quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Em busca da felicidade

Eu gosto de definições. Sei que isso está sendo empurrado para fora dos holofotes sociais, como quem quer envelhecer à força um conceito como se fosse uma "banana" atrás da geladeira do pós-modernismo. Mas... eu gosto de definições. Acredito que elas ajudam a estabelecer conceitos e a dar uma ideia clara do que queremos. E é exatamente o que queremos o foco desse post.
De um modo peculiar Paul Tripp oferece a seguinte definição de felicidade: "Felicidade é o resultado de obtermos o que nosso coração deseja" (2002:266). Peço que olhe com atenção para essa definiçao, pois atrevo-me a dizer que ele acertou. Ainda que haja quem se apresse em discordar creio que essa definição de felicidade como resultado da obtenção do que desejamos no coração capta com perspicácia o conceito geral de felicidade.
Se você vê algum problema em definirmos felicidade assim, me permita adiantar que, bem pode ser que o problema não esteja na definição em si. Explico: é curioso notar que todos buscamos com considerável avidez a felicidade. Afinal, quem quer ser pobre e doente podendo ser rico e saudável? Você prefere escolher a dor ou o prazer? Alegria ou tristeza? Bom... queremos a felicidade, ao que tudo indica. Acontece que essa bem pode ser um movimento do coração (em diretação a felicidade) deixado lá por Deus como um movimento natural.
Quando penso nisso, me lembro de que John Piper estruturou seu ministério pastoral em torno da defesa do que ele chamou de "hedonismo cristão". Ainda que sua ênfase recaia sobre o prazer - que ele acredita que só possa se realizar plenamente em Deus - a felicidade lhe é irmã, ou seja, prazer e felicidade andam juntas, ainda que não sejam a mesma coisa.
Esse homens de Deus, estudiosos em suas áreas, estão vendo alguma coisa de diferentes perspectivas, mas que acabam convergindo para o mesmo ponto. Um ponto que, como acredito, foi objeto de observação do salmista, que inspirado escreveu: "Agrada-te do SENHOR, e ele satisfará os desejos do teu coração" (Psalms 37:4).
Uma leitura mais atenta vai revelar que na definição de felicidade dada acima a pessoa de Deus está "faltando". Mas essa mesma leitura atenta revelará que o salmista não discodaria da definição dada. Na verdade, o salmista não está definindo felicidade, mas é como se ele concordasse com essa definição, contudo explicando somente Deus é capaz de "dar o que seu coração deseja". E é aqui que muitos se perdem...
Nem P. Tripp, nem J. Piper nem o Rei Davi estão dizendo que você deve se voltar para Deus para ter o desejos do seu coração atendido, como se Deus fosse uma entidade cósmica impessoal e sem vontade própria, cuja existência se justifica no atender de nossas necessidades sentidas. Nada poderia estar mais longe da verdade. Entretanto, é justamente desta forma que muitos abordam a questão da felicidade, Deus e a própria fé. E assim se apresentam diante de você, conselheiro: frustrados porque Deus não lhes deu o que queriam.
Creio que desde o salmista, o que esses homens de Deus estão nos ensinando é a enxergar o caráter duplo da felicidade. De um lado, está sua dinâmica: a felicidade nada mais é do que a satisfação dos desejos do coração. Uma vez que o coração esteja "satisfeito", a felicidade se instala. Mas do outro lado, temos aquilo que tem o poder de satisfazer o coração. E antes que você se apresse a dizer que este é Deus, olhe primeiro para o seu coração e para os desejos que abrotam dele. Tiago, com seu espelho cristalino nos aponta o problema: Cobiçais e nada tendes; matais, e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras. Nada tendes, porque não pedis; pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres. (Tg 4.2-3). O problema é o coração! O que o nosso coração deseja é uma expressão dele mesmo, e portanto, nossos desejos não são puros, muitas vezes não são legítimos nem mesmo condizem com aquilo que vá nos satisfazer.
Mesmo nessa condição lastimável de perdição, nosso coração não descansa em sua busca por felicidade. Ele, o nosso coração, mesmo assim perdido, ainda acredita que sua felicidade está na satisfação de seus desejos (egoísas, mesquinhos, pecaminosos, etc...).
Para que Deus seja a satisfação de nosso coração, é necessário que seja operada uma transformação fundamental. Essa transformação é tão grande e tão profunda que chamamos isso de "novo nascimento".
Quando essa transformação ocorre, os desejos de nosso coração mudam, porque nosso coração mudou. Nesse ponto, a felicidade é finalmente alcançada, pois Deus satisfaz o coração redimido. E caso você esteja se perguntando se a felicidade muda de pessoa para pessoa, a depender do estado do coração da pessoa em questão, me permita responder com Agostinho, que era santo como todo crente o é, assim resumiu: "Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti". Seu gênio traduzia com acuidade a poesia inspirada do salmista, mas dizia mais!
Ainda que seja uma afirmação um tanto ousada, é a ela que nos encaminhamos: não existe felicidade sem Deus. O coração enganado por sua própria cobiça até pode acreditar ser possível alcançar a felicidade na satisfação de seus desejos, mas enquanto esse coração não aprender a desejar a Deus, a felicidade andará ao redor, sem contudo poder ser encontrada, pois nenhum desejo pode realmente ser satisfeito em um coração vazio (de Deus).
O primeiro passo, portanto, é se conscientizar dessa verdade, pois felicidade não pode ser um alvo. Mas quando Deus é o alvo, a felicidade é seu efeito colateral, certo e bendito.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Não consigo mais orar. E agora?

