quarta-feira, 7 de junho de 2017

A graciosa consciência de si

Certa vez, quando eu ainda era estudante de teologia no seminário, eu ouvi à época a seguinte história: Um jovem rapaz havia entrado no gabinete pastoral para falar com seu pastor e aos prantos despejou um monte de confissões de pecados acompanhados de vários impropérios dirigidos a si mesmo. Ele dizia: "Eu sou um pecador, pastor; um cafajeste pelo que fiz, não mereço respeito; sou um tolo..." e por aí vai. O pastor ouvia paciente o jovem, aguardando que terminasse. O jovem então lhe olhou nos olhos e perguntou: "O que você tem a me dizer, pastor?" É nessa hora que nosso coração congela, as palavras somem da boca e quase não evitamos transparecer no rosto a nossa perplexidade. Aquele pastor, então, respirando fundo e com voz branda e amável, respondeu: "Meu jovem, a mim cumpre lhe parabenizar! Já vi muita gente nesse gabinete fugir da verdade sobre si mesmo, e poucos chegaram ao ponto de finalmente entenderem quem realmente são. Agora, me permita falar daquele que veio para resgatar pessoas que sejam justamente como você".

Eu confesso que, enquanto ouvia a história, aguardava o tradicional desfecho no qual o pastor "levanta a moral" do sujeito e lhe diria que "na verdade, você não é tão mal assim". E sendo bem franco, acredito que muitos acabam por trilhar o caminho do enaltecimento pecaminoso. Há, porém, um ou mais perigos de se enveredar por esse caminho.

Assumir uma postura que diminua o peso do pecado confessado não é oferecer ajuda ou compreensão. Diminuir o caráter do pecado ou diminuir a percepção do pecador só contribui para desonrar a Deus e tornar leviano o sacrifício de pecados que Jesus ofereceu por nós com sua morte na cruz, além de não dar o crédito devido ao relato da pessoa.

Quando somos confrontados com a crueza do mal na vida do próximo, e principalmente quando ele vem marcado por uma aguda compreensão da extensão desse mal, nosso ímpeto por ajudar deve ser redentivo, nunca "auto-ajudador". Com isso quero dizer que devemos apontar o pecador consciente do seu pecado na direção do Redentor, para que, crendo Nele, se torne igualmente consciente de sua redenção.

Infelizmente, tais momentos de plena consciência de si e do desgosto do pecado são mais raros do que deveriam ser, mas acontecem. Quando acontecem, porém, esse momentos devem ser tomados como oportunidades graciosamente concedidas para enaltecer e engradecer o Redentor. Eis o motivo:

Eu encontro na seguinte ilustração, uma boa forma de entender o que estava acontecendo com o jovem da estória do começo do texto. Pense em uma garrafa com qualquer tipo de líquido dentro. Por um motivo pessoal - adiante eu conto - eu sempre penso naquelas antigas garrafas de vidro que a gente trocava no comércio do bairro, entregando uma vazia, e pegando uma cheia. Antigamente era assim, e isso acabou, devo dizer, para minha sorte. Me lembro de um episódio na infância quando minha mãe me mandou ir à padaria trocar uma dessas garrafas, mas no degrau de entrada da padaria a garrafa escorregou, bateu de bico na quina, e eu, que estendi a mão para tentar pegar a garrafa de volta, vi meu dedo sendo cortado pelo bico que retornava, agora quebrado e afiado. Com o dedo sangrando, estendi a garrafa de bico quebrado para o balconista, na tentativa de cumprir minha missão. Inútil. Garrafa de bico quebrado não vale nada, e voltei para casa. A missão houvera falhado e eu quase ficara sem dedo. 

wpid-brokenhappiness1

Fiquei pensando se ela estivesse cheia: Teria perdido todo o líquido que estivesse dentro, não é? Mas eis aí uma pergunta filosófica: não interessando o que vai dentro de qualquer garrafa, o líquido se espalha pelo chão por qual motivo? Se não entendeu, vai mais fácil agora: quando a garrafa cai, de quem ou do que é a culpa do líquido que estava dentro da garrafa sair?

