segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Confrontação e mais...

 Seminaristas são um tipo especial de aluno. Não somente porque são estudante em um seminário, mas porque eles sabem que são pecadores. Afinal, sem esta convicção ninguém se lança ao desafio do ministério pastoral. Me lembro de ter ouvido essa ainda no começo, logo quando ingressei: Professores jogando conversa fora conosco alunos (momento raro, mas igualmente enriquecedor), disseram que entre eles havia uma máxima: Quando vir um seminarista, chama a sua atenção! (Nossos olhos se arregalaram no momento...) Um de nós, corajosamente questionou: Mas por que? E a resposta veio pronta: Porque, meu filhos, por mais que nós não saibamos o motivo da reprimenda, o seminarista saberá... Tem gente que gosta tanto de confrontar que está achando pecado até onde não tem. E por mais que isso possa parecer raro (o fato de não ter pecado ativo envolvido)... acontece.

Confrontação. Eis uma palavra que sumiu de nosso vocabulário evangélico. Outras palavras se tornaram mais comuns desde seu sumiço, tais com "poder”, "vitória", "unção" e outras que o leitor possa enumerar. Entretanto, esse sumiço revela mais do que o abandono de uma palavra: evidencia o abandono de uma prática.

Apesar do temor que a palavra evoca, é preciso não só retornar a ambos: ao uso da palavra, e do ato de confrontar. Por que tememos a "confrontação"? Num primeiro momento, confesso, ela soa bélica e não pacífica. Ela evoca imagens de reprovação, desagrado, vergonha, exigências por mudança. Nos faz lembrar que alguém está errado e precisa corrigir-se. Confrontação não é uma palavra que adocica os lábios como a palavra amor, graça ou perdão.

Apesar disso, vivemos em um universo de confrontação, o que nos faz confrontar o tempo todo. Quando um chefe nos cobra aquela tarefa pendente; ou quando perguntamos por alguma coisa que ficou sob a responsabilidade de outra pessoa; ou quando simplesmente perguntamos: “onde estás?”, “o que aconteceu aqui?”, “alguém tem alguma explicação a dar?”, “o que você estava fazendo?”... em tudo isso estamos confrontando... e só de pensar em alguém nos fazendo tais perguntas, já ficamos tensos.

Desde a queda, somos por natureza avessos à confrontação. Acho que foi a primeira vez que houve uma confrontação foi após a queda: o homem que antes voluntariamente se apresentava ansioso pela comunhão com o Senhor, agora tem que ouvir, por detrás do arbusto, o Senhor perguntar "onde estás?".

Ainda assim, a Escritura é cheia, não só de registros de confrontações, mas de ordens para que o façamos. Não somente Deus confrontou Adão no Éden, mas inúmeras vezes confrontou o povo através dos profetas (as referências seriam muitas para serem todas elas listadas aqui). Além disso também ordenou que o fizéssemos pela palavra do apóstolo, ainda que paciente, doutrinária e amorosamente (2 Tm 4.2; 3.16).

Entretanto, embora defenda o necessário retorno da confrontação, é importante acrescentar que bons conselheiros não "simplesmente confrontam", nos lembra David Powlison. Antes, ele continua, o conselheiro buscará fazer com que a confrontação venha em boa hora e seja efetiva; e isto deve ser feito de diferentes formas. Powlison também nos lembra que por não vermos o coração, só as evidências, há que se ter cuidado quando, no ímpeto por ajudar as pessoas a se verem tais como são aos olhos de Deus, nos certifiquemos que no processo façamos com que do amor de Deus se apresente como uma doce necessidade. (Powlison, 2005:10). W. Gomes vai dizer que a confrontação cristã é gentil, ainda que firme, não confunde seu caráter penetrante com o descuido intrusivo, explica e não impõe, apresentando-se convidativa em vez de constrangedora. E conclui: "Verdade e amor devem orientar a mudança de maneira que não ignoremos a sensibilidade da pessoa nem suas razões e estratégias para a resistência... a maneira como o conselheiro lida com a resistência do aconselhado deve mostrar as mesmas virtudes que ele deseja motivar no aconselhado" (Gomes, 2014:250).

A ideia de que os conselheiros bíblicos estão tão somente interessados em confrontar os outros, acabou por ganhar aceitação, mas que não necessariamente reflete toda a realidade. Embora tenhamos que reconhecer, com pesar, que esta caricatura possa ser assumida como característica de um ou outro conselheiro bíblico, ela não reflete o padrão abrangente da Escritura. Como qualquer redução ou simplificação, o que há é uma super-ênfase em um aspecto e o desprezo por outro. O resultado final é uma deformidade, que como num corpo, se exercitado somente um dos membros pode resultar em uma perna mais robusta, ou um braço mais mirrado.

