quinta-feira, 22 de junho de 2017

PAZ COM DEUS.

sun-2297961_960_720Recentemente participei como um dos preletores do 6º Simpósio organizado pela Federação de Homens do meu Presbitério com o tema Paz com Deus. O que segue abaixo é uma breve reflexão sobre um tema tão urgente e ausente na vida de muitos.

É certo que os ímpios também buscam de alguma forma a paz. As organizações civis tentam promover a paz. Artistas se unem em torno da busca pela paz. Homens e mulheres, jovens, adultos e os mais experientes buscam alguma forma de paz.

Paz sempre foi um dos grandes temas do evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. A igreja verdadeira deve anunciar a paz verdadeira que excede todo o entendimento (Fp. 4.7). Reconheço as dificuldades que encontramos atualmente para proclamar esta verdade. Muitos pregadores estão se especializando em “como influenciar pessoas”, outros estão ocupando a atenção de muitos contando piadas ao invés de promoverem a verdadeira instrução bíblica e, com isso, gasta-se tempo demais ouvindo o que alivia temporariamente o coração, mas não produz paz, pois não produziu quebrantamento de coração e dependência genuína de Jesus Cristo.

Vejamos alguns textos onde o tema paz aparece. Em seguida farei alguns destaques:

Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. Romanos 5.1

Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize. João 14:27

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus. Filipenses 4. 7

Durante décadas houve a divulgação de que doutrina engessa o coração. Ora, caros irmãos, doutrina bíblica jamais engessou o coração, mas o erro, a ausência de uma boa teologia bíblica, não apenas torna a pessoa uma presa fácil para os enganadores de plantão, como também não prepara ninguém para amadurecer o relacionamento com o Deus Altíssimo, e assim, ter uma paz crescente.

Olhe novamente para os textos mencionados acima. Veja os termos usados: Justificados, mediante a fé, paz com Deus, não se turbe o vosso coração, não se atemorize, paz com Deus, entendimento, guardará o coração, guardará a mente, e tudo isso somente ocorrerá por meio de Jesus.

Curiosamente, tais termos encontrados nestes e em outros diversos textos da Palavra de Deus têm sido ignorados. A declaração pelo desprezo ao estudo bíblico e o desconhecimento das grandes e preciosas doutrinas da graça destreinou uma geração inteira para encontrar paz em Deus e em Cristo somente.

Muitos estão procurando preencher a falta de paz com os programas da igreja. Pensam que se a agenda da vida for preenchida pelos programas da igreja, pela agenda dos diversos programas, encontrarão paz. Isso está longe de ser verdade.

Vejam o que disse Lutero:

Noite e dia eu ponderava, até que via conexão entre a justiça de Deus e a afirmação de que ‘o justo viverá pela sua fé’. Então, entendi que a justiça de Deus é a retidão pela qual a graça e a absoluta misericórdia de Deus nos justificam pela fé. Em razão desta descoberta, senti que renascera e entrara pelas portas abertas do paraíso. Toda Escritura passou a ter um novo significado [...] esta passagem de Paulo tornou-se para mim, o portão para o Céu.[1] (Lutero)

Paz com Deus significa o início da realidade celestial aqui e agora.

Para que o caminho da paz com Deus seja trilhado é necessário ter senso do pecado! Mas não é um senso do pecado diante do espelho ou perante outras pessoas. Este senso do pecado deve ocorrer diante do grande e Santo Deus.

Há dois casos antagônicos, porém, semelhantes: Adão e Isaías. Vejam no quadro comparativo como as experiências de ambos são semelhantes, porém, os resultados são tão antagônicos.

Adão

Isaías

Experiência de pecado num paraíso

Experiência de pecado numa cultura pecaminosa

A presença de Deus o impulsiona (esconder-se de Deus)

A presença de Deus o impulsiona (permanecer na presença de Deus)

Adão se esconde

Isaías permanece

Adão tenta aliviar seu pecado (dividindo a culpa com Eva)

Isaías assume a responsabilidade do seu pecado

Adão teve medo de Deus

Isaías teve medo Deus

Adão não viu a glória de Deus

Isaías viu a glória e a santidade de Deus

Adão morreu espiritualmente

Isaías teve seus pecados perdoados

Adão recebeu uma promessa

Isaías recebeu uma ordem e uma promessa

Adão é expulso do paraíso envergonhado.

Isaías continua seu ministério como servo fiel a anunciar a vinda do Messias.

Não há como fugir de Deus! Em nossa aflição, corremos o risco de levantarmos falsas e ofensivas acusações contra o caráter de Deus (Salmo 77). Duvidar da sua santa providência ou duvidar e questionar seu santo amor não é uma atitude que permitirá desfrutar da paz que este mesmo Deus oferece ao seu povo por meio de Jesus Cristo.

Desta forma, não haverá paz verdadeira (paz bíblica), se ignorarmos os ensinamentos de Jesus. A verdadeira boa instrução aquece o coração e prepara a alma para adorar a Deus continuamente.

Conclusão:

O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porquanto rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos. Oséias 4.6

É impossível ter paz com Deus se não o conhecermos, conforme ele mesmo se revela em sua Palavra. Quanto melhor o conhecermos, melhor será nossa comunhão com ele. Quanto mais sua Palavra arrebatar nosso coração, mais rica e santa será nossa comunhão com o Deus Altíssimo. Ergamos nossos olhos aos céus e contemplemos o Santo Deus que amou seu povo eternamente, ao ponto de enviar seu filho unigênito, Jesus Cristo, para morrer em nosso lugar, pendurado no madeiro, expondo publicamente nossas faltas, e atraindo sobre si mesmo toda a ira de Deus, tão somente para que pudéssemos ter paz com Deus.

Reverendo Jean Carlos Serra Freitas


[1] CURTIS, A. Kenneth; LANG, J. Stephen & PETERSEN, Randy. Os 100 Acontecimentos Mais Importantes da História do Cristianismso. São Paulo: Vida; 2003, p. 110.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Debates, torcidas e a glória de Deus

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Definitivamente, sou fã de debates. Creio que eles são uma excelente forma de entender melhor determinado assunto. Para o cristão, os debates teológicos deveriam ser um meio de crescimento na fé e também de convencimento do erro. Se, para nós, a Escritura é a Palavra final em termos de doutrina, nada mais natural que conversar (ou debater, se preferir esse termo) a respeito de doutrinas contrárias. O objetivo, com isso, deveria ser levar o irmão que assumimos estar errado ao entendimento correto a respeito das Escrituras, para a glória de Deus e edificação do próximo.

Entretanto, algo tem me incomodado bastante nos últimos tempos. Com o advento da internet e a facilidade de acesso à rede mundial de computadores houve um aumento expressivo de fóruns de debate, inclusive sobre a fé. Junto com isso, programas no rádio e na TV colocam irmãos de tradições teológicas diferentes para debaterem acerca do seu entendimento das Escrituras. Até aí, tudo bem, o problema é o que, muitas vezes, decorre disso.

Primeiro pensemos no espírito dos debatedores. A mim parece que, não poucas vezes, o desejo não é estabelecer a verdade, mas, simplesmente, provar que se está certo. Há uma grande diferença entre essas duas coisas e tem a ver com as motivações. A primeira diz respeito à honra devida àquele é revelado nas Escrituras na pessoa de Cristo Jesus, que afirmou ser a própria Verdade. Deus é honrado quando sua verdade é entendida. A segunda, porém, diz respeito à honra do debatedor. O fim do debate seria somente deixar bem claro como eu entendo as Escrituras melhor que meu irmão. Aquela, traz glória a Deus, esta tenta glorificar a inteligência humana.

Lembro que certo debatedor, famoso por defender os cinco pontos do calvinismo, foi perguntado em um debate sobre a razão de não ser arminiano. Prontamente ele respondeu que não era arminiano porque tinha uma Bíblia em casa e a lia. Agora pense bem. A resposta lança por terra a própria doutrina defendida que ensina que o homem, totalmente depravado, não busca a Deus e não tem condições de achegar-se a ele, daí a necessidade de o Senhor soberanamente escolher os eleitos e chama-los eficazmente por seu Espírito, dada a incapacidade deles. Toda a glória na salvação dos homens é do Senhor, mas parece, pelo menos olhando para esta resposta, que isso só vale para a salvação. No quesito entendimento doutrinário, o que vale mesmo é a inteligência. O outro é arminiano porque não sabe ler!

Quando Pedro respondeu à pergunta de Jesus a respeito de quem eles (os discípulos) achavam que ele era dizendo: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16), não ouviu do Mestre: “Parabéns Pedro! Vejo que você tem uma Bíblia em casa e a lê”. Definitivamente não! Sabemos que o que foi dito por Jesus foi: “Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus” (Mt 16.17). Sendo o homem incapaz de reconhecer o Salvador, fica dependendo exclusivamente de Deus para a sua salvação. É essa a verdade que lemos nas Escrituras e que, sistematizada, acabou ganhando o nome de “calvinismo”.

Convenhamos, insinuar que o opositor não tenha uma Bíblia ou chama-lo de analfabeto por ser arminiano não é nem educado nem bíblico, afinal, o Senhor Jesus afirmou que “quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal” (Mt 5.22).

Se em um debate você está pronto a escarnecer e humilhar a seu irmão, seu esforço não é para estabelecer a verdade, glorificar a Deus e amar o próximo, mas para provar que suas ideias (que podem até ser bíblicas, em muitos casos) são as corretas. Neste caso, o amor às ideias, mais do que o amor ao Senhor está governando o seu coração, a ponto de você pecar para chegar a seu objetivo. Biblicamente isso é idolatria, o que acaba tornando a própria verdade em uma palavra torpe, pois, como ordenou Paulo, a palavra que sai de nossa boca dever ser “unicamente a que for boa para a edificação, conforme a necessidade”, a fim de transmitir graça aos que ouvem (Ef 4.29).

Ao entrar em um debate, faça a mesma petição de Davi: “Também da soberba guarda o teu servo, que ela não me domine; então, serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão. As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, Senhor, rocha minha e redentor meu!” (Sl 19.13,14).

Mas há ainda uma outra questão, referente agora àqueles que “estão sendo representados” pelos debatedores (aqui no caso de um debate na TV, por exemplo). Ainda que no debate os irmãos (oponentes?) tenham por fim a glória de Deus e a edificação do próximo, buscando estabelecer a verdade ao submeter-se às Escrituras, há sempre o perigo de as “torcidas” levarem para o outro lado. Estou chamando de torcidas porque ultimamente é exatamente isso que vejo em alguns fóruns. Quase dá para vê-las exaltando seus debatedores prediletos com gritos de “olê, olê, lá, Fulanô, Fulanô...

Só para exemplificar, o vídeo com a resposta mal educada do “pastor que sabe ler” foi compartilhado milhares de vezes e em várias dessas vezes podia se ler “calvinista humilha arminiano” e outras frases como essas ou com palavras que não vale a pena nem lembrar, numa clara tentativa de ridicularizar e humilhar irmãos que ainda não chegaram ao entendimento correto da doutrina, pelo menos na opinião dos calvinistas, nos quais estou incluído.

