quinta-feira, 22 de junho de 2017

PAZ COM DEUS.

sun-2297961_960_720Recentemente participei como um dos preletores do 6º Simpósio organizado pela Federação de Homens do meu Presbitério com o tema Paz com Deus. O que segue abaixo é uma breve reflexão sobre um tema tão urgente e ausente na vida de muitos.

É certo que os ímpios também buscam de alguma forma a paz. As organizações civis tentam promover a paz. Artistas se unem em torno da busca pela paz. Homens e mulheres, jovens, adultos e os mais experientes buscam alguma forma de paz.

Paz sempre foi um dos grandes temas do evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo. A igreja verdadeira deve anunciar a paz verdadeira que excede todo o entendimento (Fp. 4.7). Reconheço as dificuldades que encontramos atualmente para proclamar esta verdade. Muitos pregadores estão se especializando em “como influenciar pessoas”, outros estão ocupando a atenção de muitos contando piadas ao invés de promoverem a verdadeira instrução bíblica e, com isso, gasta-se tempo demais ouvindo o que alivia temporariamente o coração, mas não produz paz, pois não produziu quebrantamento de coração e dependência genuína de Jesus Cristo.

Vejamos alguns textos onde o tema paz aparece. Em seguida farei alguns destaques:

Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. Romanos 5.1

Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize. João 14:27

E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus. Filipenses 4. 7

Durante décadas houve a divulgação de que doutrina engessa o coração. Ora, caros irmãos, doutrina bíblica jamais engessou o coração, mas o erro, a ausência de uma boa teologia bíblica, não apenas torna a pessoa uma presa fácil para os enganadores de plantão, como também não prepara ninguém para amadurecer o relacionamento com o Deus Altíssimo, e assim, ter uma paz crescente.

Olhe novamente para os textos mencionados acima. Veja os termos usados: Justificados, mediante a fé, paz com Deus, não se turbe o vosso coração, não se atemorize, paz com Deus, entendimento, guardará o coração, guardará a mente, e tudo isso somente ocorrerá por meio de Jesus.

Curiosamente, tais termos encontrados nestes e em outros diversos textos da Palavra de Deus têm sido ignorados. A declaração pelo desprezo ao estudo bíblico e o desconhecimento das grandes e preciosas doutrinas da graça destreinou uma geração inteira para encontrar paz em Deus e em Cristo somente.

Muitos estão procurando preencher a falta de paz com os programas da igreja. Pensam que se a agenda da vida for preenchida pelos programas da igreja, pela agenda dos diversos programas, encontrarão paz. Isso está longe de ser verdade.

Vejam o que disse Lutero:

Noite e dia eu ponderava, até que via conexão entre a justiça de Deus e a afirmação de que ‘o justo viverá pela sua fé’. Então, entendi que a justiça de Deus é a retidão pela qual a graça e a absoluta misericórdia de Deus nos justificam pela fé. Em razão desta descoberta, senti que renascera e entrara pelas portas abertas do paraíso. Toda Escritura passou a ter um novo significado [...] esta passagem de Paulo tornou-se para mim, o portão para o Céu.[1] (Lutero)

Paz com Deus significa o início da realidade celestial aqui e agora.

Para que o caminho da paz com Deus seja trilhado é necessário ter senso do pecado! Mas não é um senso do pecado diante do espelho ou perante outras pessoas. Este senso do pecado deve ocorrer diante do grande e Santo Deus.

Há dois casos antagônicos, porém, semelhantes: Adão e Isaías. Vejam no quadro comparativo como as experiências de ambos são semelhantes, porém, os resultados são tão antagônicos.

Adão

Isaías

Experiência de pecado num paraíso

Experiência de pecado numa cultura pecaminosa

A presença de Deus o impulsiona (esconder-se de Deus)

A presença de Deus o impulsiona (permanecer na presença de Deus)

Adão se esconde

Isaías permanece

Adão tenta aliviar seu pecado (dividindo a culpa com Eva)

Isaías assume a responsabilidade do seu pecado

Adão teve medo de Deus

Isaías teve medo Deus

Adão não viu a glória de Deus

Isaías viu a glória e a santidade de Deus

Adão morreu espiritualmente

Isaías teve seus pecados perdoados

Adão recebeu uma promessa

Isaías recebeu uma ordem e uma promessa

Adão é expulso do paraíso envergonhado.

Isaías continua seu ministério como servo fiel a anunciar a vinda do Messias.

