terça-feira, 30 de agosto de 2016

Deus conosco

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Uma das maiores bênçãos descritas na Escritura é a de que Deus habita no meio do seu povo. No jardim do Éden, Adão contava com a presença de Deus que andava com ele na viração do dia (Gn 3.8). No deserto, Deus mandou que o povo construísse o tabernáculo que seria o lugar da sua habitação e a representação de que Deus habitava com eles (Ex 25.8-9). Além do tabernáculo, a Arca da Aliança também era sinal da presença de Deus no meio do povo. Isso era tão importante que quando ela foi roubada declarou-se que a glória do Senhor tinha se ido de Israel (1Sm 4.21).

Moisés, em certa ocasião, chegou a dizer ao Senhor: “se a tua presença não for comigo, não nos faça subir deste lugar” (Ex 33.15) e Josué, seu substituto, teve a garantia da presença de Deus com ele (Js 1.9). Assim como o tabernáculo, o templo também simbolizava a presença do Senhor (Sl 27.4; Sl 65.4; Sl 84.1,2,10).

Quando Maria engravidou e José quis deixa-la secretamente, um anjo apareceu a ele para falar a respeito da concepção milagrosa do Salvador. Mateus afirma em seu evangelho que “tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emmanuel” (Mt 1.22,23). Mas porque a menção desse nome é importante? Exatamente por causa daquilo que o próprio evangelista registra em seguida, “(que quer dizer: Deus conosco)”.

A encarnação é o momento em que a presença de Deus é vista de forma mais plena, até agora, na história do homem. Jesus é Deus conosco e, antes de ser assunto aos céus, prometeu estar conosco todos os dias, até à consumação dos séculos (Mt 28.20).

Sua presença é importante, pois:

a) Ele é o nosso mediador – Jesus é o único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5). Somente por ele podemos ter acesso à presença do Pai (Jo 14.6; Hb 10.19-22). Nele temos um advogado que intercede diante do Justo Juiz, quando pecamos (1Jo 2.1).

b) Ele é o maravilhoso Conselheiro – um dos títulos atribuídos ao Senhor em Isaías é que ele é o nosso Conselheiro (Is 9.6), mas não só um simples conselheiro, ele é “O” maravilhoso Conselheiro. Ele nos aconselha por meio de sua Palavra viva e eficaz (Sl 107.11; Pv 8.14; Hb 4.12) que é o meio para a santificação de nossas vidas (Jo 17.17).

c) Nele temos tudo o que é preciso para a vida e piedade – Pedro afirma que todas as coisas que conduzem à vida e à piedade estão no conhecimento completo de Cristo (2Pe 1.3). Em Cristo somos co-participantes da natureza divina, ou seja, por causa dele podemos ser aquilo que não somos ao descender de Adão, santos, e isso nos livra das paixões desse mundo. Somos chamados para ser cada dia mais parecidos com ele (Rm 8.29) que é a imagem do Deus invisível (Cl 1.13-23) sendo ele mesmo o nosso maior exemplo para a vida e para a piedade (Ef 5.1; Fp 2.4; 1Pe 2.21). Ser parecido com Jesus, portanto, é o alvo para voltarmos a espelhar perfeitamente ao Pai, o que não é possível após a queda, mas que o será quando formos plenamente restaurados.

c) Ele é a nossa força – É ele quem nos sustenta nos momentos de tribulação. Não precisamos ter medo, pois Cristo é o nosso pastor (Sl 23.4). É ele também que nos fortalece, a despeito das circunstâncias (Fp 4.11-13), sendo a nossa força quando confessamos nossa fraqueza e nos achegamos a ele (2Co 12.10).

Jesus é o Deus conosco! Podemos confiar a ele cada aspecto de nossa vida e buscar, por seu próprio poder, viver para a sua glória.

Milton C. J. Jr.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Confrontação e mais...

 Seminaristas são um tipo especial de aluno. Não somente porque são estudante em um seminário, mas porque eles sabem que são pecadores. Afinal, sem esta convicção ninguém se lança ao desafio do ministério pastoral. Me lembro de ter ouvido essa ainda no começo, logo quando ingressei: Professores jogando conversa fora conosco alunos (momento raro, mas igualmente enriquecedor), disseram que entre eles havia uma máxima: Quando vir um seminarista, chama a sua atenção! (Nossos olhos se arregalaram no momento...) Um de nós, corajosamente questionou: Mas por que? E a resposta veio pronta: Porque, meu filhos, por mais que nós não saibamos o motivo da reprimenda, o seminarista saberá... Tem gente que gosta tanto de confrontar que está achando pecado até onde não tem. E por mais que isso possa parecer raro (o fato de não ter pecado ativo envolvido)... acontece.