A humilhação de irmãos que não entenderam certos pontos da fé não traz glória alguma ao Senhor Jesus Cristo. Talvez alguém diga, mas os arminianos fazem o mesmo! É, muitos deles sim, mas o pecado do outro não torna o meu desculpável. Além do mais, não estou me referindo apenas a esse tipo de debate. Calvinismo x arminianismo foi usado aqui somente para ilustrar o que pode acontecer quando o único objetivo é provar que determinado grupo está com a razão, que é mais inteligente, que é mais fiel, etc.

Esse comportamento de torcida organizada, por partes daqueles que se veem representados por Fulano, Beltrano ou Sicrano em um debate, além de desonrar a Deus, serve também para tentar esses irmãos debatedores a terem seus egos exaltados, pensando acerca de si mesmo além do que convém (Rm 12.3). Além do mais, torcedores falam mais sobre seus ídolos que sobre o Senhor Jesus Cristo.

Reitero, debates podem ser uma boa forma de crescer na fé e de convencer irmãos do erro, com vistas à honra do nome de Cristo e edificação do povo de Deus. Contudo, diante das tentações que estão envolvidas nessa situação, cuide para não fazer do debate uma maneira de humilhar outros, de provar que é mais inteligente ou de exaltar homens a ponto de eles aparecerem mais que o Redentor. Se a glória de Cristo não nortear seu pensamento, não convém debater.

Milton Jr.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A graciosa consciência de si

Certa vez, quando eu ainda era estudante de teologia no seminário, eu ouvi à época a seguinte história: Um jovem rapaz havia entrado no gabinete pastoral para falar com seu pastor e aos prantos despejou um monte de confissões de pecados acompanhados de vários impropérios dirigidos a si mesmo. Ele dizia: "Eu sou um pecador, pastor; um cafajeste pelo que fiz, não mereço respeito; sou um tolo..." e por aí vai. O pastor ouvia paciente o jovem, aguardando que terminasse. O jovem então lhe olhou nos olhos e perguntou: "O que você tem a me dizer, pastor?" É nessa hora que nosso coração congela, as palavras somem da boca e quase não evitamos transparecer no rosto a nossa perplexidade. Aquele pastor, então, respirando fundo e com voz branda e amável, respondeu: "Meu jovem, a mim cumpre lhe parabenizar! Já vi muita gente nesse gabinete fugir da verdade sobre si mesmo, e poucos chegaram ao ponto de finalmente entenderem quem realmente são. Agora, me permita falar daquele que veio para resgatar pessoas que sejam justamente como você".

Eu confesso que, enquanto ouvia a história, aguardava o tradicional desfecho no qual o pastor "levanta a moral" do sujeito e lhe diria que "na verdade, você não é tão mal assim". E sendo bem franco, acredito que muitos acabam por trilhar o caminho do enaltecimento pecaminoso. Há, porém, um ou mais perigos de se enveredar por esse caminho.

Assumir uma postura que diminua o peso do pecado confessado não é oferecer ajuda ou compreensão. Diminuir o caráter do pecado ou diminuir a percepção do pecador só contribui para desonrar a Deus e tornar leviano o sacrifício de pecados que Jesus ofereceu por nós com sua morte na cruz, além de não dar o crédito devido ao relato da pessoa.

Quando somos confrontados com a crueza do mal na vida do próximo, e principalmente quando ele vem marcado por uma aguda compreensão da extensão desse mal, nosso ímpeto por ajudar deve ser redentivo, nunca "auto-ajudador". Com isso quero dizer que devemos apontar o pecador consciente do seu pecado na direção do Redentor, para que, crendo Nele, se torne igualmente consciente de sua redenção.

Infelizmente, tais momentos de plena consciência de si e do desgosto do pecado são mais raros do que deveriam ser, mas acontecem. Quando acontecem, porém, esse momentos devem ser tomados como oportunidades graciosamente concedidas para enaltecer e engradecer o Redentor. Eis o motivo:

Eu encontro na seguinte ilustração, uma boa forma de entender o que estava acontecendo com o jovem da estória do começo do texto. Pense em uma garrafa com qualquer tipo de líquido dentro. Por um motivo pessoal - adiante eu conto - eu sempre penso naquelas antigas garrafas de vidro que a gente trocava no comércio do bairro, entregando uma vazia, e pegando uma cheia. Antigamente era assim, e isso acabou, devo dizer, para minha sorte. Me lembro de um episódio na infância quando minha mãe me mandou ir à padaria trocar uma dessas garrafas, mas no degrau de entrada da padaria a garrafa escorregou, bateu de bico na quina, e eu, que estendi a mão para tentar pegar a garrafa de volta, vi meu dedo sendo cortado pelo bico que retornava, agora quebrado e afiado. Com o dedo sangrando, estendi a garrafa de bico quebrado para o balconista, na tentativa de cumprir minha missão. Inútil. Garrafa de bico quebrado não vale nada, e voltei para casa. A missão houvera falhado e eu quase ficara sem dedo. 

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Fiquei pensando se ela estivesse cheia: Teria perdido todo o líquido que estivesse dentro, não é? Mas eis aí uma pergunta filosófica: não interessando o que vai dentro de qualquer garrafa, o líquido se espalha pelo chão por qual motivo? Se não entendeu, vai mais fácil agora: quando a garrafa cai, de quem ou do que é a culpa do líquido que estava dentro da garrafa sair?

Muitos responderiam prontamente que a razão do líquido sair da garrafa seria o descuido de quem a segurava, deixando-a por fim, cair e quebrar. Mas pense de novo: muitas garrafas caem e não quebram, mantendo o líquido interno perfeitamente protegido. Proponho, então, concluir que a razão do líquido sair é a "quebradura" da garrafa.

Usando da ilustração, creio que Deus muitas vezes nos permite passar por situações que nos "quebra a garrafa" do coração. Deus usa vários métodos para quebrar nossas garrafas, o que pode ser a morte de um ente querido, uma frustração pessoal, um acidente, uma doença, a perda de um emprego, um pecado nosso, o pecado de outro contra nós... os meios pelos quais a garrafa é quebrada não altera o resultado final: a garrafa quebrou e o que tinha dentro saiu. As emoções que fluem são comparáveis ao líquido que estava lá dentro.

Entendo que Deus, vez por outra, quebra a nossa garrafa para fazer a gente ver o que tinha lá dentro. A gente não vasculha com tanta constância o próprio íntimo, e mesmo que o faça, o auto-engano acaba nos fazendo acreditar que só tem coisa boa lá dentro.

Esta semana assistindo uma dessas séries, que me foge o nome agora, um personagem que havia sido baleado disse a um outro o seguinte, como suas últimas palavras: "Você não é um cara mau. Você é bom, mas às vezes não se lembra disso". A bênção que o jovem de nossa estória recebeu foi ver com clareza a verdade do seu íntimo, e gozando de uma liberdade que só o Espírito Santo pode conceder, concluir pela evidência incontestável daquilo que saiu de seu coração, que a verdade é outra: Você, de fato, é mau, mas às vezes não se lembra disso". A quebradura da garrafa da vida são misericordiosos lembretes de quem realmente somos.

Pense, por exemplo, no resumo dos últimos dias do Rei Ezequias, registrado em 2 Cronicas 32:24-31. Ele passara por uma grave doença, mas seu coração não soube receber bem as bênçãos que vieram depois disso. Repare no que diz o verso 31: Contudo, quando os embaixadores dos príncipes da Babilônia lhe foram enviados para se informarem do prodígio que se dera naquela terra, Deus o desamparou, para prova-lo e faze-lo conhecer tudo o que lhe estava no coração.

O que fazer, então, quando nos depararmos numa situação em que o aconselhado toma consciência de seu estado de pecaminosidade? Não tenho, obviamente, espaço para detalhar cada passo do que possa ser feito. E ainda que pudesse listar, certamente não estaria esgotando as possiblidades. Mas creio que alguns princípios, já adiantados de alguma forma previamente, devem estar diante de nós em situações que tais:

1. Perceber-se pecador é um privilégio. Não desanime a percepção de seu aconselhando. Nosso mundo está farto daqueles que se acham perfeitos, corretos, honestos e honoráveis, quando para o Senhor, não passam de sepulcros caiados. Reconhecer-se pecador é o primeiro passo fundamental para um genuíno arrependimento;

2. Não supervalorize a percepção apresentada. Ainda que saibamos que somos todos "pecadores miseráveis", essa não é a melhor hora para acrescentar o adjetivo "miserável" caso seu aconselhado esqueça dela em seu pronunciamento. Muitas vezes nossa luta é toda direcionada a, com a ajuda e o poder do Espírito Santo, convencer alguém do pecado (João 16.8). Quando alcançamos esse fim, entretanto, devemos reprimir qualquer desejo pecaminoso de tripudiar sobre o sofrimento de nosso aconselhado;

3. Aproveite a oportunidade, e apresente o Redentor. É em situações como essas, quando as trevas se fazem mais densas, que a luz do Senhor se torna mais fulgurante. Se alguém alcançou uma profunda decepção para consigo mesmo, é Deus lhe amolecendo o coração para receber a notícia que em Cristo "temos paz com Deus" (Romanos 5). Afinal, por que alguém procuraria desesperadamente por um salvador, se ele se vê ainda como alguém virtuoso e com "alguns pontos positivos" com Deus?

4. Ensine gratidão ao aconselhado. Se a pessoa chegou ao ponto de se ver no espelho da Palavra de Deus, isso é graça. Por mais dolorido e vexatório que seja reconhecer nosso real estado de miséria, é um privilégio poder sair das trevas e passar a ver. Devemos santificar a Deus em nosso coração (1 Pedro 3.15) com gratidão, porque, afinal, se reconhecer e se arrepender, pode ter lá seu sabor amargo, mas é uma prova inequívoca que uma boa obra começou a ser feita, e sendo assim, Deus há de completá-la até o dia de Cristo (Filipenses 1.6). Tem coisa mais maravilhosa do que saber, sem dúvidas, de que somos filhos de Deus e salvos pela graça?

5. E por fim, coloque o foque em Cristo. O Senhor Jesus Cristo veio ao mundo para salvar pecadores, até mesmo os piores (1 Timóteo 1.15). Se estivéssemos em condições sustentáveis, ou houvesse alguma chance de nos salvar por nossos próprios esforços, o sacrifício de Cristo seria simbólico, um grande ou até mesmo inspirador. Mas não: O sacrifício de Cristo na cruz é salvação para todo aquele que nele crê, é salvação para quem o contemplar! Então, quando alcançamos a consciência de quem realmente somos é que estamos prontos para entender a necessidade da vinda, vida e morte do Redentor em nosso lugar.

Espero que essas poucas linhas se ajudem a reagir redentivamente em situações que tais, e lhe estimule sempre à auto-reflexão. E então, o que saiu da sua garrafa quando Deus a deixou quebrar?

terça-feira, 30 de maio de 2017

Meios de Graça e o Aconselhamento Bíblico.


BIBLIA-E-ORAÇÃOComo os meios de graça podem contribuir para a prática do aconselhamento bíblico? Antes de responder a esta pergunta, permitam-me relembrar um triste acontecimento. Logo no início do meu mestrado em Aconselhamento Bíblico, recordo de uma conversa que tive com um aluno onde se constatava um completo desconhecimento do Aconselhamento Bíblico. Ele me disse que havia escolhido a disciplina pois, segundo ele, era a disciplina mais fácil e ele não precisaria ter grande conhecimento teológico. Fiquei muito surpreso com sua perspectiva e lamentei que ele pensasse daquele jeito.

