quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Algumas Considerações sobre o Aconselhamento Bíblico

aMuitos pastores e líderes evangélicos estão alertando a igreja contra o chamado secularismo na igreja.

Uma definição prática para o secularismo no contexto religioso é, a cosmovisão ímpia que rejeita a influência e as regras de Deus e de sua Palavra. A raiz latina saeculum referia-se a uma geração ou a uma era. “Secular” veio a significar “pertencente a esta era, mundana”.

Dito isto, ouvimos o alerta de forma generalizada sobre a influência do secularismo sobre a igreja. O secularismo tem influenciado rapidamente o comportamento e a percepção de toda a realidade da igreja. E, por isso mesmo o alerta está soando em diferentes vertentes dentro da igreja evangélica brasileira.

Estranhamente, os mesmo que erguem a voz para alertar a igreja sobre a influência do secularismo, apontam somente para alguns aspectos da sua prática ou da sua influência, destacando somente alguns frutos, ou seja, alguns aspectos mais gritantes do secularismo, como a mercantilização da fé.

Obviamente que isso é um problema muito grave e tal mercantilização da fé deve mesmo ser combatida e rejeitada. Entretanto, não podemos ignorar a raiz desta secularização. Se não conseguirmos diagnosticar o problema em sua raiz, toda abordagem ou alerta será sempre um paliativo. Devemos encarar com sobriedade e coragem o início deste gravíssimo problema que tem afetado todas as denominações.

Antes de avançarmos, é necessário entender que há uma disputa em andamento. O secularismo também pode ser visto como um movimento de ideias a disputar mentes e corações, afinal, o secularismo tem exercido grande fascínio e tem anestesiado a mente e o coração de inúmeros cristãos e igrejas.

Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis, 2 pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, 3 desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, 4 traidores, atrevidos, enfatuados, mais amigos dos prazeres que amigos de Deus, 5 tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. Foge também destes. (Grifo meu) (2 Timóteo 3. 1-5).

A influência do secularismo sobre a vida da igreja foi profunda. Todas as áreas da vida da igreja foram afetadas. Casamento, criação de filhos, trabalho, estudos, relação fraterna, culto e liturgia, discipulado, missões, enfim, todas as áreas sofreram a influência danosa do secularismo.

Quando a igreja começa a sofrer mais intensamente os frutos desta influência, ao invés de tentarmos identificar a raiz do problema, ouvimos afirmações genéricas dos efeitos da influência secular sobre a igreja.

Ao pensarmos sobre o que fazer para impedir o avanço do secularismo na igreja, gostaria de sugerir que pensemos seriamente na prática do aconselhamento bíblico como uma ferramenta santa a ser usada para reorientar uma cultura ruim já estabelecida no meio evangélico. Para que isso aconteça, devemos desmistificar alguns conceitos equivocados e preconceituosos sobre o aconselhamento bíblico.

Primeiro: não é verdade que o conselheiro bíblico não é bem preparado.

O conselheiro bíblico precisa se preparar muito, precisa conhecer profundamente a Palavra de Deus. Deve ser e se preparar teologicamente. Sua análise bíblica não pode ser rasa ou displicente. Há cursos de altíssimo nível aqui no Brasil e no exterior, dedicados exclusivamente para treinar conselheiros a fim de ajudar seus aconselhados. Um bom preparo teológico é imprescindível para a prática do aconselhamento bíblico.

1 Tessalonicenses 5:11: Pelo que exortai-vos uns aos outros e edificai-vos uns aos outros, como na verdade o estais fazendo.

Hebreus 3:13: antes exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado;

Colossenses 3.16: Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração.

Segundo: Não é verdade que a resposta primeira do conselheiro bíblico é “falta de oração e leitura da Bíblia”.

Por falta de conhecimento e de boa instrução, ou, por má fé, muitos líderes contrários ao aconselhamento bíblico elaboraram uma caricatura do conselheiro e da disciplina. Sou fã da arte da caricatura. Entretanto, não posso dizer que caricaturar propositalmente uma área da teologia, com o intuito de demostrar demérito ou mesmo para demonstrar insignificância ou perigo, jamais será o melhor procedimento para alertar a igreja contra algo danoso. Devemos agir sempre à luz da verdade, não da caricatura.

