quarta-feira, 29 de março de 2017

Quando o aconselhamento bíblico não é possível

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Se você acompanha este blog há algum tempo pode estar se perguntando a que o título se refere. Afinal de contas, temos publicado aqui vários textos que afirmam e reafirmam a suficiência das Escrituras para tratar quaisquer problemas do homem que não tenham origem orgânica, os chamados males da alma. Temos defendido a superioridade do aconselhamento bíblico sobre qualquer outro sistema de aconselhamento pautado na sabedoria deste mundo. Concordando com Jay Adams, creio que “sendo o aconselhamento – o processo de auxiliar outros a amarem a Deus e ao próximo – uma parte do ministério da Palavra (assim como a pregação) é inconcebível usar qualquer outro texto (do mesmo modo que seria impensável usar outros textos na pregação) que não seja a Palavra de Deus. O ministro da Palavra deixa de o ser, quando se fundamenta em outro texto que não seja a Palavra”[1].

Portanto, o presente artigo não quer contradizer isso. Sim, cremos que em Cristo, conforme revelado nas Escrituras, temos “todas as coisas que conduzem à vida e à piedade” (2Pe 1.3). Todavia, é preciso reconhecer que há uma circunstância em que o aconselhamento bíblico é impossível. Não pense que estou endossando aqui a posição de que há problemas muito grandes para pastores ou conselheiros bíblicos e que necessitam de um profissional terapeuta “qualificado”. A impossibilidade se torna evidente não por causa dos tipos de problemas, mas por causa da incapacidade daqueles que estão enfrentando os problemas de ouvir instruções bíblicas.

Sendo mais claro, Paulo afirma que “certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem” (1Co 1.18) e que “o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entende-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1Co 2.14). Ou seja, alguém que ainda não foi regenerado não pode, de forma alguma, atender à Palavra de Deus!

Só para usar figuras bíblicas, a Palavra de Deus é descrita como uma espada de dois gumes que penetra a ponto de discernir os propósitos do coração (Hb 4.12). Entretanto, o coração do pecador é de pedra, e para que possa ser penetrado pela Palavra, deve ser, antes, transformado em um coração de carne (Ez 11.19). Essa promessa, feita por Deus no Antigo Testamento, é essencial para que os homens “andem nos meus [de Deus] estatutos, e guardem os meus juízos, e os executem; eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus” (Ez 11.20).

A falta de um novo coração, isto é, da regeneração, torna impossível o aconselhamento bíblico, pois o pecador, sem Cristo, não tem condições de colocar em prática, com a motivação correta, as ordens e orientações da Palavra de Deus. Não adianta dar princípios bíblicos a alguém que não é nascido de novo.

Certa vez, conversando sobre isso, fui questionado por meu interlocutor se não seria bom ter não crentes recebendo orientações da Palavra de Deus, mesmo que não chegassem a crer em Cristo, afinal de contas, sendo a lei de Deus perfeita, sua prática acabaria por melhorar um pouco a vida dos ímpios. Talvez esse possa ser também o seu questionamento diante do que leu até aqui, e é preciso uma resposta.

Não tenho dúvidas de que a lei é boa e, mais que isso, Paulo diz, ainda, que o mandamento é também santo e justo (Rm 7.12). No salmo 19 Davi qualifica a lei como perfeita, fiel, reta, pura, límpida, verdadeira e o que ela produz é restauração da alma, concessão de sabedoria aos símplices, alegria ao coração, iluminação dos olhos. Entretanto, isso se dá somente após a conversão. Em Cristo, e somente por estar em Cristo, o homem tem condições de guardar a lei. A resposta à pergunta 97 do Breve Catecismo de Westminster explica que a utilidade especial da lei moral aos regenerados é lhes “mostrar quanto devem a Cristo por tê-la cumprido e sofrido a maldição dela, em lugar e para o bem deles; e assim leva-los a uma gratidão maior, e a manifestar essa gratidão por maior cuidado da sua parte em conformarem-se a esta lei, como regra de sua obediência” (BCW – p. 97).

