terça-feira, 25 de abril de 2017

Os resultados de nossas escolhas: meditando sobre as escolhas de Saul e Davi como reis de Israel

Qual é, afinal, o perigo de acharmos que podemos governar o nosso próprio destino? Qual é o problema de se querer governar, ainda que só por um pouco, o curso da própria vida? Na busca por respostas, devemos evitar extremos, tal como acabar exaltando o papel das escolhas individuais, como que querendo determinar o futuro a partir delas. Entretanto, é inegável que elas, as escolhas, tenham seu papel e sua importância.

Mesmo assim, algumas vezes é difícil convencer um aconselhado de que a maneira como ele vem fazendo suas escolhas não leva em consideração a vontade revelada de Deus para sua vida, por conta da dificuldade de mostrar com clareza como Deus rejeita este ou aquele tipo de escolha. A tarefa pode parecer fácil à primeira vista. Contudo, quando o aconselhado enfrenta decisões com respeito a coisas importantes são levadas em conta uma centena de detalhes, cuja análise pode ser bem trabalhosa, principalmente quando o conselheiro não vê como fazê-lo de modo biblicamente convincente.

A comparação dos detalhes das escolhas de dois reis em Israel, qual sejam Saul e Davi, pode ser de grande valor nestas horas. Esta comparação pode prover os subsídios bíblicos para se comprovar que há sim um tipo de escolha, ou se preferir, uma maneira de fazer escolhas que Deus rejeita.

Saul se tornaria o primeiro rei de Israel. Antes dele, porém, Israel estava sob o governo dos juízes. Alguns juízes se destacaram na história do povo israelita, mas o profeta Samuel teve papel especial. O mesmo não se pode dizer de sua descendência. Os filhos de Samuel cresceram, mas para infelicidade do profeta e do povo, esses filhos se tornam maus e eram um péssimo exemplo (1 Sam 8:3). A dificuldade se tornava a cada mais óbvia: Samuel envelhecera, e a experiência com os filhos na qualidade de novos juízes (1 Sam 8:1) levaram os anciãos do povo a clamar por nova liderança antes que Samuel partisse, antes que fosse tarde demais para uma transição pacífica. Alguém poderia dizer que nada há de condenável na motivação, entretanto, quando a estratégia toma corpo, lemos que eles, os anciãos, propões que Israel tenha um rei, não tanto em virtude do contexto, mas também porque todas as nações ao redor já tinham o seu (1 Sam 8.5).

Para entendermos os perigos que cercam a motivação por trás do pedido, é importante se perceber o que se escondia no coração do povo, mas que fora evidenciado pelo pedido. Note que as racionalizações apresentadas pelo povo ali representado por seus anciãos não agradaram a Samuel. Os motivos do desagrado do profeta não ficam claro, mas sabemos o que ele fez: Samuel buscou ao Senhor (1Sam 8:6). Então é que somos informados que a rejeição do regime até então adotado por Israel, qual seja, o ser governada pelos juízes, na verdade se perfazia como rejeição ao próprio Deus (1 Sam 8.7; 10.19). O povo rejeitava a regência de Deus através dos juízes e profetas, mas Deus, ainda assim, lhes atenderá à voz (1 Sam 8.9, 22).

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Em seguida ao relato dos avisos quanto ao que estavam pedindo e os perigos que envolviam ter um rei (1 Sam 8:10-20), segue-se a narrativa da escolha de Saul (1 Sam 9:1ss). Ao começar o capítulo 9 porém, temos uma descrição de Saul bastante chamativa e reveladora, que destaca sua beleza e altura. Saul atendia ao padrão de rei de qualquer povo à sua volta: era alguém com "presença". Ele tinha postura, chamava a atenção, era bonito. Era um rei que poria medo nos inimigos por conta de sua estatura, mas seria ao mesmo tempo uma figura agradável para povo, por conta de sua beleza. Saul era um rei conforme a escolha do povo. Ele era um rei conforme o coração de Israel... A escolha parecia perfeita.

