quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Você acha que isso é certo?

Na lida do aconselhemento bíblico é preciso aprender a fazer as peguntas certas. Este é um aprendizado constante. A pergunta certa tem o poder de confrontar, fazer parar pra pensar, acalmar ou despertar. Já uma pergunta mal feita pode colocar tudo a perder, indispor o aconselhado ou colocar o conselheiro numa situação difícil ou desconfortável.

Recentemente ouvi a pergunta do título sendo feita num outro contexto, mas me lembrei que vez por outra a gente luta com a vontade de fazer essa pergunta na sessão de aconselhamento. Entretanto, suponho que as pessoas possam usar essa pergunta sem ponderar sobre ela. Eu digo o porquê.

A pessoa que usa essa pergunta geralmente o faz por acreditar que existe um padrão moral universal sob o qual todos deveriam se enquadrar. A pessoa, mesmo que não articule isso conscientemente, no fim, acaba crendo assim. A pergunta fatídica brota num contexto muito similar repetidas vezes. Quando, então, alguém faz uso da pergunta, é como se uma tal atitude que ela considera reprovável devesse encontrar na mente do outro a mesma reprovação. É assim, repito, que essa pessoa pressupõe um padrão válido para todos, que ela crê que deveria ser obviamente perceptível.

Se você é uma conselheiro bíblico, saiba desde já que a primeira coisa que o pecado anula em nós é o poder de detectar o óbvio. Quando perguntamos pra alguém se ela pensa que a atitude em questão (seja qual for) está certa, a expectativa parece ser que o caráter óbvio dessa "potente" confrontação surja como um foguete sainda do chão. Mas, e se o óbvio não foir tão óbvio assim? E se a cegueira que o pecado causa impede a pessoa de ver a questão do seu ângulo? Pior: e se o pecado estiver agindo no raciocínio, impedindo também que as conclusões óbvias sejam alcançadas pelo simples contemplar da questão?

Parecem questões sem muito propósito, mas a verdade é que muitas alternativas da psicologia secular estão justamente amparadas nessas bases. Por exemplo, a terapia que visa devolver o conteúdo da conversa de volta ao aconselhado, espera que este ao se ouvir "veja" que suas atitudes ou conceitos estejam errados e passem por revisão. Baseado em quê ninguém diz...

Ver, de verdade ou metaforicamente, não é suficiente. Certa feita uma senhora que lecionava para as crianças tentou usar recurso semelhante, buscando fazer com a uma delas, a mais "arteira", se conscientizasse de suas atitudes. Ela perguntou: "Por que, então, você está aqui?". Esperando pela tradicional cena na qual a cabeça baixa demonstra a vergonha por não valorizar o momento, no lugar, ele ouve um desaforado: "Mas eu nem queria vir... venho porque meus pais me obrigam". E assim, chegamos ao ponto crítico da questão: O que vai acontecer quando você, no mesmo ímpeto, perguntar se ela acha certo que ele fez, e ouvir um confortável e descompromissado: "Sim, acho sim"?

A reflexão sobre o tema me levou a indagar se conselheiros bíblicos deveriam fazer uso desse recurso e "confrontar" seu aconselhados usando essa pergunta. Eu acredito que não.

Filósofos do passado defenderam a idea de que as pessoas só experimentariam liberdade quando conseguissem agir em rebelião aos ditames sociais de seu meio. Ou seja, somente quando eu faço o que eu acho certo é que realmente sou livre, independente do que os outros pesam. Hoje em dia essa infeliz ideia já ganhou status de lugar comum e sua aceitação é quase unanimidade. Alguém poderia até dizer que é obvio que a gente só faz o que acha ser certo.

O problema está justamente aí. Como é que alguém pode achar que vá fazer outrem pensar, meditar, reavaliar, repensar suas atitudes se valendo de pergunta tão obviamente errada? Explico: imagine que você pegou alguém pegando uma nota de dinheiro no chão, que ela viu ser deixada cair pela senhora que estava na frente da fila do caixa. Você que está atrás, pergunta com ar de desaprovação: "você acha que isso é certo?" Não vejo como alguém sem padrões morais estabelecidos fora de si mesmo, não poderia responder com tranquilidade: "Sim, acho!" Afinal, sem Cristo e Deus no mundo, crendo que somos seres evoluídos, a lei do mais forte e mais esperto não é uma lei natural?

E quando as pessoas começarem a achar que é certo roubar? Opa, na verdade já tem muitoa gente que acha... Vale a pergunta? E quando a resposta for "sim", você estará preparado?