A lei leva o crente à gratidão por Jesus Cristo ter cumprido algo que homem algum poderia cumprir de forma plena. Isso porque a obediência à lei não se dá apenas externamente, mas leva em conta a razão da obediência. Uma coisa é alguém não roubar por amor e satisfação em Deus e amor ao próximo, outra coisa é alguém não roubar com medo de ser preso. No primeiro caso, a razão é a glória de Deus, no segundo, a preocupação egoísta consigo mesmo. Mas o resultado final é o mesmo: alguém que não rouba. Isso não é suficiente diante de Deus, por isso não deve ser o alvo do aconselhamento bíblico.

Tentar dar preceitos bíblicos a não crentes é uma simples tentativa de resolver os sintomas de um problema maior, a inimizade do homem com Deus. Imagine um casal não crente recebendo instruções bíblicas, sem levar em conta a redenção: O conselheiro ensina ao homem que ele deve estar disposto a morrer por sua esposa para o seu casamento ir bem. Ensina também à esposa que ela deve submeter-se ao marido, com o mesmo objetivo, a manutenção do casamento. Talvez isso funcione por um tempo, pois, ao tratar bem a esposa, ela pode também querer agradá-lo, submetendo-se a ele. Mas sem a capacidade de fazer o que é certo para a glória de Deus (eles não têm um novo coração), isso durará pouco tempo, e ainda que dure muito tempo, só servirá para mandar um casal “unido” para o inferno.

Pense na função da lei de Deus para o não crente. Novamente recorro ao Breve Catecismo, que afirma que a utilidade especial da lei moral para os não regenerados é “despertar a consciência deles para que fujam da ira vindoura e para força-los a recorrer a Cristo; ou para deixá-los inescusáveis e sob a maldição do pecado, se continuarem nesse estado e caminho” (BCW – p. 96).

O conselheiro não pode se ocupar simplesmente em resolver problemas, pois cairá na tentação de dar a não crentes simples instruções de como viver bem e, caso funcione, estará afastando-os ainda mais de Jesus Cristo. Talvez aqui seja necessário lembrar que Jesus proferiu um de seus “ais” aos fariseus porque eles se esforçavam para fazer um novo converso, e uma vez feito isso, o tornavam filho do inferno duas vezes mais que eles (Mt 23.15). Lembre-se de que o ensino deles era a de salvação pela guarda da lei (distorcida, eu sei), sem um Redentor.

O princípio é o mesmo. Da mesma forma que o prosélito (novo convertido), convencido de que poderia ser justificado diante de Deus pela lei, desprezava a Cristo, o não crente que aprende apenas princípios para melhorar seu problema sem se dar conta de sua falta de capacidade, entenderá que não precisa de um Redentor.

Conselheiro, você não pode se contentar com uma meta tão baixa como essa. Isso qualquer terapeuta tem como alvo, segundo a sabedoria deste século. Você precisa querer mais!

Como proceder, então?

Agora talvez você esteja exatamente com essa pergunta em mente. É preciso, então, caminhar um pouco mais. Como bem afirmou Welch, “todos os aspectos da vida são vividos diante da face de Deus” – e levando em conta isso – “o aconselhamento bíblico procura lidar com esta característica central da nossa vida, sendo completo somente quando considera nosso relacionamento com Deus e nos dirige a ele”[2].

O aconselhamento bíblico, mais do que resolver problemas, tem por fim levar o aconselhado à maturidade e à conformação com Cristo Jesus, a fim de que ele aprenda a responder às suas circunstâncias, de forma piedosa, com a ajuda do Redentor.

Quando aconselhamos um cristão comprometido com Cristo, partimos do princípio de que ele sabe que deve viver para a glória de Deus e, ainda que ele tenha que ser relembrado desta verdade, ele tem todas as condições de “desenvolver a sua salvação”, pois Deus opera nele o querer e o realizar, conforme sua boa vontade (Fl 2.12,13).

Entretanto, diante de um não crente, o conselheiro tem de estar certo de que este aconselhado não tem condições de viver para glória de Deus, nem de responder piedosamente às suas circunstâncias. Deve manter em mente que o privilégio concedido pelo Senhor neste instante é mais do que tentar “curar superficialmente as feridas”, mas de talvez ser instrumento de Deus para uma mudança verdadeira que começa com a rendição a Jesus Cristo.