Minha questão não é discutir qual é a mais árdua disciplina, mas informar que, não existe um conselheiro bíblico sério que não seja um estudioso das Escrituras e, consequentemente, da teologia.

Dito isso, seria urgente relembrarmos o que são os meios de graça, tão citados por teólogos reformados.

No Breve Catecismo de Westminster, encontramos a pergunta 88: Quais são os meios exteriores e ordinários pelos quais Cristo nos comunica as bênçãos da redenção?

R. Os meios exteriores e ordinários pelos quais Cristo nos comunica as bênçãos da redenção, são as suas ordenanças, especialmente a Palavra, os sacramentos e a oração; as quais todas se tornam eficazes aos eleitos para a salvação. Ref. At 2.41-42.

O teólogo Charles Hodge, ensina que:

Meio de graça não significa todos os instrumentos que Deus quer usar como meios para a edificação espiritual de seus filhos. Essa expressão é apropriada para indicar aquelas instituições que Deus ordenou como canais ordinários da graça, isto é, as influências sobrenaturais do Espírito Santo, para as almas dos homens[1]

Percebam que, segundo podemos constatar na Palavra de Deus, não há milhares de meios de graça, porém, aqueles meios legítimos de Deus abençoar e instruir o seu povo são suficientes e eficazes.

O antigo padrão de fé foi perdendo espaço para a abertura ao pragmatismo, à sensível e emocional visão sobre igreja, além da influência das psicoterapias maquiadas de orientação evangélica. Tal mudança não foi bom para a igreja que vive na era da “pós verdade”.

Os meios de graça não deveriam ser almejados para alguém ter uma vida próspera material ou simplesmente para ter um “alívio emocional”. O que Deus deseja é muito mais do que simplesmente prover uma melhora financeira ou emocional, o que ele realmente deseja é que sejamos santos como ele é.

porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo.

1 Pedro 1.16

Há alguns anos, visitei uma senhora que estava ausente da igreja. Fui visita-la para saber o que estava acontecendo. Fui muito bem recebido em sua casa. A conversa foi breve e, ela mesma entrou no assunto da sua ausência na igreja. Ela me disse que estava profundamente deprimida, muito triste e que ela não tinha mais forças para frequentar as reuniões da igreja. Ali estava uma senhora verdadeiramente crente, temente ao Senhor, até então ativa na igreja. Seu sofrimento era real. Sua tristeza era real. Seu choro era real. Então resolvi perguntar o que havia deixado ela naquele estado. Ela disse que estava profundamente triste “porque uma irmã sempre aparecia com um vestido novo na igreja e ela não tinha dinheiro para comprar um vestido novo com frequência”. Lembrei a ela que seu coração estava no lugar errado, e que portanto, ela deveria arrepender-se dos seus pecados. Ela relutou por um tempo, mas por fim, entendeu seu grande erro. Trocar a adoração a Deus e ao redentor Jesus, por qualquer outra coisa era um grande erro.

Meios de graça não servem para fazer acomodações da nossa luxúria, mas servem ao propósito de nutrir nossos corações pelo santo desejo de adorar exclusivamente nosso redentor Jesus.

Tenho dito à igreja que pastoreio que todas as armas do mundo estão apontadas contra a igreja. Somos tentados o tempo todo e o tempo todo precisamos responder, biblicamente, àqueles que tentam fraudar a fé. Além disso, temos as lutas contra nosso próprio pecado que tenta a todo custo, obstruir nossa paz em Cristo. Como responderemos a tamanho ataque tão orquestrado pelo inimigo de nossa alma? Onde encontraremos forças para resistirmos as setas inflamadas de Satanás? Como manter o vigor, a alegria e a empolgação pelo serviço de culto, pela proclamação do santo evangelho e ainda mantermos um santo testemunho?

21 Quando o coração se me amargou e as entranhas se me comoveram,

22 eu estava embrutecido e ignorante; era como um irracional à tua presença.

23 Todavia, estou sempre contigo, tu me seguras pela minha mão direita.

24 Tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória.

25 Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra.

26 Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre.

27 Os que se afastam de ti, eis que perecem; tu destróis todos os que são infiéis para contigo.

28 Quanto a mim, bom é estar junto a Deus; no SENHOR Deus ponho o meu refúgio, para proclamar todos os seus feitos.

Salmo 73. 21-28

Os meios de graça estão à disposição da igreja. Devemos fazer uso intenso deles. A Palavra (pregação, estudo, leitura), os sacramentos (batismo e ceia) e a oração, são eficazes para suprir as necessidades do povo do Senhor.

Devemos treinar nossos sentidos e a nossa mente a habituarem-se exclusivamente com os meios de graça, pois eles são eficazes para suprir as forças desgastadas pela santa batalha da santificação.


[1] Charles Hodge, Systematic Theology (Grand Rapids: Erdmans, 1975, Vol. III, 466.).

terça-feira, 16 de maio de 2017

Cães de família?

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Cachorros não são da família! Sei que começar o texto com uma afirmação tão categórica assim pode fazer com que alguns não queiram nem perder tempo com “este insensível que não gosta de animais”. Quase consigo ouvir alguns recitarem bem alto: “O justo atenta para a vida dos seus animais, mas o coração dos perversos é cruel” (Pv 12.10), entretanto, peço que não seja tão apressado em seu julgamento, mas que “caminhe” comigo um pouco mais.

Antes de continuar preciso insistir, cachorros não são da família. Nem gatos, papagaios, iguanas, ou qualquer outro animal que seja. Dito isso, pense um pouco comigo a respeito desse assunto e, claro, como cristãos, por uma perspectiva bíblica.

Gênesis é o livro que narra a criação. Você pode perceber nos dias criativos como o Senhor vai estabelecendo a sua obra. Ele cria céus e terra, ordena que haja luz, que haja firmamento no meio das águas, ordena que as águas debaixo do céu se ajuntem num só lugar e apareça a porção seca, ordena que a terra produza relva, ervas, árvores frutíferas, etc. e que haja luzeiros para governar o dia e a noite. Após criar todas essas coisas e um ambiente que pudesse ser habitado, o Senhor começa a criar os animais. Ele ordena que se povoem as águas de seres viventes, que voem as aves sobre a terra, cria os animais marinhos, além de todos os seres viventes cada qual segundo a sua espécie. Tudo isso segundo o poder de sua Palavra, ele ordenou e assim se fez (Cf. Gn 1.1-25).

Somente após isso o Senhor criou o homem e foi uma criação diferenciada. Não foi como a dos animais, pois o homem não é daquela espécie. O Senhor não criou animais irracionais e um animal racional, Deus criou animais e o homem, segundo sua própria imagem e conforme sua própria semelhança. Em Gênesis 1.26-28, temos a deliberação, criação e bênção sobre o homem a fim de fazer aquilo para o qual foi criado: multiplicar-se, encher a terra, sujeitar a terra, dominar sobre os peixes do mar, as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra. Tudo isso para que a terra fosse povoada com aqueles que são a imagem do Senhor e para que, cuidando da criação, o homem pudesse espelhar aspectos do caráter do Criador.

Se eu parasse aqui já daria para perceber a diferença gritante entre um homem e um animal. Diferença qualitativa que é enfatizada por Jesus quando, ao ensinar a seus discípulos, ordenou que eles olhassem as aves do céu que, a despeito de não semear e colher, eram alvo do providencial cuidado do Pai que as sustentava e perguntou: “Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves?” (Mt 6.26).

Sim, os homens são diferentes e qualitativamente superiores aos animais o que pode ser notado ainda em Gênesis. Caminhemos mais um pouco. No segundo capítulo percebemos que o homem foi formado primeiro. Deus o fez do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida. Colocou-o no jardim para cultivá-lo e guardá-lo, dando uma ordem expressa para que não tomasse do fruto do conhecimento do bem e do mal (Gn 2.4-17).

É interessante notar que o Senhor afirma que não era bom para o homem estar só. Perceba bem, a despeito de Adão estar cercado de todas as espécies de animais, aos quais ele mesmo deu nome, “para o homem, todavia, não se achava uma auxiliadora que lhe fosse idônea” (Gn 2.18-20). Ele tinha consigo muitos animais, mas não tinha uma família. Deus não lhe deu animais por família, mas esta se formaria a partir do momento em que o Senhor, da costela (mesma espécie) de Adão, lhe trouxesse uma mulher que, segundo as próprias palavras de nosso primeiro pai era, afinal, “osso dos meus ossos e carne da minha carne” (Gn 2.23).

Foi somente após a queda que essa relação começou a se confundir. Se, antes da queda, ao contemplar a criação o homem tributava louvor a Deus, após, os homens, “dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis” (Rm 1.22,23) e “mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente. Amém!” (Rm 1.25).

O reflexo da queda pode ser visto, por exemplo, na idolatria pagã que exalta Gaia, a “mãe-terra” ou que atribui a felicidade e o equilíbrio do homem à “mãe-natureza”. Como consequência, temos a humanização dos animais que, quando não são colocados acima do homem em grau de importância, no mínimo, são vistos como iguais e o resultado não poderia ser outro, festas de aniversário em cerimoniais, SPA, hotéis, creches, carrinhos de bebê, etc., tudo para que os bichinhos “se sintam da família”. Muitos são mais bem cuidados que os próprios filhos, quando não são uma opção em detrimento desses a ponto de, já na década de 80, Eduardo Dusek ironizar cantando “troque o seu cachorro por uma criança pobre”.

Por causa desse tipo de mentalidade não é difícil ver pessoas que preferem animais a gente, todavia, a verdade é que, biblicamente, o mais cruel dos assassinos possui infinitamente mais dignidade que o mais “fofinho” dos pets, por ser imagem, ainda que desfigurada, do Criador. Imagem esta que pode ser redimida por Cristo Jesus, que para salvar pecadores se fez um homem.

Jesus morreu para salvar homens e, todos aqueles que o recebem pela fé, são feitos família de Deus (Ef 2.19). Se até aqui você ainda não se convenceu de que elevar animais ao status de membros da família está errado, olhe para a família de Deus, modelo para as nossas famílias. Ela é composta de todos os tipos de pecadores regenerados, judeus, gregos, circuncisos, incircuncisos, bárbaros, citas, escravos, livres (Cl 3.11), mas não de animais. Homens, por quem Jesus deu seu sangue, ressuscitarão para estar com ele para todo o sempre e, por mais que a criação também gema aguardando a redenção dos filhos de Deus (Rm 8.19-22), pois também será restaurada, não haverá uma ressurreição dos animais.

Eu estou ciente de que muitos que dizem considerar os animais como sendo da família querem enfatizar o cuidado que deve ser dispensado a eles e se você caminhou comigo até aqui, espero que tenha compreendido que não ter cuidado ou maltratar os animais não é atitude de um cristão. O privilégio de dominar a terra exige o cuidado com a criação. Por outro lado, elevar os animais ao nível dos homens, feitos à imagem e semelhança de Deus, é igualar-se aos pagãos.

Que o Senhor conceda a você o discernimento necessário a fim de glorificar a Deus entendendo corretamente o que significa o justo atentar para a vida de seus animais.

Milton Jr.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Minha esposa tem tatuagem: casamento, novo nascimento e o evangelho

O texto que você vai ler à seguir é a tradução de um trecho do livro Letters to a Romantic on Engagement. As informações referentes ao material original serão dadas no final do texto. Minha oração é que este emocionante relato faça tão bem a você, como fez a mim.