O que ninguém pergunta, porém, é como se chega à conclusão de que exista uma padrão moral comum sob o qual todos deveria se encaixar? Quem o disse? Onde ele está? Essa sensação de que existe o tal padrão moral universal é a lei de Deus gravada no coração humano, contra a qual lutamos diária, incessante e rebeldemente.

Conselheiro bíblico, jamais use essa pergunta, à menos que queira verificar o que já sabe: que a pessoa reconhece tal atitude como correta. Afinal, mesmo que ela negue, se ela fez, é porque em algúm nível, achou certo. Obviamente que existem aqueles momento que a gente faz o que sabe ser errado. Faz apesar de saber que é errado. Erra consciente do erro. Mas pergunto: até mesmo aí, não será que estamos achando certo fazer errado, e chamando de justa a injustiça?

A grande e grave pergunta, quer do aconselhamento, quer da vida, é se você sabe responder se Deus acha certo isto ou aquilo? Essa é a pergunta com qual você, conselheiro cristão, deve se ocupar. Ainda falaremos muito sobre isso, mas por hora, vale o aviso de ficarmos mais conscientes das implicações e pressupostos das perguntas que fazemos àqueles que precisam de nossa ajuda.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Características de um homem biblicamente orientado. 1Timóteo 6. 3 a 16:


Biblia_sagradaLembro-me recentemente de ler uma matéria em que uma mulher estava profundamente indignada porque um homem quis ajuda-la contra um bandido. Feministas do mundo todo estão em campanha para, não apenas defender o direito das mulheres, mas, mais do que isso, o movimento feminista quer a ascensão feminista em detrimento da tão proclamada igualdade. Na realidade, o que deseja o movimento feminista é inferiorizar o homem, normalmente qualificado como opressor.

Neste turbilhão de movimentos contrários ao homem, o homem cristão deve entender que não pode ceder às investidas ideológicas que avançam sobre a igreja. O que determina seu padrão ético/moral não são conceitos ímpios. O que determina o padrão ético/moral e espiritual de um homem cristão deve ser a inerrante, infalível e suficiente Palavra de Deus.

Devemos urgentemente entender que o mundo não apenas ignora os preceitos bíblicos, mas os ignora e rejeita tais preceitos bíblicos e todos aqueles que os seguem (João 15.19).

O apóstolo Paulo, quando escreveu sua carta a Timóteo, apresentou algumas qualidades, algumas formas de como deveria ser um caracterizado o homem que é guiado pela palavra de Deus.

O homem de Deus é conhecido por fugir da prática ímpia.

O homem de Deus deve estar preparado para resistir à tentação de abrigar em seu coração tais aspectos carnais e ímpios. Vejam a lista de qualificações negativas que o apóstolo Paulo apresenta: enfatuado, nada entende, mania por questões, contendas, inveja, provocação, difamações, suspeitas malignas, altercações sem fim, mente pervertida, privados da verdade, gananciosos...

É assustador imaginar que tais qualificações negativas possam direcionar o coração de homens que deveriam espelhar o modelo maior que é de Jesus Cristo. O homem de Deus foge destas coisas e não fica bem ambientado onde tais práticas acontecem.

O homem de Deus é conhecido por seguir a: justiça, piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão.

A Palavra de Deus é mesmo incrível. Não basta “apenas” fugir. A exigência de fugir é acompanhada por uma instrução propositiva, ou seja, o homem de Deus foge da impiedade enquanto se aperfeiçoa na santidade. As duas realidades devem caminhar juntas.

O homem de Deus é conhecido por combater o bom combate da fé.

Esse combate exigirá mais do que força física. Exigirá a entrega total e completa da alma, visando um bem maior. O homem de Deus mostrará toda a sua força quando reconhecer que é fraco (2 Co 12:10) e, neste reconhecimento de sua própria fraqueza, procurará os recursos celestiais.

Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as cousas que nos conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude. 2 Pedro 1. 3

Toda a força que os homens necessitam vem do Senhor e não dos conchavos espúrios. Homens biblicamente orientados não se calam diante da injustiça. Homens biblicamente orientados procuram agradar a Deus e não a si mesmo. Homens biblicamente orientados procuram promover a paz, sem jamais comprometer a verdade. Nestes dias de intenso relativismo moral/ético e espiritual, a igreja necessita que homens biblicamente orientados se apresentem para protege-la.

Dito isso, perceba que Paulo tem em mente o cuidado primeiro com o próprio Timóteo. Ou seja, antes de arriscar-se na defesa da fé, certifique-se que o seu coração está rendido ao senhorio de Jesus Cristo.

Conclusão:

Devemos todos, homens e mulheres, sermos conhecidos por nossa identificação com Jesus Cristo e não por aspectos secundários da nossa vida.