Confrontação. Eis uma palavra que sumiu de nosso vocabulário evangélico. Outras palavras se tornaram mais comuns desde seu sumiço, tais com "poder”, "vitória", "unção" e outras que o leitor possa enumerar. Entretanto, esse sumiço revela mais do que o abandono de uma palavra: evidencia o abandono de uma prática.

Apesar do temor que a palavra evoca, é preciso não só retornar a ambos: ao uso da palavra, e do ato de confrontar. Por que tememos a "confrontação"? Num primeiro momento, confesso, ela soa bélica e não pacífica. Ela evoca imagens de reprovação, desagrado, vergonha, exigências por mudança. Nos faz lembrar que alguém está errado e precisa corrigir-se. Confrontação não é uma palavra que adocica os lábios como a palavra amor, graça ou perdão.

Apesar disso, vivemos em um universo de confrontação, o que nos faz confrontar o tempo todo. Quando um chefe nos cobra aquela tarefa pendente; ou quando perguntamos por alguma coisa que ficou sob a responsabilidade de outra pessoa; ou quando simplesmente perguntamos: “onde estás?”, “o que aconteceu aqui?”, “alguém tem alguma explicação a dar?”, “o que você estava fazendo?”... em tudo isso estamos confrontando... e só de pensar em alguém nos fazendo tais perguntas, já ficamos tensos.

Desde a queda, somos por natureza avessos à confrontação. Acho que foi a primeira vez que houve uma confrontação foi após a queda: o homem que antes voluntariamente se apresentava ansioso pela comunhão com o Senhor, agora tem que ouvir, por detrás do arbusto, o Senhor perguntar "onde estás?".

Ainda assim, a Escritura é cheia, não só de registros de confrontações, mas de ordens para que o façamos. Não somente Deus confrontou Adão no Éden, mas inúmeras vezes confrontou o povo através dos profetas (as referências seriam muitas para serem todas elas listadas aqui). Além disso também ordenou que o fizéssemos pela palavra do apóstolo, ainda que paciente, doutrinária e amorosamente (2 Tm 4.2; 3.16).

Entretanto, embora defenda o necessário retorno da confrontação, é importante acrescentar que bons conselheiros não "simplesmente confrontam", nos lembra David Powlison. Antes, ele continua, o conselheiro buscará fazer com que a confrontação venha em boa hora e seja efetiva; e isto deve ser feito de diferentes formas. Powlison também nos lembra que por não vermos o coração, só as evidências, há que se ter cuidado quando, no ímpeto por ajudar as pessoas a se verem tais como são aos olhos de Deus, nos certifiquemos que no processo façamos com que do amor de Deus se apresente como uma doce necessidade. (Powlison, 2005:10). W. Gomes vai dizer que a confrontação cristã é gentil, ainda que firme, não confunde seu caráter penetrante com o descuido intrusivo, explica e não impõe, apresentando-se convidativa em vez de constrangedora. E conclui: "Verdade e amor devem orientar a mudança de maneira que não ignoremos a sensibilidade da pessoa nem suas razões e estratégias para a resistência... a maneira como o conselheiro lida com a resistência do aconselhado deve mostrar as mesmas virtudes que ele deseja motivar no aconselhado" (Gomes, 2014:250).

A ideia de que os conselheiros bíblicos estão tão somente interessados em confrontar os outros, acabou por ganhar aceitação, mas que não necessariamente reflete toda a realidade. Embora tenhamos que reconhecer, com pesar, que esta caricatura possa ser assumida como característica de um ou outro conselheiro bíblico, ela não reflete o padrão abrangente da Escritura. Como qualquer redução ou simplificação, o que há é uma super-ênfase em um aspecto e o desprezo por outro. O resultado final é uma deformidade, que como num corpo, se exercitado somente um dos membros pode resultar em uma perna mais robusta, ou um braço mais mirrado.