2 Coríntios 13.8: Porque nada podemos contra a verdade, senão em favor da própria verdade.

Um conselheiro bíblico bem treinado jamais agirá de forma tão infantil e inconsequente. Jamais o conselheiro bíblico bem treinado apresentará respostas como se fosse um “passe de mágica”. Porém terá a coragem, em momento apropriado, de confrontar seu aconselhado sobre a ausência de exercícios espirituais tão importantes quanto a oração e a leitura da Palavra de Deus.

Terceiro: Não é verdade que o conselheiro bíblico é um alienado.

Os homens e mulheres que se preparam para servir na igreja como conselheiros, estão atentos ao que acontece ao seu redor e não ignora a boa observação. Entretanto, mesmo antenados e bem informados sobre assuntos diversos, toda informação passa pelo crivo da Palavra de Deus, não importando a fonte. A autoridade primeira e fundamental será sempre a Palavra de Deus. E, se por alienado entenderem aquele que efetivamente crê que o conselheiro bíblico usa em “demasia” a Bíblia, nenhum conselheiro bíblico se importará com mais um rótulo caricato.

Porque não me envergonho do evangelho, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Romanos 1.16

Quarto: Não é verdade que o conselheiro bíblico é insensível ao sofrimento do outro.

Por fim, mesmo não sendo uma lista exaustiva, será bom esclarecer que o conselheiro bíblico sofre juntamente com seu aconselhado. Cada vitória sobre o pecado é uma imensa alegria. Entretanto, cada derrota, ainda que temporária para o pecado, é um punhal a estraçalhar o coração e a mente do conselheiro. O conselheiro bíblico sente e sofre intensamente. Lamenta pela fracasso e luta em oração para que o santo evangelho santifique seus aconselhados. Afirmar que o conselheiro bíblico é insensível é tomar o lugar do verdadeiro juiz e julgar irmãos e irmãs que estão trabalhando com afinco para o bem, para a santificação dos aconselhados. Assim, o que encontramos nesta falsa acusação de insensibilidade, é tão somente mais uma caricatura a desfigurar o conselheiro bíblico e o aconselhamento bíblico.

Voltando ao ponto inicial, o que o secularismo tem a ver com o aconselhamento bíblico e a igreja?

A igreja foi buscar fora da Palavra de Deus instrução para: educar seus filhos; resolver conflitos conjugais; resolver conflitos relacionais; abdicou do poder de Deus e se rendeu ao marketing; as estratégias humanas tomaram o lugar da ação do Espírito Santo de Deus; o dinheiro é a medida de sucesso... muito dinheiro, sucesso, pouco ou falta dele, fracasso. Ateus estão instruindo os membros da igreja. Um semestre numa faculdade é suficiente para elevar pensadores marxistas acima do senhorio de Jesus Cristo. Esses jovens viram os adultos renderem devoção a homens mais que a Deus. Muitos adultos e anciãos da igreja levam mais em consideração a palavra de homens pecadores acima da Palavra de Deus. Sexo entre jovens já não é mais visto como um pecado, mas como algo típico da juventude. A autoestima é a hermenêutica da nossa geração e, por isso mesmo, é a tragédia da nossa geração. A mente não suporta 40 minutos de exposição bíblica, mas a mente pós moderna suporta duas horas de palestra motivacional, mesmo que travestida de mensagem bíblica. Falar somente sobre Deus, Cristo, Espírito Santo, sobre o avanço do reino, sobre a igreja, são inconvenientes e cansativos, se não houver alguma pitada de tempo para “erguer os ânimos” ou elevar a autoestima. Homens e mulheres esqueceram do dever do bom testemunho fora das quatro paredes. Evangelho da cruz é um termo estranho. Há pessoas ansiosas para ouvir uma mensagem “linda”, ao mesmo tempo em que rejeitam a mensagem transformadora e desafiadora do santo evangelho. O entretenimento é a “bola da vez”. Se não há entretenimento, não haverá gente.

O entretenimento não santifica, não confronta, não consola, e portanto, não anima, não estabelece o firme fundamento da esperança. Entretenimento embrutece o coração e alma. E boa parte da igreja abraçou tudo isso, ou se rendeu a tudo isso.

O aconselhamento bíblico apresenta um caminho distinto deste que temos observado. A declaração feita é simples e confrontadora: a Bíblia tem todas as respostas para a alma humana! Esta frase típica do ambiente do aconselhamento bíblico também é alvo de zombarias e chacotas.