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Hoje é o dia do meu casamento. E eu não estou casando com a garota dos meus sonhos...

Se você tivesse me dito quando eu era adolescente que minha esposa teria setes tatuagens, um histórico com drogas, álcool e teria ido a shows de heavy metal, eu teria rido de você, teria te dado um dos meus livros sobre "corte", e te mandado passear. Meus planos eram bem diferentes, muito mais delineados com um cuidadoso plano, muito mais precisos, e muito mais, bem... sobre mim.

Veja, não era meu sonho casar com uma garota que fosse complicada. Eu nunca sonhei que eu estaria sentado em um sofá com minha futura esposa em um aconselhamento pré-nupcial, ouvindo ela chorar enquanto conta histórias de noites de bebedeira, das drogas que usou e confessando erros que cometeu nos relacionamentos do passado.

Este não era meu sonho, mas isto é algo bem melhor.

Muitas pessoas não colocariam Taylor e eu juntos. Na escola nós provavelmente não teríamos sido amigos. Ela provavelmente teria pensado que eu era o típico rapaz cristão certinho, chato e julgador; eu provavelmente teria pensado dela que era uma garota perdida, popular e festeira, que caras como eu supostamente deveriam se manter longe. Pessoas como nós, com nossos históricos e passado supostamente não se encontram, se apaixonam e se aliançam um com o outro para a vida inteira.

Mas tudo muda quando as pessoas encontram Jesus. Jesus pega pessoas como aquela adolescente festeira e o homeschooler arrumadinho e os põe juntos no casamento para tão somente mostrar algo muito maior do que seus planos bem alinhados e histórias de amor perfeitamente planejadas.

Bem no meio da confusão da vida, Taylor encontrou Jesus, e ele plantou sua bandeira na vida dela, e ela creu nele e ele a transformou. A Taylor que gastou sua vida correndo atrás de um prazer após o outro morreu, e uma nova pessoa nasceu. Uma nova pessoa com novos desejos, e um novo coração que deseja agradar a Deus, servir as pessoas e entesourar a Jesus Cristo acima de todos os outros prazeres.

É assim que eu vejo a Taylor. Ela é completamente nova, completamente transformada, completamente limpa. Não porque ela se tornou parte de algum programa de ajuda ou porque ela realmente "decidiu tomar jeito na vida". Antes porque Deus, em sua incrível e infinita bondade, tomou Taylor daquela vida em trevas, carmesim, e a fez "alva como a neve". Ele tomou todos os seus pecados e os colocou sobre seu filho, e deu a ela a justiça de Jesus para que ela a vestisse como quem veste um vestido de casamento perfeitamente branco .

Na verdade, a história de Taylor é a minha também. Quando Taylor caminhar na minha direção hoje, eu serei relembrado do quanto eu não mereço o presente precioso que ela é para mim. Eu passei muito da minha vida entoando o canto "auto-centrado" da sereia. Nada na minha vida pedia por bênçãos; na verdade, pedia por maldições eternas. Mas Deus me vestiu de branco, pôs meus pecados sobre seu Filho, e me deu um coração cheio de amor por ele.

Eu amo a Taylor com tudo o que sou. Ela é gentil, doce, paciente, divertida, linda e amorosa. Eu não mereço me casar com alguém como ela. Eu não planejei isso, mas estou muito feliz por não ter recebido o que planejei.

Então, hoje, quando ela descer aquele corredor na minha direção, eu serei relembrado de uma realidade belíssima, na qual Deus troca o pecado do meu passado e o substitui pela perfeita justiça de seu Filho. Ao contrário da opinião popular, o dia do nosso casamento não é bem o dia do nosso casamento, mas o palco da mais fantástica realidade do universo: Que Deus mandou seu Filho para morrer e assim redimir um povo para si, fazendo-o limpo pelo sangue de seu Filho.

O alvo final de Deus ao colocar Taylor e eu juntos é que ele deseja mostrar de forma única a sua graça de modo que seu povo o louve (Efésios 1.5-6). Esse é o seu propósito para o nosso casamento, e esse é o seu propósito para todo o mundo. Eu e Taylor estamos tomando parte nisso, e eu espero que você também!

Spencer H.

 

Traduzido com permissão. Introdução, in: Letters to a Romantic On Engagement. ISBN 978-1-62995-317-6  publicado por P&R Publishing Co.  P O Box 817, Phillipsburg, N J  08865

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Uma Palavra aos Filhos

 

7820539Meu último artigo aqui no blog foi dedicado aos Pais (confira: http://aconselhandocombiblia.blogspot.com.br/2017/04/uma-palavra-aos-pais.html) alertando sobre a postura de Jó ao interceder pelos seus filhos, pois ele entendia que seria possível que seus filhos pecassem em seus corações. (Jó 1.5).

Neste breve artigo, pretendo dedicar atenção aos filhos de pais cristãos, comprometidos com o santo evangelho.

Considerações:

Educadores têm falado e discutido sobre a “rede de proteção” sobre os filhos. O que é a tal rede de proteção? A rede de proteção é a união de diferentes atores no processo de cuidar. Isso envolve o Estado e seus programas sociais, pais e familiares, a própria escola/professores, amigos da família, colegas e amigos mais próximos. Tudo isso deve funcionar para prevenir algumas tragédias, que via de regra são diagnosticadas como tragédias sociais.

Quando pensamos nos filhos de pais cristãos, deveríamos levar em consideração que, esses filhos também estão expostos a todo o tipo de informação e maldade como qualquer outra criança. Mesmo levando em consideração a proteção dos pais, familiares e a própria igreja, ainda assim, nossos filhos estão expostos a um mundo distante de Deus e que odeia Deus.

Nenhum filho deveria ir para uma faculdade sem ser ensinado/treinado para rejeitar o marxismo cultural que impera em nosso país desde o final da década de 60. Temos espantosos 60 anos de uma cultura produzida pela perspectiva marxista, abolindo completamente Deus do cenário intelectual brasileiro e isso em todas as áreas culturais.

Considerando isso, não deveríamos estranhar que a maioria dos jovens da igreja que ingressam em uma universidade tem uma perda significativa do seu vigor espiritual. Nossos jovens são bombardeados intensamente, durante quatro ou cinco anos, a pensar, sentir e agir como se Deus não existisse.

Agora poderemos olhar especificamente para aquilo que propus. Uma Palavra aos filhos:

A primeira pala aos filhos é: Os filhos precisam obedecer aos pais.

"Vós, filhos, sede obedientes a vossos pais no Senhor, porque isto é justo. Honra a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com promessa; Para que te vá bem, e vivas muito tempo sobre a terra. E vós, pais, não provoqueis à ira a vossos filhos, mas criai-os na doutrina e admoestação do Senhor." (Efésios 6:1-4)

Mesmo vivendo em um mundo pós moderno avesso a qualquer senso de autoridade, os filhos cristãos devem obedecer o que está expressamente revelado na Palavra de Deus, não permitindo que outro padrão ou conceito arrebate seu coração e perverta sua conduta.

A segunda palavra aos filhos é: treine seu ouvido para ouvir o que está expressamente declarado na Palavra de Deus (Bíblia).

Os filhos de pais cristãos serão tentados a assumir uma perspectiva de mundo onde a vontade é independente e o que vale é o sentimento, ou, o coração, não as leis ou as instruções paternas.

A terceira palavra aos filhos é: cuidado com a empolgação em seguir as instruções de vida de professores confessadamente anticristãos ou, contrários a sua própria fé cristã. Algo bem comum é o aluno ficar encantado com o jeitão ou a intelectualidade de seu professor e passar a admirá-lo pela razão errada. O mundo universitário pode ser bastante tentador, porém, resista às investidas de querer ter uma vida mais “livre” de seus pais.

Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR, teu Deus, te dá. Êxodo 20.12

A quarta palavra aos filhos é: procure cercar-se de amigos cristãos. Há muitos que, na escola ou na faculdade, desenvolvem laços de amizade profundos com outros alunos que são indiferentes à fé. E isso em si mesmo não é um problema. Até vejo como uma excelente oportunidade para anunciar o santo evangelho. Entretanto, seria sábio procurar também outros alunos que proclamem a mesma fé, a fim de ajudarem-se mutuamente neste período de formação.

Quem anda com os sábios será sábio, mas o companheiro dos insensatos se tornará mau.        Provérbio 13. 20

A quinta palavra aos filhos é: definitivamente não se ausente das atividades da igreja, especialmente o culto solene. Muitos estudantes acabam se afastando gradativamente da igreja e das suas atividades com a desculpa dos trabalhos acadêmicos. No início começam faltando as programações semanais. Depois, a escola dominical e por fim, se ausentam do culto solene e a justificativa é recai sempre nos trabalhos atrasados ou nas leituras para as devidas provas. Por fim, a conduta começa a mudar de eixo e o Senhor Jesus parece deixar de ser a pessoa mais importante da vida.

Conclusão:

Obviamente não havia a intensão de apresentar uma lista extensa de orientações aos filhos em um breve artigo. Contudo, não poderia encerrar lembrando aos filhos sob a responsabilidade pessoal de buscarem a Deus pessoalmente. Ainda que os pais cristãos tenham falhado em suas orientações e responsabilidades, isso não pode servir de justificativa para abandonar o santo evangelho e a igreja. Continue perseverante na oração, na leitura da Palavra e na comunhão dos santos no culto solene. Os recursos espirituais à nossa disposição são chamados de meios de graça. Faça uso deles.

Há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte. Provérbios 14.12

terça-feira, 25 de abril de 2017

Os resultados de nossas escolhas: meditando sobre as escolhas de Saul e Davi como reis de Israel

Qual é, afinal, o perigo de acharmos que podemos governar o nosso próprio destino? Qual é o problema de se querer governar, ainda que só por um pouco, o curso da própria vida? Na busca por respostas, devemos evitar extremos, tal como acabar exaltando o papel das escolhas individuais, como que querendo determinar o futuro a partir delas. Entretanto, é inegável que elas, as escolhas, tenham seu papel e sua importância.

Mesmo assim, algumas vezes é difícil convencer um aconselhado de que a maneira como ele vem fazendo suas escolhas não leva em consideração a vontade revelada de Deus para sua vida, por conta da dificuldade de mostrar com clareza como Deus rejeita este ou aquele tipo de escolha. A tarefa pode parecer fácil à primeira vista. Contudo, quando o aconselhado enfrenta decisões com respeito a coisas importantes são levadas em conta uma centena de detalhes, cuja análise pode ser bem trabalhosa, principalmente quando o conselheiro não vê como fazê-lo de modo biblicamente convincente.

A comparação dos detalhes das escolhas de dois reis em Israel, qual sejam Saul e Davi, pode ser de grande valor nestas horas. Esta comparação pode prover os subsídios bíblicos para se comprovar que há sim um tipo de escolha, ou se preferir, uma maneira de fazer escolhas que Deus rejeita.

