terça-feira, 18 de outubro de 2016

Aflição – Uma Perspectiva Bíblica

 

sofrer1Em certa ocasião precisei levar minha filha mais nova (quatro anos) para fazer exame de sangue. Minha filha foi chorando de casa até o local do laboratório. Ao chegar, precisei conversar um pouco com ela e disse que iria doer um pouco, mas que ela conseguiria suportar a dor. Depois de algum tempo tentando convencê-la a parar de chorar, não houve outra opção, senão, coloca-la na posição adequada para a retirada do sangue. Insisti para minha filha olhar para o outro lado... ela não atendeu. Em meio a muito choro, quando ela viu a agulha se aproximar, em meio ao choro e desespero ela disse, “aí meu Deus, me ajuda”. O procedimento terminou rapidamente, e seu chorinho também. Ao entrarmos no carro para voltarmos para casa, pude conversar com ela dizendo que ela fez o certo, afinal, no momento de desespero, ela clamou para quem poderia de fato ajuda-la. Graças a Deus o resultado do exame foi normal. Além disso, ficou o aprendizado para ela, ou seja, em nossa fraqueza ou medo, devemos pedir o socorro a Deus.

Sei que muitos cristãos estão passando por aflições perturbadoras. Os problemas se avolumam, a procrastinação é um mal crescente. Os pecados, gradativamente estão sendo tratados como problemas, e a Palavra de Deus é cada vez menos utilizada para a devida correção dos rumos do coração.

As respostas mais comuns, ultimamente, para a aflição, infelizmente têm sido para procurar respostas para além do que diz a Palavra de Deus.

De forma breve, gostaria de sugerir a leitura do Salmo 77 como um salmo que instrui contra a cultura vigente no meio evangélico. Sim, uma contracultura está claramente apresentada no belíssimo Salmo 77.

Vemos no Salmo 77 um homem em profunda aflição, queixando-se precisamente com Deus, ou contra ele. O tormento expresso logo nas primeiras linhas deste salmo, mostra claramente a confusão e o sofrimento impactando a alma do salmista. E percebam que o salmista não apresenta dúvidas sobre a existência de Deus. Seu questionamento repousa sobre sua providência.

A aflição de fato é perturbadora. Tira o sono, acelera os batimentos cardíacos, nos deixa ansiosos, ávidos para resolvermos rapidamente o problema, pecado ou tribulação.

A grande questão aqui é que, conforme o dilema avança, menor é a confiança do salmista na intervenção de Deus (providência). Assim, ele começa uma trajetória de fato angustiante e crescente, ao ponto de esquecer-se que as misericórdias de Deus não têm fim (Sl 77.9).

As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim. Lamentações 3.22

O salmista usa termos que nós conhecemos muito bem para descrever sua perspectiva do seu próprio estado. Vejamos: elevar a Deus a voz e clamar; no dia da minha angústia; erguem-se as minhas mãos (como o mendicante ergue a mão por um pouco de alimento); minha alma recusa consolar-se; o salmista medita diante de Deus e geme; seu espírito está desfalecido (suas forças estão se esvaindo); está tão perturbado que não consegue dormir nem falar.

Alguns termos acima descritos pelo salmista ainda são usados até hoje, outros foram atualizados, porém, o sentido para a aflição continuou o mesmo e o seu estrago continuou o mesmo.

Diante deste quadro conhecido de tristeza profunda, melancolia e aflição, não apenas a realidade é afeta, mas a própria perspectiva de Deus é contaminada. A aflição pode provocar uma visão distorcida de Deus. E é exatamente o que muitos cristãos estão enfrentando atualmente. Os dilemas estão presentes, as tribulações são uma constante, os pecados que deveriam ser confessados são guardados no coração como um bichinho de estimação, e, evidentemente, quando olham ou quando buscam a face de Deus, só conseguem encontrar uma visão distorcida de Deus.

Para aqueles cristãos que estão passando e estão sentindo exatamente o que está descrito no Salmo 77, há uma palavra bíblica de esperança. O próprio salmista apresenta tanto o problema quanto a solução. Após acusar sistematicamente Deus, encontramos uma declaração corajosa no versículo 10: Então, disse eu: isto é a minha aflição; mudou-se a destra do Altíssimo.

Aflição (do hebraico chalah – tornar-se fraco, doente ou triste), era o que estava encobrindo os olhos do salmista para enxergar a beleza do Altíssimo para poder deleitar-se nele, encontrar gozo e alegria em Deus.

Agora, restaurada sua comunhão com Deus, o salmista pode olhar para o passado e considerar todos os poderosos feitos do Senhor. Agora, o salmista rapidamente recobra sua gratidão e alegria. Seu vigor foi restaurado. Quando leio sua declaração do verso 10, tenho a impressão que ele volta a respirar aliviado. Mesmo contemplando as forças hostis (Sl 77. 16), ele consegue contemplar a força do Senhor.

Sei que há aqueles que estão “diagnosticando” aflição como um problema apenas. Biblicamente falando, aflição precisa ser confessada. Aflição, ou seja, nossa fraqueza moral ou espiritual, nossa falta de fé e de confiança na ação de Deus em conduzir todas as coisas, mesmo que não entendamos, deve ser reconhecida como pecaminosa e deve ser confessada. Após o reconhecimento de sua debilidade é que o salmista tem seus olhos iluminados.

Reconheçamos nossa fraqueza diante de Deus. Confessemos a ele nossos pecados, nossa falta de fé e de confiança plena nele e confiemos nele e na força do seu poder, porque, quando sou fraco, então, é que sou forte. (2 Co 12.10).

Reações:

1 comentários:

Madson Silva disse...

Benção pastor! Deus continue a derramar graça, misericórdia e sabedoria. Paz.

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