afliçãoUma das graves crises na vida de um cristão ocorre quando suas orações diminuem ou cessam, ainda que temporariamente.

Oração sempre foi um dos grandes temas da vida cristã autêntica. Lucas, por exemplo, dedicou especial atenção ao relatar a intensa vida de oração de Jesus Cristo. Os pais puritanos dedicaram especial atenção nesta área, evidenciando o senso de dependência de Deus. Tratados foram escritos. Orações foram registradas e preservadas para nosso deleite e, assim, podemos constatar a profundidade e a simplicidade da busca pela face de Deus por meio das orações.

O Senhor Jesus Cristo, investiu muito tempo orando e instruindo seus discípulos a orar.

Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca. Mateus 26. 41

Uma das grandes marcas do cristianismo é a oração. Se olharmos com a devida atenção, as grandes orações registradas tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento fazem menção a Deus como criador de todas as coisas. O Senhor Jesus Cristo nos deixou a tão famosa oração modelo do Pai Nosso, para que pudéssemos vislumbrar a maravilhosa dependência de Jesus. Ao final de cada oração, ao final de cada petição, devemos insistir com nossa própria alma e consciência que a vontade de Deus deve prevalecer sobre nossa vontade.

Os falsos mestres da nossa geração não ensinam o modelo bíblico de oração que contempla o caráter de Deus e sua majestade. Ensinam tão somente a exigir de Deus bênçãos e mais bênçãos. Na mentalidade deste falso ensino, não há espaço para quebrantamento, humilhação e arrependimento de pecado e busca pela santidade.

A triste realidade é que nossa geração está destreinada na arte da oração biblicamente orientada.

Uma oração verdadeira pode contemplar o clamor do aflito. Pode e deve contemplar a aflição de pais que estão vendo seus filhos se desviar dos caminhos do Senhor. Cônjuges devem apresentar a Deus suas aflições diante das crises conjugais. Filhos devem orar e interceder por seus pais que ainda não se renderam a Cristo. A Igreja deve apresentar suas causas ao Deus Altíssimo e clamar por sua constante intervenção. Familiares devem clamar a Deus para que seus entes queridos sejam curados de alguma grave enfermidade. Porém, oração é mais que apresentar a Deus nossas justas causas. Devemos dar um passo além e orar de forma completa. Ou seja, oração é apresentar a Deus nossas causas e suplicas tanto quanto oração é, também, contemplar a glória de Deus, meditar em seus atributos e em seu caráter, e por fim, suplicar que nossa vontade se curve diante da vontade do Todo Poderoso Deus.

Uma oração que não contempla o caráter de Deus, seus atributos, sua glória, a deplorável condição de pecadores que somos (e todos os seus atores envolvidos), a redenção em Cristo, a beleza da providência da sua Palavra e a última e bendita realidade do lar celestial, é uma oração incompleta.

Aconselhando casais, descobri que uma das perguntas fundamentais é saber se os dois estão orando. No aconselhamento de jovens ou adultos, uma das perguntas fundamentais é saber se estão orando constantemente. Descobri que a maioria dos que procuram aconselhamento pastoral, em algum dado momento, abandonaram a prática constante da oração.

