terça-feira, 10 de outubro de 2017

Não consigo mais orar. E agora?

afliçãoUma das graves crises na vida de um cristão ocorre quando suas orações diminuem ou cessam, ainda que temporariamente.

Oração sempre foi um dos grandes temas da vida cristã autêntica. Lucas, por exemplo, dedicou especial atenção ao relatar a intensa vida de oração de Jesus Cristo. Os pais puritanos dedicaram especial atenção nesta área, evidenciando o senso de dependência de Deus. Tratados foram escritos. Orações foram registradas e preservadas para nosso deleite e, assim, podemos constatar a profundidade e a simplicidade da busca pela face de Deus por meio das orações.

O Senhor Jesus Cristo, investiu muito tempo orando e instruindo seus discípulos a orar.

Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca. Mateus 26. 41

Uma das grandes marcas do cristianismo é a oração. Se olharmos com a devida atenção, as grandes orações registradas tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento fazem menção a Deus como criador de todas as coisas. O Senhor Jesus Cristo nos deixou a tão famosa oração modelo do Pai Nosso, para que pudéssemos vislumbrar a maravilhosa dependência de Jesus. Ao final de cada oração, ao final de cada petição, devemos insistir com nossa própria alma e consciência que a vontade de Deus deve prevalecer sobre nossa vontade.

Os falsos mestres da nossa geração não ensinam o modelo bíblico de oração que contempla o caráter de Deus e sua majestade. Ensinam tão somente a exigir de Deus bênçãos e mais bênçãos. Na mentalidade deste falso ensino, não há espaço para quebrantamento, humilhação e arrependimento de pecado e busca pela santidade.

A triste realidade é que nossa geração está destreinada na arte da oração biblicamente orientada.

Uma oração verdadeira pode contemplar o clamor do aflito. Pode e deve contemplar a aflição de pais que estão vendo seus filhos se desviar dos caminhos do Senhor. Cônjuges devem apresentar a Deus suas aflições diante das crises conjugais. Filhos devem orar e interceder por seus pais que ainda não se renderam a Cristo. A Igreja deve apresentar suas causas ao Deus Altíssimo e clamar por sua constante intervenção. Familiares devem clamar a Deus para que seus entes queridos sejam curados de alguma grave enfermidade. Porém, oração é mais que apresentar a Deus nossas justas causas. Devemos dar um passo além e orar de forma completa. Ou seja, oração é apresentar a Deus nossas causas e suplicas tanto quanto oração é, também, contemplar a glória de Deus, meditar em seus atributos e em seu caráter, e por fim, suplicar que nossa vontade se curve diante da vontade do Todo Poderoso Deus.

Uma oração que não contempla o caráter de Deus, seus atributos, sua glória, a deplorável condição de pecadores que somos (e todos os seus atores envolvidos), a redenção em Cristo, a beleza da providência da sua Palavra e a última e bendita realidade do lar celestial, é uma oração incompleta.

Aconselhando casais, descobri que uma das perguntas fundamentais é saber se os dois estão orando. No aconselhamento de jovens ou adultos, uma das perguntas fundamentais é saber se estão orando constantemente. Descobri que a maioria dos que procuram aconselhamento pastoral, em algum dado momento, abandonaram a prática constante da oração.

Boa parte dos cristãos que temporariamente deixaram de orar, culpam as provações e as circunstâncias ruins, como o fator primeiro para a falta de motivação para orar. Será que esta visão está correta? Creio que devemos observar atentamente algumas considerações que envolvem o nosso próprio coração.

Nossas orações diminuem ou são temporariamente interrompidas quando:

1) No coração humano estão presentes as mentiras, fraudes e o ódio.

Observe os textos abaixo:

Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável. Salmo 51.10

Seis coisas o SENHOR aborrece, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos. Provérbios 6. 16-19

Há uma urgência em “passarmos a vida a limpo” diante de Deus constantemente. Devemos providenciar sempre uma espécie de “faxina” em nosso coração. Com o passar do tempo, as lutas, os dissabores, projetos que deram errado tanto quanto os aspectos positivos da vida podem esconder poeiras, ou seja, podem esconder alguns dos adjetivos reprováveis pela Palavra de Deus. Com o passar do tempo, muita sujeira acumulada (pecado não confessado) poderá gerar uma grave crise espiritual e a primeira área da vida cristã a sofrer será a prática da oração.

2) Quando se tem uma ostensiva atitude de desobediência.

O que desvia os ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável. Provérbios 28.9

As vezes tenho a impressão que há membros da igreja que possuem um coração inquebrantável. Apesar de ouvirem os sermões, apesar de ouvirem as lições da Escola Dominical e dos estudos semanais, continuam obstinados em suas desobediências.

O que desvia os ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável. Provérbios 28.9

Muitos desses cristãos se rebelam facilmente quando alguém na igreja expõe a doce realidade do perdão bíblico. Rapidamente, os inquebrantáveis arregimentam argumentos contra a prática do perdão bíblico. Desculpas como: “se o outro não se arrepender, eu não perdoo. ”, ou “não sinto vontade em perdoar”, ou ainda “somente Deus tem poder para perdoar e eu não sou Deus. ” Essas desculpas são apenas um exemplo dentre tantos outros de uma ostensiva atitude de desobediência à Palavra de Deus.

Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós; Colossensses 3.13

Quando nos comportamos ostensivamente contrários as orientações da Palavra de Deus, veremos nossas orações diminuírem ou tornarem-se mecânicas. Aquele prazer em dedicar um tempo para orar a Deus será substituído por qualquer outra atividade. E a busca pela mortificação da carne será substituída pela exaltação de si.

Homens e mulheres cristãos devem procurar submeter a alma ao conselho do Senhor.

Em um mundo de prazeres e vontades, o que menos tem importado é a vontade do Senhor.

Conheci muitos cristãos que tornam as palavras do profeta Jonas muito atuais. Para esses, sua ira é justificada até a morte. São amantes de si mesmos, praticam a fofoca como estilo de vida, fraudam constantemente outros cristãos ao falarem mal deles. Os anos se passam e não melhoram. São conhecidos pela má conduta, pelo mau temperamento. A igreja carece de cristãos com uma ostensiva atitude de obediência a Palavra de Deus.

3) Quando a vida está dominada pela impureza.

