terça-feira, 30 de maio de 2017

Meios de Graça e o Aconselhamento Bíblico.


BIBLIA-E-ORAÇÃOComo os meios de graça podem contribuir para a prática do aconselhamento bíblico? Antes de responder a esta pergunta, permitam-me relembrar um triste acontecimento. Logo no início do meu mestrado em Aconselhamento Bíblico, recordo de uma conversa que tive com um aluno onde se constatava um completo desconhecimento do Aconselhamento Bíblico. Ele me disse que havia escolhido a disciplina pois, segundo ele, era a disciplina mais fácil e ele não precisaria ter grande conhecimento teológico. Fiquei muito surpreso com sua perspectiva e lamentei que ele pensasse daquele jeito.

Minha questão não é discutir qual é a mais árdua disciplina, mas informar que, não existe um conselheiro bíblico sério que não seja um estudioso das Escrituras e, consequentemente, da teologia.

Dito isso, seria urgente relembrarmos o que são os meios de graça, tão citados por teólogos reformados.

No Breve Catecismo de Westminster, encontramos a pergunta 88: Quais são os meios exteriores e ordinários pelos quais Cristo nos comunica as bênçãos da redenção?

R. Os meios exteriores e ordinários pelos quais Cristo nos comunica as bênçãos da redenção, são as suas ordenanças, especialmente a Palavra, os sacramentos e a oração; as quais todas se tornam eficazes aos eleitos para a salvação. Ref. At 2.41-42.

O teólogo Charles Hodge, ensina que:

Meio de graça não significa todos os instrumentos que Deus quer usar como meios para a edificação espiritual de seus filhos. Essa expressão é apropriada para indicar aquelas instituições que Deus ordenou como canais ordinários da graça, isto é, as influências sobrenaturais do Espírito Santo, para as almas dos homens[1]

Percebam que, segundo podemos constatar na Palavra de Deus, não há milhares de meios de graça, porém, aqueles meios legítimos de Deus abençoar e instruir o seu povo são suficientes e eficazes.

O antigo padrão de fé foi perdendo espaço para a abertura ao pragmatismo, à sensível e emocional visão sobre igreja, além da influência das psicoterapias maquiadas de orientação evangélica. Tal mudança não foi bom para a igreja que vive na era da “pós verdade”.

Os meios de graça não deveriam ser almejados para alguém ter uma vida próspera material ou simplesmente para ter um “alívio emocional”. O que Deus deseja é muito mais do que simplesmente prover uma melhora financeira ou emocional, o que ele realmente deseja é que sejamos santos como ele é.

porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo.

1 Pedro 1.16

Há alguns anos, visitei uma senhora que estava ausente da igreja. Fui visita-la para saber o que estava acontecendo. Fui muito bem recebido em sua casa. A conversa foi breve e, ela mesma entrou no assunto da sua ausência na igreja. Ela me disse que estava profundamente deprimida, muito triste e que ela não tinha mais forças para frequentar as reuniões da igreja. Ali estava uma senhora verdadeiramente crente, temente ao Senhor, até então ativa na igreja. Seu sofrimento era real. Sua tristeza era real. Seu choro era real. Então resolvi perguntar o que havia deixado ela naquele estado. Ela disse que estava profundamente triste “porque uma irmã sempre aparecia com um vestido novo na igreja e ela não tinha dinheiro para comprar um vestido novo com frequência”. Lembrei a ela que seu coração estava no lugar errado, e que portanto, ela deveria arrepender-se dos seus pecados. Ela relutou por um tempo, mas por fim, entendeu seu grande erro. Trocar a adoração a Deus e ao redentor Jesus, por qualquer outra coisa era um grande erro.

Meios de graça não servem para fazer acomodações da nossa luxúria, mas servem ao propósito de nutrir nossos corações pelo santo desejo de adorar exclusivamente nosso redentor Jesus.

Tenho dito à igreja que pastoreio que todas as armas do mundo estão apontadas contra a igreja. Somos tentados o tempo todo e o tempo todo precisamos responder, biblicamente, àqueles que tentam fraudar a fé. Além disso, temos as lutas contra nosso próprio pecado que tenta a todo custo, obstruir nossa paz em Cristo. Como responderemos a tamanho ataque tão orquestrado pelo inimigo de nossa alma? Onde encontraremos forças para resistirmos as setas inflamadas de Satanás? Como manter o vigor, a alegria e a empolgação pelo serviço de culto, pela proclamação do santo evangelho e ainda mantermos um santo testemunho?

21 Quando o coração se me amargou e as entranhas se me comoveram,

22 eu estava embrutecido e ignorante; era como um irracional à tua presença.

23 Todavia, estou sempre contigo, tu me seguras pela minha mão direita.

24 Tu me guias com o teu conselho e depois me recebes na glória.

25 Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra.

26 Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre.

27 Os que se afastam de ti, eis que perecem; tu destróis todos os que são infiéis para contigo.

28 Quanto a mim, bom é estar junto a Deus; no SENHOR Deus ponho o meu refúgio, para proclamar todos os seus feitos.

Salmo 73. 21-28

Os meios de graça estão à disposição da igreja. Devemos fazer uso intenso deles. A Palavra (pregação, estudo, leitura), os sacramentos (batismo e ceia) e a oração, são eficazes para suprir as necessidades do povo do Senhor.

Devemos treinar nossos sentidos e a nossa mente a habituarem-se exclusivamente com os meios de graça, pois eles são eficazes para suprir as forças desgastadas pela santa batalha da santificação.


[1] Charles Hodge, Systematic Theology (Grand Rapids: Erdmans, 1975, Vol. III, 466.).

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