Essa conclusão equivocada só seria posta à prova quando da escolha do rei Davi. O Senhor se desagradou de Saul e agora enviara Samuel a ungir um novo rei (1 Sam 17.35; 16.1). É curioso notar que a escolha de Saul trouxe resultados nefastos, e Israel precisava de um novo rei justamente como resultado da escolha do primeiro. Os parâmetros, entretanto, para a escolha da Davi, contrariavam todos os anteriormente usados na escolha de Saul (1 Sam 16.7). Davi não se sobressaia por sua altura ou imponência, mas por seu coração. Desse, do coração, diz o Senhor ter se agradado. E tal como fez com Saul anos antes, Samuel ungi Davi como rei. Como os novos parâmetros deveriam ficar claros, cada um dos irmãos de Davi passaria por Samuel para mostrar que a escolha do Senhor obedecia a outros padrões (1 Sam 16.8-12). Davi era um rei conforme a escolha de Deus. Ele era um rei conforme o coração de Deus (1 Sam 13.14)... A escolha parecia tudo, menos perfeita.

davi

É possível ver, em linhas gerais, que os parâmetros das escolhas foram bem diferentes. Saul era o retrato da aparência, Davi do homem interior. Saul era alto, Davi não. Saul ganharia facilmente qualquer concurso de beleza israelita... Davi era agradável de se ver, mas não seria capa de revista. Saul impressionaria os povos vizinhos pela simples aparição de sua figura, ao passo que Davi teria que se provar inúmeras vezes por seus atos. Saul desobedeceu sem retroceder enquanto Davi humildemente confessou seu pecado. Saul era equivalente ao que se podia ver lá fora, no "mundo" ao redor do povo de Deus. Davi era uma amostra da humildade do povo sobre o qual governou. Em resumo, Saul retratava a escolha do povo conforme os padrões mundanos, mas Davi tinha qualidades que o olho não poderia ver, sem o auxílio da revelação de Deus.

Nossas escolhas hoje não diferem das de Israel no passado, e nossos aconselhados quando chegam em busca de ajuda sofrem, em muitos aspectos, os resultados de suas escolhas do passado. Ainda que as escolhas não determinem restritivamente o resultado final, é inequívoco que Deus controle soberanamente os resultados de nossas escolhas de modo que colhamos o que plantamos, estejamos conscientes ou não do plantio. Tal como a escolha de Saul, os caminhos errados que o aconselhado toma pode pedir por uma revisão dos parâmetros adotados para tomadas de decisões. E esta bem que poderia ser apontada como a primeira e mais básica lição a aprender, respondendo à pergunta inicial sobre qual é o problema de se querer governar, ainda que só por um pouco, o curso da própria vida: insistir nos moldes que resultaram no sofrimento atual, como quem diz que basta tentar de novo, só que agora "com mais força, empenho", não é só tolice, mas o prenúncio de mais sofrimento.

Uma segunda lição, mais geral e ainda assim valiosa diz respeito ao método de Deus nos ensinar como nossas escolhas refletem os parâmetros equivocados que adotamos. O método de Deus pode levar tempo, mas ele atinge o objetivo pedagógico intentado por Deus. Obviamente que podemos nos fazer surdos ao ensino de Deus, mas como disse C.S. Lewis, o sofrimento é o megafone de Deus para um mundo ensurdecido. Então, quando o sofrimento faz sua voz ser ouvida pela dor, e este é o resultado de escolhas baseadas em parâmetros desaprovados por Deus, é sensato parar e reavaliar o que conduziu àquele estado de coisas.