Pense por um instante e pondere:

· O conselheiro bíblico tem a Palavra de Deus como firme fundamento da fé;

· O conselheiro bíblico entende que a Palavra de Deus é autoritativa, inerrante e suficiente, caso contrário não seria um conselheiro bíblico;

· O conselheiro bíblico se preocupa com os seus irmãos em dificuldades e deseja contribuir para o progresso do reino de Deus;

· O conselheiro bíblico procura amparo na Palavra de Deus para apoiar, orientar, ajudar na correção de rumos, confrontar quando necessário, todos aqueles que pecaram e erraram o alvo em algum momento na vida;

· O conselheiro bíblico reconhece que não é capaz de ajudar ninguém sem a ação do Espírito Santo de Deus;

· O conselheiro bíblico luta contra seus próprios pecados e os reconhece diante de Deus e jamais se apresenta como “o salvador da pátria”, possuidor de todas “as respostas” para todos os dilemas da alma;

· O conselheiro bíblico reconhece a bênção da medicina tanto quanto reconhece alguns dilemas desta mesma medicina que, como qualquer outra área do saber, pode se rebelar contra Deus;

· Numericamente falando, os conselheiros bíblicos são insignificantes aqui no Brasil, mesmo que haja um despertamento de interesse sobre esta disciplina.

Diante destes fatos, qual seria a razão de tamanho preconceito caricato sobre homens e mulheres que tão somente desejam apoiar irmãos em Cristo a terem uma vida mais santa e menos rendida ao secularismo e ao pecado?

Para cada dilema do coração, para cada aspecto obscuro da alma, para cada dilema moral, o aconselhamento bíblico reafirma aquilo que se pode observar claramente na Palavra de Deus, ou seja, respostas! A Bíblia tem respostas para todos os dilemas da alma, do coração ou os dilemas morais, que fazem refletir no corpo os aspectos do pecado não tratado devidamente como pecado, quer seja rebeldia, dureza de coração, desejo, cobiça, falta de contentamento, ira, inveja, ciúmes, ódio, depressão, tristeza, ansiedade, falta de ânimo, frieza espiritual, morte e luto... Em cada aspecto e suas subdivisões, a Palavra de Deus lança luz para restauração e correção de rumos.

Hebreus 4.12: Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração.

Salmo 19.7: A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices.

Salmo 119: 104 Pelos teus mandamentos alcancei entendimento; por isso odeio todo falso caminho. 105Lâmpada para os meus pés é tua palavra, e luz para o meu caminho.

De todo meu coração penso que o aconselhamento bíblico deve ser praticado urgentemente na igreja para ajudar contra o avanço do secularismo. Homens orientando biblicamente seus filhos, mulheres mais sábias orientando biblicamente as mais novas na igreja quanto a procedimento, casamento, criação de filhos. Jovens biblicamente apoiando-se mutuamente no desejo se santidade e da glória de Deus. Liderança da igreja preocupada na edificação do corpo, fidelidade à Palavra de Deus e as benditas e maravilhosas doutrinas da graça sendo vivenciadas.

Uma igreja composta por pecadores que sabem que não fizeram por merecer, que são frágeis em todas as circunstâncias e, por isso mesmo, procuram abrigo exclusivo no Deus Altíssimo.

A igreja não deveria ser conhecida por causa dos seus programas de entretenimento, antes, deveria ser conhecida descansar na graça de Deus, cultuando intensamente o redentor Jesus, relembrando constantemente seus méritos, seu sacrifício na cruz. Cultuando biblicamente, sem interferência da opinião de ímpios, e refletindo toda a alegria dos santos em render adoração ao Deus que cuida das suas ovelhas como Pai.

Espero que minhas considerações sobre o aconselhamento bíblico auxiliem e encorajem outros conselheiros bíblicos nesta área desafiadora. Porém, gostaria de recomendar a leitura de outros autores mais competentes. Aqui mesmo, meus colegas e irmãos em Cristo, que fazem parte deste blog estão na caminhada há bem mais tempo do que eu. Recomendo seus artigos com alegria.

Por fim, é necessário destacar a dificuldade que muitos estão tendo em afirmar a suficiência da Palavra de Deus e ver sua aplicação em todas as áreas da vida. Sei que há aqueles mal intencionados, entretanto, considerando que há tempo para todas as coisas (Eclesiastes 3.1), sinceramente espero que, aqueles irmãos que nutrem algum dissabor pelo aconselhamento bíblico, possam ler e ponderar na grande proposta do aconselhamento bíblico, ou seja, ajudar irmãos, ombro a ombro, para estarmos mais próximos do nosso redentor Jesus e assim, refletirmos toda nossa confiança, alegria e regozijo, tão somente nele.

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