Saul se tornaria o primeiro rei de Israel. Antes dele, porém, Israel estava sob o governo dos juízes. Alguns juízes se destacaram na história do povo israelita, mas o profeta Samuel teve papel especial. O mesmo não se pode dizer de sua descendência. Os filhos de Samuel cresceram, mas para infelicidade do profeta e do povo, esses filhos se tornam maus e eram um péssimo exemplo (1 Sam 8:3). A dificuldade se tornava a cada mais óbvia: Samuel envelhecera, e a experiência com os filhos na qualidade de novos juízes (1 Sam 8:1) levaram os anciãos do povo a clamar por nova liderança antes que Samuel partisse, antes que fosse tarde demais para uma transição pacífica. Alguém poderia dizer que nada há de condenável na motivação, entretanto, quando a estratégia toma corpo, lemos que eles, os anciãos, propões que Israel tenha um rei, não tanto em virtude do contexto, mas também porque todas as nações ao redor já tinham o seu (1 Sam 8.5).

Para entendermos os perigos que cercam a motivação por trás do pedido, é importante se perceber o que se escondia no coração do povo, mas que fora evidenciado pelo pedido. Note que as racionalizações apresentadas pelo povo ali representado por seus anciãos não agradaram a Samuel. Os motivos do desagrado do profeta não ficam claro, mas sabemos o que ele fez: Samuel buscou ao Senhor (1Sam 8:6). Então é que somos informados que a rejeição do regime até então adotado por Israel, qual seja, o ser governada pelos juízes, na verdade se perfazia como rejeição ao próprio Deus (1 Sam 8.7; 10.19). O povo rejeitava a regência de Deus através dos juízes e profetas, mas Deus, ainda assim, lhes atenderá à voz (1 Sam 8.9, 22).

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Em seguida ao relato dos avisos quanto ao que estavam pedindo e os perigos que envolviam ter um rei (1 Sam 8:10-20), segue-se a narrativa da escolha de Saul (1 Sam 9:1ss). Ao começar o capítulo 9 porém, temos uma descrição de Saul bastante chamativa e reveladora, que destaca sua beleza e altura. Saul atendia ao padrão de rei de qualquer povo à sua volta: era alguém com "presença". Ele tinha postura, chamava a atenção, era bonito. Era um rei que poria medo nos inimigos por conta de sua estatura, mas seria ao mesmo tempo uma figura agradável para povo, por conta de sua beleza. Saul era um rei conforme a escolha do povo. Ele era um rei conforme o coração de Israel... A escolha parecia perfeita.

Essa conclusão equivocada só seria posta à prova quando da escolha do rei Davi. O Senhor se desagradou de Saul e agora enviara Samuel a ungir um novo rei (1 Sam 17.35; 16.1). É curioso notar que a escolha de Saul trouxe resultados nefastos, e Israel precisava de um novo rei justamente como resultado da escolha do primeiro. Os parâmetros, entretanto, para a escolha da Davi, contrariavam todos os anteriormente usados na escolha de Saul (1 Sam 16.7). Davi não se sobressaia por sua altura ou imponência, mas por seu coração. Desse, do coração, diz o Senhor ter se agradado. E tal como fez com Saul anos antes, Samuel ungi Davi como rei. Como os novos parâmetros deveriam ficar claros, cada um dos irmãos de Davi passaria por Samuel para mostrar que a escolha do Senhor obedecia a outros padrões (1 Sam 16.8-12). Davi era um rei conforme a escolha de Deus. Ele era um rei conforme o coração de Deus (1 Sam 13.14)... A escolha parecia tudo, menos perfeita.

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É possível ver, em linhas gerais, que os parâmetros das escolhas foram bem diferentes. Saul era o retrato da aparência, Davi do homem interior. Saul era alto, Davi não. Saul ganharia facilmente qualquer concurso de beleza israelita... Davi era agradável de se ver, mas não seria capa de revista. Saul impressionaria os povos vizinhos pela simples aparição de sua figura, ao passo que Davi teria que se provar inúmeras vezes por seus atos. Saul desobedeceu sem retroceder enquanto Davi humildemente confessou seu pecado. Saul era equivalente ao que se podia ver lá fora, no "mundo" ao redor do povo de Deus. Davi era uma amostra da humildade do povo sobre o qual governou. Em resumo, Saul retratava a escolha do povo conforme os padrões mundanos, mas Davi tinha qualidades que o olho não poderia ver, sem o auxílio da revelação de Deus.

Nossas escolhas hoje não diferem das de Israel no passado, e nossos aconselhados quando chegam em busca de ajuda sofrem, em muitos aspectos, os resultados de suas escolhas do passado. Ainda que as escolhas não determinem restritivamente o resultado final, é inequívoco que Deus controle soberanamente os resultados de nossas escolhas de modo que colhamos o que plantamos, estejamos conscientes ou não do plantio. Tal como a escolha de Saul, os caminhos errados que o aconselhado toma pode pedir por uma revisão dos parâmetros adotados para tomadas de decisões. E esta bem que poderia ser apontada como a primeira e mais básica lição a aprender, respondendo à pergunta inicial sobre qual é o problema de se querer governar, ainda que só por um pouco, o curso da própria vida: insistir nos moldes que resultaram no sofrimento atual, como quem diz que basta tentar de novo, só que agora "com mais força, empenho", não é só tolice, mas o prenúncio de mais sofrimento.

Uma segunda lição, mais geral e ainda assim valiosa diz respeito ao método de Deus nos ensinar como nossas escolhas refletem os parâmetros equivocados que adotamos. O método de Deus pode levar tempo, mas ele atinge o objetivo pedagógico intentado por Deus. Obviamente que podemos nos fazer surdos ao ensino de Deus, mas como disse C.S. Lewis, o sofrimento é o megafone de Deus para um mundo ensurdecido. Então, quando o sofrimento faz sua voz ser ouvida pela dor, e este é o resultado de escolhas baseadas em parâmetros desaprovados por Deus, é sensato parar e reavaliar o que conduziu àquele estado de coisas.

Esta comparação, em terceiro lugar, nos ensina mais uma última lição sobre o perigo de acharmos que podemos governar o nosso próprio destino: não podemos nos esquivar de levar em consideração que Deus pode deixar-nos usufruir dos efeitos de nossas escolhas malfeitas, como foi o caso com Israel em relação a Saul. Por mais essas consequências não sejam eternas, elas podem não ser assim um tempo tão curto. Deus tem propósitos maiores nesta permissão, mas não podemos deixar de fora da equação o fato: Deus nos deixa provar de nossas escolhas ruins para que fique evidentemente claro que elas não nos levam a santos e bons resultados, tais como as que Ele quer que tomemos.

A última nota dessa sinfonia, contudo, não é triste. O arrependimento e a busca pelo Senhor e sua vontade nos conduzem a novos caminhos, que ensejam esperança e renovo. Davi representava isso. Ele era o resultado da vontade de Deus para o povo, e os resultados falam por si: Davi se tornou o padrão de rei em Israel, de modo que quando um rei fazia o que era "bom e reto diante do Senhor", não importando quanto tempo ele viesse, ele fazia "conforme Davi, seu pai". Quando nos voltamos aos caminhos do Senhor e procuramos fazer escolhas estabelecidas sobre Seus parâmetros, ou seja, que reflitam Seu querer e seus padrões, mostramos disposição em seguir Sua vontade e não de guiar nossa vida. Desta forma estamos a caminho da restauração, da felicidade e da bem-aventurança. E embora tais coisas sejam benditos efeitos colaterais de escolhas abençoadas, o grande e maior benefício se resume em glorificar a Deus e desfruta-lo para sempre.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Deus cuida de nós enquanto cuidamos de outros – ou – Lições aprendidas ao aconselhar minha filha

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Filhos são herança do Senhor. Deus nos concede a bênção de ter filhos e, juntamente com isso, o privilégio e responsabilidade de instruí-los no caminho da justiça. De acordo com o texto de Deuteronômio esta instrução não deve acontecer somente em momentos específicos e/ou pontuais, mas as palavras ordenadas por Deus devem estar no coração dos pais para que “inculquem” e falem delas aos filhos “assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te” (6.7), ou seja, em todo o tempo.

Pais devem estar atentos a todas as oportunidades concedidas pelo Senhor para pastorear e ministrar ao coração dos filhos e hoje tive um desses momentos. Tenho dois lindos filhos, herança preciosa do Senhor, mas, como puxaram os pais, pecadores. Triste sorte, não fosse a esperança que há no evangelho do Redentor Jesus Cristo. Pela manhã um episódio simples serviu para eu ver como o Senhor Deus opera graciosamente em seus filhos.

Eu tinha pegado em uma lanchonete fast-food alguns gorros dos Smurfs de papelão, para montar, e Fernanda, minha filha mais velha, montou para ela e para Filipe, meu mais novo. Ele reclamou que o dele tinha rasgado e eu fui ver. Constatamos (eu e Fernanda) que não havia rasgado e que somente havia desencaixado uma parte da outra. Eu, entretanto, verifiquei também que Fernanda tinha encaixado da forma errada e disse isso a ela que prontamente respondeu: “Está certo, eu li as instruções”. “-Minha filha, está errado”. “-Não está não!”, falou ela já em tom choroso.

Como recentemente havia acontecido outros episódios em que ela não se deixava instruir, demonstrando todo o seu orgulho, eu lhe disse: “-Tá bom sabichona, você está certa”. Isso a deixou inquieta: “-Não sou sabichona”. “-É claro que é minha filha, você sabe mais que seu pai”, dizia eu enquanto ela me ignorava. Esta última atitude me fez falar de forma mais dura com ela que ouviu um pouco mais sobre o quanto estava sendo orgulhosa, sobre o não querer aprender e me viu ir para o quarto ajudar Filipe com outra coisa.

Não passou muito tempo, vem ela, chorosa, pedindo perdão. Perguntei a respeito da razão para o pedido e ela disse que era por ter me ignorado e ter sido orgulhosa. Como conselheiro bíblico que sou, vi então a oportunidade de ministrar ao coração da minha primogênita, afinal, conheço bem Deuteronômio 6! Falei que ela ainda estava em fase de aprendizado e que, por mais que já soubesse algumas coisas, ainda não sabia mais que o seu pai. Disse que o orgulho leva as pessoas a não aprenderem, pois se já entendem que sabem tudo, nunca irão querer aprender com outros. Disse ainda que Deus não se agrada de soberbos (Tg 4.6) e que o Senhor Jesus, a pessoa mais sábia que existe, era humilde, então, precisamos olhar para ele e buscar nele o desejo de ser semelhante ele é e que somente nele temos a ajuda para tudo isso.

Instruí que ela orasse pedindo perdão também a Deus por seu orgulho e para que ele a concedesse coração mais humilde, o que ela fez prontamente. Meu trabalho como pai e como conselheiro estava feito!

O que eu não esperava

Após a oração, Fernanda começou a chorar novamente. Pensei “com meus botões” que havia mais a ser tratado com ela e perguntei a razão do choro. Ela respondeu: “-O sr. debochou de mim, falou que não ia mais me chamar de sabichona e debochou de mim de novo”. Pensei, então, na minha falta!

Ela estava coberta de razão. Dias antes, por conta de seus episódios de orgulho em que achava saber mais do que eu, teimando a respeito das coisas mais bobas (por exemplo, sobre quem teria sido o descobridor do Brasil, ela insistia em D. Pedro I, confundindo as histórias) eu, que sou bastante cínico (um pecado contra o qual tenho de lutar e vigiar constantemente) comecei a chama-la de sabichona, com um tom de voz que ela entendeu acertadamente não se tratar exatamente de um elogio. Ela se ofendeu, disse que era pecado o que eu estava fazendo e que eu havia dito a ela que não faria mais isso, o que não cumpri no episódio que estou narrando aqui.

