terça-feira, 4 de abril de 2017

A Estratégia da Ignorância Proposital

Porque, deliberadamente, esquecem que, de longo tempo, houve céus bem como terra, a qual surgiu da água e através da água pela palavra de Deus...

2 Pedro 3:5

Esquecer geralmente é tido como um ato involuntário: a gente simplesmente esquece. Dificilmente, porém, alguém que tenha sido esquecido terá por inocente aquele que o esqueceu. Há casos em que a gente comanda a mente também: "Ah... esquece isso!". Mas por fim, parece que a gente sempre se lembra, e "não consegue tirar da cabeça". Hoje, porém, o assunto não é a memória e seus funcionamento, mas o aspecto destacado pelo apóstolo Pedro: o esquecimento deliberado.

ignorancia_789421

Ao meditar brevemente sobre esta faceta da nossa "memória pecaminosa", pretendo dar continuidade ao alerta quanto às estratégias sagazes, que por serem tão sutis, acabam abalando a confiança na suficiência das Escrituras como fonte e escrutinadora do aconselhamento cristão.

Em primeiro lugar, então, listo a ignorância do conteúdo revelado na Escritura Sagrada. E esta é, lamentavelmente, outra marca característica de nosso tempo. Com isso quero dizer que está ficando cada vez mais fácil se deparar com jovens que abertamente demonstram grande analfabetismo bíblico. Histórias e doutrinas básicas e fundamentais, que eram antes amplamente conhecidas, agora se tornam alvos de releituras tão ignorantes que faria qualquer ateu um pouco mais culto corar de vergonha.

Não bastasse isso, a enxurrada de filmes hollywoodianos que surfam no interesse que as pessoas têm em temas e histórias bíblicas igualmente não ajuda. Veja que o resultado final, produzido pela indústria de filmes vai de uma deplorável (na pior das hipóteses) a risíveis caricaturas de histórias bíblicas como as de Noé, Moisés e inúmeras tentativas de se recontar (ou seria reescrever?) a história de Jesus. Parece que quem produz tais filmes só perde em ignorância para aqueles que aplaudem essas versões totalmente desconexas. Aliás, um parêntesis: Aqui se faz verdadeiro certo adágio popular que diz: "o livro é melhor que o filme". Lei a Bíblia se quiser conhecer o verdadeiro Noé, Moisés e mais importante, o verdadeiro Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo!

Essa ignorância amplamente divulgada, que é por vezes deliberada, leva à crença equivocada de que os recursos disponíveis nas Sagradas Letras sejam limitados, tanto no escopo, quanto na profundidade.

Por escopo me refiro ao entendimento que muitos nutrem de que a Escritura se presta tão somente a tratar de temas ligados à salvação, como que dizendo que a Escritura é suficiente quando o assunto é religioso. Já falei disso anteriormente, noutro post.

De fato, não te aconselhamos a usar a sua Bíblia como um manual de consertos automotivos - pelo simples fato de não haver qualquer informação a esse respeito em suas páginas. Este tipo de informação estaria disponível lá caso fosse essa a vontade de Deus, entretanto sua ausência não é sem propósito. Mas, apesar da variedade de temas encontrados em suas páginas, recomendamos que a Bíblia seja usada para os fins a que ela mesma diz se destinar. À guisa de ser absolutamente claro, permita-me esclarecer que, obviamente, não entendemos que todos os quebra-cabeças do mundo estão disponíveis na Bíblia, mas apenas aqueles necessários para a "vida e piedade", conforme 2 Pedro 1.3.

No quesito profundidade, é possível que alguém pense que, ainda que a Escritura trate de um tema em específico, ela não diz tudo sobre ele. Como que ela disesse o básico necessário, mas se limitasse a fazê-lo porque Deus proveu na Bíblia apenas a peça faltante do quebra-cabeça. Uma peça que nunca teríamos acesso senão pela sua graciosa e especial revelação. Contudo, uma nota de cautela aqui: o pressuposto por detrás dessas palavras pode ser a convicção de que o “quebra-cabeças” da vida não teria sido todo ele disponibilizado na Palavra de Deus. Os que assim creem entendem que as demais peças já estão disponíveis em outros lugares, facilmente identificáveis e formando uma só e harmoniosa imagem com aquelas peças encontradas na Escritura. Nesse caso, a Escritura funciona como um útil apêndice, porém não indispensável.

Falando ainda de profundidade, tem o uso da linguagem cientificamente técnica empregado com vistas a provar que a Escritura não se dirige a este ou àquele tema na mesma profundidade que a ciência. Esta abordagem, contudo, ignora (se de propósito ou não, eu não sei) que o uso que a Escritura faz da linguagem nunca foi ou pretendeu ser técnica no sentido que a ciência moderna o faz.

Repare, porém, que existem aí elementos de verdade. Em alguns momentos é possível ver mais que rebeldia pura e simples, como aqueles momentos em que há uma busca por se entender melhor o papel da razão humana e da apropriação de conhecimento advindo da fonte da revelação natural, viabilizada pela graça comum.

