quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Aconselhado na defensiva?

Quando as pessoas buscam por aconselhamento, uma premissa geralmente adotada, quer pelo aconselhado quer pelo conselheiro, precisa de atenta revisão. Eis a premissa: assumir que a atitude de vir buscar por ajuda demonstra na prática que a pessoa está disposta a, tranquilamente, rever suas ações e pensamentos sob um escrutínio bíblico, e se engajar em novas atitudes de fé ativa como se essa atitude (de vir aconselhar-se) fosse evidência de pronto arrependimento. Mas o que acabamos por notar na prática é que pessoas com problemas reagem como pessoas com dores: elas fogem. Quando uma pergunta toca num ponto mais delicado, assistimos cenas de argumentação em defesa da questão e/ou indisposição de reavaliar conceitos já sedimentados no coração. Repare: não é sempre, mas acontece com frequência.

Falando em dores... Não foram raras as vezes que na infância eu ralei os joelhos. Me lembro - sem saudades - do quanto minha mãe reclamava de costurar minhas calças na altura dos joelhos. Tenho ainda menos saudades do quanto o mertiolate ardia à medida que entrava nas ranhuras abertas na pele do joelho (sim, sou da época em que ele ardia, e muito!). Minha intenção, fosse qual fosse a brincadeira, não era acabar com os joelhos ralados, mas por não avaliar as consequências que esta ou aquela brincadeira poderia acarretar, eu acabava com lágrimas nos olhos, joelhos ralados e a triste perspectiva de uma sessão de lutas com minha mãe para ministração dos devidos cuidados. Quem já experimentou coisa semelhante sabe que a mesma dor que nos levava na direção da mãe em busca de ajuda, era a dor que nos motivava a correr - ou tentar impedir com as mãos - quando o mertiolate aparecia em cena, que a gente torcia para que não fosse "tão grave" que demandasse sua vinda. 512556522

Usando da ilustração acima, podemos dizer que as várias situações em que nos metemos na vida nem sempre são planejadas para nos deixar com ranhuras na alma. Mas a dor que elas causam nos leva à sala de aconselhamento. Essa dor, entretanto, será a mesma que nos fará levantar com vontade de ir embora, quando tocada por uma pergunta que nos force a encarar o ardor de um medicamento curativo. Se você, conselheiro cristão, procura ser atento ouvinte, perceberá uma ou outra área que precisa de maior profundidade. Ou então perceberá que o aconselhando está cuidadosamente evitando que "os joelhos" da questão sejam tocados. Instintivamente você perguntará por mais dados naquela área, pois entende que sem compreender a profundidade da gravidade do problema, sem realmente conhecer a questão, será incapaz de ministrar o "curativo" bíblico apropriado. E é nessa hora que você percebe uma atitude defensiva ou arredia por parte do aconselhado. É a hora em que ambos percebem que haverá necessidade de mertiolate bíblico.

Depois que o aconselhando construiu sua fortaleza (2 Co 10.5) para proteger sua dor (pecaminosa ou não), e sabendo que cumpre ao conselheiro a missão de destruir tais fortalezas, entendo ser útil que os dois saibam o contexto em que esta batalha se dá. Nessa relação, de conselheiro e aconselhado, não devemos olhar um para o outro como inimigos. As palavras "batalha", "fortaleza" e "destruir" são bastante sugestivas, mas as aplicações ao nosso caso possuem características distintas. O conselheiro não é malvado que deseja sadicamente tocar suas dores para vê-lo gritar; nem o aconselhado reles um pecador contumaz que deseja a todo custo defender seus pecados ocultos. Ambos são pecadores redimidos que precisam lidar com a dor do outro de modo a alcançar a cura que vem da parte de Deus. Repare que o apóstolo Paulo nos chama à destruir o sistema de mentiras e falsas defesas que se levanta contra a verdade, mas esse convite à destruição não é estendido à pessoa a quem Deus nos chamou para ministrar!

Na prática, por hábito, adianto ao aconselhando, quando os sinais de que estamos chegando próximos do "joelho ralado" começam a aparecer, de que apesar de não haver anestesia para o que vamos fazer, a cura vale o desconforto momentâneo. Aviso ainda que o aconselhando deve estar preparado para a dor, e procurar ver "o toque" como curativo, como gesto um de amor. A luta não cessa, é verdade, mas com isso, tenho a intenção dupla de deixar claro tanto o contexto, quanto a missão.

Agora retornemos à questão principal. Quando muita defesa começa a ser apresentada, é importante que a verdade seja dita em amor. O conselheiro deve, com sabedoria e tato, ajudar seu aconselhado a perceber que argumentar não é uma atividade de quem quer ser ajudado, mas sim de se "auto-ajudar". Diga, em amor, a verdade de que defender aquilo que fez, pensou ou concluiu, não contribui para a cura, senão para a permanência do "machucado" tal como está. Que é importante que ele abra mão de se defender para ter em Cristo seu defensor.

Procure, de igual modo, encorajar a pessoa a se dispor a uma inspeção bíblica em sua própria vida. Somos sempre muito prontos a aceitar essa mesma inspeção na vida dos outros. Talvez isso explique a nossa alegre reação quando o pastor, durante a pregação, atinge em cheio problemas que conhecemos na vida dos outros ou na comunidade. Mas quando as flechas apontam para nossa direção, "é recado"! Não será diferente na sala de aconselhamento. Se dispor à uma cirurgia exploratória operada pelo bisturi agudo da Escritura, capaz de dividir juntas e medulas (Heb 4.12) não é uma decisão fácil, mas por vezes se faz necessária. Apresente a esperança de Deus poder usar isso como meio para abençoar como encorajamento, e em caso de se achar algo mais sério, Cristo se encarregará do perdão necessário, mediante arrependimento e fé.

Muitas vezes as pessoas vêm ao aconselhamento armadas de defesas bem ensaiadas. Não se surpreenda caso aconteça contigo. Esteja, porém, preparado para ajudar. Mesmo no caso de uma aconselhado na defensiva, e sob o dever de destruir a fortaleza levantada por ele, nossa missão ainda é uma missão de resgate. Peça sempre para que Deus lhe dê as habilidades, a sabedoria e as bênçãos necessárias para operar como um representante de Cristo Jesus, nosso médico e salvador.

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