entretenimento, não haverá gente.

O entretenimento não santifica, não confronta, não consola, e portanto, não anima, não estabelece o firme fundamento da esperança. Entretenimento embrutece o coração e alma. E boa parte da igreja abraçou tudo isso, ou se rendeu a tudo isso.

O aconselhamento bíblico apresenta um caminho distinto deste que temos observado. A declaração feita é simples e confrontadora: a Bíblia tem todas as respostas para a alma humana! Esta frase típica do ambiente do aconselhamento bíblico também é alvo de zombarias e chacotas.

Pense por um instante e pondere:

· O conselheiro bíblico tem a Palavra de Deus como firme fundamento da fé;

· O conselheiro bíblico entende que a Palavra de Deus é autoritativa, inerrante e suficiente, caso contrário não seria um conselheiro bíblico;

· O conselheiro bíblico se preocupa com os seus irmãos em dificuldades e deseja contribuir para o progresso do reino de Deus;

· O conselheiro bíblico procura amparo na Palavra de Deus para apoiar, orientar, ajudar na correção de rumos, confrontar quando necessário, todos aqueles que pecaram e erraram o alvo em algum momento na vida;

· O conselheiro bíblico reconhece que não é capaz de ajudar ninguém sem a ação do Espírito Santo de Deus;

· O conselheiro bíblico luta contra seus próprios pecados e os reconhece diante de Deus e jamais se apresenta como “o salvador da pátria”, possuidor de todas “as respostas” para todos os dilemas da alma;

· O conselheiro bíblico reconhece a bênção da medicina tanto quanto reconhece alguns dilemas desta mesma medicina que, como qualquer outra área do saber, pode se rebelar contra Deus;

· Numericamente falando, os conselheiros bíblicos são insignificantes aqui no Brasil, mesmo que haja um despertamento de interesse sobre esta disciplina.

Diante destes fatos, qual seria a razão de tamanho preconceito caricato sobre homens e mulheres que tão somente desejam apoiar irmãos em Cristo a terem uma vida mais santa e menos rendida ao secularismo e ao pecado?

Para cada dilema do coração, para cada aspecto obscuro da alma, para cada dilema moral, o aconselhamento bíblico reafirma aquilo que se pode observar claramente na Palavra de Deus, ou seja, respostas! A Bíblia tem respostas para todos os dilemas da alma, do coração ou os dilemas morais, que fazem refletir no corpo os aspectos do pecado não tratado devidamente como pecado, quer seja rebeldia, dureza de coração, desejo, cobiça, falta de contentamento, ira, inveja, ciúmes, ódio, depressão, tristeza, ansiedade, falta de ânimo, frieza espiritual, morte e luto... Em cada aspecto e suas subdivisões, a Palavra de Deus lança luz para restauração e correção de rumos.

Hebreus 4.12: Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração.

Salmo 19.7: A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices.

Salmo 119: 104 Pelos teus mandamentos alcancei entendimento; por isso odeio todo falso caminho. 105Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho.

De todo meu coração penso que o aconselhamento bíblico deve ser praticado urgentemente na igreja para ajudar contra o avanço do secularismo. Homens orientando biblicamente seus filhos, mulheres mais sábias orientando biblicamente as mais novas na igreja quanto a procedimento, casamento, criação de filhos. Jovens biblicamente apoiando-se mutuamente no desejo se santidade e da glória de Deus. Liderança da igreja preocupada na edificação do corpo, fidelidade à Palavra de Deus e as benditas e maravilhosas doutrinas da graça sendo vivenciadas.

Uma igreja composta por pecadores que sabem que não fizeram por merecer, que são frágeis em todas as circunstâncias e, por isso mesmo, procuram abrigo exclusivo no Deus Altíssimo.

A igreja não deveria ser conhecida por causa dos seus programas de entretenimento, antes, deveria ser conhecida descansar na graça de Deus, cultuando intensamente o redentor Jesus, relembrando constantemente seus méritos, seu sacrifício na cruz. Cultuando biblicamente, sem interferência da opinião de ímpios, e refletindo toda a alegria dos santos em render adoração ao Deus que cuida das suas ovelhas como Pai.