Porque basta o tempo decorrido para terdes executado a vontade dos gentios, tendo andado em dissoluções, concupiscências, borracheiras, orgias, bebedices e em detestáveis idolatrias. 1 Pedro 4.3

Numa sociedade profundamente sexualizada, torna-se cada vez mais urgente a necessidade de redobrarmos a atenção sobre a manutenção da santidade. Além da sexualização da sociedade, há ainda o recrudescimento do relativismo moral, do ataque aos padrões judaico-cristãos de ética e moral.

Os inimigos da cruz estão atuando intensamente em várias frentes de batalha e a impureza tem sido disseminada. O intuito é destruir a estrutura de dentro para fora. Cresce o número de homens e mulheres que procuram na pornografia uma forma de aliviar o estresse do dia a dia. As crianças são expostas cada mais cedo ao universo da sexualidade, contrariando estudos até então postos como boas orientações contra a sexualização ou erotização das crianças.

Além disso, temos o alerta para não termos a mente moldada pelo presente século (Romanos 12.1 e 2). Isso significa que temos a obrigação de pensarmos de acordo com a Palavra de Deus e de sermos moldados ou orientados de acordo com esta Palavra. Além da sexualização da sociedade, outro problema é indisposição interna em desprezar as orientações de Deus. Em outras palavras, se não amarmos mais a Deus e sua palavra acima da nossa própria vontade, inevitavelmente teremos uma vida dominada pela impureza.

Tudo aquilo que não é feito para a glória de Deus é ofensivo a Deus.

No Salmo 72.20 há uma pequena sentença: Findam as orações de Davi, filho de Jessé. Aqui, suas orações cessaram pelo fato da chegada do fim da sua vida. Outro momento em que Davi não orou a Deus confessando seu pecado se deu quando do adultério com Bate-Seba. Sabemos o quanto ausentar-se da presença de Deus lhe custou.

Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia. Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim, e o meu vigor se tornou em sequidão de estio. Salmo 32. 2 e 3

A relevante questão a ser respondida é: por que não consigo mais orar? A resposta passará por uma limpeza do coração e a santificação é a resposta. Será necessário clamar a Deus que sonde o seu coração e diante do Altíssimo, o pecador terá clareza daquilo que ali habita e que o afasta ou desestimula a orar a Deus. Ainda que os problemas e as tribulações da vida contribuam ou pressionem de alguma forma ou em algum grau, eles não são a raiz do problema.

É bom saber que apesar da nossa fragilidade e dos pecados que cometemos, podemos e devemos procurar apresentar tudo isso ao santo Deus.

Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças. Filipenses 4.6

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Convém que ele cresça! – Refletindo sobre a personificação ministerial

igreja joão batista2

João Batista despontava como um grande líder em seu tempo. Seu ministério de pregação ia bem e, conforme relata Mateus, “saíam a ter com ele Jerusalém, toda a Judeia e toda a circunvizinhança do Jordão; e eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados” (Mt 3.5). João não negociava a mensagem, não queria simplesmente mais adeptos, mas ver vidas transformadas. Quando percebeu que muitos fariseus e saduceus apresentavam-se ao batismo exortou duramente: “Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” (Mt 3.5-8).

Numa ocasião o próprio Jesus se apresentou ao batismo e, mesmo diante da tentativa de dissuasão de João Batista, que dizia que ele é quem precisava ser batizado pelo Senhor, foi batizado para que se cumprisse toda a justiça (cf. Mt 3.13-15). Outro João, o evangelista, relata que após isso o Batista estava em companhia de dois discípulos quando viu passar a Jesus. Prontamente ele afirmou que ia ali o Cordeiro de Deus e seus dois discípulos seguiram o Senhor. João Batista preocupava-se em exaltar a Cristo.

Aconteceu que num dia os discípulos de João Batista discutiram com um judeu sobre a purificação e chegaram a João com uma “queixa”, dizendo: “Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tens dado testemunho, está batizando, e todos lhe saem ao encontro” (Jo 3.26).

Ao saber da notícia João tomou uma rápida providência. Reuniu sua equipe de marketing e decidiu inaugurar um novo templo com uma grande placa na frente na qual se podia ler: “Igreja Intercontinental Precursora do Cordeiro” e em letras garrafais: “MINISTÉRIO PROFETA JOÃO BATISTA”. Estampou, também, na placa, uma foto sua com um sorriso forçado e um pedaço de pergaminho na mão, para deixar bem claro quem era o líder daquela comunidade.

Calma! Eu sei que o que está no parágrafo acima não aconteceu. Esta última parte foi uma divagação da minha mente ao pensar no que talvez tivesse acontecido, caso no lugar de João Batista estivessem muitos dos líderes evangélicos de nossos dias.

Vivemos dias difíceis. Dias em que, por parte de muitos líderes, há uma busca pela autoglorificação e, por conta disso, uma propaganda acentuada de seus ministérios ao mesmo tempo em que Cristo é cada vez menos anunciado. Por parte dos crentes, uma louvação a homens e a esperança de que eles são os responsáveis pelo sucesso da igreja. Isso explica o fato de não se colocar apenas o nome da denominação na placa, para indicar que é uma igreja cristã, mas de colocar também o nome da “estrela principal” para aquele grupo.

Gostaria de poder dizer que esse é um fenômeno presente somente em igrejas neopentecostais, mas a realidade aponta para outra direção. Infelizmente, até nos arraiais tradicionais há a tendência de exaltar homens e de achar que um ou outro ministro são essenciais para que a denominação vá bem.

 Certa vez ouvi um pastor afirmar que determinado presbitério não estava crescendo e que algo deveria ser feito em relação a isso, mas, em vez de propor que os Conselhos das igrejas zelassem mais pela exposição fiel da Palavra de Deus e dependessem do Espírito Santo que convence o homem do pecado, da justiça e do juízo, a proposta foi: “Deveríamos fazer uma grande cruzada e convidar o Rev. Fulano de Tal para pregar, isso iria encher as igrejas do nosso presbitério”. Há alguns anos a Associação Billy Graham promoveu em nosso país o “Minha Esperança Brasil” e o modelo era o mesmo, centrado na pessoa de um pregador. O projeto consistia em convidar amigos e vizinhos não crentes para irem à sua casa assistir aos programas que teriam como pregadores Billy e Frank Graham, como se a mensagem pregada por esses irmãos fosse mais eficaz que a pregada pelos demais cristãos.