Explico: de fato, Deus não nos dá tudo "de bandeja" pois nos fez inteligentes e quer nos ver usando essa inteligência para a sua própria glória. Deus não nos deu o universo simplesmente como um invólucro sem sentido, mas se revelou nele e quer que o conheçamos através da investigação científica desse universo, e as duas formas de conhecimento só estão disponíveis porque Deus não vetou o conhecimento aos homens após a queda. Apesar de pecador, o homem ainda pode legitimamente conhecer a verdade, seja crente ou incrédulo, por conta de Deus assim permitir, ainda que esse homem não mereça. Essa "graça" vinda de Deus não é suficiente para a salvação porque não foi planejada para isso, mas para tão somente tornar a vida no planeta possível após a queda. Por isso essa graça é distribuída imparcialmente, ou seja, ela é "comum" a todos.

Ainda que tenhamos que voltar a esse ponto em posts futuros (o da graça comum), as implicações práticas do esquecimento deliberado parecem esposar um entendimento equivocado da graça comum, que somado a um igualmente equivocado entendimento dos efeitos do pecado no entendimento humano, unidos a uma elegante, mais desajeitada apropriação de conhecimentos dispostos na natureza, resultam numa parte fundamental da estratégia de se desacreditar (ou diminuir) a suficiência das Escrituras.

Existem sim temas sobre os quais a Escritura não apresenta interesse, e que pode fazer parte da curiosidade científica. Mas isso não quer dizer que, por isso, a Escritura seja incompetente para lidar com os problemas que enfrentamos na vida. O descrédito na suficiência das Escrituras para o tratamento pastoral dos problemas da vida, então, é o resultado nefasto de uma somatória de elementos, que levaram tempo para se formar, mas que hoje já vigoram com amplitude.

Ao conselheiro, contudo, não é permitida uma acomodação tal que permita que se abrace uma crença básica que mine sua confiança na Escritura. Se tal acontecer esse conselheiro perderá de vistas as riquezas disponíveis nas páginas das Sagradas Letras, capazes de trazer alívio, conforto e solução para os muitos problemas que enfrentamos. Mas o mais importante, de cuja fonte tudo isso flui, está o conhecimento salvador de Jesus Cristo por meio de quem vem toda a solução e graça necessárias para prosseguir.

Reações:

1 comentários:

Luciana Reis disse...

Quanta profundidade nessa reflexão... Li tudo e voltarei a ler mais tarde para assimilar melhor essas verdades...

Deus o abençoe!

Luciana Reis

Pesquisar este blog

Pesquisar por assunto

Aconselhamento Bíblico (24) Adultério (1) Aflição (2) Agradar a Deus (3) Alegria (6) Amor (2) Amor ao próximo (1) Anarquia (1) Ano Novo (2) Ansiedade (1) Argumentação (7) Arrependimento (5) Auto-estima (2) Auto-justiça (4) Autoridade (1) Casais (2) Casamento misto (1) Compaixão (3) Comportamento (13) Comunhão (2) Comunicação (5) Confiança (6) Conflitos (2) Confrontação (2) Conhecimento de Deus (4) Consolo (5) Contentamento (3) Convencimento (5) Coração (5) Coração de pedra (1) Cosmovisão (7) Criação de filhos (6) Cuidado da alma (5) Cuidados do conselheiro (2) Culpa (3) Dependência de Deus (2) Depravação total (1) Depressão (1) Desejos do coração (7) Deus conosco (1) Direitos (1) Dor (2) Edificação do irmão (1) Egoísmo (3) Emoções (6) Encorajamento (9) Engano (4) Escolhas (2) Esperança (3) Estudo (1) família (2) Farisaísmo (2) Fariseu (3) (1) Filosofia (1) Fundamentos (12) Glória de Deus (5) Guerra (3) Idolatria (10) Ídolos do coração (3) Imagem de Deus (1) Instrução (3) Intentos do coração (1) intimidade com Deus (1) Inversão de valores (2) Ira (2) Jean Carlos (12) Jean Carlos Serra Freitas (10) Jônatas Abdias (26) Justiça de Deus (1) Justiça própria (2) Justificação (1) Legalismo (2) Liberdade cristã (2) luta por poder (1) Más lembranças (3) meios de graça (1) Mentira (2) mil (1) milt (1) Milton Jr. (55) Monismo (1) Motivação (11) Motivações (4) Obediência (1) Objetivos (1) Oração (1) Orgulho (2) Paciência (2) Palavra de Deus (10) Passado (3) Paz (5) pecado (3) Perdão (5) Piedade (4) Plano de Deus (3) Planos (1) Prática da Palavra (17) Prática do aconselhamento (5) Presença de Deus (2) Pressupostos Teológicos (18) Psicologia (4) Psiquiatria (1) Racionalização (1) Redenção (7) Relacionamentos (6) remédios psiquiátricos (1) Remorso (2) sabedoria (5) Salvação (1) Santificação (2) Soberania de Deus (7) Sofrimento (6) Suficiência das Escrituras (22) Tarefas (1) Temor de homens (2) Temor do Senhor (1) Tesouros (1) tristeza (5) Unidade (1) Verdade (4) Vida cristã (23) Vontade de Deus (3)