De acordo com Falaye (2013:58), o texto que resume em linhas gerais as principais estratégias do Aconselhamento Bíblico é 1 Tessalonicenses 5.14, que diz: "Exortamo-vos, também, irmãos, a que admoesteis os insubmissos, consoleis os desanimados, ampareis os fracos e sejais longânimos para com todos". Falaye destaca que confrontar (noutheteo: "admoestar") é a primeira, mas não a única tarefa do conselheiro bíblico. Partindo desse texto, ele explica que admoestar (confrontar) está intimamente ligada ao problema a que se endereça: uma situação de transgressão, de desordem; no texto de Paulo, quem está sob esta condição é chamado de "insubmisso". Nesse caso, Falaye explica, o aconselhado deve ser conduzido à obediência e arrependimento. A confrontação é, portanto, necessária.

Ainda baseado no texto de 1 Tessalonicenses 5, Falaye entende que dentre as estratégias possíveis indicadas pelo apóstolo, há também o consolo ou encorajamento, o amparo ou assistência e a paciência ou tolerância (em nossa língua traduzida por longanimidade). Cada uma das estratégias de aconselhamento está relacionada a uma situação específica: há momentos em que o aconselhado precisa de esperança, outras em que precisa de encorajamento e estímulo para perseverar, ou cura e restabelecimento, ou ainda nutrição para crescer e amadurecer (Falaye, 2013:58). A partir disso é possível concluir que alguém que só aprendeu a confrontar procurará por pecados a serem arrependidos não só no insubmisso, mas no desanimado, no fraco e por fim... em todos. De certo não convém que seja assim.

Me lembro que certa vez estávamos numa reunião da igreja com os pais das crianças que integravam o departamento infantil. Nosso propósito era incentivá-los a participar mais ativamente na educação religiosa de seus filhos. Queríamos que eles se sentissem encorajados a fazer o culto doméstico. Sabíamos da importância disso e como liderança, estávamos empenhados (eu diria até determinados) em fazê-los não só entender, mas de fato praticar o culto doméstico. Receio, contudo, que nosso alvo não estivesse sendo atingido. Eles pareciam desanimados e alguns até contrariados pelo que ouviam. Já mais para o fim, eu havia desistido da ocasião. Talvez Deus não quisesse usar aquele momento para encorajar seu povo nessa nobre missão... Mas durante uma pausa, alguém perguntou como nós fazíamos o nosso culto doméstico. Como eu era o pastor, achei que deveria começar a lista de exemplos. Mas a verdade é que eu contei a verdade.
Falei das dificuldades e até confessei que a vida agitada roubava a assiduidade que eu gostaria de ver na minha própria vida. A reação ao que falei foi inesperada, mas revelou muito do que falamos nesse texto até aqui: "Ao ouvi-lo, pastor, e ver que o senhor tem as mesmas lutas que nós, na verdade, me encoraja. Agora eu sei que não estou sozinha nessa batalha". Enquanto queríamos convencê-los que estavam errados em não fazer o culto doméstico, esquecemos de perguntar, a eles e a nós mesmos, qual era o motivo por trás disso. No final, percebi que não estávamos lidando com insubmissos, mas com desanimados. E no lugar de buscar por pecados a serem corrigidos, seus corações precisavam de consolo, que ao que parece, receberam quando meu coração se abriu, e eles entenderam que não podiam desistir... nenhum de nós podia. 

Seguindo esta estrutura de quatro estratégias, Falaye (2013:58) entende que o apóstolo Paulo apresenta em outro lugar as Escrituras como que alinhada à isso, sob a forma de quatro fundamentos de utilidade: "Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça (2 Timothy 3:16). Segundo Falaye, cada aspecto da Escritura serve a uma das estratégias do aconselhamento, de modo que a Escritura é fundamentalmente suficiente para suprir as demandas do aconselhamento.

Gomes por outro lado, vai arranjar seu material de forma diferente. Ainda assim é possível ver que há mais que confrontação no seu modelo de aconselhamento. Dividindo sua abordagem em conjuntos de três, Gomes aborda a necessidade de lidar com o pecado com "confrontação persuasiva", confrontando o engano e o autoengano. Dentro desta estratégia, que ele chama de Reflexão, busca-se o arrependimento, lidando tanto com a culpa quanto com a resistência, procurando evitar as motivações erradas e a concretização da mudança pela reconstrução de padrões de vida (hábitos) (Gomes, 2014:241-266).. Mas repare que esta não é a única estratégia: Há ainda a esperança e o compromisso, que servem ao propósito de encorajar o desanimado e caminhar pacientemente com o fraco (Gomes, 2014:267-288).