 É claro que não estou negando que existem homens mais preparados ou capacitados. Não seria tolo a esse ponto. O Senhor distribuiu dons à sua igreja para que ela fosse equipada e edificada. Sei que ele concedeu “uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.11-12). O meu ponto é que, por mais capacitados que sejam os homens, a glória nunca pode ser deles nem a confiança do povo deve estar depositada neles ou, em outras palavras, a glória e a esperança não devem estar nos que são capacitados, mas naquele que os capacita.

 É sempre uma tentação para qualquer pregador o aceitar glória para si, mas temos exemplos bíblicos que nos chamam à sensatez. Pense, por exemplo, no apóstolo Paulo. Ele mesmo afirma que tinha propensão à soberba e que, por conta disso, foi-lhe posto um espinho na carne para humilhá-lo (2Co 12.7). Curiosamente, quando pregava em Filipos, lidou com uma tentação exatamente nessa área. Por muitos dias, uma jovem adivinhadora andava após ele e seus companheiros dizendo: “Estes homens são servos do Deus Altíssimo e vos anunciam o caminho da salvação” (At 16.17). Imagine alguém elogiando a sua performance como pregador. O que você faria? O que Paulo fez foi se indignar e repreender o espírito imundo daquela mulher (At 16.18). Foi o mesmo Paulo que exortou aos romanos: “Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um de vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um” (Rm 12.3).

Voltando a João Batista, o que ele fez diante da tentação de se enciumar com o ministério de Cristo foi humildemente reconhecer que o ministério de Cristo vinha da parte do Senhor (Jo 3.27), reconhecer que ele não era o Cristo, mas seu precursor (Jo 3.28) e reafirmar a sua alegria de, como “amigo do noivo”, ver o noivo ser exaltado (Jo 3.29).

Quanto a nós, cabe-nos humildemente cumprir nosso chamado de proclamar o Redentor e, fazendo coro com o Batista, afirmar: “Convém que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30).

Milton Jr.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Queria mesmo é que fosse mais fácil...

"Ah, como eu queria tudo se resolvesse como num passe de mágica…"

No momento que escrevo estas linhas estou enfrentando um grande desafio na minha jornada acadêmica. As dificuldades que se avizinham, devo confessar, me atemorizam e lutas interiores são travadas. Uma delas é contra aquele desejo de dormir e acordar com tudo resolvido (já teve?). Como quando passamos por situações que desejamos não terem sido mais que sonhos ruins, dos quais pudéssemos acordar e respirar aliviados. Essa busca por soluções fáceis pode ser ilustrada pelas inúmeras propagandas que prometem um corpo "sadio e nédio" como resultado milagroso desse ou daquele comprimido, sem exigir exercícios. Não sei você, mas eu adoraria que fosse verdade, e do dia pra noite, pela ingestão de um simples comprimido, minha "máquina de lavar" fosse transformada em um "tanquiho" (quem ler entenda!). A busca por facilidade está em todo lugar, e não deixa incólume nenhuma área da vida, e como você já deve ter advinhado, está presente no aconselhamento cristão também.

Nem todo mundo que procura um conselheiro cristão está realmente disposto a seguir as orientações que recebe. Sei o que parece, mas nem sempre é o caso de recebermos alguém realmente disposto a fazer o necessário. E a pergunta que parece ficar no ar é: por que essa pessoa veio em busca de ajuda?

Quando nossa saúde está realmente ruim, procuramos por um médico. Quando a situação demanda medidas urgentes, nossa disposição é proporcional ao desespero. Parece que enquanto a dor não nos tirar da zona de conforto, não haverá disposição para mudar. É como se nosso disposição em mudar fosse proporcional aos efeitos que a doença em questão traz. Muitas pessoas lutam com os efeitos de seus pecados e problemas, alguns deles terríveis. Mesmo assim, para nossa supresa, eles ainda desejam uma saída fácil, segura, rápida e não sacrificial.

Antes de prosseguir, uma nota: O aconselhamento cristão centrado na Bíblia não exigirá sacrifícios de fato. O verdadeiro e necessário sacrifício já foi feito, de fato, na cruz do Calvário. Por isso que o aconselhamento cristão busca em Cristo seus princípios e práticas. Os ídolos é que estão interessados em sacrifícios de pecados, ao passo que o aconselhamento alicerçado em Jesus Cristo espera como resposta que sejam oferecidos a Deus, por meio de Jesus, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome(Hb 13.15). Acontece que quando somos confrontados com nosso pecados, alguns deles tão enraizados em nossa vida que parecem fazerem parte integral dela, encaramos o dilema de deixar as velhas paixões carnais que militam contra nossa alma para adotar um estilo de vida que seja expressão de amor a Deus. Nesse momento nos parece verdadeiros "sacrifícios" que abandonemos certos vícios, alegados direitos, atitudes e pensamentos.

Voltando... Pode ser que pelo fato de não empregarmos o uso de fármacos no tratamento, o aconselhamento bíblico para muitos parece algo mais fácil.

O problema não é atenuado pelo modelo médico, segundo o qual certos problemas são melhor compreendidos e tratados quando entendidos sob a categoria de doenças. Nessa condição, tudo o que é desejado é um diagnóstico que seja correto para que a administração do remédio correto leve à cura pretendida. Correto? Acredito que essa seja justamente a resposta fácil, porém errada. A resposta, não nos é oferecida no fundo do frasco, mas no alto do Gólgota.

Quando penso nesse estados de coisas me vêm à mente a pregação do vendedor de indulgências tão ardorosamente combatido por Lutero, João Tetzel. Segundo Tetzel, toda vez que alguém ouvisse o tilintar de uma moeda cair no fundo da caixa, uma alma saida do prugatório. "Tetzels" modernos parecem estar apregoando novas e mais caras indulgências, sob a promessa de que a cada comprimido que sai do fundo do frasco, mais perto alguém está de ser liberto de sua mazela psicológica.

Não questiono, nem creio que deveríamos questionar (sempre e em qualquer ocasião) a sinceridade dos que nos procuram. O problema reside em outro lugar: Amamos o conforto, e amamos ainda mais o conforto que permanecer um nossos velhos conceitos proporciona. Parece até que a única mudança a que estamos dispostos nada mais é do que uma versão atualizada da condição anterior, que no entando, nada tráz de novo.