Alguns entendem que neste momento o conselheiro deveria parar o aconselhamento e apresentar o “plano de salvação”, para depois concentrar-se nos problemas. Creio, entretanto, que as duas coisas podem ser feitas concomitantemente.

Não crentes que procuram aconselhamento bíblico estão vivendo dilemas reais, dores reais e muitos estão esgotados com suas lutas. Não é sábio desconsiderar todas essas coisas e não é misericordioso não demonstrar compaixão.

Certa vez Jesus aproximou-se de uma mulher, perto de uma fonte, e começou uma conversa com a samaritana pedindo a ela “água”, culminando na afirmação da necessidade que aquela mulher tinha da “água viva” e que pediria essa água se entendesse quem era aquele que estava conversando com ela (Jo 4.1-10). Isso despertou a curiosidade da mulher que perguntou se ele era maior que Jacó, que havia dado a eles poço. Jesus afirmou, então, que quem bebia do poço de Jacó voltava a ter sede ao passo que bebendo de sua água, a sede cessaria para sempre. Isso fez com que a mulher pedisse, então, dessa água.

A história mostra que Jesus estava tratando da maior das necessidades da mulher, mas ele não ignorou seus dilemas pessoais, o que é visto quando ele pede para ele chamar o homem que ele sabia não ser o marido dela, que já havia tido cinco. A conversa segue com a mulher perguntando sobre adoração e ouvindo que o Pai procura adoradores que o adorem em Espírito e em verdade. É nesse ponto da história que ele se revela como o Messias que ela disse saber que estava para vir. Mais uma vez quero enfatizar. Jesus tratou o problema mais profundo daquela mulher, a falta de redenção, mas sem desconsiderar seu problema “superficial”.

Conselheiros devem rogar ao Senhor sabedoria a fim de abordar os problemas dos não crentes usando-os para mostrar a eles a necessidade de alguém que lute suas lutas e caminhe com eles, capacitando-os a responder de forma piedosa às circunstâncias que podem ou não melhorar. Esse caminho envolve arrependimento e fé no Salvador, Jesus Cristo.

Não se esqueça. Quando lidamos com não crentes, juntamente com a instrução do que fazer é necessário mostrar a eles a impossibilidade de fazerem sozinhos, anunciando-lhes que existe um Redentor que resolve o maior de todos os seus problemas, a fim de eles possam lidar com suas circunstâncias de uma forma que honre o Deus que liberta o pecador da miséria do pecado.

Não se contente em ser um simples “resolvedor de problemas”, mesmo porque você não tem condições para tal. Anuncie aos não crentes que porventura busquem o aconselhamento bíblico o Deus que “é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós” – para que – “a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!” (Ef 3.20-21).

Milton Jr.


[1] Jay Adams. Teologia do aconselhamento cristão, p. 14

[2] Edward T. Welch. Mas afinal, o que é o aconselhamento bíblico? – Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, v. 2, p. 172

terça-feira, 21 de março de 2017

Em Crise com Deus? Uma resposta bíblica.

 

 

0,,43818220,00Ao longo dos anos tenho visto cristãos enfrentando momentos muito preocupantes na vida. Por diversas razões experimentam uma espécie de esvaziamento espiritual. São crentes de verdade e mesmo assim, não conseguem encontrar alegria em Deus, regozijo em suas promessas e não encontram alegria e descanso ao orarem a Deus.

Como nossa geração está sendo treinada e incentivada a receber tudo o que deseja imediatamente, é claro que surgem sérios problemas, afinal, sabemos que no mundo real, nem tudo ocorre conforme planejamos e nem sempre podemos ter aquilo que queremos.

Além disso, o viver da aparência tomou conta do estilo de vida. As redes sociais proporcionam esta intensa visibilidade e, ninguém quer “fazer feio” publicamente.

Entretanto, apesar da aparência de felicidade exposta nas redes sociais, muitos irmãos e irmãs em Cristo enfrentam o dilema da falta de paz e a grande inquietação da alma.

Será que a Palavra de Deus pode nos ajudar a responder tais dilemas? Será que a Palavra de Deus pode ajudar aqueles que estão sofrendo neste sentido? A resposta é sim! O salmo 77 registra a experiência de Asafe, um levita, filho de Baraquias, descendente de Gerson, filho de Levi (1Cr 6:1; 6:39-43). Asafe foi um músico importante da época de Davi, e foi nomeado pelos principais levitas como responsável pela música, juntamente com Etã e Hemã, quando a arca foi transportada da casa de Obede-Edom para a cidade de Jerusalém (1Cr 15:16-19).