Esta comparação, em terceiro lugar, nos ensina mais uma última lição sobre o perigo de acharmos que podemos governar o nosso próprio destino: não podemos nos esquivar de levar em consideração que Deus pode deixar-nos usufruir dos efeitos de nossas escolhas malfeitas, como foi o caso com Israel em relação a Saul. Por mais essas consequências não sejam eternas, elas podem não ser assim um tempo tão curto. Deus tem propósitos maiores nesta permissão, mas não podemos deixar de fora da equação o fato: Deus nos deixa provar de nossas escolhas ruins para que fique evidentemente claro que elas não nos levam a santos e bons resultados, tais como as que Ele quer que tomemos.

A última nota dessa sinfonia, contudo, não é triste. O arrependimento e a busca pelo Senhor e sua vontade nos conduzem a novos caminhos, que ensejam esperança e renovo. Davi representava isso. Ele era o resultado da vontade de Deus para o povo, e os resultados falam por si: Davi se tornou o padrão de rei em Israel, de modo que quando um rei fazia o que era "bom e reto diante do Senhor", não importando quanto tempo ele viesse, ele fazia "conforme Davi, seu pai". Quando nos voltamos aos caminhos do Senhor e procuramos fazer escolhas estabelecidas sobre Seus parâmetros, ou seja, que reflitam Seu querer e seus padrões, mostramos disposição em seguir Sua vontade e não de guiar nossa vida. Desta forma estamos a caminho da restauração, da felicidade e da bem-aventurança. E embora tais coisas sejam benditos efeitos colaterais de escolhas abençoadas, o grande e maior benefício se resume em glorificar a Deus e desfruta-lo para sempre.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Deus cuida de nós enquanto cuidamos de outros – ou – Lições aprendidas ao aconselhar minha filha

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Filhos são herança do Senhor. Deus nos concede a bênção de ter filhos e, juntamente com isso, o privilégio e responsabilidade de instruí-los no caminho da justiça. De acordo com o texto de Deuteronômio esta instrução não deve acontecer somente em momentos específicos e/ou pontuais, mas as palavras ordenadas por Deus devem estar no coração dos pais para que “inculquem” e falem delas aos filhos “assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te” (6.7), ou seja, em todo o tempo.

Pais devem estar atentos a todas as oportunidades concedidas pelo Senhor para pastorear e ministrar ao coração dos filhos e hoje tive um desses momentos. Tenho dois lindos filhos, herança preciosa do Senhor, mas, como puxaram os pais, pecadores. Triste sorte, não fosse a esperança que há no evangelho do Redentor Jesus Cristo. Pela manhã um episódio simples serviu para eu ver como o Senhor Deus opera graciosamente em seus filhos.

Eu tinha pegado em uma lanchonete fast-food alguns gorros dos Smurfs de papelão, para montar, e Fernanda, minha filha mais velha, montou para ela e para Filipe, meu mais novo. Ele reclamou que o dele tinha rasgado e eu fui ver. Constatamos (eu e Fernanda) que não havia rasgado e que somente havia desencaixado uma parte da outra. Eu, entretanto, verifiquei também que Fernanda tinha encaixado da forma errada e disse isso a ela que prontamente respondeu: “Está certo, eu li as instruções”. “-Minha filha, está errado”. “-Não está não!”, falou ela já em tom choroso.

Como recentemente havia acontecido outros episódios em que ela não se deixava instruir, demonstrando todo o seu orgulho, eu lhe disse: “-Tá bom sabichona, você está certa”. Isso a deixou inquieta: “-Não sou sabichona”. “-É claro que é minha filha, você sabe mais que seu pai”, dizia eu enquanto ela me ignorava. Esta última atitude me fez falar de forma mais dura com ela que ouviu um pouco mais sobre o quanto estava sendo orgulhosa, sobre o não querer aprender e me viu ir para o quarto ajudar Filipe com outra coisa.