Com isso em mente, lembre-se que o Senhor nosso Deus cuida dos seus. Nunca estaremos sozinhos ou abandonados. Deus não prometeu que teríamos uma vida triunfante aqui neste mundo, mas prometeu que terminaria a obra maravilhosa que ele mesmo começou em nós.

Como digo com alguma frequência ao meu filho: O mundo é imenso, intimidador, fascinante e sedutor, mas, saiba que o nosso Deus é infinitamente maior.

Sei que muitos homens têm imensas dificuldades de se portar da maneira exigida pela Palavra de Deus. Reconhecer isso é um bom caminho, porém, é preciso clamar pela urgente intervenção de Deus, para que ele, em seu tempo e soberana vontade, nos livre da apatia e do medo de sermos o que a Bíblia exige de nós.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Você creu de todo o coração?

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Quando Deus ordenou a Filipe, que vinha fazendo um bom trabalho pregando em Samaria, onde as multidões atendiam às coisas que ele dizia, que fosse a um caminho que se achava deserto, havia um propósito específico. Em sua providência, o Senhor levou Filipe até um eunuco, oficial da rainha dos etíopes, que voltava da adoração em Jerusalém e vinha lendo o profeta Isaías.

Filipe, obedecendo ao Espírito Santo, se aproximou do carro em que estava o eunuco e perguntou se ele entendia o que estava lendo. Diante da negativa e do pedido para que Filipe explicasse o texto, aquele homem entendeu o evangelho e chegando perto de um lugar onde havia água, questionou: “Eis aqui água; que impede que seja eu batizado?” – ao que Filipe respondeu – “É lícito, se crês de todo o coração” (At 8.36,37a).

Para que alguém receba a água do batismo, que aponta para a purificação do coração realizada pelo Espírito Santo, é preciso que se creia em Jesus Cristo. Por essa razão foi que Filipe não se negou a batizar o eunuco que o respondeu: “Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus” (At 8.37b).

É claro que essa confissão não é mera declaração do entendimento intelectual dessa verdade, mas deve vir acompanhada de arrependimento genuíno, seguido de uma mudança de vida, na força e no poder do Espírito Santo. Foi por causa dessa verdade que Paulo, então, ordenou aos filipenses que desenvolvessem a salvação, ou seja, que buscassem uma vida de santidade que era possível porque o Deus que os tinha salvado operava neles o querer e o realizar, de acordo com a sua boa vontade (Fp 2.12,13).

Crer de todo o coração significa viver em santidade diante do Senhor e não somente fazer uma declaração formal de arrependimento e fé em Cristo.

Um episódio que demonstra a importância da coerência entre a declaração de fé e a vida de prática está no início dos evangelhos, quando João Batista batizava no Jordão.

É verdade que o batismo de João não era o batismo cristão. Prova disso é que ao encontrar alguns discípulos em Éfeso, Paulo perguntou em que batismo haviam sido batizados e, após ouvir que tinha sido no batismo de João, batizou-os em nome do Senhor Jesus (At 19.1-5).

O batismo de João, conforme Paulo, era um batismo para arrependimento, possivelmente semelhante às cerimônias de purificação do AT. Como João era o precursor do Messias ele exigia uma vida de retidão para que alguém fosse batizado, daí ele exortar enfaticamente: “Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento” (Mt 3.7,8).

Acontecia que alguns daqueles que iam se apresentar ao batismo achavam que o simples fato de submeter-se àquele rito os livraria da ira do Messias. O fruto que demonstrava arrependimento, mencionado pelo Batista era a adequação ao que ordenava a Lei. Isso fica claro no evangelho de Lucas, quando as multidões perguntam a ele o que fazer e ele reponde: “Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo. Foram também publicanos para serem batizados e perguntaram-lhe: Mestre, que havemos de fazer? Respondeu-lhes: Não cobreis mais do que o estipulado. Também soldados lhe perguntaram: E nós, que faremos? E ele lhes disse: A ninguém maltrateis, não deis denúncia fala e contentai-vos com o vosso soldo” (Lc 3.10-14).

Tudo o que João Batista responde tem fundamento na Lei que ordenava a repartir o pão com o faminto e cobrir o nu (Is 58.7), a não furtar (Ex 20.15) e a ter contentamento (Ex 20.17).

É interessante e importante notar essa questão, pois se aqueles que aguardavam a vinda do Messias não conseguiriam fugir da ira vindoura simplesmente por submeter-se a um rito ao mesmo tempo em que viviam em pecado, tampouco estarão seguros aqueles que, após a vinda do Messias, fazem uma confissão correta, submetem-se a um rito ordenado pelo Senhor, mas vivem em pecado.