Conselheiro, esteja preparado para enfrentar esse desafio, pois todos, em alguma medida, procuramos caminhos mais fáceis para atingir nossos objetivos. É como diz meu professor: "Todos queremos ganhar na loteria... sem ter que comprar o bilhete, pra não pecar!". O que fazer?

Consideremos com nosso aconselhado que na condição de embaixadores nos cabe "preencher o que resta das aflições de Cristo" em nossa carne (Col 1.24), como quem "participa dos sofrimentos" uns dos outros, como bons soldados de Cristo Jesus (2 Tm 2.3). Assim o fazemos porque nosso Senhor Jesus nos conclama a seguí-lo na consciência de que quem quiser ir após ele deve negar a si mesmo e tomar a sua cruz, e só então seguí-lo (Mt 16.24). Nada disso, porém, realmente implica em exigir-se de nós, seguidores do Senhor Jesus, que façamos aquilo que não está ao nosso alcance, pois mesmo sob o peso das tentações, Deus não permitirá que sejamos tentados além das nossas forças, antes provê o livramento de modo que o possamos suportar (1 Co 10.13). Quando triunfamos, portanto, sobre as dificuldades e fazemos aquilo que nos cumpre fazer, sabemos que o que colhemos é o fruto da boa vontade de Deus em nós, pois é ele quem efetua "tanto o querer como o realizar" (Fp 2.13). Consideremos ainda que isso nos conduz a nenhum outro fim senão à alegria, na medida que somos coparticipantes dos sofrimentos de Cristo (1 Pe4.13), pois assim se alegram aqueles que sabem que, enquanto participantes desse sofrimento, soão ainda mais coparticipantes da glória que há de ser revelada" (1 Pe 5.1).

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Sobre Aflição

afliçãoHá algum tempo tenho informado a igreja que pastoreio sobre como nossa geração desaprendeu a enfrentar o contraditório. Nossa geração não sabe perder, não sabe ouvir um sonoro não. Rejeição é um atentado, beleza agora é pós-beleza. Antes ouvíamos que algo era verdade ou mentira. Em tempos recentes ouvimos verdade, inverdade, não-verdade e pó-verdade. Há alguns anos, as crianças que disputavam alguma modalidade esportiva, somente ganhavam medalhas se chegassem em primeiro lugar. Hoje em dia, todos que disputam alguma modalidade esportiva, especialmente nas escolas, obrigatoriamente ganham medalhas. Com isso, treina-se uma geração a não suportar perder. Não sabem lidar com algo ou alguém que lhes diga algo que soe contrário ao seu sentimento.

Sei que o mundo está sendo pautado pelo politicamente correto, porém, assustadoramente também encontramos a mesma realidade na cultura evangélica atual. Ao menor sinal de indisposição, homens e mulheres dizem estar profundamente magoados. Os pastores estão precisando ponderar cada palavra, cada termo usado nas mensagens, para não contrariar os ouvidos sensíveis da membresia.

Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos.      Salmo 119.105

A Palavra de Deus continua sendo um farol a iluminar o caminho correto. Estamos caminhando próximo aos rochedos. As tentativas de nublar os caminhos estão se intensificando. A única forma de não colidirmos contra os perigosos rochedos é olharmos para a luz que emana da Palavra de Deus, pois ela tem brilhado para nos mostrar o caminho correto a seguir.

Pensemos por um instante na desafiadora mensagem do versículo 71 do Salmo 119.

Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos.

Esse versículo não se encaixa no pensamento médio do evangélico brasileiro. Na média, o que constatamos são mensagens de autoajuda, com “pitadas” de alguns versículos bíblicos.

Evidentemente ninguém deveria orar a Deus pedindo por aflição. A questão não é esta. Depois de algum tempo, o salmista pôde constatar que a aflição serviu para tornar mais claro os decretos de Deus. E, compreender os decretos de Deus é sempre muito bom, pois traz quietude ao coração que está em agonia e inquietação.

Para que possamos nos comprometer com este ensino apresentado pelo salmista, será necessário entender pelo menos dois aspectos.

O primeiro, é importante e vital ter o coração rendido às Escrituras Sagradas. O coração e a mente devem ser tomados pela centralidade da Palavra de Deus.

O segundo aspecto consiste em confiar plenamente na condução de Deus sobre todas as coisas. Viver como se ninguém estivesse no controle é desesperador. Lembrar que há um Deus santo, soberano e justo reinando absoluto é reconfortante e dá sentido à cada experiência pela qual passamos aqui nesta terra.

Não é uma tarefa fácil aplicar o ensino apresentado no versículo 105 do Salmo 119. Requer tempo em oração, leitura da Palavra e profundo desejo de ter verdadeira comunhão com o Deus Altíssimo. O Santo Espírito do Senhor guiará todos os seus filhos nesta caminhada gloriosa.

Aprender sobre os decretos de Deus significa aprender sobre o caráter de Deus. Quando sondamos a realidade dos decretos de Deus, percebemos que, ainda que não consigamos apreender toda a percepção da realidade e propósitos de Deus, podemos confiar nele plenamente.

Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos;  2 Coríntios 4. 8 e 9

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Conhecendo a Deus e a si mesmo

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“Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus” (Jo 4.22).

Ao conversar com a mulher samaritana, Jesus fez uma grave afirmação. Ela adorava a quem não conhecia. Ao olhar para esse texto, devemos também pensar seriamente sobre nossa vida cristã e sobre o nível de maturidade e conhecimento do Senhor que temos.

Conhecer a Deus da maneira correta, isto é, como ele se revela em sua Palavra, deve ser o alvo de nossa caminhada cristã. Porém esse conhecimento não é somente saber muito sobre teologia ou explanar bem sobre qualquer assunto bíblico, mas, sobretudo, ter uma vida de relacionamento íntimo com ele aplicando as verdades reveladas nas Escrituras em nossa vida.

O povo de Israel foi duramente repreendido pelo Senhor justamente por esta falta de conhecimento. No livro de Isaías lemos: “O boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende” (Is 1.2). Por meio de Oséias o Senhor afirmou que esta era a causa da calamidade do povo, ao exortar: “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta conhecimento” (Os 4.6).