Não passou muito tempo, vem ela, chorosa, pedindo perdão. Perguntei a respeito da razão para o pedido e ela disse que era por ter me ignorado e ter sido orgulhosa. Como conselheiro bíblico que sou, vi então a oportunidade de ministrar ao coração da minha primogênita, afinal, conheço bem Deuteronômio 6! Falei que ela ainda estava em fase de aprendizado e que, por mais que já soubesse algumas coisas, ainda não sabia mais que o seu pai. Disse que o orgulho leva as pessoas a não aprenderem, pois se já entendem que sabem tudo, nunca irão querer aprender com outros. Disse ainda que Deus não se agrada de soberbos (Tg 4.6) e que o Senhor Jesus, a pessoa mais sábia que existe, era humilde, então, precisamos olhar para ele e buscar nele o desejo de ser semelhante ele é e que somente nele temos a ajuda para tudo isso.

Instruí que ela orasse pedindo perdão também a Deus por seu orgulho e para que ele a concedesse coração mais humilde, o que ela fez prontamente. Meu trabalho como pai e como conselheiro estava feito!

O que eu não esperava

Após a oração, Fernanda começou a chorar novamente. Pensei “com meus botões” que havia mais a ser tratado com ela e perguntei a razão do choro. Ela respondeu: “-O sr. debochou de mim, falou que não ia mais me chamar de sabichona e debochou de mim de novo”. Pensei, então, na minha falta!

Ela estava coberta de razão. Dias antes, por conta de seus episódios de orgulho em que achava saber mais do que eu, teimando a respeito das coisas mais bobas (por exemplo, sobre quem teria sido o descobridor do Brasil, ela insistia em D. Pedro I, confundindo as histórias) eu, que sou bastante cínico (um pecado contra o qual tenho de lutar e vigiar constantemente) comecei a chama-la de sabichona, com um tom de voz que ela entendeu acertadamente não se tratar exatamente de um elogio. Ela se ofendeu, disse que era pecado o que eu estava fazendo e que eu havia dito a ela que não faria mais isso, o que não cumpri no episódio que estou narrando aqui.

Agora pense comigo. O que seria o meu cinismo senão, também, uma demonstração de orgulho? Diante de uma criança que não se dobra à minha sabedoria, o deboche não seria uma tentativa de impor, pelo constrangimento, o que eu estava ensinando? Aqui ficou constado que ela tem o meu DNA, e ambos temos o dos nossos primeiros pais que, orgulhosos, deixaram de lado a instrução de Deus seguindo o caminho proposto pela serpente na ânsia de serem como o Senhor.

Confesso que na hora pensei em não admitir meu erro. Mesmo trabalhando com aconselhamento a tanto tempo sei que é bem fácil esquecer a primeira parte de Gálatas 6.1: “Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma fata, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura”. Ainda que eu estivesse falando com “brandura”, minha atitude foi parecida com a de um instrutor “calejado” ensinando a um aluno que ainda não sabia como agir. Pior ainda, isso revelou que não atentei para a segunda parte do versículo: “e guarda-te para que não sejas também tentado”. Minha filha confrontou em mim o mesmo pecado que eu estava percebendo nela e, pela graça de Deus, ouvi o que ela disse, afirmei que ela estava correta no que estava me cobrando, pedi perdão a ela e orei, junto com ela, pedindo perdão ao Senhor.

Conselheiros não devem olhar para os seus aconselhados como se fossem pessoas que já chegaram à perfeição e que agora podem ajudar aqueles que ainda não chegaram lá. É preciso lembrar que nossa realidade é a mesma do apóstolo Paulo que dizia: “Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus” (Fp 3.12). Como diz o título do excelente livro de Paul Tripp, somos apenas “Instrumentos nas mãos do Redentor – pessoas que precisam ser transformadas ajudando pessoas que precisam de transformação”.

Com esta experiência pude trazer à memória que ambos, eu e minha filha, precisamos a cada dia de um Redentor amoroso que não se cansa de formar em nós o seu próprio caráter (Gl 4.19), pois para isso o Pai nos escolheu, para sermos conformes a imagem de seu Filho (Rm 8.29). Em um momento que para mim seria apenas de instrução para minha filha acabamos, eu e ela, experimentando o amor gracioso do Salvador e Redentor de nossas vidas, que é o único que é perfeito e que, por isso, pode aperfeiçoar aqueles que estão a seus pés, Jesus Cristo, o Senhor!