Muitos responderiam prontamente que a razão do líquido sair da garrafa seria o descuido de quem a segurava, deixando-a por fim, cair e quebrar. Mas pense de novo: muitas garrafas caem e não quebram, mantendo o líquido interno perfeitamente protegido. Proponho, então, concluir que a razão do líquido sair é a "quebradura" da garrafa.

Usando da ilustração, creio que Deus muitas vezes nos permite passar por situações que nos "quebra a garrafa" do coração. Deus usa vários métodos para quebrar nossas garrafas, o que pode ser a morte de um ente querido, uma frustração pessoal, um acidente, uma doença, a perda de um emprego, um pecado nosso, o pecado de outro contra nós... os meios pelos quais a garrafa é quebrada não altera o resultado final: a garrafa quebrou e o que tinha dentro saiu. As emoções que fluem são comparáveis ao líquido que estava lá dentro.

Entendo que Deus, vez por outra, quebra a nossa garrafa para fazer a gente ver o que tinha lá dentro. A gente não vasculha com tanta constância o próprio íntimo, e mesmo que o faça, o auto-engano acaba nos fazendo acreditar que só tem coisa boa lá dentro.

Esta semana assistindo uma dessas séries, que me foge o nome agora, um personagem que havia sido baleado disse a um outro o seguinte, como suas últimas palavras: "Você não é um cara mau. Você é bom, mas às vezes não se lembra disso". A bênção que o jovem de nossa estória recebeu foi ver com clareza a verdade do seu íntimo, e gozando de uma liberdade que só o Espírito Santo pode conceder, concluir pela evidência incontestável daquilo que saiu de seu coração, que a verdade é outra: Você, de fato, é mau, mas às vezes não se lembra disso". A quebradura da garrafa da vida são misericordiosos lembretes de quem realmente somos.

Pense, por exemplo, no resumo dos últimos dias do Rei Ezequias, registrado em 2 Cronicas 32:24-31. Ele passara por uma grave doença, mas seu coração não soube receber bem as bênçãos que vieram depois disso. Repare no que diz o verso 31: Contudo, quando os embaixadores dos príncipes da Babilônia lhe foram enviados para se informarem do prodígio que se dera naquela terra, Deus o desamparou, para prova-lo e faze-lo conhecer tudo o que lhe estava no coração.

O que fazer, então, quando nos depararmos numa situação em que o aconselhado toma consciência de seu estado de pecaminosidade? Não tenho, obviamente, espaço para detalhar cada passo do que possa ser feito. E ainda que pudesse listar, certamente não estaria esgotando as possiblidades. Mas creio que alguns princípios, já adiantados de alguma forma previamente, devem estar diante de nós em situações que tais:

1. Perceber-se pecador é um privilégio. Não desanime a percepção de seu aconselhando. Nosso mundo está farto daqueles que se acham perfeitos, corretos, honestos e honoráveis, quando para o Senhor, não passam de sepulcros caiados. Reconhecer-se pecador é o primeiro passo fundamental para um genuíno arrependimento;

2. Não supervalorize a percepção apresentada. Ainda que saibamos que somos todos "pecadores miseráveis", essa não é a melhor hora para acrescentar o adjetivo "miserável" caso seu aconselhado esqueça dela em seu pronunciamento. Muitas vezes nossa luta é toda direcionada a, com a ajuda e o poder do Espírito Santo, convencer alguém do pecado (João 16.8). Quando alcançamos esse fim, entretanto, devemos reprimir qualquer desejo pecaminoso de tripudiar sobre o sofrimento de nosso aconselhado;

3. Aproveite a oportunidade, e apresente o Redentor. É em situações como essas, quando as trevas se fazem mais densas, que a luz do Senhor se torna mais fulgurante. Se alguém alcançou uma profunda decepção para consigo mesmo, é Deus lhe amolecendo o coração para receber a notícia que em Cristo "temos paz com Deus" (Romanos 5). Afinal, por que alguém procuraria desesperadamente por um salvador, se ele se vê ainda como alguém virtuoso e com "alguns pontos positivos" com Deus?

