quarta-feira, 8 de março de 2017

Compartimentalizando a Vida: uma estratégia sagaz contra a suficiência das Escrituras

Nossa época está sendo marcada por inúmeras características, e obviamente não temos espaço para listá-las todas. Para quem se dedica ao aconselhamento bíblico, entretanto, uma dessas características é francamente mais percebida: a resistência, aberta ou velada, à aceitação da Escritura como suficiente para aconselhar pessoas com problemas realmente difíceis.

Qualifiquei com maiores detalhes as dificuldades com a doutrina da suficiência das Escrituras porque a maioria das pessoas que sustenta uma confissão de fé cristã não veria qualquer problema em dizer que para assuntos ligados à fé (ou salvação) a Bíblia é a regra. Igualmente não teriam problemas em ver as Escrituras lidando com problemas correlacionados à fé, tais como santificação pessoal, por exemplo.

Mas quando o assunto for realmente sério, podemos recorrer à sabedoria bíblica para resolvê-lo? Ainda que tenha sido de uma maneira ligeiramente diferente, foi assim que no passado uma jornalista apresentou ao dr. Wayne Mack suas dúvidas com respeito ao aconselhamento. Ele se referiu a esta ocasião em uma das vezes que esteve no Brasil ensinando sobre justamente a suficiência das Escrituras no Aconselhamento. Muitos já se passaram desde a pergunta e sua resposta, mas ainda hoje há quem nutra honestamente a mesma dúvida. Sendo assim, de uma forma ou de outra, conselheiros cristãos tem hoje que também lidar com a questão, e devem apresentar uma resposta que vá além da crença pessoal e particularizada que as pessoas esperam ouvir de "religiosos".Imagem relacionada

Infelizmente, a resposta pode ser parte do problema. Me permita a explicação: somos nós, os "evangélicos" (infelizmente essa palavra ficou muito desgastada, por isso as aspas) que colaboramos com a imagem deturpada que diminui o poder e o alcance das Escrituras. Damos ao "sagradas" das Escrituras Sagradas um limite hermeticamente religioso. Somos (como evangélicos) os primeiros a enxergar na Bíblia assuntos de ordem "espiritual" - entendido como mais um dentre outros compartimentos da vida - que dizem respeitos a problemas superficiais de relacionamento, para os quais a nossa "religião" tem resposta. Uma evidência disso é a superênfase na família como assunto principal da fé cristã. Como resultado, temos muita gente querendo ter um casamento abençoado, ainda que isso nada tenha que ver diretamente com o Senhor Jesus, sua cruz e as doutrinas da graça. Obviamente isso não quer dizer que o tema "família" não seja importante, ou não deva receber atenção da Igreja. Mas quando isso se torna o carro chefe temático da Igreja, Cristo se torna um meio para um fim, e não aquele de quem a igreja depende e para quem existe.

O problema, contudo, está em se concordar que por "religioso" exclui-se a vida comum, o cotidiano, a dinâmica da vida diária, e confina-se seu significado à esfera da "igreja", da "espiritualidade", dá "fé". Aos poucos os evangélicos assumiram a compartimentalização da vida vigente no mundo e as repetiu dentro da Igreja, de modo que se presume haver um compartimento religioso, que figura dentre tantos outros. E no fim essa cadeia de compartimentos, resta uma pergunta sem resposta nesse universo fechado e hermético: Visto que o pastor é um ministro religioso, como ele poderia ajudar quando o problema for mais sério, visto que ele usa como sua ferramenta principal a Bíblia?

Dado esse contexto, se reveste de importância o que Jay Adams disse há muito quando escrevia sobre a "dimensão" espiritual do casamento. O artigo original, publicado em inglês (in: The Journal of Pastoral Practice, 1989, p. 38-44.) já se encontra em português, sob o título "A Dimensão Espiritual do Relacionamento Conjugal" (Vol.7 das Coletâneas de Aconselhamento Bíblico, publicado pelo SBPV, p. 130-135). Convidado a falar do tema que dava título ao artigo, Adams relembrou que tratar da dimensão de alguma coisa pressupões uma dimensão entre outras, o que aponta para uma mera perspectiva aplicada a qualquer assunto de que se trate. Se entendida dessa forma, a dimensão espiritual de qualquer coisa é mais uma entre outras, com as quais esta dimensão pode até ser conflitante.

Seguindo essa mesma linha de raciocínio, a dimensão espiritual não faz parte essencial do que se estuda, mas é um aspecto, um ângulo espiritual a respeito do qual se pode falar sobre o assunto em questão. Visto desta forma, a "espiritualidade" é um compartimento entre tantos, cujas paredes o isolam dos demais compartimentos: casa, trabalho, vida social, alimento físico, casamento, sociedade, criação de filhos, vida intrapsíquica, redes sociais, etc. Entretanto, a dimensão espiritual da vida não é um "mero ângulo da questão", mas "o caminho para atingir cada ângulo", relembra Adams. Nesse sentido, a dimensão espiritual é aquela na qual todas as demais se desenvolvem, e dela dependem.

Pense num pote de vidro cheio de pedrinhas, ou bolinhas de gude. Embora pareça cheio, existem pequenos espaços entre as pedras ou bolinhas que não preenchem totalmente o espaço do vidro. Se adicionarmos, por exemplo, água, tais espaços são preenchidos. Agora imagine que este pote de vidro não está somente cheio de água e pedras, mas que o próprio pote está submerso em água, de modo que agora haja há água dentro dele, fora dele, permeando cada aspecto dele. Essa água pode ser entendida como a dimensão na qual está o vidro com as pedras. A analogia pode ser falha em muitos aspectos, mas o que ela quer salientar é que a dimensão espiritual encapsula as demais, e não compete com elas.

Não estaremos falando à nossa época se não estivermos conscientes da divisão espúria que é feita entre a vida e suas várias dimensões, dentre elas uma espiritual, e a verdade de que nossa espiritualidade governa cada aspecto do ser e suas expressões (quer emocionais, comportamentais, sentimentais, culturais, acadêmicas, etc.) não deixando nada de fora.

Somos seres religiosos e o que fazemos é, em última instância, governado pelos princípios de nosso coração religioso. Enquanto não lidarmos com essa divisão, haverá dificuldades, reservas, qualificações e outras barreiras potenciais à aceitação da Escritura como suficiente para aconselhar pessoas com problemas sérios, cuja esfera vá além daquela obviamente religiosa.

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