Boa parte dos cristãos que temporariamente deixaram de orar, culpam as provações e as circunstâncias ruins, como o fator primeiro para a falta de motivação para orar. Será que esta visão está correta? Creio que devemos observar atentamente algumas considerações que envolvem o nosso próprio coração.

Nossas orações diminuem ou são temporariamente interrompidas quando:

1) No coração humano estão presentes as mentiras, fraudes e o ódio.

Observe os textos abaixo:

Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável. Salmo 51.10

Seis coisas o SENHOR aborrece, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos. Provérbios 6. 16-19

Há uma urgência em “passarmos a vida a limpo” diante de Deus constantemente. Devemos providenciar sempre uma espécie de “faxina” em nosso coração. Com o passar do tempo, as lutas, os dissabores, projetos que deram errado tanto quanto os aspectos positivos da vida podem esconder poeiras, ou seja, podem esconder alguns dos adjetivos reprováveis pela Palavra de Deus. Com o passar do tempo, muita sujeira acumulada (pecado não confessado) poderá gerar uma grave crise espiritual e a primeira área da vida cristã a sofrer será a prática da oração.

2) Quando se tem uma ostensiva atitude de desobediência.

O que desvia os ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável. Provérbios 28.9

As vezes tenho a impressão que há membros da igreja que possuem um coração inquebrantável. Apesar de ouvirem os sermões, apesar de ouvirem as lições da Escola Dominical e dos estudos semanais, continuam obstinados em suas desobediências.

O que desvia os ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável. Provérbios 28.9

Muitos desses cristãos se rebelam facilmente quando alguém na igreja expõe a doce realidade do perdão bíblico. Rapidamente, os inquebrantáveis arregimentam argumentos contra a prática do perdão bíblico. Desculpas como: “se o outro não se arrepender, eu não perdoo. ”, ou “não sinto vontade em perdoar”, ou ainda “somente Deus tem poder para perdoar e eu não sou Deus. ” Essas desculpas são apenas um exemplo dentre tantos outros de uma ostensiva atitude de desobediência à Palavra de Deus.

Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós; Colossensses 3.13

Quando nos comportamos ostensivamente contrários as orientações da Palavra de Deus, veremos nossas orações diminuírem ou tornarem-se mecânicas. Aquele prazer em dedicar um tempo para orar a Deus será substituído por qualquer outra atividade. E a busca pela mortificação da carne será substituída pela exaltação de si.

Homens e mulheres cristãos devem procurar submeter a alma ao conselho do Senhor.

Em um mundo de prazeres e vontades, o que menos tem importado é a vontade do Senhor.

Conheci muitos cristãos que tornam as palavras do profeta Jonas muito atuais. Para esses, sua ira é justificada até a morte. São amantes de si mesmos, praticam a fofoca como estilo de vida, fraudam constantemente outros cristãos ao falarem mal deles. Os anos se passam e não melhoram. São conhecidos pela má conduta, pelo mau temperamento. A igreja carece de cristãos com uma ostensiva atitude de obediência a Palavra de Deus.

3) Quando a vida está dominada pela impureza.

Porque basta o tempo decorrido para terdes executado a vontade dos gentios, tendo andado em dissoluções, concupiscências, borracheiras, orgias, bebedices e em detestáveis idolatrias. 1 Pedro 4.3

Numa sociedade profundamente sexualizada, torna-se cada vez mais urgente a necessidade de redobrarmos a atenção sobre a manutenção da santidade. Além da sexualização da sociedade, há ainda o recrudescimento do relativismo moral, do ataque aos padrões judaico-cristãos de ética e moral.

Os inimigos da cruz estão atuando intensamente em várias frentes de batalha e a impureza tem sido disseminada. O intuito é destruir a estrutura de dentro para fora. Cresce o número de homens e mulheres que procuram na pornografia uma forma de aliviar o estresse do dia a dia. As crianças são expostas cada mais cedo ao universo da sexualidade, contrariando estudos até então postos como boas orientações contra a sexualização ou erotização das crianças.

Além disso, temos o alerta para não termos a mente moldada pelo presente século (Romanos 12.1 e 2). Isso significa que temos a obrigação de pensarmos de acordo com a Palavra de Deus e de sermos moldados ou orientados de acordo com esta Palavra. Além da sexualização da sociedade, outro problema é indisposição interna em desprezar as orientações de Deus. Em outras palavras, se não amarmos mais a Deus e sua palavra acima da nossa própria vontade, inevitavelmente teremos uma vida dominada pela impureza.