Agora pense comigo. O que seria o meu cinismo senão, também, uma demonstração de orgulho? Diante de uma criança que não se dobra à minha sabedoria, o deboche não seria uma tentativa de impor, pelo constrangimento, o que eu estava ensinando? Aqui ficou constado que ela tem o meu DNA, e ambos temos o dos nossos primeiros pais que, orgulhosos, deixaram de lado a instrução de Deus seguindo o caminho proposto pela serpente na ânsia de serem como o Senhor.

Confesso que na hora pensei em não admitir meu erro. Mesmo trabalhando com aconselhamento a tanto tempo sei que é bem fácil esquecer a primeira parte de Gálatas 6.1: “Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma fata, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura”. Ainda que eu estivesse falando com “brandura”, minha atitude foi parecida com a de um instrutor “calejado” ensinando a um aluno que ainda não sabia como agir. Pior ainda, isso revelou que não atentei para a segunda parte do versículo: “e guarda-te para que não sejas também tentado”. Minha filha confrontou em mim o mesmo pecado que eu estava percebendo nela e, pela graça de Deus, ouvi o que ela disse, afirmei que ela estava correta no que estava me cobrando, pedi perdão a ela e orei, junto com ela, pedindo perdão ao Senhor.

Conselheiros não devem olhar para os seus aconselhados como se fossem pessoas que já chegaram à perfeição e que agora podem ajudar aqueles que ainda não chegaram lá. É preciso lembrar que nossa realidade é a mesma do apóstolo Paulo que dizia: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus” (Fp 3.12). Como diz o título do excelente livro de Paul Tripp, somos apenas “Instrumentos nas mãos do Redentor – pessoas que precisam ser transformadas ajudando pessoas que precisam de transformação”.

Com esta experiência pude trazer à memória que ambos, eu e minha filha, precisamos a cada dia de um Redentor amoroso que não se cansa de formar em nós o seu próprio caráter (Gl 4.19), pois para isso o Pai nos escolheu, para sermos conformes a imagem de seu Filho (Rm 8.29). Em um momento que para mim seria apenas de instrução para minha filha acabamos, eu e ela, experimentando o amor gracioso do Salvador e Redentor de nossas vidas, que é o único que é perfeito e que, por isso, pode aperfeiçoar aqueles que estão a seus pés, Jesus Cristo, o Senhor!

Milton Jr.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Uma Palavra aos Pais.

 

 

family with children on hands, sunset skyTalvez tenham pecado os meus filhos e blasfemado contra Deus em seu coração. Assim fazia Jó continuamente. Jó 1. 5

Um dos propósitos do blog é a apresentação de textos sobre os problemas cotidianos da vida cristã pelo prisma do aconselhamento bíblico. Esta informação é importante pois, quase a totalidade dos problemas da alma foram tomados ou empurrados para os braços da psicologia, que passou a influenciar a forma e o conteúdo da maioria dos conselheiros nas igrejas atualmente.

As lentes usadas para cada aspecto da vida cristã são as Escrituras Sagradas.

Dito isso, gostaria de pensar com nossos leitores sobre a descrição da prática de Jó em relação aos filhos, conforme apresentada já no título deste breve artigo.

Uma rápida leitura dos primeiros versos do Livro de Jó, revela com cores vibrantes a dinâmica de uma casa cheia de filhos e como esses filhos se relacionavam. Os filhos de Jó estavam sempre juntos (Jó 1.4) e se alegravam.

Não cresci numa casa com muitos filhos. Meus pais tiveram dois filhos. Eu e minha irmã. Crescemos e hoje vivemos em cidades diferentes. Quando nos encontramos, procuramos passar boa parte do tempo juntos. Quer seja no lanche da tarde, num almoço delicioso, ou mesmo em uma pizzaria à noite. Estar próximo e poder conversar com minha irmã é sempre muito bom. Sendo assim, fico imaginando como seria ter uma família com sete meninos e três meninas. Dez irmãos juntos desfrutando da presença um do outro. Penso que seria muito bom.

Sei que quanto maior a família maior a possibilidade de problemas, afinal, serão sempre pecadores reunidos. Entretanto, meu ponto não é este (neste artigo, talvez em outro) e sim, o acompanhamento do pai. Jó estava atento aos filhos. Como todo pai se preocupa com o futuro dos seus filhos, penso que Jó também se preocupava. Entretanto, Jó se ocupou em algo mais. Ele também se preocupou efetivamente com a vida espiritual deles (Jó 1. 5).

Agora poderemos olhar especificamente para aquilo que propus. Uma Palavra aos pais:

A primeira palavra aos pais é: Os pais devem agir com integridade e retidão, conforme o temor ao Senhor.

Agir com integridade e retidão como exemplos aos filhos. Recentemente alguém me indagou, dizendo que “os adolescentes dão muito trabalho na igreja”. Respondi que não, pois quando os adolescentes erram nós os corrigimos. Afirmei que, quem dá trabalho na igreja são os adultos. Adultos que já são pais. Esses são os maiores causadores de problemas. Pais que tumultuam a igreja local são exemplos ruins de integridade e retidão, ou pelo menos a falta destes. Os filhos podem ser profundamente influenciados pela postura ímpia ou inconstante de pais imaturos. Lembrem-se das sábias palavras de Tiago:

(7) Pois toda espécie de feras, de aves, de répteis e de seres marinhos se doma e tem sido domada pelo gênero humano; (8) a língua, porém, nenhum dos homens é capaz de domar; é mal incontido, carregado de veneno mortífero. (9) Com ela, bendizemos ao Senhor e Pai; também, com ela, amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. (Tiago 4. 7-9).

Integridade e retidão deve ser o padrão estabelecido para a norma de conduta em uma casa cristã.

O temor ao Senhor, sempre foi o princípio de sabedoria. (Sl. 111.10). Sem tal temor, tão ausente da instrução eclesiástica, não será possível lutar pela integridade e retidão.

A segunda palavra aos pais é: os pais também devem se desviar do mal. Aqui podemos constatar a prática da integridade e retidão juntamente com o temor ao Senhor. Pais que não se desviam do mal acabam por introduzir em sua própria dinâmica familiar a proximidade com aquilo que não agrada a Deus. Seja uma conversa inconveniente, seja o uso de palavras de baixo calão, seja o assistir programas apelativos e para piorar toda a situação, permitem seus filhos entrar em contato com toda a sujeira da cultura ímpia. E entenda, tudo aquilo que, em algum grau, nos afasta de Cristo ou, nubla a realidade de uma vida agradável a Deus, segundo sua Palavra, deveria ser evitado. Quando os filhos olham para os pais, devem ver neles prudência, piedade e devoção a Deus.

A terceira palavra aos pais é: santifiquem seus filhos. Este ato tem sido deixado de lado em função da falta de tempo. Particularmente penso que Deus nos cobrará pela inversão de prioridades. É preciso investir tempo para a santificação dos filhos e não apenas informalmente, mas, formalmente. Chamar nossos filhos com o firme e terno propósito de instruí-los na Lei do Senhor, apresentar-lhes as maravilhosas doutrinas da graça, contar a eles sobre o santo sacrifício de Jesus Cristo na cruz do calvário. Sei que dá muito trabalho e a nossa desculpa tem sido a falta de tempo. Porém, se você mantiver em seu coração a devoção de temor ao Senhor, será levado a se preocupar cada dia mais sobre a responsabilidade dos pais como instrumentos de santificação dos seus filhos. Não permitam que seus filhos cresçam sem disciplina, desobedientes, indiferentes quanto ao culto, irreverentes diante das coisas de Deus.

A quarta palavra aos pais é: reconheça que seus filhos são pecadores. Há pais que ainda não entenderam que seus filhos são pecadores. Sei que há muita controversa sobre isso. Não me deterei a defender aquilo que é biblicamente evidenciado gritantemente todos os dias sobre como nossos filhos são pecadores. Os pais não podem fechar os olhos quanto a isso e devem ajudar os filhos na condução do processo de terem o coração quebrantado. Muitos pais ficam constrangidos pelas peripécias dos filhos simplesmente por causa da vergonha pública. Entretanto, há algo mais sério acontecendo. Quando nossos filhos pecam, em primeiro lugar pecam contra Deus. Portanto, não adverti-los ou corrigi-los biblicamente falando, significa que não estamos preocupados com o relacionamento dos filhos para com Deus.

A quinta palavra aos pais é: Sejam intercessores constantes dos seus filhos. Os pais não podem terceirizar tal tarefa. Podemos e devemos ter grupos de oração e intercessão sobre a família, podemos ter amigos mais próximos para compartilhar das lutas na condução da educação dos filhos aos pés da cruz. Grupos e amigos são bênçãos de Deus em nossa vida. Entretanto, não podemos esquecer que orar pelos filhos é tarefa primeira dos pais. Conheci pais que nunca oraram junto com os filhos. Outros que oravam de vez em quando pelos filhos. Perguntei quantas vezes oravam por si mesmos. Todos disseram que, quando oravam, oravam por si mesmos. Pedi que pudessem orar e interceder diariamente pelos seus filhos. Alguns me olharam assustados: “todos os dias... é muito!”. Orar a Deus já é algo extraordinário. Passar tempo com Deus em oração é o desejo de todo cristão verdadeiro. Apresentar nossos filhos ao Senhor ajudará os pais na condução educacional. Quanto mais tempo passarem diante de Deus, maior será o desejo de que os filhos desfrutem deste mesmo privilégio.

Para concluir:

Há muitos pregadores apresentando as mais modernas técnicas para educar os filhos, mesmo que tais técnicas exijam ver o mundo sem a presença de Deus. Muitos estão entregando a educação moral e religiosa aos professores da escola secular ou da escola dominical.

Não terceirize a educação dos seus filhos. Não despreze o tempo que poderia ter com seus filhos. Lembre-se. Os filhos são herança do Senhor e devem ser muito bem cuidados. São filhos da aliança e os pais não tem o direito de educa-los de qualquer jeito.

Por fim, gostaria apenas de esclarecer que o título deste breve artigo, ou seja, Uma Palavra aos Pais, é uma palavra para minha casa (eu e minha esposa) em primeiro lugar, antes de ser uma palavra aos outros pais. Estamos juntos neste desafio de criar nossos filhos na disciplina e no temor ao Senhor. Que Deus nos conceda sabedoria celestial para isso. Graça e paz a todos.

terça-feira, 4 de abril de 2017

A Estratégia da Ignorância Proposital

Porque, deliberadamente, esquecem que, de longo tempo, houve céus bem como terra, a qual surgiu da água e através da água pela palavra de Deus...

2 Pedro 3:5

Esquecer geralmente é tido como um ato involuntário: a gente simplesmente esquece. Dificilmente, porém, alguém que tenha sido esquecido terá por inocente aquele que o esqueceu. Há casos em que a gente comanda a mente também: "Ah... esquece isso!". Mas por fim, parece que a gente sempre se lembra, e "não consegue tirar da cabeça". Hoje, porém, o assunto não é a memória e seus funcionamento, mas o aspecto destacado pelo apóstolo Pedro: o esquecimento deliberado.

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Ao meditar brevemente sobre esta faceta da nossa "memória pecaminosa", pretendo dar continuidade ao alerta quanto às estratégias sagazes, que por serem tão sutis, acabam abalando a confiança na suficiência das Escrituras como fonte e escrutinadora do aconselhamento cristão.