O verdadeiro conhecimento de Deus é muito importante principalmente em nossos dias, quando as pessoas dizem crer em Deus, mas não têm ideia alguma sobre o objeto de sua fé ou que diferença essa crença nele poderá causar. O conhecimento de Deus, de seus atributos, nos faz, por exemplo, descansar em sua soberania sabendo que, aconteça o que acontecer, ele está no comando.

Este conhecimento é possível porque o Senhor decidiu revelar-se por meio de sua Palavra. É na Bíblia que conhecemos a Deus. Não se pode conhecer o Senhor sem abrir as páginas da Sagrada Escritura e, com a iluminação do Espírito Santo, meditar de dia e de noite (Sl 1). Na Bíblia temos Deus falando com o seu povo e instruindo-o a respeito dele mesmo e a respeito do caminho em que o povo deve andar.

Quando Jesus afirmou que rios de água viva fluiriam do interior daqueles que cressem nele, não deixou de apontar qual é o lugar onde o homem pode obter o conhecimento para crer. Ele foi enfático: “Quem crer em mim, como diz a Escritura...” (Jo 7.38). Por isso, se você quer conhecer a Deus, deve ler a sua Bíblia.

É esse conhecimento de Deus que permite ao homem conhecer a si mesmo, mas o humanismo característico de nosso tempo leva os homens a tentarem entender a si mesmos, desprezando a Deus. Sobre isso, podemos aprender com Calvino, em suas Institutas da Religião Cristã, onde escreve:

“É notório que o homem jamais pode ter claro conhecimento de si mesmo, se primeiramente não contemplar a face do Senhor, e então descer para examinar a si mesmo. Porque esta arrogância está arraigada em todos nós – sempre nos julgamos justos, verdadeiros, sábios e santos, a não ser que, havendo sinais evidentes, sejamos convencidos de que somos injustos, falsos, insensatos e impuros. Mas não seremos convencidos se só dermos atenção a nós mesmos, e não também ao Senhor, pois esta é a regra única à qual é necessário que se ajuste o julgamento que se queira fazer” (Livro I, p. 54).

Esta foi a experiência de Isaías ao entrar no templo e contemplar o Senhor. O resultado de tamanha experiência foi a declaração: “Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos”, e o perdão dos seus pecados, após esta confissão (Is 6.5-7).

Ou seja, o conhecimento de Deus é prático. Quanto mais conhecemos a Deus, mais nos conscientizamos de nosso estado pecaminoso, mais reconhecemos que necessitamos de sua misericórdia e que é essa misericórdia a causa de não sermos consumidos.

Como já foi afirmado e deve estar bem claro em nossa mente a fim de não nos ensoberbecermos: só podemos conhecer a Deus porque ele decidiu revelar-se a nós. E não só essa, mas todas as nossas ações em relação a Deus derivam de uma ação primeira efetuada pelo Senhor. “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros...” (Jo 15.16); “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19).

Conhecer a Deus é conhecer a Cristo. Quando Filipe pediu a Jesus, “mostra-nos o Pai, e isso nos basta”, teve como resposta: “Há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14.8-9). Não há conhecimento de Deus à parte do seu Filho, sendo inclusive esta, a experiência de Isaías no Antigo Testamento. Interpretando o que houve no templo, João afirma que o profeta “viu a glória dele [de Cristo] e falou a seu respeito” (Jo 12.41).

Esta deve ser também a mais alta prioridade na vida de cada ser humano, pois, como disse Jesus em sua oração sacerdotal, “a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3). Busque esse conhecimento com todo o coração, com toda força e com todo entendimento.

Milton Jr.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Você acha que isso é certo?

Na lida do aconselhemento bíblico é preciso aprender a fazer as peguntas certas. Este é um aprendizado constante. A pergunta certa tem o poder de confrontar, fazer parar pra pensar, acalmar ou despertar. Já uma pergunta mal feita pode colocar tudo a perder, indispor o aconselhado ou colocar o conselheiro numa situação difícil ou desconfortável.

Recentemente ouvi a pergunta do título sendo feita num outro contexto, mas me lembrei que vez por outra a gente luta com a vontade de fazer essa pergunta na sessão de aconselhamento. Entretanto, suponho que as pessoas possam usar essa pergunta sem ponderar sobre ela. Eu digo o porquê.

A pessoa que usa essa pergunta geralmente o faz por acreditar que existe um padrão moral universal sob o qual todos deveriam se enquadrar. A pessoa, mesmo que não articule isso conscientemente, no fim, acaba crendo assim. A pergunta fatídica brota num contexto muito similar repetidas vezes. Quando, então, alguém faz uso da pergunta, é como se uma tal atitude que ela considera reprovável devesse encontrar na mente do outro a mesma reprovação. É assim, repito, que essa pessoa pressupõe um padrão válido para todos, que ela crê que deveria ser obviamente perceptível.

Se você é uma conselheiro bíblico, saiba desde já que a primeira coisa que o pecado anula em nós é o poder de detectar o óbvio. Quando perguntamos pra alguém se ela pensa que a atitude em questão (seja qual for) está certa, a expectativa parece ser que o caráter óbvio dessa "potente" confrontação surja como um foguete sainda do chão. Mas, e se o óbvio não foir tão óbvio assim? E se a cegueira que o pecado causa impede a pessoa de ver a questão do seu ângulo? Pior: e se o pecado estiver agindo no raciocínio, impedindo também que as conclusões óbvias sejam alcançadas pelo simples contemplar da questão?

Parecem questões sem muito propósito, mas a verdade é que muitas alternativas da psicologia secular estão justamente amparadas nessas bases. Por exemplo, a terapia que visa devolver o conteúdo da conversa de volta ao aconselhado, espera que este ao se ouvir "veja" que suas atitudes ou conceitos estejam errados e passem por revisão. Baseado em quê ninguém diz...

Ver, de verdade ou metaforicamente, não é suficiente. Certa feita uma senhora que lecionava para as crianças tentou usar recurso semelhante, buscando fazer com a uma delas, a mais "arteira", se conscientizasse de suas atitudes. Ela perguntou: "Por que, então, você está aqui?". Esperando pela tradicional cena na qual a cabeça baixa demonstra a vergonha por não valorizar o momento, no lugar, ele ouve um desaforado: "Mas eu nem queria vir... venho porque meus pais me obrigam". E assim, chegamos ao ponto crítico da questão: O que vai acontecer quando você, no mesmo ímpeto, perguntar se ela acha certo que ele fez, e ouvir um confortável e descompromissado: "Sim, acho sim"?

