quarta-feira, 6 de abril de 2016

A vida debaixo vista de cima

A vida é um todo complicado. O problema é que gostamos das coisas simples. Sabe aquele argumento complicado, que só pra tentar entender chega a fazer a cabeça doer? Então... na luta para entendê-lo, queremos simplificar a coisa toda e resumir, comprimir... diminuir o todo complicado ao seu mínimo denominador comum... em resumo: simplificar.
Este é o resultado da vida vista aqui de baixo, sem a vontade de erguer os olhos para além das nuvens. O sábio repetiu incansável que, desse ângulo, tudo é vaidade. O trabalho perde o seu valor e se torna algo tão produtivo como "armazenar vento"... ou pelo menos a tentativa cômica de fazê-lo, correndo atrás dele (Ec 2.11), o estudo perde seu propósito (Ec 1.17), a riqueza perde o seu brilho (Ec 2.8-11) e a vida perde o seu sabor (Ec 2.17) pois nada parece ter sentido por tudo se mostrar tão injusto (Ec 9.11).
Acostumados com a doutrinação que vem do mundo em trevas, obscurecemos o nosso entendimento ao concordar que a vida, no fim das contas, "a vida, é a vida como ela é". Isso quer dizer que nossa sede por simplificação reduz a vida a elementos simples demais para explicar um evento tão complexo como é a vida.  Esquecidos de que existe algo mais, lidamos com o dom precioso da vida como se seu fim fosse a morte; cuja presença lúgubre tentamos abafar no cotidiano para não nos incomodar. O resultado de uma vida vivida assim é conhecido: miséria de alma e perspectiva (1 Co 15.19).
Vamos dizer isso de outra forma: O problema da simplificação que luta contra a complexidade da vida, é vista nos efeitos mais imediatos como nas absolutizações de elementos finitos e menores, dando a eles contornos supremos. Dito em termos mais francos, coisas menores precisam ocupar, para nós, o lugar vago no pensamento e na cosmovisão, para figurar como divindades reinantes. Oras, fazemos isso quando elegemos fatos, pessoas, circunstâncias e coisas como reis que governam soberanos sobre os efeitos da vida. Dizemos"sou assim porque..." ou "faço isso porque..." e completamos com o regulador de nossas ações, com a razões que explicam nossos fracassos, pecados e destemperos. É sempre mais fácil colocar a culpa num elemento mais simples, compreensível.
A vida é um mecanismo, somos máquinas... A vida é existência, a morte a finaliza. A vida é um fenômeno, sentir é viver. Só o imaterial importa... só o material importa... Só a felicidade importa... só o prazer importa... Todas reduções que não explicam o todo mais complexo da experiência humana.
A vida como Deus no-la deu, entretanto, é rica, multiforme e complexa. Às vezes, coisas complexas são... complexas! Deus deu mostras de sua poderosa criatividade ao encher esta terra de cores, sabores, cheiros e formas tão distintos e diferentes quanto com semelhanças às vezes imperceptíveis entre si. 
Sim, tudo isso para dizer que não podemos reduzir as dimensões da vida a um ou dois elementos básicos. Precisamos levar em conta os muitos aspectos envolvidos num eventos. Mas, fundamentalmente, levantei a questão para dizer que o elemento capaz de saciar essa sede (por algo único que traga o todo a uma coerência compreensível) não está apontando para baixo. Ele não comprime a realidade para fazê-la caber nas categorias de nossa finitude. Antes, as expande de modo que abrange a vida em toda a complexidade que ela contém. Ele não é um elemento, mas uma pessoa. Sim, estou falando de Deus. 
A reflexão mais filosófica acima inicia uma discussão relevante para o aconselhamento: qual é o papel que Deus desempenha, na prática, na maneira como você encara os problemas da sua vida? Quando não apelamos para o que está acima e além, para aquele que transcende a vida e nos faz transcendê-la com ele, a vida em seus aspectos mais simples não faz sentido. A sensação de confusão se avoluma, e a gente se perde.
Por isso, de cima, veio Deus encarnado a fim de nos ensinar o caminho perdido para vida, que se vivida através dele é tão rica que não há outra forma de descrevê-la senão como "abundante". Veio não só para nos ensinar como fazer para viver, mas para ser ele mesmo a definição de "vida". Ele é a revelação desta verdade esquecida, que quando trazida à baila, dá sentido à existência (Jo 14.6).
Quando abordamos as questões como se elas estivessem restritas aos seus aspectos "debaixo do sol", saímos à busca da solução focada nos problemas. O resultado não poderia ser outro senão "vaidade", e a permanência incômoda e crescente do problema. Quando, porém, procuramos enxergar o papel e a vontade de Deus no problema, reconhecemos que qualquer solução só pode vir dele, de cima, como um dia veio a Redenção, que soluciona e solucionará todos os problemas. Não falo de mágica, nem de misticismo, mas daquela humilde busca de auxílio e dependência dos métodos e das explicações que Ele mesmo dá para a solução dos problemas. Com isso o ganho é duplo: Sua presença é manifesta em glória, e nossa felicidade é experimentada como seu efeito direto. E este, ao que parece, é o fim principal desta tão complexa vida.





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