Em primeiro lugar, então, listo a ignorância do conteúdo revelado na Escritura Sagrada. E esta é, lamentavelmente, outra marca característica de nosso tempo. Com isso quero dizer que está ficando cada vez mais fácil se deparar com jovens que abertamente demonstram grande analfabetismo bíblico. Histórias e doutrinas básicas e fundamentais, que eram antes amplamente conhecidas, agora se tornam alvos de releituras tão ignorantes que faria qualquer ateu um pouco mais culto corar de vergonha.

Não bastasse isso, a enxurrada de filmes hollywoodianos que surfam no interesse que as pessoas têm em temas e histórias bíblicas igualmente não ajuda. Veja que o resultado final, produzido pela indústria de filmes vai de uma deplorável (na pior das hipóteses) a risíveis caricaturas de histórias bíblicas como as de Noé, Moisés e inúmeras tentativas de se recontar (ou seria reescrever?) a história de Jesus. Parece que quem produz tais filmes só perde em ignorância para aqueles que aplaudem essas versões totalmente desconexas. Aliás, um parêntesis: Aqui se faz verdadeiro certo adágio popular que diz: "o livro é melhor que o filme". Lei a Bíblia se quiser conhecer o verdadeiro Noé, Moisés e mais importante, o verdadeiro Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo!

Essa ignorância amplamente divulgada, que é por vezes deliberada, leva à crença equivocada de que os recursos disponíveis nas Sagradas Letras sejam limitados, tanto no escopo, quanto na profundidade.

Por escopo me refiro ao entendimento que muitos nutrem de que a Escritura se presta tão somente a tratar de temas ligados à salvação, como que dizendo que a Escritura é suficiente quando o assunto é religioso. Já falei disso anteriormente, noutro post.

De fato, não te aconselhamos a usar a sua Bíblia como um manual de consertos automotivos - pelo simples fato de não haver qualquer informação a esse respeito em suas páginas. Este tipo de informação estaria disponível lá caso fosse essa a vontade de Deus, entretanto sua ausência não é sem propósito. Mas, apesar da variedade de temas encontrados em suas páginas, recomendamos que a Bíblia seja usada para os fins a que ela mesma diz se destinar. À guisa de ser absolutamente claro, permita-me esclarecer que, obviamente, não entendemos que todos os quebra-cabeças do mundo estão disponíveis na Bíblia, mas apenas aqueles necessários para a "vida e piedade", conforme 2 Pedro 1.3.

No quesito profundidade, é possível que alguém pense que, ainda que a Escritura trate de um tema em específico, ela não diz tudo sobre ele. Como que ela disesse o básico necessário, mas se limitasse a fazê-lo porque Deus proveu na Bíblia apenas a peça faltante do quebra-cabeça. Uma peça que nunca teríamos acesso senão pela sua graciosa e especial revelação. Contudo, uma nota de cautela aqui: o pressuposto por detrás dessas palavras pode ser a convicção de que o “quebra-cabeças” da vida não teria sido todo ele disponibilizado na Palavra de Deus. Os que assim creem entendem que as demais peças já estão disponíveis em outros lugares, facilmente identificáveis e formando uma só e harmoniosa imagem com aquelas peças encontradas na Escritura. Nesse caso, a Escritura funciona como um útil apêndice, porém não indispensável.

Falando ainda de profundidade, tem o uso da linguagem cientificamente técnica empregado com vistas a provar que a Escritura não se dirige a este ou àquele tema na mesma profundidade que a ciência. Esta abordagem, contudo, ignora (se de propósito ou não, eu não sei) que o uso que a Escritura faz da linguagem nunca foi ou pretendeu ser técnica no sentido que a ciência moderna o faz.

Repare, porém, que existem aí elementos de verdade. Em alguns momentos é possível ver mais que rebeldia pura e simples, como aqueles momentos em que há uma busca por se entender melhor o papel da razão humana e da apropriação de conhecimento advindo da fonte da revelação natural, viabilizada pela graça comum.

Explico: de fato, Deus não nos dá tudo "de bandeja" pois nos fez inteligentes e quer nos ver usando essa inteligência para a sua própria glória. Deus não nos deu o universo simplesmente como um invólucro sem sentido, mas se revelou nele e quer que o conheçamos através da investigação científica desse universo, e as duas formas de conhecimento só estão disponíveis porque Deus não vetou o conhecimento aos homens após a queda. Apesar de pecador, o homem ainda pode legitimamente conhecer a verdade, seja crente ou incrédulo, por conta de Deus assim permitir, ainda que esse homem não mereça. Essa "graça" vinda de Deus não é suficiente para a salvação porque não foi planejada para isso, mas para tão somente tornar a vida no planeta possível após a queda. Por isso essa graça é distribuída imparcialmente, ou seja, ela é "comum" a todos.

Ainda que tenhamos que voltar a esse ponto em posts futuros (o da graça comum), as implicações práticas do esquecimento deliberado parecem esposar um entendimento equivocado da graça comum, que somado a um igualmente equivocado entendimento dos efeitos do pecado no entendimento humano, unidos a uma elegante, mais desajeitada apropriação de conhecimentos dispostos na natureza, resultam numa parte fundamental da estratégia de se desacreditar (ou diminuir) a suficiência das Escrituras.

Existem sim temas sobre os quais a Escritura não apresenta interesse, e que pode fazer parte da curiosidade científica. Mas isso não quer dizer que, por isso, a Escritura seja incompetente para lidar com os problemas que enfrentamos na vida. O descrédito na suficiência das Escrituras para o tratamento pastoral dos problemas da vida, então, é o resultado nefasto de uma somatória de elementos, que levaram tempo para se formar, mas que hoje já vigoram com amplitude.

Ao conselheiro, contudo, não é permitida uma acomodação tal que permita que se abrace uma crença básica que mine sua confiança na Escritura. Se tal acontecer esse conselheiro perderá de vistas as riquezas disponíveis nas páginas das Sagradas Letras, capazes de trazer alívio, conforto e solução para os muitos problemas que enfrentamos. Mas o mais importante, de cuja fonte tudo isso flui, está o conhecimento salvador de Jesus Cristo por meio de quem vem toda a solução e graça necessárias para prosseguir.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Quando o aconselhamento bíblico não é possível

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Se você acompanha este blog há algum tempo pode estar se perguntando a que o título se refere. Afinal de contas, temos publicado aqui vários textos que afirmam e reafirmam a suficiência das Escrituras para tratar quaisquer problemas do homem que não tenham origem orgânica, os chamados males da alma. Temos defendido a superioridade do aconselhamento bíblico sobre qualquer outro sistema de aconselhamento pautado na sabedoria deste mundo. Concordando com Jay Adams, creio que “sendo o aconselhamento – o processo de auxiliar outros a amarem a Deus e ao próximo – uma parte do ministério da Palavra (assim como a pregação) é inconcebível usar qualquer outro texto (do mesmo modo que seria impensável usar outros textos na pregação) que não seja a Palavra de Deus. O ministro da Palavra deixa de o ser, quando se fundamenta em outro texto que não seja a Palavra”[1].

Portanto, o presente artigo não quer contradizer isso. Sim, cremos que em Cristo, conforme revelado nas Escrituras, temos “todas as coisas que conduzem à vida e à piedade” (2Pe 1.3). Todavia, é preciso reconhecer que há uma circunstância em que o aconselhamento bíblico é impossível. Não pense que estou endossando aqui a posição de que há problemas muito grandes para pastores ou conselheiros bíblicos e que necessitam de um profissional terapeuta “qualificado”. A impossibilidade se torna evidente não por causa dos tipos de problemas, mas por causa da incapacidade daqueles que estão enfrentando os problemas de ouvir instruções bíblicas.

Sendo mais claro, Paulo afirma que “certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem” (1Co 1.18) e que “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entende-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1Co 2.14). Ou seja, alguém que ainda não foi regenerado não pode, de forma alguma, atender à Palavra de Deus!

Só para usar figuras bíblicas, a Palavra de Deus é descrita como uma espada de dois gumes que penetra a ponto de discernir os propósitos do coração (Hb 4.12). Entretanto, o coração do pecador é de pedra, e para que possa ser penetrado pela Palavra, deve ser, antes, transformado em um coração de carne (Ez 11.19). Essa promessa, feita por Deus no Antigo Testamento, é essencial para que os homens “andem nos meus [de Deus] estatutos, e guardem os meus juízos, e os executem; eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus” (Ez 11.20).

A falta de um novo coração, isto é, da regeneração, torna impossível o aconselhamento bíblico, pois o pecador, sem Cristo, não tem condições de colocar em prática, com a motivação correta, as ordens e orientações da Palavra de Deus. Não adianta dar princípios bíblicos a alguém que não é nascido de novo.

Certa vez, conversando sobre isso, fui questionado por meu interlocutor se não seria bom ter não crentes recebendo orientações da Palavra de Deus, mesmo que não chegassem a crer em Cristo, afinal de contas, sendo a lei de Deus perfeita, sua prática acabaria por melhorar um pouco a vida dos ímpios. Talvez esse possa ser também o seu questionamento diante do que leu até aqui, e é preciso uma resposta.

Não tenho dúvidas de que a lei é boa e, mais que isso, Paulo diz, ainda, que o mandamento é também santo e justo (Rm 7.12). No salmo 19 Davi qualifica a lei como perfeita, fiel, reta, pura, límpida, verdadeira e o que ela produz é restauração da alma, concessão de sabedoria aos símplices, alegria ao coração, iluminação dos olhos. Entretanto, isso se dá somente após a conversão. Em Cristo, e somente por estar em Cristo, o homem tem condições de guardar a lei. A resposta à pergunta 97 do Breve Catecismo de Westminster explica que a utilidade especial da lei moral aos regenerados é lhes “mostrar quanto devem a Cristo por tê-la cumprido e sofrido a maldição dela, em lugar e para o bem deles; e assim leva-los a uma gratidão maior, e a manifestar essa gratidão por maior cuidado da sua parte em conformarem-se a esta lei, como regra de sua obediência” (BCW – p. 97).

A lei leva o crente à gratidão por Jesus Cristo ter cumprido algo que homem algum poderia cumprir de forma plena. Isso porque a obediência à lei não se dá apenas externamente, mas leva em conta a razão da obediência. Uma coisa é alguém não roubar por amor e satisfação em Deus e amor ao próximo, outra coisa é alguém não roubar com medo de ser preso. No primeiro caso, a razão é a glória de Deus, no segundo, a preocupação egoísta consigo mesmo. Mas o resultado final é o mesmo: alguém que não rouba. Isso não é suficiente diante de Deus, por isso não deve ser o alvo do aconselhamento bíblico.

Tentar dar preceitos bíblicos a não crentes é uma simples tentativa de resolver os sintomas de um problema maior, a inimizade do homem com Deus. Imagine um casal não crente recebendo instruções bíblicas, sem levar em conta a redenção: O conselheiro ensina ao homem que ele deve estar disposto a morrer por sua esposa para o seu casamento ir bem. Ensina também à esposa que ela deve submeter-se ao marido, com o mesmo objetivo, a manutenção do casamento. Talvez isso funcione por um tempo, pois, ao tratar bem a esposa, ela pode também querer agradá-lo, submetendo-se a ele. Mas sem a capacidade de fazer o que é certo para a glória de Deus (eles não têm um novo coração), isso durará pouco tempo, e ainda que dure muito tempo, só servirá para mandar um casal “unido” para o inferno.