Tudo aquilo que não é feito para a glória de Deus é ofensivo a Deus.

No Salmo 72.20 há uma pequena sentença: Findam as orações de Davi, filho de Jessé. Aqui, suas orações cessaram pelo fato da chegada do fim da sua vida. Outro momento em que Davi não orou a Deus confessando seu pecado se deu quando do adultério com Bate-Seba. Sabemos o quanto ausentar-se da presença de Deus lhe custou.

Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio. Salmo 32. 2 e 3

A relevante questão a ser respondida é: por que não consigo mais orar? A resposta passará por uma limpeza do coração e a santificação é a resposta. Será necessário clamar a Deus que sonde o seu coração e diante do Altíssimo, o pecador terá clareza daquilo que ali habita e que o afasta ou desestimula a orar a Deus. Ainda que os problemas e as tribulações da vida contribuam ou pressionem de alguma forma ou em algum grau, eles não são a raiz do problema.

É bom saber que apesar da nossa fragilidade e dos pecados que cometemos, podemos e devemos procurar apresentar tudo isso ao santo Deus.

Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças. Filipenses 4.6

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Convém que ele cresça! – Refletindo sobre a personificação ministerial

igreja joão batista2

João Batista despontava como um grande líder em seu tempo. Seu ministério de pregação ia bem e, conforme relata Mateus, “saíam a ter com ele Jerusalém, toda a Judeia e toda a circunvizinhança do Jordão; e eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados” (Mt 3.5). João não negociava a mensagem, não queria simplesmente mais adeptos, mas ver vidas transformadas. Quando percebeu que muitos fariseus e saduceus apresentavam-se ao batismo exortou duramente: “Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” (Mt 3.5-8).

Numa ocasião o próprio Jesus se apresentou ao batismo e, mesmo diante da tentativa de dissuasão de João Batista, que dizia que ele é quem precisava ser batizado pelo Senhor, foi batizado para que se cumprisse toda a justiça (cf. Mt 3.13-15). Outro João, o evangelista, relata que após isso o Batista estava em companhia de dois discípulos quando viu passar a Jesus. Prontamente ele afirmou que ia ali o Cordeiro de Deus e seus dois discípulos seguiram o Senhor. João Batista preocupava-se em exaltar a Cristo.

Aconteceu que num dia os discípulos de João Batista discutiram com um judeu sobre a purificação e chegaram a João com uma “queixa”, dizendo: “Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tens dado testemunho, está batizando, e todos lhe saem ao encontro” (Jo 3.26).

Ao saber da notícia João tomou uma rápida providência. Reuniu sua equipe de marketing e decidiu inaugurar um novo templo com uma grande placa na frente na qual se podia ler: “Igreja Intercontinental Precursora do Cordeiro” e em letras garrafais: “MINISTÉRIO PROFETA JOÃO BATISTA”. Estampou, também, na placa, uma foto sua com um sorriso forçado e um pedaço de pergaminho na mão, para deixar bem claro quem era o líder daquela comunidade.

Calma! Eu sei que o que está no parágrafo acima não aconteceu. Esta última parte foi uma divagação da minha mente ao pensar no que talvez tivesse acontecido, caso no lugar de João Batista estivessem muitos dos líderes evangélicos de nossos dias.

Vivemos dias difíceis. Dias em que, por parte de muitos líderes, há uma busca pela autoglorificação e, por conta disso, uma propaganda acentuada de seus ministérios ao mesmo tempo em que Cristo é cada vez menos anunciado. Por parte dos crentes, uma louvação a homens e a esperança de que eles são os responsáveis pelo sucesso da igreja. Isso explica o fato de não se colocar apenas o nome da denominação na placa, para indicar que é uma igreja cristã, mas de colocar também o nome da “estrela principal” para aquele grupo.

Gostaria de poder dizer que esse é um fenômeno presente somente em igrejas neopentecostais, mas a realidade aponta para outra direção. Infelizmente, até nos arraiais tradicionais há a tendência de exaltar homens e de achar que um ou outro ministro são essenciais para que a denominação vá bem.