Não há como fugir de Deus! Em nossa aflição, corremos o risco de levantarmos falsas e ofensivas acusações contra o caráter de Deus (Salmo 77). Duvidar da sua santa providência ou duvidar e questionar seu santo amor não é uma atitude que permitirá desfrutar da paz que este mesmo Deus oferece ao seu povo por meio de Jesus Cristo.

Desta forma, não haverá paz verdadeira (paz bíblica), se ignorarmos os ensinamentos de Jesus. A verdadeira boa instrução aquece o coração e prepara a alma para adorar a Deus continuamente.

Conclusão:

O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porquanto rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos. Oséias 4.6

É impossível ter paz com Deus se não o conhecermos, conforme ele mesmo se revela em sua Palavra. Quanto melhor o conhecermos, melhor será nossa comunhão com ele. Quanto mais sua Palavra arrebatar nosso coração, mais rica e santa será nossa comunhão com o Deus Altíssimo. Ergamos nossos olhos aos céus e contemplemos o Santo Deus que amou seu povo eternamente, ao ponto de enviar seu filho unigênito, Jesus Cristo, para morrer em nosso lugar, pendurado no madeiro, expondo publicamente nossas faltas, e atraindo sobre si mesmo toda a ira de Deus, tão somente para que pudéssemos ter paz com Deus.

Reverendo Jean Carlos Serra Freitas


[1] CURTIS, A. Kenneth; LANG, J. Stephen & PETERSEN, Randy. Os 100 Acontecimentos Mais Importantes da História do Cristianismso. São Paulo: Vida; 2003, p. 110.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Debates, torcidas e a glória de Deus

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Definitivamente, sou fã de debates. Creio que eles são uma excelente forma de entender melhor determinado assunto. Para o cristão, os debates teológicos deveriam ser um meio de crescimento na fé e também de convencimento do erro. Se, para nós, a Escritura é a Palavra final em termos de doutrina, nada mais natural que conversar (ou debater, se preferir esse termo) a respeito de doutrinas contrárias. O objetivo, com isso, deveria ser levar o irmão que assumimos estar errado ao entendimento correto a respeito das Escrituras, para a glória de Deus e edificação do próximo.

Entretanto, algo tem me incomodado bastante nos últimos tempos. Com o advento da internet e a facilidade de acesso à rede mundial de computadores houve um aumento expressivo de fóruns de debate, inclusive sobre a fé. Junto com isso, programas no rádio e na TV colocam irmãos de tradições teológicas diferentes para debaterem acerca do seu entendimento das Escrituras. Até aí, tudo bem, o problema é o que, muitas vezes, decorre disso.

Primeiro pensemos no espírito dos debatedores. A mim parece que, não poucas vezes, o desejo não é estabelecer a verdade, mas, simplesmente, provar que se está certo. Há uma grande diferença entre essas duas coisas e tem a ver com as motivações. A primeira diz respeito à honra devida àquele é revelado nas Escrituras na pessoa de Cristo Jesus, que afirmou ser a própria Verdade. Deus é honrado quando sua verdade é entendida. A segunda, porém, diz respeito à honra do debatedor. O fim do debate seria somente deixar bem claro como eu entendo as Escrituras melhor que meu irmão. Aquela, traz glória a Deus, esta tenta glorificar a inteligência humana.

Lembro que certo debatedor, famoso por defender os cinco pontos do calvinismo, foi perguntado em um debate sobre a razão de não ser arminiano. Prontamente ele respondeu que não era arminiano porque tinha uma Bíblia em casa e a lia. Agora pense bem. A resposta lança por terra a própria doutrina defendida que ensina que o homem, totalmente depravado, não busca a Deus e não tem condições de achegar-se a ele, daí a necessidade de o Senhor soberanamente escolher os eleitos e chama-los eficazmente por seu Espírito, dada a incapacidade deles. Toda a glória na salvação dos homens é do Senhor, mas parece, pelo menos olhando para esta resposta, que isso só vale para a salvação. No quesito entendimento doutrinário, o que vale mesmo é a inteligência. O outro é arminiano porque não sabe ler!

Quando Pedro respondeu à pergunta de Jesus a respeito de quem eles (os discípulos) achavam que ele era dizendo: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16), não ouviu do Mestre: “Parabéns Pedro! Vejo que você tem uma Bíblia em casa e a lê”. Definitivamente não! Sabemos que o que foi dito por Jesus foi: “Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus” (Mt 16.17). Sendo o homem incapaz de reconhecer o Salvador, fica dependendo exclusivamente de Deus para a sua salvação. É essa a verdade que lemos nas Escrituras e que, sistematizada, acabou ganhando o nome de “calvinismo”.