A reflexão sobre o tema me levou a indagar se conselheiros bíblicos deveriam fazer uso desse recurso e "confrontar" seu aconselhados usando essa pergunta. Eu acredito que não.

Filósofos do passado defenderam a idea de que as pessoas só experimentariam liberdade quando conseguissem agir em rebelião aos ditames sociais de seu meio. Ou seja, somente quando eu faço o que eu acho certo é que realmente sou livre, independente do que os outros pesam. Hoje em dia essa infeliz ideia já ganhou status de lugar comum e sua aceitação é quase unanimidade. Alguém poderia até dizer que é obvio que a gente só faz o que acha ser certo.

O problema está justamente aí. Como é que alguém pode achar que vá fazer outrem pensar, meditar, reavaliar, repensar suas atitudes se valendo de pergunta tão obviamente errada? Explico: imagine que você pegou alguém pegando uma nota de dinheiro no chão, que ela viu ser deixada cair pela senhora que estava na frente da fila do caixa. Você que está atrás, pergunta com ar de desaprovação: "você acha que isso é certo?" Não vejo como alguém sem padrões morais estabelecidos fora de si mesmo, não poderia responder com tranquilidade: "Sim, acho!" Afinal, sem Cristo e Deus no mundo, crendo que somos seres evoluídos, a lei do mais forte e mais esperto não é uma lei natural?

E quando as pessoas começarem a achar que é certo roubar? Opa, na verdade já tem muitoa gente que acha... Vale a pergunta? E quando a resposta for "sim", você estará preparado?

O que ninguém pergunta, porém, é como se chega à conclusão de que exista uma padrão moral comum sob o qual todos deveria se encaixar? Quem o disse? Onde ele está? Essa sensação de que existe o tal padrão moral universal é a lei de Deus gravada no coração humano, contra a qual lutamos diária, incessante e rebeldemente.

Conselheiro bíblico, jamais use essa pergunta, à menos que queira verificar o que já sabe: que a pessoa reconhece tal atitude como correta. Afinal, mesmo que ela negue, se ela fez, é porque em algúm nível, achou certo. Obviamente que existem aqueles momento que a gente faz o que sabe ser errado. Faz apesar de saber que é errado. Erra consciente do erro. Mas pergunto: até mesmo aí, não será que estamos achando certo fazer errado, e chamando de justa a injustiça?

A grande e grave pergunta, quer do aconselhamento, quer da vida, é se você sabe responder se Deus acha certo isto ou aquilo? Essa é a pergunta com qual você, conselheiro cristão, deve se ocupar. Ainda falaremos muito sobre isso, mas por hora, vale o aviso de ficarmos mais conscientes das implicações e pressupostos das perguntas que fazemos àqueles que precisam de nossa ajuda.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Características de um homem biblicamente orientado. 1Timóteo 6. 3 a 16:


Biblia_sagradaLembro-me recentemente de ler uma matéria em que uma mulher estava profundamente indignada porque um homem quis ajuda-la contra um bandido. Feministas do mundo todo estão em campanha para, não apenas defender o direito das mulheres, mas, mais do que isso, o movimento feminista quer a ascensão feminista em detrimento da tão proclamada igualdade. Na realidade, o que deseja o movimento feminista é inferiorizar o homem, normalmente qualificado como opressor.

Neste turbilhão de movimentos contrários ao homem, o homem cristão deve entender que não pode ceder às investidas ideológicas que avançam sobre a igreja. O que determina seu padrão ético/moral não são conceitos ímpios. O que determina o padrão ético/moral e espiritual de um homem cristão deve ser a inerrante, infalível e suficiente Palavra de Deus.

Devemos urgentemente entender que o mundo não apenas ignora os preceitos bíblicos, mas os ignora e rejeita tais preceitos bíblicos e todos aqueles que os seguem (João 15.19).

O apóstolo Paulo, quando escreveu sua carta a Timóteo, apresentou algumas qualidades, algumas formas de como deveria ser um caracterizado o homem que é guiado pela palavra de Deus.

O homem de Deus é conhecido por fugir da prática ímpia.

O homem de Deus deve estar preparado para resistir à tentação de abrigar em seu coração tais aspectos carnais e ímpios. Vejam a lista de qualificações negativas que o apóstolo Paulo apresenta: enfatuado, nada entende, mania por questões, contendas, inveja, provocação, difamações, suspeitas malignas, altercações sem fim, mente pervertida, privados da verdade, gananciosos...

É assustador imaginar que tais qualificações negativas possam direcionar o coração de homens que deveriam espelhar o modelo maior que é de Jesus Cristo. O homem de Deus foge destas coisas e não fica bem ambientado onde tais práticas acontecem.

O homem de Deus é conhecido por seguir a: justiça, piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão.

A Palavra de Deus é mesmo incrível. Não basta “apenas” fugir. A exigência de fugir é acompanhada por uma instrução propositiva, ou seja, o homem de Deus foge da impiedade enquanto se aperfeiçoa na santidade. As duas realidades devem caminhar juntas.

O homem de Deus é conhecido por combater o bom combate da fé.

Esse combate exigirá mais do que força física. Exigirá a entrega total e completa da alma, visando um bem maior. O homem de Deus mostrará toda a sua força quando reconhecer que é fraco (2 Co 12:10) e, neste reconhecimento de sua própria fraqueza, procurará os recursos celestiais.

Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as cousas que nos conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude. 2 Pedro 1. 3

Toda a força que os homens necessitam vem do Senhor e não dos conchavos espúrios. Homens biblicamente orientados não se calam diante da injustiça. Homens biblicamente orientados procuram agradar a Deus e não a si mesmo. Homens biblicamente orientados procuram promover a paz, sem jamais comprometer a verdade. Nestes dias de intenso relativismo moral/ético e espiritual, a igreja necessita que homens biblicamente orientados se apresentem para protege-la.

Dito isso, perceba que Paulo tem em mente o cuidado primeiro com o próprio Timóteo. Ou seja, antes de arriscar-se na defesa da fé, certifique-se que o seu coração está rendido ao senhorio de Jesus Cristo.

