terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Uma alternativa para consolar pacientes terminais

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Dizia o cantor popular que ele tinha saudades daquilo que ainda não tinha visto. Seria isso possível? Quando a saudade aperta, é porque quem amamos está longe ou ausente. A expectativa de reencontro aumenta, e aprumamos a casa para receber aqueles de quem temos "saudade". Aliás, eis aí um termo que falta em outras línguas para expressar aquela apreensão em rever quem amamos.

Mas o ponto aqui é a relação que essa "saudade" pode trazer de útil na maneira como lidamos com pacientes terminais. Novamente a saudade desempenha papel preponderante aqui. Perder entes queridos é sempre uma tristeza esmagadora, e a saudade resultante por vezes é sufocante. Por conta disso e mais outra miríade de razões, lutamos entre o nosso desejo sempre presente de cura para o enfermo, e nossa submissão à vontade de Deus que pode ser bem diferente da nossa. É certo que mesmo quando oramos pela cura do mais gravemente enfermos, o fazemos na dupla expectativa que inclui a realização da vontade de Deus, que é soberana, mas muitas vezes, na prática, isso significa para nós o restabelecimento de sua saúde.

Entretanto, a dura realidade imposta pelo pecado é que a morte entrou para a experiência humana e nela permanecerá até que aconteça o retorno glorioso do Redentor. Desde o início da história humana esta intrusa tem feito perceber sua presença, ao passo que mesmo sendo certa, relutamos em nos acostumar. É como o matuto que respondeu com bom humor à pergunta "O que o senhor gostaria que dissessem no seu enterro", dizendo: "Queria que dissessem: parem tudo, ele está se mexendo..." A morte incomoda, e sua proximidade assusta, e humor só cai bem de longe.

Deus, contudo, operando desde sempre para fazer com que até os piores fatos se alinhem com a expressão de sua vontade bondosa no tempo e na história de nossa vida, trouxe à morte novo significado na morte e ressurreição de Cristo, para aqueles que nele creem. Aquele terrível portal pelo qual todos foram sentenciados a passar por conta do pecado original, se tornou o portal de entrada na presença bendita do Redentor. A morte teve sua essência tão fortemente alterada que o apóstolo Paulo, considerando o resultado da morte, chegou a ficar em dúvida quanto a viver ou morrer (Fp 1.23-26), reconhecendo ser incomparavelmente melhor partir e estar com Cristo. Paulo sabia para onde ia, e quem iria encontrar lá, e todo aquele que abriga a mesma crença, sabe o mesmo. Mas o espera?

Ainda é um fato no mínimo curioso ver com que dificuldades lidamos com o assunto quando tudo nos leva a crer que a morte é o fim inevitável. Queremos crer, até o suspiro final, que a cura seja o que de melhor Deus possa fazer ao enfermo. Sem qualquer pretensão de generalizar, a impressão que se passa é que é no mínimo mal-educado tratar a morte como um resultado provável e, pior, preferível. Observe aqui que o apóstolo Paulo, até onde sabemos gozando de boa saúde, preferiu a vida por se ver útil ao servido do reino. Ao final da vida, entretanto, sem maiores dificuldades, viu a si mesmo como que "oferecido por libação" (2 Tm 4.6).

Com isso não se desencoraja a luta pela vida, nem tampouco recomenda-se desistir de orar e lutar. Antes, que seja a bendita esperança do encontro com o Redentor levada em conta quando formos convocados por Deus a sermos instrumentos de consolo para os que perecem no Senhor. Não se defende que esta bendita esperança seja falsamente oferecida a todos indiscriminadamente, visto ser um direito daqueles que viveram aguardando e amando a vinda do Senhor Jesus, o amado de nossa alma. Mas pense por um instante: se amamos a Jesus tão intensamente como professamos, e a morte se avizinha, qual deveria ser nossa reação e nossas palavras, quer estejamos no leito, quer estejamos olhando para ele?

Esta breve reflexão pretendeu tão somente fazer pensar o conselheiro que há mais ferramentas em sua caixa para serem usadas no consolo dos enfermos, lembrando-os que todos temos "saudades" Daquele que ainda não vemos.

Jônatas Abdias

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