Convenhamos, insinuar que o opositor não tenha uma Bíblia ou chama-lo de analfabeto por ser arminiano não é nem educado nem bíblico, afinal, o Senhor Jesus afirmou que “quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal” (Mt 5.22).

Se em um debate você está pronto a escarnecer e humilhar a seu irmão, seu esforço não é para estabelecer a verdade, glorificar a Deus e amar o próximo, mas para provar que suas ideias (que podem até ser bíblicas, em muitos casos) são as corretas. Neste caso, o amor às ideias, mais do que o amor ao Senhor está governando o seu coração, a ponto de você pecar para chegar a seu objetivo. Biblicamente isso é idolatria, o que acaba tornando a própria verdade em uma palavra torpe, pois, como ordenou Paulo, a palavra que sai de nossa boca dever ser “unicamente a que for boa para a edificação, conforme a necessidade”, a fim de transmitir graça aos que ouvem (Ef 4.29).

Ao entrar em um debate, faça a mesma petição de Davi: “Também da soberba guarda o teu servo, que ela não me domine; então, serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão. As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, Senhor, rocha minha e redentor meu!” (Sl 19.13,14).

Mas há ainda uma outra questão, referente agora àqueles que “estão sendo representados” pelos debatedores (aqui no caso de um debate na TV, por exemplo). Ainda que no debate os irmãos (oponentes?) tenham por fim a glória de Deus e a edificação do próximo, buscando estabelecer a verdade ao submeter-se às Escrituras, há sempre o perigo de as “torcidas” levarem para o outro lado. Estou chamando de torcidas porque ultimamente é exatamente isso que vejo em alguns fóruns. Quase dá para vê-las exaltando seus debatedores prediletos com gritos de “olê, olê, lá, Fulanô, Fulanô...

Só para exemplificar, o vídeo com a resposta mal educada do “pastor que sabe ler” foi compartilhado milhares de vezes e em várias dessas vezes podia se ler “calvinista humilha arminiano” e outras frases como essas ou com palavras que não vale a pena nem lembrar, numa clara tentativa de ridicularizar e humilhar irmãos que ainda não chegaram ao entendimento correto da doutrina, pelo menos na opinião dos calvinistas, nos quais estou incluído.

A humilhação de irmãos que não entenderam certos pontos da fé não traz glória alguma ao Senhor Jesus Cristo. Talvez alguém diga, mas os arminianos fazem o mesmo! É, muitos deles sim, mas o pecado do outro não torna o meu desculpável. Além do mais, não estou me referindo apenas a esse tipo de debate. Calvinismo x arminianismo foi usado aqui somente para ilustrar o que pode acontecer quando o único objetivo é provar que determinado grupo está com a razão, que é mais inteligente, que é mais fiel, etc.

Esse comportamento de torcida organizada, por partes daqueles que se veem representados por Fulano, Beltrano ou Sicrano em um debate, além de desonrar a Deus, serve também para tentar esses irmãos debatedores a terem seus egos exaltados, pensando acerca de si mesmo além do que convém (Rm 12.3). Além do mais, torcedores falam mais sobre seus ídolos que sobre o Senhor Jesus Cristo.

Reitero, debates podem ser uma boa forma de crescer na fé e de convencer irmãos do erro, com vistas à honra do nome de Cristo e edificação do povo de Deus. Contudo, diante das tentações que estão envolvidas nessa situação, cuide para não fazer do debate uma maneira de humilhar outros, de provar que é mais inteligente ou de exaltar homens a ponto de eles aparecerem mais que o Redentor. Se a glória de Cristo não nortear seu pensamento, não convém debater.

Milton Jr.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A graciosa consciência de si

Certa vez, quando eu ainda era estudante de teologia no seminário, eu ouvi à época a seguinte história: Um jovem rapaz havia entrado no gabinete pastoral para falar com seu pastor e aos prantos despejou um monte de confissões de pecados acompanhados de vários impropérios dirigidos a si mesmo. Ele dizia: "Eu sou um pecador, pastor; um cafajeste pelo que fiz, não mereço respeito; sou um tolo..." e por aí vai. O pastor ouvia paciente o jovem, aguardando que terminasse. O jovem então lhe olhou nos olhos e perguntou: "O que você tem a me dizer, pastor?" É nessa hora que nosso coração congela, as palavras somem da boca e quase não evitamos transparecer no rosto a nossa perplexidade. Aquele pastor, então, respirando fundo e com voz branda e amável, respondeu: "Meu jovem, a mim cumpre lhe parabenizar! Já vi muita gente nesse gabinete fugir da verdade sobre si mesmo, e poucos chegaram ao ponto de finalmente entenderem quem realmente são. Agora, me permita falar daquele que veio para resgatar pessoas que sejam justamente como você".