Algo perturbou profundamente Asafe. E ele agiu corretamente, ou seja, buscou tratar de seus dilemas do coração diante de Deus. Ele busca a Deus em oração (vers.1), ele reconhece sua angústia (vers. 2), declara que sua alma recusa consolar-se (vers.2), ele se lembra de Deus e não encontra paz, pelo contrário, ele geme e perde as forças (vers.3), está tão perturbado com tudo o que estava acontecendo que não conseguia dormir (vers.4), busca aliviar o tormento do coração lembrando do passado (vers. 5), e tudo isso o leva a fazer indagações injustas a Deus.

Não sabemos pelo que Asafe estava passando. E não pretendo aqui neste breve artigo sugerir alguma possibilidade. O que podemos constatar de fato é que Asafe estava profundamente perturbado. Podemos constatar que foi algo progressivo. Constatamos que ele buscou a Deus em oração e apresentou toda sua angústia ao Altíssimo.

Asafe parece estar perplexo e frustrado. Sua angústia e sofrimento o levam a duvidar do caráter de Deus. Esta é sempre a última tentativa de uma alma amargurada. Acusar o Criador como responsável por todos os males sobre si.

Vejamos a sequência de perguntas estranhas apresentadas por Asafe:

1 - Rejeita o Senhor para sempre?

2 - Acaso, não torna a ser propício?

3 - Cessou perpetuamente a sua graça?

4 - Caducou a sua promessa para todas as gerações?

5 - Esqueceu-se Deus de ser benigno?

6 - Ou, na sua ira, terá ele reprimido as suas misericórdias?

Percebam que houve um processo gradativo na experiência descrita por Asafe. Ele estava sofrendo muito por algo que não sabemos precisamente. Ele buscou a Deus, orou, sondou sua própria alma, angustiou-se e enfim, voltou toda sua atenção contra Deus. Tais perguntas apresentadas de forma sincera, são ofensivas a Deus pois ele não é assim.

Quantos cristãos atualmente não fizeram a mesma pergunta? Quantas vezes ouvimos alguém dizer “acho que Deus se esqueceu de mim?”. Quantas vezes Deus foi acusado de não ser bom?

Quando a tribulação ou o pecado não confessado perturbam a alma e a mente a tal ponto, a perspectiva de Deus é atingida profunda e injustamente e acusações são apresentadas como desconfiança moral contra Deus. Não podemos esquecer que Deus é bom e a sua misericórdia nos alcança insistentemente.

(19) Lembra-te da minha aflição e do meu pranto, do absinto e do veneno. (20) Minha alma, continuamente, os recorda e se abate dentro de mim. (21) Quero trazer à memória o que me pode dar esperança. (22) As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; (23) renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade. (24) A minha porção é o SENHOR, diz a minha alma; portanto, esperarei nele. (25) Bom é o SENHOR para os que esperam por ele, para a alma que o busca.

Lamentações 3. 19-25

No verso 10 vemos uma abrupta mudança de perspectiva. Asafe reconhece que era sua percepção errada sobre tudo que estava fazendo com que ele olhasse com desconfiança para Deus. Ele disse: isso é a minha aflição... mudou-se a destra do Altíssimo. Parece que este pensamento o fez respirar novamente.

Há agora todo um processo desencadeado pela correta visão de Deus e pela confiança completa naquele que é o Altíssimo.

Asafe reconhece o poder do Senhor, reconhece seus poderosos feitos, pensa nas obras das mãos do Senhor, reconhece as misericórdias sobre o povo.

Não sabemos o que afligiu tão profundamente Asafe ao ponto de ficar tão perturbado. O que podemos afirmar com certeza é que, mesmo diante de tal gravidade da alma, o nosso Deus é poderoso para iluminar as profundezas do coração.

Por isso continuamos a afirmar que, em se tratando dos dilemas da alma, a Palavra do Senhor é a única suficientemente competente para tratar e corrigir os rumos da alma aflita. Não há outro instrumento que se compare a Palavra de Deus.

Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.

Hebreus 4.12

sábado, 18 de março de 2017

Há seis anos…

Por volta dessa época, há seis anos, foi publicado o primeiro texto do Aconselhando com Bíblia. Dentre as expectativas que abrigávamos, a de que Deus nos usasse para a publicação de textos sobre aconselhamento bíblico era a maior. Os desafios de se manter um blog atualizado e com bom conteúdo sobre o tema nos esperava, mas seguíamos na confiança do Senhor.tumblr_np4ydnnqhm1rjb3bzo1_500

Foi então que nos damos conta que já se passaram seis anos. Alguém poderia dizer que nosso blog já entrou para a UCP (União de Crianças Presbiterianas).

Percebemos, também, que além do tempo que passou, algumas outras coisas que nos alegraram o coração também nos ocorre, e gostaríamos de compartilha-las com você, nosso leitor, que tem apoiado e divulgado nosso blog.

Nesse momento, alguns textos nos vêm à memória, tais como: "Com efeito, grandes coisas fez o SENHOR por nós; por isso, estamos alegres" (Sl 126:3), ou "Tomou, então, Samuel uma pedra, e a pôs entre Mispa e Sem, e lhe chamou Ebenézer, e disse: Até aqui nos ajudou o SENHOR" (1 Samuel 7:12). Deste privilegiado ponto da história, de onde nos é possível olhar para trás, podemos ver a jornada a que nos conduziu o Senhor, e assim, nos regozijamos com o salmista e com ele fazemos coro: Estamos alegres! Reconhecemos que em primeiro lugar que, por ter Deus nos ter permitido existir e publicar ao longo desses 6 anos, sua bondade foi inequívoca. Dentre os muitos afazeres pastorais, achar tempo para se dedicar para algo que não está diretamente ligado ao que estamos fazendo como pastores de igrejas locais é muito complicado. Entretanto, Deus em sua bondade, reservou o tempo de modo a que tenhamos conseguido manter o blog atualizado. Reconhecemos que ainda há espaço para melhorias, mas não podemos evitar a alegria de quando olhamos para trás, ver o que Deus tem feito por nós.

Também reconhecemos, com grata humildade, o sacro privilégio que é poder, de alguma forma, abençoar a vida de quem nos lê. Alguns leitores testificaram assim, então, se isso aconteceu em algum momento durante suas leituras aqui neste blog, nós creditamos tal feito à Deus. O desejo de cada dos autores aqui foi servir ao povo de Deus com textos que os ajudasse a ver nas Sagradas Escrituras que tudo de que necessitam para a vida e piedade lhes estava graciosamente proposto por revelação divina em suas páginas. Ainda assim, se Deus assim o quis fazer, foi por sua imensa graça e motivado pelo seu amor.

Nós também reconhecemos que, no processo, Deus foi servido nos ensinar muitas lições. A maioria delas compartilhada sob a forma de uma reflexão sincera e biblicamente orientada. Ainda que uma ou outra lição tenha sido deixada "como oferta queimada" sobre o altar, de modo que somente Deus ficou sabendo, há em muito maior quantidade lições aprendidas e compartilhadas. Damos graças a Deus pela santificação, atrás da qual todos nós, seus filhos, podemos crescer rumo ao ideal divino, que inúmeras vezes já escrevemos aqui, qual seja, o de nos tornar a cada dia mais parecidos com Cristo.

Por fim, ao considerar o passado, e por eles constatar a bondade do Senhor, somos inevitavelmente encorajados a olhar para o futuro, com esperança. Calma... Nossa esperança aqui é Cristo (Col 1.27; 1 Tm 1.1), e ele nos ensina a ver a vida com esperançoso realismo. Foi exatamente assim que começamos, e será assim que planejamos continuar.

Deixamos, então, um convite à ação de graças e o pedido por suas constantes orações a nosso respeito. Que seja Deus servido usar o nosso trabalho aqui no blog, para Sua própria glória, e edificação de seu povo!

quarta-feira, 15 de março de 2017

Autoridade, autoritários e anarquistas

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As autoridades procedem de Deus. Sim, é verdade, está nas Escrituras Sagradas. Paulo afirmou categoricamente aos Romanos que “não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas” (Rm 13.1). A ordem da criação aponta para esta sublime realidade.