Espero que minhas considerações sobre o aconselhamento bíblico auxiliem e encorajem outros conselheiros bíblicos nesta área desafiadora. Porém, gostaria de recomendar a leitura de outros autores mais competentes. Aqui mesmo, meus colegas e irmãos em Cristo, que fazem parte deste blog estão na caminhada há bem mais tempo do que eu. Recomendo seus artigos com alegria.

Por fim, é necessário destacar a dificuldade que muitos estão tendo em afirmar a suficiência da Palavra de Deus e ver sua aplicação em todas as áreas da vida. Sei que há aqueles mal intencionados, entretanto, considerando que há tempo para todas as coisas (Eclesiastes 3.1), sinceramente espero que, aqueles irmãos que nutrem algum dissabor pelo aconselhamento bíblico, possam ler e ponderar na grande proposta do aconselhamento bíblico, ou seja, ajudar irmãos, ombro a ombro, para estarmos mais próximos do nosso redentor Jesus e assim, refletirmos toda nossa confiança, alegria e regozijo, tão somente nele.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Andando meio desequilibrado?


Dr. Wadislau Gomes dizia em suas aulas sobre aconselhamento que andar é uma façanha que envolve equilíbrio e desequilíbrio. Eu comigo pensava: então desequilibrar não é algo tão mal assim se for seguido de equilíbrio. Mas se eu me manter equilibrado o tempo todo, não saio do lugar... Você não acha curioso que a Bíblia se refira à vida muitas vezes como uma caminhada, como "andar" com Deus ou distante dele? Mas ultimamente uma teoria tem avançado, dizendo que andamos meio desequilibrados aqui dentro da cabeça, e não é labirintite.

Há quem diga que esse assunto, o do desequilíbrio químico cerebral, não deveria fazer parte das preocupações dos conselheiros bíblicos. "É doença!" diz alguém com ar de conhecimento, enquanto outro grita "sai pra lá, vá cuidar da alma, que da mente já tem médico pra isso". Nesse empurra, empurra, me lembro da anedota do rapaz que no telhado de celeiro, à conserta-lo, perde o equilíbrio e precipitando-se para baixo só tem tempo de orar: "Senhor me acode". Na queda suas roupas se prendem a um dos muitos ganchos espalhados pelas paredes, e ele então ora aliviado: "Não precisa mais, Senhor... Fui pego pelo gancho...".

Existe uma tensão muito grande entre os que defendem o tratamento da dor emocional com remédios e o grupo contrário aos medicamentos psiquiátricos para esse fim (Valenstein, 2002:3). Para muitos, gratos ou não pelos ganchos que Deus põe no caminho da vida, ser medicado para procurar manter o equilíbrio químico no cérebro tem o mesmo status da Aspirina ou Novalgina (escolhe o seu...) que atua na mesma cabeça, mas para aliviar dor diferente. Na abordagem do assunto, é importante levar em consideração a advertência levantada pela Dra. Hendrickson, para não cair nem no julgamento legalista, nem tampouco na vitimização irresponsável: "os membros do grupo contra medicamentos podem chegar perigosamente perto de cometer o mesmo tipo de erro dos 'consoladores de Jó'", querendo com isso dizer que existe uma tendência para se condenar a pessoa acusando-a de ter pecados não confessados; ao passo que os membros do grupo pró-remédios "querem fazer com que todos entendam que o seu sofrimento não é devido ao pecado" (Hendrickson, 2013:170).

A insistência dos conselheiros bíblicos em questionar o uso, muitas vezes indiscriminado, de drogas (fármacos) psicoativas não é à toa, entretanto. Embora a ciência que estude os fármacos seja a Farmacologia, não a Teologia, esta última nos informa que a raiz que compõe a palavra [pharmakon (droga) e logos (palavra)] pisou nas páginas das Escrituras Sagradas. Por exemplo, em Gálatas 5:20, Apocalipse 9:21 e 18:23, a palavra "pharmakeia" foi traduzida por feitiçaria, justamente por conta da palavra fazer alusão à poções e encantamentos. Já em Apocalipse 21:8 e 22.15 encontramos as palavras "pharmakeus" e "pharmakos"; estas foram traduzidas por encantadores e mágicos. O sentido mudou com o tempo e hoje os usos dessas palavras anda longe daqueles usados nas Sagradas Letras, mas as pegadas indicam correspondência.

