terça-feira, 27 de junho de 2017

Nem insensato, nem insensível...

O aconselhamento bíblico, infelizmente, ainda não é unanimidade entre os cristãos. Mas as coisas têm positivamente avançado nos últimos anos. O que antes eram ecos reverberados de vozes distantes apregoando desde o deserto as verdades da Palavra de Deus, vai encontrando cada vez mais espaço no seu lugar de direito: a Igreja. Entretanto, ainda há muito o que fazer. Veja que, ainda que toda a cristandade adotasse de bom grado os princípios do Aconselhamento Bíblico, a batalha não estaria ganha, mas tão somente estaríamos começando a batalha, propriamente dita.

A pergunta que fica, então, é por que a Igreja não aceita de vez os princípios (pelo menos) do aconselhamento bíblico? Esta pergunta, porém, é bem mais complicada de responder do que parece à primeira vista.

Excluindo todos os aspectos técnicos envolvidos, ainda restam duas grandes barreiras para enfrentamos, se questionarmos ou denunciarmos os erros da cultura psicologizada que vivemos.

Por conta do linguajar e da cosmovisão dos grandes pensadores da psicologia secular já fazerem parte do imaginário e vocabulário popular, parece que questionar o status quo da psicologia é, no mínimo, insensatez, para não dizer insensibilidade.

Freud e Jung, quando aportaram juntos nos Estados Unidos, em 1909, pretendiam justamente popularizar suas ideias. Freud, o mais velho da dupla, via a si mesmo como o "novo Moisés", e ao jovem Carl Jung, como o seu "Josué". E mesmo sem uma tábua divinamente escrita nas mãos, em pouquíssimo tempo (na verdade, 6 anos após a chegada deles), a América já dizia viver a revolução psicológica e o triunfo da terapia como resultado do ministério desses pisco-profetas revolucionários. Não nos esqueçamos de que ele defendia que a psicoterapia funcionava como uma reeducação capaz de reverter por completo tanto a moralidade instituída pelo verdadeiro Moisés, como a culpa que seu Deus impunha. O resultado a gente vê até em terras dos brasis. Afinal, quem já não ouviu que "Freud explica"?

Com tantas explicações providas por livros, artigos científicos, a grande mídia e uma bilionária indústria farmacêutica, quem consideraria sensato questionar o atual estilo de vida e pensamento de miríades de pessoas ao redor do globo?

O outro lado dessa moeda de prata, é a alcunha de insensível. Com a popularização do jargão psicológico, e a aceitações dos princípios por detrás deles, hoje em dia parece ser necessário mais coragem para se admitir não estar doente do que o contrário. A coisa é tão grave que, se alguém ousar questionar o status de doente de outrem, olhos acusadores vindos de quase todas as direções apontam as setas da insensibilidade contra essa pessoa.

Entretanto, visto pela perspectiva de quem está do outro lado desse rio onde correm as águas da psicologia secular, gritar os perigos que esse atual estado de coisas encerra não é nem insensatez, nem insensibilidade. Antes, exatamente oposto a isso, a estes parece ser sinal de discernimento e compaixão. É justamente por ter o juízo recolocado no lugar pelo ensino da Palavra de Deus, e por se importar com aqueles que ainda disso não desfrutam, que vozes bradam preocupadas com aqueles que não alteram o curso da vida, e caminham firmes na direção de águas que os podem facilmente afogar.

general bible

Então, afinal, por que insistem os assim chamados conselheiros bíblicos? Existem muitos motivos, mas levando em conta a recorrente acusação de insensatez a insensibilidade, é importante ressaltar o que segue:

Primeiro, tais questionamentos se fazem necessários, como já o eram nos tempos de Jesus, que bradou contra o modo vigente das coisas de seu tempo. Pode ser que hoje em dia, como já denunciou uma "pedra" chamada O. Hobart Mowrer, os evangélicos já "tenham vendido seu direito de primogenitura por um prato de sopa psicológica". Em sua carta aos Romanos, o apóstolo Paulo diz que não se envergonha do evangelho, porque a justiça de Deus se revela justamente nele, no evangelho. E escrevendo aos Coríntios, o mesmo apóstolo diz que para a sabedoria dos sábios deste mundo, esse evangelho lhes soa como loucura, pois seu conteúdo se discerne espiritualmente. Portanto, denunciar o erro, onde quer que ele mostre sua face deformada, é um dever que repousa sobre os ombros daqueles a quem Deus chamou das trevas para a luz, conforme diz outro apóstolo, Pedro.

Não deveria soar estranho, portanto, que na obscuridade de seus pensamentos, a voz dissonante seja acusada de insensatez. Mas fica o aviso duplo: se por um lado a verdade por mais óbvia que seja será tida por loucura, isso não isenta o cristão de buscar apresenta-la do modo mais convincente, preparado e profundo possível. Não é porque dizem que somos loucos que começaremos a babar, não é mesmo?

Por outro lado, denunciar o pensamento apóstata contrário a Deus, que permeia nossa sociedade é como gritar o aviso que procura dissuadir alguém que não vê o buraco bem à frente. Obviamente que, tal como no caso do profeta Ezequiel (veja lá os capítulos 3 e 33), o dever de quem vê é avisar, e de quem anda é desviar. Se alguém, depois de avisado, insiste em cair no buraco, quem avisou é tido por inocente por ter feito seu trabalho. Você chama de insensível o médico que, por medo de ferir os sentimentos de seu paciente lhe esconde o diagnóstico de câncer, sob a gentil promessa que tudo vai ficar bem?

Quando o mundo recebeu em seu seio a encarnação do próprio Deus, a recepção não foi das melhores. Quer no seu nascimento, quer em seu ministério, Jesus foi rejeitado, tanto quanto aceito. Mas a dor da constatação do evangelista João ecoa forte: "veio para os que eram seus, mas os seus não o receberam". Deveria Jesus, então, visto esta estúpida rejeição, desistir de anunciar as boas novas das quais era ele mesmo a própria encarnação? Sobre isso não precisamos especular. João completa o relato dizendo que embora houveram os que rejeitaram, "a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome".

Esta é, portanto, a esperança básica daquele que continua firme apesar de muitos considerarem seus esforços insensatos ou insensíveis: Os que pela graça ouvirem e crerem, serão salvos. Nem insensato, nem insensível... O conselheiro bíblico insiste porque o "Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai".

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