 Certa vez ouvi um pastor afirmar que determinado presbitério não estava crescendo e que algo deveria ser feito em relação a isso, mas, em vez de propor que os Conselhos das igrejas zelassem mais pela exposição fiel da Palavra de Deus e dependessem do Espírito Santo que convence o homem do pecado, da justiça e do juízo, a proposta foi: “Deveríamos fazer uma grande cruzada e convidar o Rev. Fulano de Tal para pregar, isso iria encher as igrejas do nosso presbitério”. Há alguns anos a Associação Billy Graham promoveu em nosso país o “Minha Esperança Brasil” e o modelo era o mesmo, centrado na pessoa de um pregador. O projeto consistia em convidar amigos e vizinhos não crentes para irem à sua casa assistir aos programas que teriam como pregadores Billy e Frank Graham, como se a mensagem pregada por esses irmãos fosse mais eficaz que a pregada pelos demais cristãos.

 É claro que não estou negando que existem homens mais preparados ou capacitados. Não seria tolo a esse ponto. O Senhor distribuiu dons à sua igreja para que ela fosse equipada e edificada. Sei que ele concedeu “uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.11-12). O meu ponto é que, por mais capacitados que sejam os homens, a glória nunca pode ser deles nem a confiança do povo deve estar depositada neles ou, em outras palavras, a glória e a esperança não devem estar nos que são capacitados, mas naquele que os capacita.

 É sempre uma tentação para qualquer pregador o aceitar glória para si, mas temos exemplos bíblicos que nos chamam à sensatez. Pense, por exemplo, no apóstolo Paulo. Ele mesmo afirma que tinha propensão à soberba e que, por conta disso, foi-lhe posto um espinho na carne para humilhá-lo (2Co 12.7). Curiosamente, quando pregava em Filipos, lidou com uma tentação exatamente nessa área. Por muitos dias, uma jovem adivinhadora andava após ele e seus companheiros dizendo: “Estes homens são servos do Deus Altíssimo e vos anunciam o caminho da salvação” (At 16.17). Imagine alguém elogiando a sua performance como pregador. O que você faria? O que Paulo fez foi se indignar e repreender o espírito imundo daquela mulher (At 16.18). Foi o mesmo Paulo que exortou aos romanos: “Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um de vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (Rm 12.3).

Voltando a João Batista, o que ele fez diante da tentação de se enciumar com o ministério de Cristo foi humildemente reconhecer que o ministério de Cristo vinha da parte do Senhor (Jo 3.27), reconhecer que ele não era o Cristo, mas seu precursor (Jo 3.28) e reafirmar a sua alegria de, como “amigo do noivo”, ver o noivo ser exaltado (Jo 3.29).

Quanto a nós, cabe-nos humildemente cumprir nosso chamado de proclamar o Redentor e, fazendo coro com o Batista, afirmar: “Convém que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30).

Milton Jr.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Queria mesmo é que fosse mais fácil...

"Ah, como eu queria tudo se resolvesse como num passe de mágica…"

No momento que escrevo estas linhas estou enfrentando um grande desafio na minha jornada acadêmica. As dificuldades que se avizinham, devo confessar, me atemorizam e lutas interiores são travadas. Uma delas é contra aquele desejo de dormir e acordar com tudo resolvido (já teve?). Como quando passamos por situações que desejamos não terem sido mais que sonhos ruins, dos quais pudéssemos acordar e respirar aliviados. Essa busca por soluções fáceis pode ser ilustrada pelas inúmeras propagandas que prometem um corpo "sadio e nédio" como resultado milagroso desse ou daquele comprimido, sem exigir exercícios. Não sei você, mas eu adoraria que fosse verdade, e do dia pra noite, pela ingestão de um simples comprimido, minha "máquina de lavar" fosse transformada em um "tanquiho" (quem ler entenda!). A busca por facilidade está em todo lugar, e não deixa incólume nenhuma área da vida, e como você já deve ter advinhado, está presente no aconselhamento cristão também.

Nem todo mundo que procura um conselheiro cristão está realmente disposto a seguir as orientações que recebe. Sei o que parece, mas nem sempre é o caso de recebermos alguém realmente disposto a fazer o necessário. E a pergunta que parece ficar no ar é: por que essa pessoa veio em busca de ajuda?

Quando nossa saúde está realmente ruim, procuramos por um médico. Quando a situação demanda medidas urgentes, nossa disposição é proporcional ao desespero. Parece que enquanto a dor não nos tirar da zona de conforto, não haverá disposição para mudar. É como se nosso disposição em mudar fosse proporcional aos efeitos que a doença em questão traz. Muitas pessoas lutam com os efeitos de seus pecados e problemas, alguns deles terríveis. Mesmo assim, para nossa supresa, eles ainda desejam uma saída fácil, segura, rápida e não sacrificial.