Quando caminhamos nesse tipo de terreno, muitas vezes somos "convidados" a nos retirar. Às vezes de modo bem ríspido. Afinal, falar de remédios é um assunto bíblico? Conquanto muitos respondam automaticamente com um sonoro "não", esta pode ser a resposta errada. Neste post minha intenção é sacudir um pouco a nossa certeza de que médicos e conselheiros estejam de lados opostos da estrada, e nesse desequilíbrio, dar um passo para frente, encontrar equilíbrio e avançar.

Uma das maiores dificuldades, (senão a maior) para se continuar no caminho é a transposição do "modelo médico". Por este termo refiro-me ao que a sociedade adotou como modelo estrutural de vida e pensamento (o que também pode ser chamado de cosmovisão), no qual tudo pode ser resumido, explicado e tratado em termos médicos. Segundo este modelo, há pouco espaço (se houver) para teologia.

Com a palavra, então, os médicos:
A afirmação à seguir poderia soar deselegante se vinda de outras fontes, mas a psiquiatra Dra. Laura Hendrickson (2013:173), não exitou em afirmar que "quando os comerciais de televisão dizem a você que os sentimentos dolorosos são causados por um desequilíbrio químico em seu cérebro, eles estão simplificando excessivamente uma informação complexa" (grifo meu). O Dr. Darshak Sanghavi, membro da equipe clínica da Escola de Medicina de Harvard, também está entre os muitos que publicamente reprovam a teoria do "desequilíbrio químico" (Anon, 2008:2).

Até o presente momento, para a esmagadora maioria das chamadas doenças mentais e desordens categorizadas nos DSM's, ainda não existe causa fisiológica conhecida. O Dr. Joseph Glenmullen, da Escola de Medicina de Harvard e autor do livro Prozac Backlash (2001), diz que apesar da "ausência de doenças verificáveis" a psicofarmacologia "não tem hesitado em construir um 'modelo de doenças' para diagnósticos psiquiátricos". Ele continua dizendo que "esses modelos são sugestões hipotéticas do que pode ser a explicação fisiológica - por exemplo um desequilíbrio de serotonina". (Anon, 2008:2). Dra. Hendrickson sobre isso afirma: "Mas não há provas de que os níveis anormais dessas substâncias químicas tenham se desenvolvido por si mesmos, causando, assim, a sua dor emocional" (Hendrickson, 2013:173). Aliás, já se sabia há muito que não havia qualquer confirmação científica de que a depleção de serotonina teria qualquer papel determinante sobre o assunto (Valenstein, 1998:3). Então, quando conselheiros bíblico como Heath Lambert afirmam que "não há exame de sangue para 'depressão clínica', nem biópsia que detecte desordem bipolar, ou tomografia que identifique desordem de personalidade boderline" (Lambert, 2014:Loc 329), ele não está sendo nem simplista, nem ignorante; mas refletindo sobre aquilo que especialistas têm escrito e publicado ao longo do percurso.
Não obstante as evidências, ainda perdura a aceitação da teoria, como quem está perdido mas não pára para perguntar qual é o caminho de volta. Mas alguém poderia perguntar quem estaria interessado na aceitação dessa teoria, afinal? Iona Heath, clínica geral do Caversham Pratice, de Londres, em artigo publicado no The Guardian, sugeriu que as companhias farmacêuticas seriam as maiores interessadas no grande aumento da gama de anormalidades, visto que o mercado de seus respectivos tratamentos cresce proporcionalmente (Anon, 2008:3). Um estudo de 2006, publicado em Psychotherapy and Psychosomatics mostrou que 100% dos psiquiatras que foram responsáveis por descobertas de doenças mentais na seção de desordens psicóticas, foram financiados por alguma companhia de drogas psiquiátricas (Anon, 2008:3). Anos antes, Dr. Sydney Waler III, neurologista e psiquiatra, já havia escrito em seu livro A dose of Sanity (1996:239-230) que a influência de companhias farmacêuticas tinha seu como foco "a expansão do número de 'desordens psiquiátricas' reconhecidas pela APA e o número de drogas recomendadas para essas desordens". E conclui: "Afinal, todo diagnóstico no DSM é uma potencial mina de ouro para as firmas farmacêuticas".