Conclusão:

Devemos todos, homens e mulheres, sermos conhecidos por nossa identificação com Jesus Cristo e não por aspectos secundários da nossa vida.

Com isso em mente, lembre-se que o Senhor nosso Deus cuida dos seus. Nunca estaremos sozinhos ou abandonados. Deus não prometeu que teríamos uma vida triunfante aqui neste mundo, mas prometeu que terminaria a obra maravilhosa que ele mesmo começou em nós.

Como digo com alguma frequência ao meu filho: O mundo é imenso, intimidador, fascinante e sedutor, mas, saiba que o nosso Deus é infinitamente maior.

Sei que muitos homens têm imensas dificuldades de se portar da maneira exigida pela Palavra de Deus. Reconhecer isso é um bom caminho, porém, é preciso clamar pela urgente intervenção de Deus, para que ele, em seu tempo e soberana vontade, nos livre da apatia e do medo de sermos o que a Bíblia exige de nós.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Você creu de todo o coração?

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Quando Deus ordenou a Filipe, que vinha fazendo um bom trabalho pregando em Samaria, onde as multidões atendiam às coisas que ele dizia, que fosse a um caminho que se achava deserto, havia um propósito específico. Em sua providência, o Senhor levou Filipe até um eunuco, oficial da rainha dos etíopes, que voltava da adoração em Jerusalém e vinha lendo o profeta Isaías.

Filipe, obedecendo ao Espírito Santo, se aproximou do carro em que estava o eunuco e perguntou se ele entendia o que estava lendo. Diante da negativa e do pedido para que Filipe explicasse o texto, aquele homem entendeu o evangelho e chegando perto de um lugar onde havia água, questionou: “Eis aqui água; que impede que seja eu batizado?” – ao que Filipe respondeu – “É lícito, se crês de todo o coração” (At 8.36,37a).

Para que alguém receba a água do batismo, que aponta para a purificação do coração realizada pelo Espírito Santo, é preciso que se creia em Jesus Cristo. Por essa razão foi que Filipe não se negou a batizar o eunuco que o respondeu: “Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus” (At 8.37b).

É claro que essa confissão não é mera declaração do entendimento intelectual dessa verdade, mas deve vir acompanhada de arrependimento genuíno, seguido de uma mudança de vida, na força e no poder do Espírito Santo. Foi por causa dessa verdade que Paulo, então, ordenou aos filipenses que desenvolvessem a salvação, ou seja, que buscassem uma vida de santidade que era possível porque o Deus que os tinha salvado operava neles o querer e o realizar, de acordo com a sua boa vontade (Fp 2.12,13).

Crer de todo o coração significa viver em santidade diante do Senhor e não somente fazer uma declaração formal de arrependimento e fé em Cristo.

Um episódio que demonstra a importância da coerência entre a declaração de fé e a vida de prática está no início dos evangelhos, quando João Batista batizava no Jordão.

É verdade que o batismo de João não era o batismo cristão. Prova disso é que ao encontrar alguns discípulos em Éfeso, Paulo perguntou em que batismo haviam sido batizados e, após ouvir que tinha sido no batismo de João, batizou-os em nome do Senhor Jesus (At 19.1-5).

O batismo de João, conforme Paulo, era um batismo para arrependimento, possivelmente semelhante às cerimônias de purificação do AT. Como João era o precursor do Messias ele exigia uma vida de retidão para que alguém fosse batizado, daí ele exortar enfaticamente: “Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” (Mt 3.7,8).

Acontecia que alguns daqueles que iam se apresentar ao batismo achavam que o simples fato de submeter-se àquele rito os livraria da ira do Messias. O fruto que demonstrava arrependimento, mencionado pelo Batista era a adequação ao que ordenava a Lei. Isso fica claro no evangelho de Lucas, quando as multidões perguntam a ele o que fazer e ele reponde: “Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo. Foram também publicanos para serem batizados e perguntaram-lhe: Mestre, que havemos de fazer? Respondeu-lhes: Não cobreis mais do que o estipulado. Também soldados lhe perguntaram: E nós, que faremos? E ele lhes disse: A ninguém maltrateis, não deis denúncia fala e contentai-vos com o vosso soldo” (Lc 3.10-14).

Tudo o que João Batista responde tem fundamento na Lei que ordenava a repartir o pão com o faminto e cobrir o nu (Is 58.7), a não furtar (Ex 20.15) e a ter contentamento (Ex 20.17).

É interessante e importante notar essa questão, pois se aqueles que aguardavam a vinda do Messias não conseguiriam fugir da ira vindoura simplesmente por submeter-se a um rito ao mesmo tempo em que viviam em pecado, tampouco estarão seguros aqueles que, após a vinda do Messias, fazem uma confissão correta, submetem-se a um rito ordenado pelo Senhor, mas vivem em pecado.

A Escritura é bem clara a esse respeito: “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática do pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (1Jo 3.9). O batismo cristão é, então, para aquele que crê de todo o coração e essa atitude é evidenciada numa busca de santidade, que é viver no padrão estabelecido pela Lei do Senhor e que pode ser buscado na força e poder do Espírito Santo.

Você creu de todo o coração? Tem buscado conhecer a Palavra a fim de poder viver em acordo com ela? Tem procurado honrar ao Senhor? Se sim, saiba que há uma má e uma boa notícia. A má é que mesmo que busque viver dessa forma, ainda pecará. A boa é a garantia de que “se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9).

Sonde o seu coração e se perceber que, ainda que batizado e membro de uma igreja, ainda não crê de todo o coração arrependa-se e busque verdadeiramente a Cristo. Ele é poderoso para perdoar os seus pecados e transformar a sua vida.

Milton Jr.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Confissão de fé desalinhada com a prática: o que fazer?

Normalmente as pessoas vivem a vida sem preocupações maiores com a relação que os eventos cotidianos possam ter com seus compromissos de fé. Este já poderia ser considerado como um quadro ruim, mas pode piorar: as pessoas podem reagir a estes eventos ainda menos conscientes do quanto seus compromissos de fé devam interferir e guiar estas mesmas reações.
 