Eu confesso que, enquanto ouvia a história, aguardava o tradicional desfecho no qual o pastor "levanta a moral" do sujeito e lhe diria que "na verdade, você não é tão mal assim". E sendo bem franco, acredito que muitos acabam por trilhar o caminho do enaltecimento pecaminoso. Há, porém, um ou mais perigos de se enveredar por esse caminho.

Assumir uma postura que diminua o peso do pecado confessado não é oferecer ajuda ou compreensão. Diminuir o caráter do pecado ou diminuir a percepção do pecador só contribui para desonrar a Deus e tornar leviano o sacrifício de pecados que Jesus ofereceu por nós com sua morte na cruz, além de não dar o crédito devido ao relato da pessoa.

Quando somos confrontados com a crueza do mal na vida do próximo, e principalmente quando ele vem marcado por uma aguda compreensão da extensão desse mal, nosso ímpeto por ajudar deve ser redentivo, nunca "auto-ajudador". Com isso quero dizer que devemos apontar o pecador consciente do seu pecado na direção do Redentor, para que, crendo Nele, se torne igualmente consciente de sua redenção.

Infelizmente, tais momentos de plena consciência de si e do desgosto do pecado são mais raros do que deveriam ser, mas acontecem. Quando acontecem, porém, esse momentos devem ser tomados como oportunidades graciosamente concedidas para enaltecer e engradecer o Redentor. Eis o motivo:

Eu encontro na seguinte ilustração, uma boa forma de entender o que estava acontecendo com o jovem da estória do começo do texto. Pense em uma garrafa com qualquer tipo de líquido dentro. Por um motivo pessoal - adiante eu conto - eu sempre penso naquelas antigas garrafas de vidro que a gente trocava no comércio do bairro, entregando uma vazia, e pegando uma cheia. Antigamente era assim, e isso acabou, devo dizer, para minha sorte. Me lembro de um episódio na infância quando minha mãe me mandou ir à padaria trocar uma dessas garrafas, mas no degrau de entrada da padaria a garrafa escorregou, bateu de bico na quina, e eu, que estendi a mão para tentar pegar a garrafa de volta, vi meu dedo sendo cortado pelo bico que retornava, agora quebrado e afiado. Com o dedo sangrando, estendi a garrafa de bico quebrado para o balconista, na tentativa de cumprir minha missão. Inútil. Garrafa de bico quebrado não vale nada, e voltei para casa. A missão houvera falhado e eu quase ficara sem dedo. 

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Fiquei pensando se ela estivesse cheia: Teria perdido todo o líquido que estivesse dentro, não é? Mas eis aí uma pergunta filosófica: não interessando o que vai dentro de qualquer garrafa, o líquido se espalha pelo chão por qual motivo? Se não entendeu, vai mais fácil agora: quando a garrafa cai, de quem ou do que é a culpa do líquido que estava dentro da garrafa sair?

Muitos responderiam prontamente que a razão do líquido sair da garrafa seria o descuido de quem a segurava, deixando-a por fim, cair e quebrar. Mas pense de novo: muitas garrafas caem e não quebram, mantendo o líquido interno perfeitamente protegido. Proponho, então, concluir que a razão do líquido sair é a "quebradura" da garrafa.

Usando da ilustração, creio que Deus muitas vezes nos permite passar por situações que nos "quebra a garrafa" do coração. Deus usa vários métodos para quebrar nossas garrafas, o que pode ser a morte de um ente querido, uma frustração pessoal, um acidente, uma doença, a perda de um emprego, um pecado nosso, o pecado de outro contra nós... os meios pelos quais a garrafa é quebrada não altera o resultado final: a garrafa quebrou e o que tinha dentro saiu. As emoções que fluem são comparáveis ao líquido que estava lá dentro.

Entendo que Deus, vez por outra, quebra a nossa garrafa para fazer a gente ver o que tinha lá dentro. A gente não vasculha com tanta constância o próprio íntimo, e mesmo que o faça, o auto-engano acaba nos fazendo acreditar que só tem coisa boa lá dentro.