Novamente uma série de afirmações chocantes. Para nós, leigos desconhecedores do universo todo próprio da medicina, seria muito afirmar que a indústria psicofarmacológica tenha influenciado diretamente no aumento do catálogo do DSM (Manual Diagnóstico de Desordens Mentais). Contudo, não fossem essas afirmações vindas de autoridades no assunto, estaríamos prontos a duvidar. Talvez estas afirmações estejam alicerçadas sob o seguinte dado: o crescimento do número de desordens e doenças mentais, em um período de 5 anos fez com que o DSM  experimentasse um crescimento de 300%. Isso não indicaria nada se desde a publicação da quarta edição do DSM, em 1994, não houvesse um aumento de 256% nas vendas de drogas antipsicóticas e antidepressivas (Anon, 2008:3).

Quando nosso mapa está confiado no "assim diz a ciência", corremos o risco de nos perder. Como cristãos, que caminham entre desequilíbrios e novo equilíbrio, confiamos no "assim diz o Senhor". Sabemos onde queremos chegar, pois nosso mapa, a Bíblia, não somente nos aponta o destino, como uma bússola, mas também nos indica o Caminho, a Verdade e a Vida, provendo assim mais do que um mapa: companhia para viagem. Se nossa confiança inabalável nas descobertas farmacológicas e médicas se desequilibram aqui, um novo passo, à frente, traz equilíbrio... e assim, um dia, quando olhar para trás, poderemos dizer, como dito de Enoque, que andamos com Deus.
Jônatas Abdias

Referências bibliográficas
Anon.  2008.  Mental Health Care: What is the Alternative to Psychotropic Drugs?
Hendrickson, L.  2013.  Sobre os medicamentos: encontrando um equilíbrio.  (In Fitspatrick, E., ed.  Mulheres Aconselhando Mulheres: respostas bíblicas para os difíceis problemas da vida.  São Paulo: NUTRA.  p. 169-179).
Lambert, H.  2014.  The Gospel and Mental Illness: ACBC.
Valenstein, E.S.  1998.  Blaming the Brain: The Truth About Drugs and Mental Health: Free Press.
Walker III, S. & Kellogg, J.  1996.  A dose of sanity.  Nature Medicine, 2(11):1270.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

A suficiência da Escritura para a vida e piedade

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Os cristãos, geralmente, não têm problema em afirmar a suficiência da Bíblia para a salvação. Porém, no que diz respeito às emoções, pensamentos, atitudes e comportamento, não são poucos os que negam a suficiência da Palavra. Prova disso é que a literatura de autoajuda é abundantemente consumida, inclusive entre crentes.

Isso é um claro contrassenso. Se a Escritura é suficiente para “nos tornar sábios para a salvação em Cristo Jesus” (2Tm 3.15) ela tem de ser também suficiente para tratar das nossas emoções e atitudes.

Conceitos e explicações seculares têm tomado cada dia mais espaço dentro da igreja e teorias têm ganhado o “status” de verdades absolutas. Tem sido ensinado de muitos púlpitos, por exemplo, que a maioria dos problemas dos crentes é causada pela falta de amor-próprio, o que é uma ideia totalmente antibíblica. A Escritura nunca ensinou que devemos nos amar, mas, sim, que devemos amar o próximo como já nos amamos (Mt 22.39; Ef 5.29).

Mais ainda, ansiedade virou doença, orgulho, egoísmo e soberba receberam o pomposo nome de “transtorno de personalidade narcisista”, e a cada ano surgem novas síndromes e transtornos que tentam “patologizar” o que a Bíblia chama de pecado. Terapeutas têm tentado ajudar seus pacientes a “viver melhor” ao fazê-los crer que eles não são culpados pelos seus atos, antes, a culpa está na forma como foram criados ou no meio em que vivem.

Cada vez menos os crentes recorrem às Escrituras e aos gabinetes pastorais para aconselhamento bíblico a fim de entender seus sentimentos e comportamento, pois, em seu entendimento, isso não é trabalho pastoral, requer ajuda de um profissional qualificado. David Powlison mostra em um artigo que não é à toa que a igreja tenha sido criticada por dois psicólogos seculares, O. Hobart Mower e Karl Manninger. “Mower perguntou: ‘Será que a religião evangélica vendeu seu direito de primogenitura pela panela de cozido da psicologia?’ Menninger escreveu um livro cujo título soa provocador: Whatever Hapenned of Sin? (O que aconteceu com o pecado?)”[1].