Em resumo, um conselheiro mostra-se sábio quando entende que Sola Scriptura implica também em Tota Scriptura. Partindo daí, também podemos concluir que não estamos falando de uma moeda, com dois lados - um dos quais é a confrontação. Talvez uma melhor metáfora seja a de um "dado" ou "cubo". A figura tridimensional apresenta uma complexidade maior do que as figuras mais simples com dois, três ou quadro lados. Assim como nós e nossos problemas, elas possuem mais que lados, elas tem profundidade, produzem perspectiva e apresentam ângulos.

É importante salientar o resgate da confrontação, visto que o pecado está aí, presente na pessoas e no mundo ao redor delas. Mas isso não é tudo. É importante que haja confrontação, e mais...!

Jônatas Abdias

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Restauração da alma – um breve comentário sobre o Salmo 19.7

 

biblia-abertaA lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices.

Uma das doutrinas mais belas do cristianismo é a doutrina da suficiência da Palavra de Deus. Nenhum cristão dos dias atuais teria a coragem de afirmar que a Palavra de Deus não é suficiente. É bem verdade que temos vividos dias estranhos e que há casos excepcionais em que um ou outro cristão ou líder religioso se aventura a colocar dúvidas sobre a suficiência da Palavra de Deus. Fato é que, via de regra, este é um ponto pacífico. A maioria esmagadora dos cristãos afirmam crer na suficiência da Palavra de Deus.

Paradoxalmente, apesar da afirmação positiva sobre a suficiência da Palavra de Deus, penso ser esta doutrina uma das mais descaracterizadas e negadas na prática atualmente.

Em certa ocasião, conversando com um pastor defensor da “batalha espiritual e cura interior”, perguntei se seria possível tratar um cristão com problemas da alma usando somente a Palavra de Deus. Sua resposta revela algo estarrecedor. Ele me disse: “Sim, seria possível tratar alguém usando somente a Palavra de Deus, porém, seria mais difícil.”

Tenho conhecimento de cursos da área de “cura da alma” que duram aproximadamente um semestre e em nenhum momento do curso há a menção da vitória de Cristo na cruz do Calvário e como essa vitória influencia nossa vida, ou como fazer uso adequando da Palavra de Deus para enfrentar os dilemas e pecados do coração.

Lamentavelmente, tenho a impressão que este é o pensamento da maioria dos cristãos atuais. Confrontados dizem crer na suficiência da Palavra de Deus, porém, na prática, estão procurando outros recursos, preferencialmente, recursos que possam inflar o ego e melhorar a chamada autoestima, ou ainda, procuraram culpar Satanás por seus maus hábitos pecaminosos.

Ao olharmos atentamente para a Palavra de Deus, encontraremos sim, todos os recursos para a devida orientação de todo verdadeiro cristão (2 Pedro 1. 3-5)

Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. Hebreus 4.12

Somente a Palavra de Deus declara ser suficiente para restaurar a alma (coração) do pecador.

Vejamos o que Palavra de Deus afirma fazer:

Restaurar a alma: há aqui uma declaração direta. Quando lemos que a lei restaura a alma, não significa que há outras possibilidades de restauração da alma e que a lei é uma dentre várias possibilidades. Só a Palavra de Deus tem este poder. Portanto, qualquer outra tentativa fora da Palavra de Deus, não será suficiente e não será eficaz.

O testemunho do Senhor é fiel: O testemunho de Deus apresentado na lei é pleno de confiabilidade. Na lei, Deus declara qual a sua vontade ao seu povo, quais são suas exigências, o que ele requer. Na lei podemos ver Deus expressar santo amor ao seu povo.

Além disso, por toda a Palavra de Deus encontramos testemunhos sobre si mesmo e isso reflete seu caráter.

Porque, se meu pai e minha mãe me desampararem, o SENHOR me acolherá. Salmo 27.10

Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, eu, todavia, não me esquecerei de ti. Isaías 49.15

Deus não é homem, para que minta; nem filho de homem, para que se arrependa. Porventura, tendo ele prometido, não o fará? Ou, tendo falado, não o cumprirá? Números 23.19

Por fim temos a bendita declaração sobre sabedoria.