Digo que é uma realidade sublime “porque o Senhor é o Deus supremo e o grande Rei acima de todos os deuses” (Sl 95.3) além de ser o Soberano Senhor que criou todas as coisas (At 4.24; Ne 9.6). Ele é a Suprema autoridade e, na criação, estabeleceu todas as coisas sob a estrutura de autoridade. Deus, o Soberano, criou Adão e de Adão criou Eva, para ser sua auxiliadora idônea (Gn 2.18). O homem se submeteria a Deus e a mulher ao homem e a Deus.

É claro que essa submissão não implica inferioridade. Paulo explica bem esse ponto quando diz aos coríntios: “Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo” (1Co 11.3). Dizer que a mulher é inferior por ser submissa ao homem seria o mesmo que dizer que Cristo é inferior ao Pai, o que constitui uma heresia.

O mesmo princípio de autoridade é visto nos pais, em relação aos filhos, nos presbíteros em relação às ovelhas e nos governos em relação ao povo, por exemplo. Por essa razão os Puritanos entendiam que a quebra do 5º mandamento não se limitava à desobediência aos pais. Na resposta à pergunta 124 do Catecismo Maior de Westminster lemos que “as palavras ‘pai’ e ‘mãe’, no quinto mandamento, abrangem não somente os próprios pais, mas também todos os superiores em idade e dons, e especialmente todos aqueles que, por ordenação de Deus, estão colocados sobre nós em autoridade, quer na família, quer na Igreja, quer no Estado”.

Algo deve ser destacado aqui. A posição bíblica de autoridade implica no cuidado para com aqueles que estão sob autoridade. Deus, o Soberano Senhor, proveu para o homem tudo o que lhe era necessário por ocasião da criação e o homem deveria refletir esse cuidado para com a mulher (e futuramente filhos) instruindo-a a respeito da vontade do Senhor e sendo o mantenedor de sua casa.

Com a entrada do pecado veio a corrupção da estrutura de autoridade. É interessante notar algo na tentação. Satanás se dirige primeiramente à mulher, que deveria ser submissa ao homem e à Deus, e propõe a anarquia. Pense um pouco sobre a afirmação da serpente: Deus proibiu comer o fruto, pois sabia que eles seriam como ele, conhecedores do bem e do mal (Cf. Gn 3.1-5). Segundo as palavras de Satanás, não haveria mais submissão, todos estariam em pé de igualdade, inclusive em relação a Deus. Daí o Senhor, ao punir o pecado, lembrar que ela continuaria submissa ao marido que continuaria a governa-la (Gn 3.16). O grande problema é que, em pecado e rebelião contra Deus, a submissão seria bastante difícil e traria muitos conflitos.

Cristãos devem lutar contra o ímpeto anarquista. Esposas devem submeter-se ao marido, como a igreja é submissa a Cristo. O movimento feminista e sua ânsia de “empoderar” as mulheres não difere em nada de Satanás que propôs o “empoderamento” de Eva a fim de ser como Deus. Irmãs, cuidem para não sucumbir à voz do tentador que continua a ecoar desde o Éden. Filhos devem obedecer a seus pais, sabendo que não são seus iguais. Ovelhas devem dar ouvidos a seus pastores, como instrui o escritor aos Hebreus: “Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isso com alegria e não gemendo; porque isso não aproveita a vós outros” (Hb 13.17). Cidadãos devem respeitar seus governantes e orar por eles (Rm 13.1; Tt 3.1; 1Pe 2.13; 1Tm 2.1-2) a fim de honrarem a Deus.

É claro que há limites para a submissão às autoridades. Se formos ordenados a pecar contra Deus, importa obedecer a Deus que aos homens (At 5.29) e isso nos leva ao outro lado da moeda, ou melhor, da distorção da estrutura de autoridade, como você notará.

Se a anarquia é pecaminosa, pois anseia a ausência de autoridade, estabelecida por Deus na criação, a tirania, que é o extrapolar da autoridade, colocando a vontade do governante acima das leis, não é menos pecaminosa. Isso pode ser visto já em Gênesis quando Lameque chama suas esposas e as amedronta ao se gabar de sua violência contra um homem que o havia ferido e um rapaz que tinha esbarrado nele (Gn 4.23).