Milton Jr.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Uma Palavra aos Pais.

 

 

family with children on hands, sunset skyTalvez tenham pecado os meus filhos e blasfemado contra Deus em seu coração. Assim fazia Jó continuamente. Jó 1. 5

Um dos propósitos do blog é a apresentação de textos sobre os problemas cotidianos da vida cristã pelo prisma do aconselhamento bíblico. Esta informação é importante pois, quase a totalidade dos problemas da alma foram tomados ou empurrados para os braços da psicologia, que passou a influenciar a forma e o conteúdo da maioria dos conselheiros nas igrejas atualmente.

As lentes usadas para cada aspecto da vida cristã são as Escrituras Sagradas.

Dito isso, gostaria de pensar com nossos leitores sobre a descrição da prática de Jó em relação aos filhos, conforme apresentada já no título deste breve artigo.

Uma rápida leitura dos primeiros versos do Livro de Jó, revela com cores vibrantes a dinâmica de uma casa cheia de filhos e como esses filhos se relacionavam. Os filhos de Jó estavam sempre juntos (Jó 1.4) e se alegravam.

Não cresci numa casa com muitos filhos. Meus pais tiveram dois filhos. Eu e minha irmã. Crescemos e hoje vivemos em cidades diferentes. Quando nos encontramos, procuramos passar boa parte do tempo juntos. Quer seja no lanche da tarde, num almoço delicioso, ou mesmo em uma pizzaria à noite. Estar próximo e poder conversar com minha irmã é sempre muito bom. Sendo assim, fico imaginando como seria ter uma família com sete meninos e três meninas. Dez irmãos juntos desfrutando da presença um do outro. Penso que seria muito bom.

Sei que quanto maior a família maior a possibilidade de problemas, afinal, serão sempre pecadores reunidos. Entretanto, meu ponto não é este (neste artigo, talvez em outro) e sim, o acompanhamento do pai. Jó estava atento aos filhos. Como todo pai se preocupa com o futuro dos seus filhos, penso que Jó também se preocupava. Entretanto, Jó se ocupou em algo mais. Ele também se preocupou efetivamente com a vida espiritual deles (Jó 1. 5).

Agora poderemos olhar especificamente para aquilo que propus. Uma Palavra aos pais:

A primeira palavra aos pais é: Os pais devem agir com integridade e retidão, conforme o temor ao Senhor.

Agir com integridade e retidão como exemplos aos filhos. Recentemente alguém me indagou, dizendo que “os adolescentes dão muito trabalho na igreja”. Respondi que não, pois quando os adolescentes erram nós os corrigimos. Afirmei que, quem dá trabalho na igreja são os adultos. Adultos que já são pais. Esses são os maiores causadores de problemas. Pais que tumultuam a igreja local são exemplos ruins de integridade e retidão, ou pelo menos a falta destes. Os filhos podem ser profundamente influenciados pela postura ímpia ou inconstante de pais imaturos. Lembrem-se das sábias palavras de Tiago:

(7) Pois toda espécie de feras, de aves, de répteis e de seres marinhos se doma e tem sido domada pelo gênero humano; (8) a língua, porém, nenhum dos homens é capaz de domar; é mal incontido, carregado de veneno mortífero. (9) Com ela, bendizemos ao Senhor e Pai; também, com ela, amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. (Tiago 4. 7-9).

Integridade e retidão deve ser o padrão estabelecido para a norma de conduta em uma casa cristã.

O temor ao Senhor, sempre foi o princípio de sabedoria. (Sl. 111.10). Sem tal temor, tão ausente da instrução eclesiástica, não será possível lutar pela integridade e retidão.