Ele dá sabedoria aos símplices: aqui encontramos uma forma curiosa. Símplices são aqueles que devem ter a “mente aberta” para aquele que está falando, ou seja, Deus. O aspecto curioso é precisamente a ideia de mente aberta. Muitos intelectuais ateus, liberais, marxistas, e seus seguidores, via de regra quando usam este termo, estão afirmando que os cristãos que acreditam na suficiência da Palavra de Deus são “cabeças-duras” e que é preciso manter ou ter a mente aberta para novas experiências ou pensamentos. A grande questão é que os cristãos devem de fato ter e manter a mente aberta exclusivamente para a Palavra de Deus, que é perfeita (isenta de erro).

Enquanto isso, os inimigos da fé cristã jamais mantiveram de fato a mente aberta. Não admitem outro tipo de pensamento, senão aqueles que já possuem. Além disso, abominam qualquer dúvida ou questionamento sobre seus próprios pensamentos e posições. Você, caro leitor, já deve ter sido abordado e convidado a manter a “mente aberta”, ou, “sair da caixa”, ou ainda, “pensar fora do quadrado”. Pois bem, nossa mente precisa estar aberta para a Palavra de Deus e recebe-la como tal. Quanto as demais palavras dos homens, devemos ouvi-los com cuidado, afinal, seus pensamentos, suas palavras não são isentas de erro, pelo contrário, possuem o erro da rebeldia e da soberba. A lei do Senhor é perfeita e dá sabedoria para os simples. E como necessitamos de sabedoria...!

Conclusão:

Aos homens e mulheres afligidos pelas lutas diárias contra o pecado pessoal, contra o pecado dos outros, contra Satanás e suas artimanhas, ou, angustiados pelas lutas naturais deste mundo, a orientação é que possam descansar à luz daquele que cuida eficazmente dos seus eleitos.

Deus nos dá garantias de cuidado e renovo espiritual, contanto que sua Palavra não seja diminuída ou desprezada. Deus decidiu abençoar seu povo e restaurar a alma dos seus filhos usando exclusivamente sua lei, sua Palavra bendita, que é sempre viva e eficaz.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Tenha bons argumentos, mas... confie no Senhor!

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Dia desses vi uma postagem no Facebook em que um cristão tenta colocar os ateus em maus lençóis. O meme era mais ou menos assim: mostrava um ateu dizendo que não é possível provar que Deus existe, seguido de um texto em que se pedia para refutar uma série de argumentos como o “argumento ontológico”, o “argumento teleológico”, o “argumento do desígnio”, dentre muitos outros, com uma imagem do ateu com cara de espanto depois disso tudo.

A ideia da imagem é refutar o argumento ateu de que cristãos têm uma crença sem fundamento algum. Em seu precioso livro, Crer é também pensar, John Stott afirma que “é um grande erro supor que a fé e a razão são incompatíveis. A fé e a visão são postas em oposição, uma à outra, nas Escrituras, mas nunca a fé e a razão. Pelo contrário, a fé verdadeira é essencialmente racional, porque se baseia no caráter e nas promessas de Deus. O crente em Cristo é alguém cuja mente medita e se firma nessas certezas”.

Stott acerta em cheio. As Escrituras não nos chamam à uma fé cega ou à um “salto no escuro”. O apóstolo Pedro ordena aos cristãos que santifiquem a Cristo no coração, “estando sempre preparados para responder (no grego, apologia = argumento raciocinado) a todo aquele que pedir razão da esperança que há em vós” (1Pe 3.15).

Entretanto, ainda que eu saiba que a fé cristã não é irracional nem ilógica, preocupo-me como fato de muitos cristãos estarem entrando em uma guerra contra ateus apenas para não parecerem bitolados, esquecendo-se que até a apologética (explicação e defesa da fé) deve ter como fim a glória de Deus e o desejo de levar pecadores aos pés do Redentor. A defesa da fé preocupada apenas em provar a existência de Deus, sem apontar para Cristo, pode até levar ateus a se tornarem teístas, mas teístas que não creem no “único Deus verdadeiro” e em Jesus Cristo, enviado por ele (cf. Jo 17.3), terão o mesmo destino dos ateus, a danação eterna.