De acordo com Falaye (2013:58), o texto que resume em linhas gerais as principais estratégias do Aconselhamento Bíblico é 1 Tessalonicenses 5.14, que diz: "Exortamo-vos, também, irmãos, a que admoesteis os insubmissos, consoleis os desanimados, ampareis os fracos e sejais longânimos para com todos". Falaye destaca que confrontar (noutheteo: "admoestar") é a primeira, mas não a única tarefa do conselheiro bíblico. Partindo desse texto, ele explica que admoestar (confrontar) está intimamente ligada ao problema a que se endereça: uma situação de transgressão, de desordem; no texto de Paulo, quem está sob esta condição é chamado de "insubmisso". Nesse caso, Falaye explica, o aconselhado deve ser conduzido à obediência e arrependimento. A confrontação é, portanto, necessária.

Ainda baseado no texto de 1 Tessalonicenses 5, Falaye entende que dentre as estratégias possíveis indicadas pelo apóstolo, há também o consolo ou encorajamento, o amparo ou assistência e a paciência ou tolerância (em nossa língua traduzida por longanimidade). Cada uma das estratégias de aconselhamento está relacionada a uma situação específica: há momentos em que o aconselhado precisa de esperança, outras em que precisa de encorajamento e estímulo para perseverar, ou cura e restabelecimento, ou ainda nutrição para crescer e amadurecer (Falaye, 2013:58). A partir disso é possível concluir que alguém que só aprendeu a confrontar procurará por pecados a serem arrependidos não só no insubmisso, mas no desanimado, no fraco e por fim... em todos. De certo não convém que seja assim.

Me lembro que certa vez estávamos numa reunião da igreja com os pais das crianças que integravam o departamento infantil. Nosso propósito era incentivá-los a participar mais ativamente na educação religiosa de seus filhos. Queríamos que eles se sentissem encorajados a fazer o culto doméstico. Sabíamos da importância disso e como liderança, estávamos empenhados (eu diria até determinados) em fazê-los não só entender, mas de fato praticar o culto doméstico. Receio, contudo, que nosso alvo não estivesse sendo atingido. Eles pareciam desanimados e alguns até contrariados pelo que ouviam. Já mais para o fim, eu havia desistido da ocasião. Talvez Deus não quisesse usar aquele momento para encorajar seu povo nessa nobre missão... Mas durante uma pausa, alguém perguntou como nós fazíamos o nosso culto doméstico. Como eu era o pastor, achei que deveria começar a lista de exemplos. Mas a verdade é que eu contei a verdade.
Falei das dificuldades e até confessei que a vida agitada roubava a assiduidade que eu gostaria de ver na minha própria vida. A reação ao que falei foi inesperada, mas revelou muito do que falamos nesse texto até aqui: "Ao ouvi-lo, pastor, e ver que o senhor tem as mesmas lutas que nós, na verdade, me encoraja. Agora eu sei que não estou sozinha nessa batalha". Enquanto queríamos convencê-los que estavam errados em não fazer o culto doméstico, esquecemos de perguntar, a eles e a nós mesmos, qual era o motivo por trás disso. No final, percebi que não estávamos lidando com insubmissos, mas com desanimados. E no lugar de buscar por pecados a serem corrigidos, seus corações precisavam de consolo, que ao que parece, receberam quando meu coração se abriu, e eles entenderam que não podiam desistir... nenhum de nós podia. 

Seguindo esta estrutura de quatro estratégias, Falaye (2013:58) entende que o apóstolo Paulo apresenta em outro lugar as Escrituras como que alinhada à isso, sob a forma de quatro fundamentos de utilidade: "Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça (2 Timothy 3:16). Segundo Falaye, cada aspecto da Escritura serve a uma das estratégias do aconselhamento, de modo que a Escritura é fundamentalmente suficiente para suprir as demandas do aconselhamento.

Gomes por outro lado, vai arranjar seu material de forma diferente. Ainda assim é possível ver que há mais que confrontação no seu modelo de aconselhamento. Dividindo sua abordagem em conjuntos de três, Gomes aborda a necessidade de lidar com o pecado com "confrontação persuasiva", confrontando o engano e o autoengano. Dentro desta estratégia, que ele chama de Reflexão, busca-se o arrependimento, lidando tanto com a culpa quanto com a resistência, procurando evitar as motivações erradas e a concretização da mudança pela reconstrução de padrões de vida (hábitos) (Gomes, 2014:241-266).. Mas repare que esta não é a única estratégia: Há ainda a esperança e o compromisso, que servem ao propósito de encorajar o desanimado e caminhar pacientemente com o fraco (Gomes, 2014:267-288).

Em resumo, um conselheiro mostra-se sábio quando entende que Sola Scriptura implica também em Tota Scriptura. Partindo daí, também podemos concluir que não estamos falando de uma moeda, com dois lados - um dos quais é a confrontação. Talvez uma melhor metáfora seja a de um "dado" ou "cubo". A figura tridimensional apresenta uma complexidade maior do que as figuras mais simples com dois, três ou quadro lados. Assim como nós e nossos problemas, elas possuem mais que lados, elas tem profundidade, produzem perspectiva e apresentam ângulos.

É importante salientar o resgate da confrontação, visto que o pecado está aí, presente na pessoas e no mundo ao redor delas. Mas isso não é tudo. É importante que haja confrontação, e mais...!

Jônatas Abdias

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