A segunda palavra aos pais é: os pais também devem se desviar do mal. Aqui podemos constatar a prática da integridade e retidão juntamente com o temor ao Senhor. Pais que não se desviam do mal acabam por introduzir em sua própria dinâmica familiar a proximidade com aquilo que não agrada a Deus. Seja uma conversa inconveniente, seja o uso de palavras de baixo calão, seja o assistir programas apelativos e para piorar toda a situação, permitem seus filhos entrar em contato com toda a sujeira da cultura ímpia. E entenda, tudo aquilo que, em algum grau, nos afasta de Cristo ou, nubla a realidade de uma vida agradável a Deus, segundo sua Palavra, deveria ser evitado. Quando os filhos olham para os pais, devem ver neles prudência, piedade e devoção a Deus.

A terceira palavra aos pais é: santifiquem seus filhos. Este ato tem sido deixado de lado em função da falta de tempo. Particularmente penso que Deus nos cobrará pela inversão de prioridades. É preciso investir tempo para a santificação dos filhos e não apenas informalmente, mas, formalmente. Chamar nossos filhos com o firme e terno propósito de instruí-los na Lei do Senhor, apresentar-lhes as maravilhosas doutrinas da graça, contar a eles sobre o santo sacrifício de Jesus Cristo na cruz do calvário. Sei que dá muito trabalho e a nossa desculpa tem sido a falta de tempo. Porém, se você mantiver em seu coração a devoção de temor ao Senhor, será levado a se preocupar cada dia mais sobre a responsabilidade dos pais como instrumentos de santificação dos seus filhos. Não permitam que seus filhos cresçam sem disciplina, desobedientes, indiferentes quanto ao culto, irreverentes diante das coisas de Deus.

A quarta palavra aos pais é: reconheça que seus filhos são pecadores. Há pais que ainda não entenderam que seus filhos são pecadores. Sei que há muita controversa sobre isso. Não me deterei a defender aquilo que é biblicamente evidenciado gritantemente todos os dias sobre como nossos filhos são pecadores. Os pais não podem fechar os olhos quanto a isso e devem ajudar os filhos na condução do processo de terem o coração quebrantado. Muitos pais ficam constrangidos pelas peripécias dos filhos simplesmente por causa da vergonha pública. Entretanto, há algo mais sério acontecendo. Quando nossos filhos pecam, em primeiro lugar pecam contra Deus. Portanto, não adverti-los ou corrigi-los biblicamente falando, significa que não estamos preocupados com o relacionamento dos filhos para com Deus.

A quinta palavra aos pais é: Sejam intercessores constantes dos seus filhos. Os pais não podem terceirizar tal tarefa. Podemos e devemos ter grupos de oração e intercessão sobre a família, podemos ter amigos mais próximos para compartilhar das lutas na condução da educação dos filhos aos pés da cruz. Grupos e amigos são bênçãos de Deus em nossa vida. Entretanto, não podemos esquecer que orar pelos filhos é tarefa primeira dos pais. Conheci pais que nunca oraram junto com os filhos. Outros que oravam de vez em quando pelos filhos. Perguntei quantas vezes oravam por si mesmos. Todos disseram que, quando oravam, oravam por si mesmos. Pedi que pudessem orar e interceder diariamente pelos seus filhos. Alguns me olharam assustados: “todos os dias... é muito!”. Orar a Deus já é algo extraordinário. Passar tempo com Deus em oração é o desejo de todo cristão verdadeiro. Apresentar nossos filhos ao Senhor ajudará os pais na condução educacional. Quanto mais tempo passarem diante de Deus, maior será o desejo de que os filhos desfrutem deste mesmo privilégio.

Para concluir:

Há muitos pregadores apresentando as mais modernas técnicas para educar os filhos, mesmo que tais técnicas exijam ver o mundo sem a presença de Deus. Muitos estão entregando a educação moral e religiosa aos professores da escola secular ou da escola dominical.

Não terceirize a educação dos seus filhos. Não despreze o tempo que poderia ter com seus filhos. Lembre-se. Os filhos são herança do Senhor e devem ser muito bem cuidados. São filhos da aliança e os pais não tem o direito de educa-los de qualquer jeito.