Governar infligindo medo é tirania e muitos governantes, pastores e pais acabam pecando desta forma. Mas outra forma mais sútil de tirania, pois para muitos é expressão da autoridade bíblica, é quando se exige obediência cega. Esse tipo de obediência é visto na história quando governantes, por mais corruptos e injustos que sejam, são venerados por seus súditos. Isso pode acontecer na igreja, daí a exortação de Pedro para que os presbíteros pastoreiem não como dominadores do rebanho, mas como modelos (1Pe 5.3). Isso acontece em famílias, quando os pais dão determinadas ordens aos filhos sem explicar as razões para tal. Isso é tirania.

Cristãos podem e devem evitar agir assim pois estão unidos a Cristo e são habilitados a cumprir o que ele ordena. Mais ainda, porque têm nele o grande exemplo de liderança.

Jesus, o único que poderia exigir obediência sem explicar as razões, disse a seus discípulos: “Já não vos chamo servos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer”. Com isso Jesus não estava propondo igualdade. Ele afirmou isso após condicionar a amizade à obediência dizendo “vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando” (Jo 15.14,15). Ele também havia dito: “Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque eu o sou” (Jo 13.13).

Jesus se disse amigo, pois para haver amizade é preciso se dar a conhecer, é preciso revelação. E ele revelava a seus discípulos a vontade de seu Pai. Por saber as razões para a obediência é que João pôde escrever que “os mandamentos não são penosos” (1Jo 5.3). Jesus não é um tirano que exige obediência cega, pais, governantes e pastores também não podem ser. Jesus também serve e cuida dos que estão sob sua autoridade e demonstrou isso na prática ao lavar os pés aos discípulos, mesmo assentindo que ele era o Mestre e o Senhor (Jo 13.14).

Se você está em posição de autoridade, mire-se em seu Senhor. Se você está em posição de submissão, mire-se nele também, pois em submissão ao Pai “a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.8). Com ele aprendemos e nele somos capacitados a lidar com a autoridade, não sendo anarquistas nem tampouco tiranos.

Milton Jr.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Compartimentalizando a Vida: uma estratégia sagaz contra a suficiência das Escrituras

Nossa época está sendo marcada por inúmeras características, e obviamente não temos espaço para listá-las todas. Para quem se dedica ao aconselhamento bíblico, entretanto, uma dessas características é francamente mais percebida: a resistência, aberta ou velada, à aceitação da Escritura como suficiente para aconselhar pessoas com problemas realmente difíceis.

Qualifiquei com maiores detalhes as dificuldades com a doutrina da suficiência das Escrituras porque a maioria das pessoas que sustenta uma confissão de fé cristã não veria qualquer problema em dizer que para assuntos ligados à fé (ou salvação) a Bíblia é a regra. Igualmente não teriam problemas em ver as Escrituras lidando com problemas correlacionados à fé, tais como santificação pessoal, por exemplo.

Mas quando o assunto for realmente sério, podemos recorrer à sabedoria bíblica para resolvê-lo? Ainda que tenha sido de uma maneira ligeiramente diferente, foi assim que no passado uma jornalista apresentou ao dr. Wayne Mack suas dúvidas com respeito ao aconselhamento. Ele se referiu a esta ocasião em uma das vezes que esteve no Brasil ensinando sobre justamente a suficiência das Escrituras no Aconselhamento. Muitos já se passaram desde a pergunta e sua resposta, mas ainda hoje há quem nutra honestamente a mesma dúvida. Sendo assim, de uma forma ou de outra, conselheiros cristãos tem hoje que também lidar com a questão, e devem apresentar uma resposta que vá além da crença pessoal e particularizada que as pessoas esperam ouvir de "religiosos".Imagem relacionada