4. Ensine gratidão ao aconselhado. Se a pessoa chegou ao ponto de se ver no espelho da Palavra de Deus, isso é graça. Por mais dolorido e vexatório que seja reconhecer nosso real estado de miséria, é um privilégio poder sair das trevas e passar a ver. Devemos santificar a Deus em nosso coração (1 Pedro 3.15) com gratidão, porque, afinal, se reconhecer e se arrepender, pode ter lá seu sabor amargo, mas é uma prova inequívoca que uma boa obra começou a ser feita, e sendo assim, Deus há de completá-la até o dia de Cristo (Filipenses 1.6). Tem coisa mais maravilhosa do que saber, sem dúvidas, de que somos filhos de Deus e salvos pela graça?

5. E por fim, coloque o foque em Cristo. O Senhor Jesus Cristo veio ao mundo para salvar pecadores, até mesmo os piores (1 Timóteo 1.15). Se estivéssemos em condições sustentáveis, ou houvesse alguma chance de nos salvar por nossos próprios esforços, o sacrifício de Cristo seria simbólico, um grande ou até mesmo inspirador. Mas não: O sacrifício de Cristo na cruz é salvação para todo aquele que nele crê, é salvação para quem o contemplar! Então, quando alcançamos a consciência de quem realmente somos é que estamos prontos para entender a necessidade da vinda, vida e morte do Redentor em nosso lugar.

Espero que essas poucas linhas se ajudem a reagir redentivamente em situações que tais, e lhe estimule sempre à auto-reflexão. E então, o que saiu da sua garrafa quando Deus a deixou quebrar?

Reações:

0 comentários:

Pesquisar este blog

Pesquisar por assunto

Aconselhamento Bíblico (29) Adultério (1) Aflição (3) Agradar a Deus (4) Alegria (5) Amor (2) Amor ao próximo (1) Anarquia (1) Ano Novo (2) Ansiedade (1) Antropologia (1) Argumentação (7) Arrependimento (6) Auto-engano (1) Auto-estima (2) Auto-exame (2) Auto-justiça (4) Autoconhecimento (2) Autoridade (1) Casais (2) Casamento misto (1) Compaixão (3) Comportamento (13) Comunhão (2) Comunicação (5) Confiança (8) Conflitos (4) Confrontação (3) Conhecimento de Deus (6) Consolo (4) Contentamento (3) Convencimento (8) Coração (6) Coração de pedra (1) Cosmovisão (9) Criação de filhos (6) Cuidado da alma (6) Cuidados do conselheiro (3) Culpa (3) Dependência de Deus (2) Depravação total (1) Depressão (1) Desejos do coração (7) Deus conosco (1) Direitos (1) Dor (2) Edificação do irmão (1) Egoísmo (4) Emoções (7) Encorajamento (11) Engano (4) Escolhas (2) Esperança (3) Estudo (1) família (2) Farisaísmo (2) Fariseu (3) (3) Filosofia (1) Fundamentos (14) Glória de Deus (6) Guerra (3) Humildade (1) Idolatria (10) Ídolos do coração (3) Imagem de Deus (1) Instrução (4) Intentos do coração (1) intimidade com Deus (1) Inversão de valores (2) Ira (2) Jean Carlos (12) Jean Carlos Serra Freitas (13) Jônatas Abdias (29) Justiça de Deus (1) Justiça própria (3) Justificação (1) Legalismo (2) Liberdade cristã (2) luta por poder (1) Más lembranças (3) meios de graça (1) Mentira (2) mil (1) milt (1) Milton Jr. (59) Monismo (1) Motivação (12) Motivações (4) Obediência (1) Objetivos (1) Oração (2) Orgulho (2) Paciência (3) Palavra de Deus (10) Passado (3) Paz (5) pecado (4) Perdão (7) Piedade (4) Plano de Deus (3) Planos (1) Prática da Palavra (17) Prática do aconselhamento (7) Presença de Deus (2) Pressupostos Teológicos (18) Psicologia (4) Psiquiatria (1) Racionalização (1) Redenção (7) Relacionamentos (7) remédios psiquiátricos (1) Remorso (2) sabedoria (5) Salvação (1) Santificação (3) Soberania de Deus (6) Sofrimento (7) Suficiência das Escrituras (24) Tarefas (2) Temor de homens (2) Temor do Senhor (1) teoria (1) Tesouros (1) tristeza (5) Unidade (1) Verdade (4) Vida cristã (26) Vontade de Deus (4)