Por fim, gostaria apenas de esclarecer que o título deste breve artigo, ou seja, Uma Palavra aos Pais, é uma palavra para minha casa (eu e minha esposa) em primeiro lugar, antes de ser uma palavra aos outros pais. Estamos juntos neste desafio de criar nossos filhos na disciplina e no temor ao Senhor. Que Deus nos conceda sabedoria celestial para isso. Graça e paz a todos.

terça-feira, 4 de abril de 2017

A Estratégia da Ignorância Proposital

Porque, deliberadamente, esquecem que, de longo tempo, houve céus bem como terra, a qual surgiu da água e através da água pela palavra de Deus...

2 Pedro 3:5

Esquecer geralmente é tido como um ato involuntário: a gente simplesmente esquece. Dificilmente, porém, alguém que tenha sido esquecido terá por inocente aquele que o esqueceu. Há casos em que a gente comanda a mente também: "Ah... esquece isso!". Mas por fim, parece que a gente sempre se lembra, e "não consegue tirar da cabeça". Hoje, porém, o assunto não é a memória e seus funcionamento, mas o aspecto destacado pelo apóstolo Pedro: o esquecimento deliberado.

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Ao meditar brevemente sobre esta faceta da nossa "memória pecaminosa", pretendo dar continuidade ao alerta quanto às estratégias sagazes, que por serem tão sutis, acabam abalando a confiança na suficiência das Escrituras como fonte e escrutinadora do aconselhamento cristão.

Em primeiro lugar, então, listo a ignorância do conteúdo revelado na Escritura Sagrada. E esta é, lamentavelmente, outra marca característica de nosso tempo. Com isso quero dizer que está ficando cada vez mais fácil se deparar com jovens que abertamente demonstram grande analfabetismo bíblico. Histórias e doutrinas básicas e fundamentais, que eram antes amplamente conhecidas, agora se tornam alvos de releituras tão ignorantes que faria qualquer ateu um pouco mais culto corar de vergonha.

Não bastasse isso, a enxurrada de filmes hollywoodianos que surfam no interesse que as pessoas têm em temas e histórias bíblicas igualmente não ajuda. Veja que o resultado final, produzido pela indústria de filmes vai de uma deplorável (na pior das hipóteses) a risíveis caricaturas de histórias bíblicas como as de Noé, Moisés e inúmeras tentativas de se recontar (ou seria reescrever?) a história de Jesus. Parece que quem produz tais filmes só perde em ignorância para aqueles que aplaudem essas versões totalmente desconexas. Aliás, um parêntesis: Aqui se faz verdadeiro certo adágio popular que diz: "o livro é melhor que o filme". Lei a Bíblia se quiser conhecer o verdadeiro Noé, Moisés e mais importante, o verdadeiro Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo!

Essa ignorância amplamente divulgada, que é por vezes deliberada, leva à crença equivocada de que os recursos disponíveis nas Sagradas Letras sejam limitados, tanto no escopo, quanto na profundidade.

Por escopo me refiro ao entendimento que muitos nutrem de que a Escritura se presta tão somente a tratar de temas ligados à salvação, como que dizendo que a Escritura é suficiente quando o assunto é religioso. Já falei disso anteriormente, noutro post.

De fato, não te aconselhamos a usar a sua Bíblia como um manual de consertos automotivos - pelo simples fato de não haver qualquer informação a esse respeito em suas páginas. Este tipo de informação estaria disponível lá caso fosse essa a vontade de Deus, entretanto sua ausência não é sem propósito. Mas, apesar da variedade de temas encontrados em suas páginas, recomendamos que a Bíblia seja usada para os fins a que ela mesma diz se destinar. À guisa de ser absolutamente claro, permita-me esclarecer que, obviamente, não entendemos que todos os quebra-cabeças do mundo estão disponíveis na Bíblia, mas apenas aqueles necessários para a "vida e piedade", conforme 2 Pedro 1.3.