Esta semana assistindo uma dessas séries, que me foge o nome agora, um personagem que havia sido baleado disse a um outro o seguinte, como suas últimas palavras: "Você não é um cara mau. Você é bom, mas às vezes não se lembra disso". A bênção que o jovem de nossa estória recebeu foi ver com clareza a verdade do seu íntimo, e gozando de uma liberdade que só o Espírito Santo pode conceder, concluir pela evidência incontestável daquilo que saiu de seu coração, que a verdade é outra: Você, de fato, é mau, mas às vezes não se lembra disso". A quebradura da garrafa da vida são misericordiosos lembretes de quem realmente somos.

Pense, por exemplo, no resumo dos últimos dias do Rei Ezequias, registrado em 2 Cronicas 32:24-31. Ele passara por uma grave doença, mas seu coração não soube receber bem as bênçãos que vieram depois disso. Repare no que diz o verso 31: Contudo, quando os embaixadores dos príncipes da Babilônia lhe foram enviados para se informarem do prodígio que se dera naquela terra, Deus o desamparou, para prova-lo e faze-lo conhecer tudo o que lhe estava no coração.

O que fazer, então, quando nos depararmos numa situação em que o aconselhado toma consciência de seu estado de pecaminosidade? Não tenho, obviamente, espaço para detalhar cada passo do que possa ser feito. E ainda que pudesse listar, certamente não estaria esgotando as possiblidades. Mas creio que alguns princípios, já adiantados de alguma forma previamente, devem estar diante de nós em situações que tais:

1. Perceber-se pecador é um privilégio. Não desanime a percepção de seu aconselhando. Nosso mundo está farto daqueles que se acham perfeitos, corretos, honestos e honoráveis, quando para o Senhor, não passam de sepulcros caiados. Reconhecer-se pecador é o primeiro passo fundamental para um genuíno arrependimento;

2. Não supervalorize a percepção apresentada. Ainda que saibamos que somos todos "pecadores miseráveis", essa não é a melhor hora para acrescentar o adjetivo "miserável" caso seu aconselhado esqueça dela em seu pronunciamento. Muitas vezes nossa luta é toda direcionada a, com a ajuda e o poder do Espírito Santo, convencer alguém do pecado (João 16.8). Quando alcançamos esse fim, entretanto, devemos reprimir qualquer desejo pecaminoso de tripudiar sobre o sofrimento de nosso aconselhado;

3. Aproveite a oportunidade, e apresente o Redentor. É em situações como essas, quando as trevas se fazem mais densas, que a luz do Senhor se torna mais fulgurante. Se alguém alcançou uma profunda decepção para consigo mesmo, é Deus lhe amolecendo o coração para receber a notícia que em Cristo "temos paz com Deus" (Romanos 5). Afinal, por que alguém procuraria desesperadamente por um salvador, se ele se vê ainda como alguém virtuoso e com "alguns pontos positivos" com Deus?

4. Ensine gratidão ao aconselhado. Se a pessoa chegou ao ponto de se ver no espelho da Palavra de Deus, isso é graça. Por mais dolorido e vexatório que seja reconhecer nosso real estado de miséria, é um privilégio poder sair das trevas e passar a ver. Devemos santificar a Deus em nosso coração (1 Pedro 3.15) com gratidão, porque, afinal, se reconhecer e se arrepender, pode ter lá seu sabor amargo, mas é uma prova inequívoca que uma boa obra começou a ser feita, e sendo assim, Deus há de completá-la até o dia de Cristo (Filipenses 1.6). Tem coisa mais maravilhosa do que saber, sem dúvidas, de que somos filhos de Deus e salvos pela graça?

5. E por fim, coloque o foque em Cristo. O Senhor Jesus Cristo veio ao mundo para salvar pecadores, até mesmo os piores (1 Timóteo 1.15). Se estivéssemos em condições sustentáveis, ou houvesse alguma chance de nos salvar por nossos próprios esforços, o sacrifício de Cristo seria simbólico, um grande ou até mesmo inspirador. Mas não: O sacrifício de Cristo na cruz é salvação para todo aquele que nele crê, é salvação para quem o contemplar! Então, quando alcançamos a consciência de quem realmente somos é que estamos prontos para entender a necessidade da vinda, vida e morte do Redentor em nosso lugar.

Espero que essas poucas linhas se ajudem a reagir redentivamente em situações que tais, e lhe estimule sempre à auto-reflexão. E então, o que saiu da sua garrafa quando Deus a deixou quebrar?

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