Infelizmente, a resposta pode ser parte do problema. Me permita a explicação: somos nós, os "evangélicos" (infelizmente essa palavra ficou muito desgastada, por isso as aspas) que colaboramos com a imagem deturpada que diminui o poder e o alcance das Escrituras. Damos ao "sagradas" das Escrituras Sagradas um limite hermeticamente religioso. Somos (como evangélicos) os primeiros a enxergar na Bíblia assuntos de ordem "espiritual" - entendido como mais um dentre outros compartimentos da vida - que dizem respeitos a problemas superficiais de relacionamento, para os quais a nossa "religião" tem resposta. Uma evidência disso é a superênfase na família como assunto principal da fé cristã. Como resultado, temos muita gente querendo ter um casamento abençoado, ainda que isso nada tenha que ver diretamente com o Senhor Jesus, sua cruz e as doutrinas da graça. Obviamente isso não quer dizer que o tema "família" não seja importante, ou não deva receber atenção da Igreja. Mas quando isso se torna o carro chefe temático da Igreja, Cristo se torna um meio para um fim, e não aquele de quem a igreja depende e para quem existe.

O problema, contudo, está em se concordar que por "religioso" exclui-se a vida comum, o cotidiano, a dinâmica da vida diária, e confina-se seu significado à esfera da "igreja", da "espiritualidade", dá "fé". Aos poucos os evangélicos assumiram a compartimentalização da vida vigente no mundo e as repetiu dentro da Igreja, de modo que se presume haver um compartimento religioso, que figura dentre tantos outros. E no fim essa cadeia de compartimentos, resta uma pergunta sem resposta nesse universo fechado e hermético: Visto que o pastor é um ministro religioso, como ele poderia ajudar quando o problema for mais sério, visto que ele usa como sua ferramenta principal a Bíblia?

Dado esse contexto, se reveste de importância o que Jay Adams disse há muito quando escrevia sobre a "dimensão" espiritual do casamento. O artigo original, publicado em inglês (in: The Journal of Pastoral Practice, 1989, p. 38-44.) já se encontra em português, sob o título "A Dimensão Espiritual do Relacionamento Conjugal" (Vol.7 das Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, publicado pelo SBPV, p. 130-135). Convidado a falar do tema que dava título ao artigo, Adams relembrou que tratar da dimensão de alguma coisa pressupões uma dimensão entre outras, o que aponta para uma mera perspectiva aplicada a qualquer assunto de que se trate. Se entendida dessa forma, a dimensão espiritual de qualquer coisa é mais uma entre outras, com as quais esta dimensão pode até ser conflitante.

Seguindo essa mesma linha de raciocínio, a dimensão espiritual não faz parte essencial do que se estuda, mas é um aspecto, um ângulo espiritual a respeito do qual se pode falar sobre o assunto em questão. Visto desta forma, a "espiritualidade" é um compartimento entre tantos, cujas paredes o isolam dos demais compartimentos: casa, trabalho, vida social, alimento físico, casamento, sociedade, criação de filhos, vida intrapsíquica, redes sociais, etc. Entretanto, a dimensão espiritual da vida não é um "mero ângulo da questão", mas "o caminho para atingir cada ângulo", relembra Adams. Nesse sentido, a dimensão espiritual é aquela na qual todas as demais se desenvolvem, e dela dependem.

Pense num pote de vidro cheio de pedrinhas, ou bolinhas de gude. Embora pareça cheio, existem pequenos espaços entre as pedras ou bolinhas que não preenchem totalmente o espaço do vidro. Se adicionarmos, por exemplo, água, tais espaços são preenchidos. Agora imagine que este pote de vidro não está somente cheio de água e pedras, mas que o próprio pote está submerso em água, de modo que agora haja há água dentro dele, fora dele, permeando cada aspecto dele. Essa água pode ser entendida como a dimensão na qual está o vidro com as pedras. A analogia pode ser falha em muitos aspectos, mas o que ela quer salientar é que a dimensão espiritual encapsula as demais, e não compete com elas.

Não estaremos falando à nossa época se não estivermos conscientes da divisão espúria que é feita entre a vida e suas várias dimensões, dentre elas uma espiritual, e a verdade de que nossa espiritualidade governa cada aspecto do ser e suas expressões (quer emocionais, comportamentais, sentimentais, culturais, acadêmicas, etc.) não deixando nada de fora.

Somos seres religiosos e o que fazemos é, em última instância, governado pelos princípios de nosso coração religioso. Enquanto não lidarmos com essa divisão, haverá dificuldades, reservas, qualificações e outras barreiras potenciais à aceitação da Escritura como suficiente para aconselhar pessoas com problemas sérios, cuja esfera vá além daquela obviamente religiosa.

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