No quesito profundidade, é possível que alguém pense que, ainda que a Escritura trate de um tema em específico, ela não diz tudo sobre ele. Como que ela disesse o básico necessário, mas se limitasse a fazê-lo porque Deus proveu na Bíblia apenas a peça faltante do quebra-cabeça. Uma peça que nunca teríamos acesso senão pela sua graciosa e especial revelação. Contudo, uma nota de cautela aqui: o pressuposto por detrás dessas palavras pode ser a convicção de que o “quebra-cabeças” da vida não teria sido todo ele disponibilizado na Palavra de Deus. Os que assim creem entendem que as demais peças já estão disponíveis em outros lugares, facilmente identificáveis e formando uma só e harmoniosa imagem com aquelas peças encontradas na Escritura. Nesse caso, a Escritura funciona como um útil apêndice, porém não indispensável.

Falando ainda de profundidade, tem o uso da linguagem cientificamente técnica empregado com vistas a provar que a Escritura não se dirige a este ou àquele tema na mesma profundidade que a ciência. Esta abordagem, contudo, ignora (se de propósito ou não, eu não sei) que o uso que a Escritura faz da linguagem nunca foi ou pretendeu ser técnica no sentido que a ciência moderna o faz.

Repare, porém, que existem aí elementos de verdade. Em alguns momentos é possível ver mais que rebeldia pura e simples, como aqueles momentos em que há uma busca por se entender melhor o papel da razão humana e da apropriação de conhecimento advindo da fonte da revelação natural, viabilizada pela graça comum.

Explico: de fato, Deus não nos dá tudo "de bandeja" pois nos fez inteligentes e quer nos ver usando essa inteligência para a sua própria glória. Deus não nos deu o universo simplesmente como um invólucro sem sentido, mas se revelou nele e quer que o conheçamos através da investigação científica desse universo, e as duas formas de conhecimento só estão disponíveis porque Deus não vetou o conhecimento aos homens após a queda. Apesar de pecador, o homem ainda pode legitimamente conhecer a verdade, seja crente ou incrédulo, por conta de Deus assim permitir, ainda que esse homem não mereça. Essa "graça" vinda de Deus não é suficiente para a salvação porque não foi planejada para isso, mas para tão somente tornar a vida no planeta possível após a queda. Por isso essa graça é distribuída imparcialmente, ou seja, ela é "comum" a todos.

Ainda que tenhamos que voltar a esse ponto em posts futuros (o da graça comum), as implicações práticas do esquecimento deliberado parecem esposar um entendimento equivocado da graça comum, que somado a um igualmente equivocado entendimento dos efeitos do pecado no entendimento humano, unidos a uma elegante, mais desajeitada apropriação de conhecimentos dispostos na natureza, resultam numa parte fundamental da estratégia de se desacreditar (ou diminuir) a suficiência das Escrituras.

Existem sim temas sobre os quais a Escritura não apresenta interesse, e que pode fazer parte da curiosidade científica. Mas isso não quer dizer que, por isso, a Escritura seja incompetente para lidar com os problemas que enfrentamos na vida. O descrédito na suficiência das Escrituras para o tratamento pastoral dos problemas da vida, então, é o resultado nefasto de uma somatória de elementos, que levaram tempo para se formar, mas que hoje já vigoram com amplitude.

Ao conselheiro, contudo, não é permitida uma acomodação tal que permita que se abrace uma crença básica que mine sua confiança na Escritura. Se tal acontecer esse conselheiro perderá de vistas as riquezas disponíveis nas páginas das Sagradas Letras, capazes de trazer alívio, conforto e solução para os muitos problemas que enfrentamos. Mas o mais importante, de cuja fonte tudo isso flui, está o conhecimento salvador de Jesus Cristo por meio de quem vem toda a solução e graça necessárias para prosseguir.

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