Um caminho melhor

Na contramão de tudo isso, o apóstolo Pedro afirma categoricamente que pelo divino poder de Deus “nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude” (2Pe 1.3). Para Pedro, se o homem conhece ao Senhor, ele tem tudo aquilo de que necessita para a vida e piedade. Observe bem, Pedro não diz algumas coisas, mas tudo o que é necessário.

A igreja deve urgentemente voltar os olhos para a Palavra de Deus, que é a maneira que temos de guardar puro o nosso caminho (Sl 119.9). Precisamos crer no que Paulo escreveu à Timóteo, que a Palavra de Deus “é útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e educação na justiça a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16,17). Uma possível tradução para a palavra perfeito é “completo”, ou seja, a Palavra é útil para que o homem seja completo.

O escritor da epístola aos Hebreus demonstra a eficácia da Palavra de Deus ao ensinar: “Porque a Palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração (Hb 4.12). Perceba que o escritor afirma que a Palavra sonda o mais profundo do nosso ser e revela as intenções do nosso coração.

A Bíblia ensina que o coração é o centro de controle do homem. É em virtude disso que o livro de Provérbios ensina que devemos guardar, sobretudo, o coração, porque dele procedem as fontes da vida (Pv 4.23). É por isso também que o Senhor Jesus, confrontando os fariseus, afirmou que a boca fala do que está cheio o coração (Mt 12.34) e ensinando os discípulos disse que do coração é que procedem os maus desígnios (Mt15.19).

O rei Davi, no Salmo 139, faz um pedido que deve nos servir de exemplo: “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno” (Sl 139.24). Ele faz o pedido certo para a pessoa certa. Só Deus pode esquadrinhar o coração (Jr 17.10); e, como vimos, ele o faz por meio da Palavra (Hb 4.12).

Sendo o coração o que controla o homem e sabendo que é a Palavra de Deus que penetra o coração, devemos recorrer a ela, encher o coração dela, ser santificados por meio dela (Jo 17.17). Ela é suficiente para nossa vida e piedade.

Usando a Bíblia corretamente

Quando falamos da suficiência das Escrituras para a vida e piedade é necessário deixar claro que isso implica uma fiel exposição da Palavra.

Ao recorrer à Bíblia para buscar orientação não devemos procurar simplesmente versículos isolados que validem ou invalidem uma determinada prática, mas estudar com seriedade, buscando um entendimento correto do texto dentro de seus contextos. Fazendo assim, teremos mandamentos e princípios que orientarão com precisão a nossa vida.

A falta de um entendimento correto da Palavra de Deus tem levado muitos a duvidar de que ela é capaz de orientar o homem quanto às suas emoções e comportamento, porém, como afirma Mark Dever: “A Palavra de Deus sempre foi o instrumento que Ele escolheu para criar, convencer, converter e conformar o seu povo. desde o primeiro anúncio do evangelho em Gênesis 3.15 até à promessa inicial feita à Abraão, em Gênesis 12.13, bem como até à regulação dessa promessa, por meio de sua Palavra, nos Dez Mandamentos (Êxodo 20), Deus outorgou vida, saúde e santidade ao seu povo por intermédio de sua Palavra.[2]

Isso torna indispensável ao crente o debruçar-se sobre a Palavra e a busca da iluminação do Espírito a fim de ter um conhecimento correto da Escritura e aplicá-la em todas as áreas da vida.

Conscientes de que vivemos numa sociedade que busca explicar o comportamento humano usando princípios antibíblicos, tenhamos, de fato, a Bíblia como nossa regra de fé e prática e que ao invés de recorrer à sabedoria deste mundo, busquemos o conhecimento da Palavra de Deus enchendo o coração dela.

Certamente o Senhor se agradará e derramará sobre nós suas bênçãos.

Milton C. J. Junior


[1] David Powlison. Integração ou inundação? In: Religião de Poder. São Paulo: Cultura Cristã, 1998, pp. 166,167

[2] Mark Dever & Paul Alexander. Deliberadamente Igreja. São Paulo: Fiel, 2005, pp. 41,42

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