É preciso crer em Cristo, como diz a Escritura (Jo 7.38) e essa fé salvadora, apesar de racional, é dom de Deus (Ef 2.8). A pregação cristã requer bons argumentos, mas, em última instância, depende totalmente daquele que pode abrir os corações. Uma pessoa pode chegar à conclusão de que a fé cristã é plausível, de que ela faz sentido e, ainda assim, não crer em Cristo.

Penso que um bom exemplo do que eu estou afirmando aqui pode ser visto no episódio em que Paulo discursa perante o rei Agripa, registrado no capítulo 26 de Atos dos apóstolos. Ele inicia sua defesa dizendo-se feliz por poder falar de sua fé diante de Agripa que era “versado em todos os costumes e questões que há entre os judeus” (26.3).

No começo do seu arrazoado Paulo fala sobre sua vida como fariseu, o que era de conhecimento de todos os judeus, e de que estava sendo julgado por causa da esperança na promessa que Deus havia feito aos seus antepassados. Em sua caminhada ele havia se oposto à igreja perseguindo os santos, castigando-os, obrigando-os a blasfemar, tendo, inclusive, prendido a muitos e dado o seu voto para que outros tantos fossem mortos (26.6-11).

O apóstolo passa, então, a narrar sua conversão, no caminho de Damasco, e seu chamado para ser ministro e testemunha de Cristo. Paulo afirma ao rei não ter sido desobediente e conta de como começou a proclamar a Cristo, o que estava fazendo também perante Agripa (26.12-23).

Nesse ponto Paulo é interrompido por Festo que o acusa de estar louco e delirando, por conta das “muitas letras”. Diante disso, ele afirma o que quero destacar para provar meu ponto: “Não estou louco, ó excelentíssimo Festo! Pelo contrário, digo palavras de verdade e de bom senso (26.25). Repare bem o que Paulo diz. Ele afirma que está falando a verdade. Suas palavras fazem sentido, elas têm nexo, coerência e são plausíveis. O apóstolo afirma ainda que tudo o que estava dizendo era de conhecimento de Agripa (que ele já havia dito que era versado nos costumes e questões dos judeus), e dirige uma pergunta diretamente ao rei: “Acreditas, ó rei Agripa, nos profetas? Bem sei que acreditas” (26.27).

Com esta pergunta Paulo está colocando o rei em xeque. Conhecedor como era dos costumes judeus e exposto ao arrazoado de Paulo, ele deveria render-se à argumentação, mas, diferente do que eu já li alhures, de que Agripa era um “quase salvo”, mas fatalmente perdido, tendo “quase” crido no evangelho, ele responde com ironia. A tradução da NVI capta bem o sentido do que ele diz: “Você acha que em tão pouco tempo pode convencer-me a tornar-me cristão?” (26.28).

A resposta de Paulo não deixa dúvidas de que, a despeito de bons argumentos, a obra de convencimento do pecador pertence a Deus: Assim Deus permitisse que, por pouco ou por muito, não apenas tu, ó rei, porém todos os que hoje me ouvem se tornassem tais qual eu sou, exceto estas cadeias” (26.29 – ênfase minha), e é assim que devemos crer.

Portanto, tenha bons argumentos e dedique-se ao estudo sério e sistemático das Escrituras. Não deixe, entretanto, que isso o conduza ao orgulho e a soberba de achar que são os seus bons argumentos que convencerão pecadores a crer no Deus da Bíblia. Essa é uma obra exclusiva do Espírito de Deus, que muda corações. Confie nele!

Milton Jr.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Você tem que ser forte!

Há algum tempo atrás, abordei a questão do uso errado da expressão "ser forte" quando empregada para consolar outrem. Desta feita, vou abordar a mesma expressão por outro ângulo: o do encorajamento.

Comecemos por perceber que existem inúmeros encorajamentos bíblicos que dizem "sê forte!", o que leva à imediata conclusão que a recomendação não somente é bíblica, mas necessária. Talvez a passagem mais conhecida sobre este mister seja a que encontramos em Josué, quando assumia a liderança do povo em lugar de Moisés, e o Senhor lhe disse:

abdiasSê forte e corajoso, porque tu farás este povo herdar a terra que, sob juramento, prometi dar a seus pais. Tão-somente sê forte e mui corajoso para teres o cuidado de fazer segundo toda a lei que meu servo Moisés te ordenou; dela não te desvies, nem para a direita nem para a esquerda... Não to mandei eu? Sê forte e corajoso; não temas, nem te espantes, porque o SENHOR, teu Deus, é contigo por onde quer que andares... Todo homem que se rebelar contra as tuas ordens e não obedecer às tuas palavras em tudo quanto lhe ordenares será morto; tão-somente sê forte e corajoso. (Josué 1.6,7,18,19).

