terça-feira, 26 de abril de 2016

A vitória do mais fraco


A luta por poder e a sede por vencer parece ser algo intrínseco a nós, seres humanos. Nossa vontade de estar à frente e em vantagem é tamanha que lembra a estória daquele garoto na roda de amigos, que por falta do que se gabar, chegando na sua vez diz: "e eu tive leucemia..." (e pensava: quero ver alguém superar essa!).

O jogo por poder é uma luta sem vitórias. Qualquer que ganhe já perdeu, pois, a batalha não é digna e os feridos são os próximos amados. E a vida apresenta uma variedade quase infinita de momentos onde a luta por poder se apresenta, e sorrateiramente vai tomando conta dos nossos relacionamentos, até se tornar em batalha, das verbais às físicas.

Isso não é mais agudo hoje do que já foi um dia. E um caso em especial é particularmente intrigante, porque o embate físico carregava um peso sobrenatural, de consequências permanentes... benditas cicatrizes de uma luta por poder onde quem vence é o mais fraco.
Jacó lutou com Deus e venceu... Como pode isso? A própria ideia já nos parece absurda, e a vitória não passaria, nesse caso, de um louco devaneio: como poderia um homem ousar "comprar briga" com ninguém menos que Deus?!

A história - que diferente da referida no começo - é real, e está registrada em Genesis 32.22-32. É neste encontro que Deus muda o nome de Jacó para Israel. Não fora um encontro fortuito. Jacó está a caminho do encontro com seu irmão após muito tempo sem vê-lo. Da última vez que estiveram juntos, Jacó o enganou de uma forma muito baixa, e fugiu de sua presença por temer pela própria vida. Este temor ainda pairava sobre sua alma, e visto que não poderia se esquivar de encontrar-se com seu irmão, resolveu usar uma tática de amolecimento do coração, e distribuiu presentes pelo caminho, para se apresentar depois, por último, pois o temia.

Nesse ínterim, entretanto, Deus se apresenta a Jacó, e eles lutam. Jacó não tem consciência de que está a duelar com o próprio Deus, mas sabe, de alguma forma, que precisa de sua bênção.

Jacó não era o coitado tão mal representado nos filmes cinematográficos. De fato, ele foi um homem de impressionante força física. Quando tentando fazer-se notar pela jovem Raquel, foi capaz da proeza de retirar, sozinho, a grande tampa de pedra de sobre o poço, para dessedentar os rebanhos daquele que seria seu sogro.

Outra demonstração de sua intrigante força física está nessa luta incansável que perdurou pela madrugada. Não só o tempo de luta é impressionante, mas o seu quase desfecho também: Ele prevalecia. Deus se manteve nos limites da força física humana, visto que Jacó não o identificara, e sob estes limites, Jacó parecia imbatível.

Nada com que ele já não estivesse acostumado. Esta tinha sido sua história de vida: entrar para ganhar.
Por outro lado, temos Deus, que pacientemente espera o romper da alva para manifestar o seu verdadeiro poder. Quando ele "toca" o quadril de Jacó, fica claro que ele poderia ter vencido a qualquer momento. Naquela hora, eu imagino, Jacó viu os inúmeros momentos do embate em que ele parecia estar "levando a melhor", e concluiu que tudo não passava de uma permissão da parte daquele homem.
O porquê lutavam não nos é dito no texto. Mas de igual modo, muitas lutas que travamos pela soberania de nosso poder e pela vitória pessoal no argumento não possuem uma explicação clara. Quando a gente vê, já está "na briga".

O "homem", que finalizara o embate naquele toque decisivo, estranhamente, pede para sair. Jacó, entretanto, agora não quer prevalecer, mas ser abençoado. Jacó havia eles mesmo dado muitos nomes a lugares e coisas antes, por conta de seus encontros com Deus, mas quando pergunta com quem fala, Deus não responde. É dever dele entender e concluir. Entretanto, Deus não o deixa sem a bênção, o que acaba por lhe alterar tão profundamente o coração que se faz necessário um novo nome para representar a nova pessoa que agora saía do vau.

Jacó entrara para ganhar, Israel sai mancando. Jacó perdera a luta que ganhava. Israel ganhou a luta que perdeu. Entre perder e ganhar, Israel aprendera que a coragem não está em "dar um boi pra não entrar numa briga, e uma boiada pra não sair dela", mas em Deus ter misericórdia de quem lhe apraz, e conceder a vitória nele mesmo. Jacó entrou cheio de temor de homens no ribeiro, mas Israel saiu cheio do temor de Deus.

A mudança foi notada quando, aquele que deveria ser o último a aparecer, corre adiante de todos, ainda sentindo as dores da batalha, para se apresentar sem medo... E descobre que sua batalha já fora guerreada, e no lugar de um algoz, encontra um irmão.

Sabe, poucas coisas são tão difíceis quanto desistir de uma boa briga, principalmente quando se sabe que pode ganhar. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, e por causa do grande amor que tem para conosco, entra na briga. Ele não precisa disso, nem precisa ganhar. Ele até se deixa abater para nos ganhar. Na verdade, na pessoa de Jesus Cristo, ele se deixou matar por você. Tal como o homem no vau, Jesus poderia a qualquer momento, fruto de um breve pensamento, ter resolvido toda aquela encenação vil de seu julgamento, ou ter saído da cruz e triunfado sobre aquele débil império. Entretanto, visto seus propósitos eternos, venceu batalhas mais profundas e angariou vitórias mais gloriosas. Ele poderia ter vencido todos e entregá-los todos a morte. Mas no lugar disso, se entregou no lugar deles e nosso, e acabou por vencer a própria morte.

Não podemos mudar nosso nome, mas podemos mudar de atitude. Podemos reagir de uma forma que quem veja diga: "nem parece você..." Podemos perder para ganhar. E tudo começa naquele milésimo de segundo em que decidimos entrar na batalha perdida por poder. O verdadeiro vencedor não precisa se provar... O verdadeiro vencedor tem na cruz toda prova de vitória de que precisa, e pode, emulando seu Senhor, entregar-se como ele o fez.  
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