Antes de prosseguir, uma nota: O aconselhamento cristão centrado na Bíblia não exigirá sacrifícios de fato. O verdadeiro e necessário sacrifício já foi feito, de fato, na cruz do Calvário. Por isso que o aconselhamento cristão busca em Cristo seus princípios e práticas. Os ídolos é que estão interessados em sacrifícios de pecados, ao passo que o aconselhamento alicerçado em Jesus Cristo espera como resposta que sejam oferecidos a Deus, por meio de Jesus, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome(Hb 13.15). Acontece que quando somos confrontados com nosso pecados, alguns deles tão enraizados em nossa vida que parecem fazerem parte integral dela, encaramos o dilema de deixar as velhas paixões carnais que militam contra nossa alma para adotar um estilo de vida que seja expressão de amor a Deus. Nesse momento nos parece verdadeiros "sacrifícios" que abandonemos certos vícios, alegados direitos, atitudes e pensamentos.

Voltando... Pode ser que pelo fato de não empregarmos o uso de fármacos no tratamento, o aconselhamento bíblico para muitos parece algo mais fácil.

O problema não é atenuado pelo modelo médico, segundo o qual certos problemas são melhor compreendidos e tratados quando entendidos sob a categoria de doenças. Nessa condição, tudo o que é desejado é um diagnóstico que seja correto para que a administração do remédio correto leve à cura pretendida. Correto? Acredito que essa seja justamente a resposta fácil, porém errada. A resposta, não nos é oferecida no fundo do frasco, mas no alto do Gólgota.

Quando penso nesse estados de coisas me vêm à mente a pregação do vendedor de indulgências tão ardorosamente combatido por Lutero, João Tetzel. Segundo Tetzel, toda vez que alguém ouvisse o tilintar de uma moeda cair no fundo da caixa, uma alma saida do prugatório. "Tetzels" modernos parecem estar apregoando novas e mais caras indulgências, sob a promessa de que a cada comprimido que sai do fundo do frasco, mais perto alguém está de ser liberto de sua mazela psicológica.

Não questiono, nem creio que deveríamos questionar (sempre e em qualquer ocasião) a sinceridade dos que nos procuram. O problema reside em outro lugar: Amamos o conforto, e amamos ainda mais o conforto que permanecer um nossos velhos conceitos proporciona. Parece até que a única mudança a que estamos dispostos nada mais é do que uma versão atualizada da condição anterior, que no entando, nada tráz de novo.

Conselheiro, esteja preparado para enfrentar esse desafio, pois todos, em alguma medida, procuramos caminhos mais fáceis para atingir nossos objetivos. É como diz meu professor: "Todos queremos ganhar na loteria... sem ter que comprar o bilhete, pra não pecar!". O que fazer?

Consideremos com nosso aconselhado que na condição de embaixadores nos cabe "preencher o que resta das aflições de Cristo" em nossa carne (Col 1.24), como quem "participa dos sofrimentos" uns dos outros, como bons soldados de Cristo Jesus (2 Tm 2.3). Assim o fazemos porque nosso Senhor Jesus nos conclama a seguí-lo na consciência de que quem quiser ir após ele deve negar a si mesmo e tomar a sua cruz, e só então seguí-lo (Mt 16.24). Nada disso, porém, realmente implica em exigir-se de nós, seguidores do Senhor Jesus, que façamos aquilo que não está ao nosso alcance, pois mesmo sob o peso das tentações, Deus não permitirá que sejamos tentados além das nossas forças, antes provê o livramento de modo que o possamos suportar (1 Co 10.13). Quando triunfamos, portanto, sobre as dificuldades e fazemos aquilo que nos cumpre fazer, sabemos que o que colhemos é o fruto da boa vontade de Deus em nós, pois é ele quem efetua "tanto o querer como o realizar" (Fp 2.13). Consideremos ainda que isso nos conduz a nenhum outro fim senão à alegria, na medida que somos coparticipantes dos sofrimentos de Cristo (1 Pe4.13), pois assim se alegram aqueles que sabem que, enquanto participantes desse sofrimento, soão ainda mais coparticipantes da glória que há de ser revelada" (1 Pe 5.1).

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