Estas palavras endossavam aquelas que o Senhor já havia enviado por intermédio de Moisés, que quando ainda vivo, disse:

Chamou Moisés a Josué e lhe disse na presença de todo o Israel: Sê forte e corajoso; porque, com este povo, entrarás na terra que o SENHOR, sob juramento, prometeu dar a teus pais; e tu os farás herdá-la.... Ordenou o SENHOR a Josué, filho de Num, e disse: Sê forte e corajoso, porque tu introduzirás os filhos de Israel na terra que, sob juramento, lhes prometi; e eu serei contigo. Deuteronômio 31. 7 e 23.

Nas batalhas que o povo de Deus teve que enfrentar e nas mais diversas situações, também encontramos várias vezes encorajamentos para que o povo "seja forte": 2 Samuel 10.12; 1 reis 20.22; 1 Crônicas 19.13; 22.13; 28.10, 20; 2 Crônicas 25.8; Esdras 10.4; Ageu 2.4.

Nossa tendência natural, frente aos desafios que Deus coloca em nossa vida, é a retração, a dúvida reticente. Muitas vezes desculpada por uma vitimização. Por vitimização quero dizer ação de procurar, constantemente, se colocar na condição de vítima da situação, sempre colocando a própria fraqueza como escudo, protegendo-se de situações reconhecidas como potencialmente dolorosas.

Talvez por conta de nossa sociedade ter comprado o ideal hedonista, que procura a qualquer custo evitar qualquer tipo de dor, invertemos a ordens dos fatores, que neste caso, alteram o produto. Conquanto o uso errado da expressão seja reprovável, sempre existe o risco de, mesmo no contexto apropriado, fazer um uso errado da teologia certa, se por encorajamento apresentarmos aquele tom de ordem que ignora as dificuldades e medos que a situação e/ou a pessoa abrigam. E sensibilidade aqui trabalha tanto no sentido de abrir os nossos olhos para a percepção da necessidade de encorajar, quanto para fazê-lo em amor, e assim cumprir a ordem: Exortamo-vos, também, irmãos, a que admoesteis os insubmissos, consoleis os desanimados, ampareis os fracos e sejais longânimos para com todos (1 Tessalonicenses 5.14). É importante perceber que quando lemos os encorajamentos da parte de Deus na Escritura, nos sentimos motivados, inspirados a prosseguir. Se um conselheiro deseja dispensar encorajamento bíblico, "sê forte" tem que cair aos ouvidos do aconselhado da mesma forma. Meu ponto aqui é que, dita a seu tempo, a palavra é bênção, única em seu poder de fazer a diferença.

Afinal, preciso ser forte?

Acredito que em certas circunstâncias, sim, pesa sobre nós a obrigação de sermos fortes para que com o encorajamento apropriado, prossigamos rumos a estes alvos. Alguns exemplos podem ajudar a deixar claro quando a frase é bem-vinda:

Você precisa ser forte na luta contra a tentação: Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca. (Marcos 14:38); Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar. (1 Corintios 10:13);

Você precisa ser forte na perseverança da fé: Se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes, não vos deixando afastar da esperança do evangelho que ouvistes e que foi pregado a toda criatura debaixo do céu, e do qual eu, Paulo, me tornei ministro. (Colossenses 1:23); Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. (Efésios 6:10);

Você precisa ser forte na luta contra o pecado: Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue (Hebreus 12:4);

Você precisa ser forte para obedecer: veja os textos já mencionados sobre Josué.

Estes são só exemplos. Vale à pena mencionar também que você só não precisa ir além das suas forças. Poderá ser que Deus até requeira que elas se exaurem, mas, ele nunca irá pedir que seja feito o que vai além do que podemos suportar. Obviamente que ele conhece nossos limites melhor do que nós mesmos. Mas o foco aqui é outro: Não inverta as coisas, e seja forte quando for preciso, e lute com todas as suas forças, para que, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabalável (Efésios 6.13)

Jônatas Abdias

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