Pense na função da lei de Deus para o não crente. Novamente recorro ao Breve Catecismo, que afirma que a utilidade especial da lei moral para os não regenerados é “despertar a consciência deles para que fujam da ira vindoura e para força-los a recorrer a Cristo; ou para deixá-los inescusáveis e sob a maldição do pecado, se continuarem nesse estado e caminho” (BCW – p. 96).

O conselheiro não pode se ocupar simplesmente em resolver problemas, pois cairá na tentação de dar a não crentes simples instruções de como viver bem e, caso funcione, estará afastando-os ainda mais de Jesus Cristo. Talvez aqui seja necessário lembrar que Jesus proferiu um de seus “ais” aos fariseus porque eles se esforçavam para fazer um novo converso, e uma vez feito isso, o tornavam filho do inferno duas vezes mais que eles (Mt 23.15). Lembre-se de que o ensino deles era a de salvação pela guarda da lei (distorcida, eu sei), sem um Redentor.

O princípio é o mesmo. Da mesma forma que o prosélito (novo convertido), convencido de que poderia ser justificado diante de Deus pela lei, desprezava a Cristo, o não crente que aprende apenas princípios para melhorar seu problema sem se dar conta de sua falta de capacidade, entenderá que não precisa de um Redentor.

Conselheiro, você não pode se contentar com uma meta tão baixa como essa. Isso qualquer terapeuta tem como alvo, segundo a sabedoria deste século. Você precisa querer mais!

Como proceder, então?

Agora talvez você esteja exatamente com essa pergunta em mente. É preciso, então, caminhar um pouco mais. Como bem afirmou Welch, “todos os aspectos da vida são vividos diante da face de Deus” – e levando em conta isso – “o aconselhamento bíblico procura lidar com esta característica central da nossa vida, sendo completo somente quando considera nosso relacionamento com Deus e nos dirige a ele”[2].

O aconselhamento bíblico, mais do que resolver problemas, tem por fim levar o aconselhado à maturidade e à conformação com Cristo Jesus, a fim de que ele aprenda a responder às suas circunstâncias, de forma piedosa, com a ajuda do Redentor.

Quando aconselhamos um cristão comprometido com Cristo, partimos do princípio de que ele sabe que deve viver para a glória de Deus e, ainda que ele tenha que ser relembrado desta verdade, ele tem todas as condições de “desenvolver a sua salvação”, pois Deus opera nele o querer e o realizar, conforme sua boa vontade (Fl 2.12,13).

Entretanto, diante de um não crente, o conselheiro tem de estar certo de que este aconselhado não tem condições de viver para glória de Deus, nem de responder piedosamente às suas circunstâncias. Deve manter em mente que o privilégio concedido pelo Senhor neste instante é mais do que tentar “curar superficialmente as feridas”, mas de talvez ser instrumento de Deus para uma mudança verdadeira que começa com a rendição a Jesus Cristo.

Alguns entendem que neste momento o conselheiro deveria parar o aconselhamento e apresentar o “plano de salvação”, para depois concentrar-se nos problemas. Creio, entretanto, que as duas coisas podem ser feitas concomitantemente.

Não crentes que procuram aconselhamento bíblico estão vivendo dilemas reais, dores reais e muitos estão esgotados com suas lutas. Não é sábio desconsiderar todas essas coisas e não é misericordioso não demonstrar compaixão.

Certa vez Jesus aproximou-se de uma mulher, perto de uma fonte, e começou uma conversa com a samaritana pedindo a ela “água”, culminando na afirmação da necessidade que aquela mulher tinha da “água viva” e que pediria essa água se entendesse quem era aquele que estava conversando com ela (Jo 4.1-10). Isso despertou a curiosidade da mulher que perguntou se ele era maior que Jacó, que havia dado a eles poço. Jesus afirmou, então, que quem bebia do poço de Jacó voltava a ter sede ao passo que bebendo de sua água, a sede cessaria para sempre. Isso fez com que a mulher pedisse, então, dessa água.

A história mostra que Jesus estava tratando da maior das necessidades da mulher, mas ele não ignorou seus dilemas pessoais, o que é visto quando ele pede para ele chamar o homem que ele sabia não ser o marido dela, que já havia tido cinco. A conversa segue com a mulher perguntando sobre adoração e ouvindo que o Pai procura adoradores que o adorem em Espírito e em verdade. É nesse ponto da história que ele se revela como o Messias que ela disse saber que estava para vir. Mais uma vez quero enfatizar. Jesus tratou o problema mais profundo daquela mulher, a falta de redenção, mas sem desconsiderar seu problema “superficial”.

Conselheiros devem rogar ao Senhor sabedoria a fim de abordar os problemas dos não crentes usando-os para mostrar a eles a necessidade de alguém que lute suas lutas e caminhe com eles, capacitando-os a responder de forma piedosa às circunstâncias que podem ou não melhorar. Esse caminho envolve arrependimento e fé no Salvador, Jesus Cristo.

Não se esqueça. Quando lidamos com não crentes, juntamente com a instrução do que fazer é necessário mostrar a eles a impossibilidade de fazerem sozinhos, anunciando-lhes que existe um Redentor que resolve o maior de todos os seus problemas, a fim de eles possam lidar com suas circunstâncias de uma forma que honre o Deus que liberta o pecador da miséria do pecado.

Não se contente em ser um simples “resolvedor de problemas”, mesmo porque você não tem condições para tal. Anuncie aos não crentes que porventura busquem o aconselhamento bíblico o Deus que “é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós” – para que – “a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!” (Ef 3.20-21).

Milton Jr.


[1] Jay Adams. Teologia do aconselhamento cristão, p. 14

[2] Edward T. Welch. Mas afinal, o que é o aconselhamento bíblico? – Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, v. 2, p. 172

terça-feira, 21 de março de 2017

Em Crise com Deus? Uma resposta bíblica.

 

 

0,,43818220,00Ao longo dos anos tenho visto cristãos enfrentando momentos muito preocupantes na vida. Por diversas razões experimentam uma espécie de esvaziamento espiritual. São crentes de verdade e mesmo assim, não conseguem encontrar alegria em Deus, regozijo em suas promessas e não encontram alegria e descanso ao orarem a Deus.

Como nossa geração está sendo treinada e incentivada a receber tudo o que deseja imediatamente, é claro que surgem sérios problemas, afinal, sabemos que no mundo real, nem tudo ocorre conforme planejamos e nem sempre podemos ter aquilo que queremos.

Além disso, o viver da aparência tomou conta do estilo de vida. As redes sociais proporcionam esta intensa visibilidade e, ninguém quer “fazer feio” publicamente.

Entretanto, apesar da aparência de felicidade exposta nas redes sociais, muitos irmãos e irmãs em Cristo enfrentam o dilema da falta de paz e a grande inquietação da alma.

Será que a Palavra de Deus pode nos ajudar a responder tais dilemas? Será que a Palavra de Deus pode ajudar aqueles que estão sofrendo neste sentido? A resposta é sim! O salmo 77 registra a experiência de Asafe, um levita, filho de Baraquias, descendente de Gerson, filho de Levi (1Cr 6:1; 6:39-43). Asafe foi um músico importante da época de Davi, e foi nomeado pelos principais levitas como responsável pela música, juntamente com Etã e Hemã, quando a arca foi transportada da casa de Obede-Edom para a cidade de Jerusalém (1Cr 15:16-19).

Algo perturbou profundamente Asafe. E ele agiu corretamente, ou seja, buscou tratar de seus dilemas do coração diante de Deus. Ele busca a Deus em oração (vers.1), ele reconhece sua angústia (vers. 2), declara que sua alma recusa consolar-se (vers.2), ele se lembra de Deus e não encontra paz, pelo contrário, ele geme e perde as forças (vers.3), está tão perturbado com tudo o que estava acontecendo que não conseguia dormir (vers.4), busca aliviar o tormento do coração lembrando do passado (vers. 5), e tudo isso o leva a fazer indagações injustas a Deus.

Não sabemos pelo que Asafe estava passando. E não pretendo aqui neste breve artigo sugerir alguma possibilidade. O que podemos constatar de fato é que Asafe estava profundamente perturbado. Podemos constatar que foi algo progressivo. Constatamos que ele buscou a Deus em oração e apresentou toda sua angústia ao Altíssimo.

Asafe parece estar perplexo e frustrado. Sua angústia e sofrimento o levam a duvidar do caráter de Deus. Esta é sempre a última tentativa de uma alma amargurada. Acusar o Criador como responsável por todos os males sobre si.

Vejamos a sequência de perguntas estranhas apresentadas por Asafe:

1 - Rejeita o Senhor para sempre?

2 - Acaso, não torna a ser propício?

3 - Cessou perpetuamente a sua graça?

4 - Caducou a sua promessa para todas as gerações?

5 - Esqueceu-se Deus de ser benigno?

6 - Ou, na sua ira, terá ele reprimido as suas misericórdias?

Percebam que houve um processo gradativo na experiência descrita por Asafe. Ele estava sofrendo muito por algo que não sabemos precisamente. Ele buscou a Deus, orou, sondou sua própria alma, angustiou-se e enfim, voltou toda sua atenção contra Deus. Tais perguntas apresentadas de forma sincera, são ofensivas a Deus pois ele não é assim.

Quantos cristãos atualmente não fizeram a mesma pergunta? Quantas vezes ouvimos alguém dizer “acho que Deus se esqueceu de mim?”. Quantas vezes Deus foi acusado de não ser bom?

Quando a tribulação ou o pecado não confessado perturbam a alma e a mente a tal ponto, a perspectiva de Deus é atingida profunda e injustamente e acusações são apresentadas como desconfiança moral contra Deus. Não podemos esquecer que Deus é bom e a sua misericórdia nos alcança insistentemente.

(19) Lembra-te da minha aflição e do meu pranto, do absinto e do veneno. (20) Minha alma, continuamente, os recorda e se abate dentro de mim. (21) Quero trazer à memória o que me pode dar esperança. (22) As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; (23) renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade. (24) A minha porção é o SENHOR, diz a minha alma; portanto, esperarei nele. (25) Bom é o SENHOR para os que esperam por ele, para a alma que o busca.

Lamentações 3. 19-25

No verso 10 vemos uma abrupta mudança de perspectiva. Asafe reconhece que era sua percepção errada sobre tudo que estava fazendo com que ele olhasse com desconfiança para Deus. Ele disse: isso é a minha aflição... mudou-se a destra do Altíssimo. Parece que este pensamento o fez respirar novamente.

Há agora todo um processo desencadeado pela correta visão de Deus e pela confiança completa naquele que é o Altíssimo.

Asafe reconhece o poder do Senhor, reconhece seus poderosos feitos, pensa nas obras das mãos do Senhor, reconhece as misericórdias sobre o povo.

Não sabemos o que afligiu tão profundamente Asafe ao ponto de ficar tão perturbado. O que podemos afirmar com certeza é que, mesmo diante de tal gravidade da alma, o nosso Deus é poderoso para iluminar as profundezas do coração.

Por isso continuamos a afirmar que, em se tratando dos dilemas da alma, a Palavra do Senhor é a única suficientemente competente para tratar e corrigir os rumos da alma aflita. Não há outro instrumento que se compare a Palavra de Deus.

Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.

Hebreus 4.12

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