Normalmente é o pastor quem costuma ver e se preocupar com esta lacuna no entendimento prático das pessoas. Esta preocupação (no bom sentido) pode ser vista pela constante abordagem do tema "cosmovisão" e das consequentes exortações para que o crente viva de acordo com a visão de mundo defendida por sua fé cristã. Em outra ocasião me referi ao fenômeno resumindo-o na anedótica frase "na prática a teoria é outra!", que intitulou post em outro blog. Lá eu escrevia sobre a incoerente inconsistência de uma vida que, na prática, acaba mostrando valores opostos (ou no mínimo desalinhados) com aqueles valores que alguém diz "oficialmente" defender. Sob a premissa de que aquilo que temos arraigado no coração será invariavelmente o controlador da conduta, defendi que a teoria internalizada é aquela que conduz a prática.
 
O problema todo reside na ausência de reflexão e exame dessa teoria, que já pode estar enraizada no coração, mas não feita explícita em confissão pública. O resultado final era (e ainda é) uma esquizofrenia cosmovisional: vivo pelo que não professo - professo o que não conheço - não conheço aquilo pelo que vivo... Apesar de todos os esforços pastorais, parece que o incômodo permanece.
 
Toda vez, porém, que um aconselhado apresenta essa característica tão comum a todos nós, somos desafiados a, mais uma vez, vasculhar o tema e a melhor forma de abordá-lo. Você reconhecerá facilmente o problema quando, após algum tempo de atenta coleta de dados, perceber que apesar da confissão cristã, seu aconselhado toma decisões práticas pautadas num entendimento alheio ao evangelho de Cristo. Confusos, eles pedem por ajuda uma vez que os resultados pretendidos, ou a satisfação prometida (pelo ídolo), não foi alcançada. Em alguns dos casos, Deus é discretamente mencionado como um elemento incógnito, visto que abertamente é difícil assumir que nossa frustração é dirigida contra Ele.
 
 
À guisa de corrigir esta lacuna importante, muitas vezes ainda escondida do entendimento do aconselhado, nosso primeiro ímpeto é apresentar uma bem-estruturada aula de cosmovisão bíblico-cristã. Compreendo que até seja necessária uma boa dose de ensino no processo, mas uma coisas precisa ficar clara para o conselheiro de início: que somente Deus pode realmente alterar a cosmovisão de alguém.
 
A maneira como interpretamos o mundo e como sobre ele agimos são afluentes do coração ("Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida". Pv 4:23). Como afluentes de um rio, recebemos de fora dos nossos leitos as águas amargas e doces que nos vêm, e também despejamos de nossas águas para fora de nós. À menos que a nascente do rio do coração seja alterada, tanto a maneira como recebemos águas, como a maneira como as despejamos, será contaminada pela forma como interpretamos ambos os fenômenos, e tudo nasce no mesmo ponto: do homem interior do coração (1 Pe 3.4). Ainda assim, a missão dos pastores de alma, quer na condição oficial de pastores (de ofício), quer no chamamento por Deus no corpo de Cristo como conselheiros, não podem realmente mudar o ser interior de ninguém. Tanto um como outro não foram chamados para mudar pessoas, mas para 1. proclamar as virtudes daquele nos chamou das trevas para sua maravilhosa luz (1 Pe 2.9), 2. vivendo vidas dignas do evangelho pregado (Fp 1.27), 3. ministrando com zelo e fidelidade as verdades que receberam (2 Tm 2.15; 1 Co 4.2), 4. na esperança que não frustra (Gl 5.5; Cl 1.5; Tt 1.2; Hb 6.11) que Deus soberana e graciosamente agirá através deles como seus instrumentos (1 Pe 1.12; 1 Co 3.5; 4.1) na captura de seus escolhidos e edificação e crescimento dos já capturados (Jo 4.23; 1 Co 3.6; 1 Pe 4.10; Rm 14.19; Ef 4.12).
 
Dito isso, prosseguimos na busca por servir a Deus, servindo ao próximo naquilo que for bom para edificação (Rm 15.2). Ajudar ao nosso irmão/próximo aconselhado a interpretar os acontecimentos e nossas reações a eles, sob a ótica (ou cosmovisão se preferir) da fé cristã tal qual disposta nas Escrituras Sagradas serve bem a este propósito.
 
O convite ao exame nem sempre vem de modo direto. Na maioria das vezes ele vem formatado na conversa simples e aparentemente despretensiosa do aconselhamento, servida como pergunta, que põe junto o princípio esquecido e a reação prática. Na busca por ouvir coerência entre princípio e comportamento, como numa dança haverão movimentos que visam se esquivar das conclusões lógicas mais óbvias. Endurecer sem perder a ternura não vai adiantar. Será preciso mais.  Será preciso mais paciência, mais amor e mais criatividade principalmente. O que ajuda muito nesse processo é refazer a pergunta de outras formas ou refazer o quadro com outros personagens ou situação. Entretanto, não esqueça de manter a conclusão estritamente igual. Se quiser aprender mais sobre isso, procure o professor e profeta Natan. Ele dá uma aula de como fazer seu aconselhado chegar à conclusão de que a profissão de fé não "bate" com a atitude tomada (ou pretendida). [A aula pode ser encontrada aqui: 2 Sm 12.1-14].
 
Como numa dança (ou num embate no tatame, se preferir), pode haver muita movimentação mental. Corre pra lá, esquiva de cá. O importante é não desistir de fazer a confrontação entre teoria e prática, mantendo a criatividade em amor e graça nos movimentos, porque o aconselhado precisa reconhecer seus padrões de procedimento.
 
A importância do reconhecimento do esquema (estrutura) de interpretação de um aconselhado dá aquela consciência que ajuda na sondagem dos padrões que dominam o pensamento e as ideias que moldam as ações humanas. À isso há quem chame de "ato antes do ato". É o mesmo que dizer que o esquema de interpretação revela a base teórica para a prática. Veja que tais coisas não são elementos distintos, ou seja, como coração e atitude não estão dissociados, quando houver entendimento de um, haverá compreensão do outro, e quando houver mudança em um, haverá alteração no outro... Então, é importante que tenhamos em mente a importância central que este processo inicial do coração tem sobre as atitudes, e de igual modo, a crescente consciência e habilidade para fazer nosso irmão aconselhado enxergar isso na vida dele também, pelas lentes transformadoras da Escritura Sagrada.

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