A Escritura é bem clara a esse respeito: “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática do pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus” (1Jo 3.9). O batismo cristão é, então, para aquele que crê de todo o coração e essa atitude é evidenciada numa busca de santidade, que é viver no padrão estabelecido pela Lei do Senhor e que pode ser buscado na força e poder do Espírito Santo.

Você creu de todo o coração? Tem buscado conhecer a Palavra a fim de poder viver em acordo com ela? Tem procurado honrar ao Senhor? Se sim, saiba que há uma má e uma boa notícia. A má é que mesmo que busque viver dessa forma, ainda pecará. A boa é a garantia de que “se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9).

Sonde o seu coração e se perceber que, ainda que batizado e membro de uma igreja, ainda não crê de todo o coração arrependa-se e busque verdadeiramente a Cristo. Ele é poderoso para perdoar os seus pecados e transformar a sua vida.

Milton Jr.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Confissão de fé desalinhada com a prática: o que fazer?

Normalmente as pessoas vivem a vida sem preocupações maiores com a relação que os eventos cotidianos possam ter com seus compromissos de fé. Este já poderia ser considerado como um quadro ruim, mas pode piorar: as pessoas podem reagir a estes eventos ainda menos conscientes do quanto seus compromissos de fé devam interferir e guiar estas mesmas reações.
 
Normalmente é o pastor quem costuma ver e se preocupar com esta lacuna no entendimento prático das pessoas. Esta preocupação (no bom sentido) pode ser vista pela constante abordagem do tema "cosmovisão" e das consequentes exortações para que o crente viva de acordo com a visão de mundo defendida por sua fé cristã. Em outra ocasião me referi ao fenômeno resumindo-o na anedótica frase "na prática a teoria é outra!", que intitulou post em outro blog. Lá eu escrevia sobre a incoerente inconsistência de uma vida que, na prática, acaba mostrando valores opostos (ou no mínimo desalinhados) com aqueles valores que alguém diz "oficialmente" defender. Sob a premissa de que aquilo que temos arraigado no coração será invariavelmente o controlador da conduta, defendi que a teoria internalizada é aquela que conduz a prática.
 
O problema todo reside na ausência de reflexão e exame dessa teoria, que já pode estar enraizada no coração, mas não feita explícita em confissão pública. O resultado final era (e ainda é) uma esquizofrenia cosmovisional: vivo pelo que não professo - professo o que não conheço - não conheço aquilo pelo que vivo... Apesar de todos os esforços pastorais, parece que o incômodo permanece.
 
Toda vez, porém, que um aconselhado apresenta essa característica tão comum a todos nós, somos desafiados a, mais uma vez, vasculhar o tema e a melhor forma de abordá-lo. Você reconhecerá facilmente o problema quando, após algum tempo de atenta coleta de dados, perceber que apesar da confissão cristã, seu aconselhado toma decisões práticas pautadas num entendimento alheio ao evangelho de Cristo. Confusos, eles pedem por ajuda uma vez que os resultados pretendidos, ou a satisfação prometida (pelo ídolo), não foi alcançada. Em alguns dos casos, Deus é discretamente mencionado como um elemento incógnito, visto que abertamente é difícil assumir que nossa frustração é dirigida contra Ele.
 
 
À guisa de corrigir esta lacuna importante, muitas vezes ainda escondida do entendimento do aconselhado, nosso primeiro ímpeto é apresentar uma bem-estruturada aula de cosmovisão bíblico-cristã. Compreendo que até seja necessária uma boa dose de ensino no processo, mas uma coisas precisa ficar clara para o conselheiro de início: que somente Deus pode realmente alterar a cosmovisão de alguém.
 
A maneira como interpretamos o mundo e como sobre ele agimos são afluentes do coração ("Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida". Pv 4:23). Como afluentes de um rio, recebemos de fora dos nossos leitos as águas amargas e doces que nos vêm, e também despejamos de nossas águas para fora de nós. À menos que a nascente do rio do coração seja alterada, tanto a maneira como recebemos águas, como a maneira como as despejamos, será contaminada pela forma como interpretamos ambos os fenômenos, e tudo nasce no mesmo ponto: do homem interior do coração (1 Pe 3.4). Ainda assim, a missão dos pastores de alma, quer na condição oficial de pastores (de ofício), quer no chamamento por Deus no corpo de Cristo como conselheiros, não podem realmente mudar o ser interior de ninguém. Tanto um como outro não foram chamados para mudar pessoas, mas para 1. proclamar as virtudes daquele nos chamou das trevas para sua maravilhosa luz (1 Pe 2.9), 2. vivendo vidas dignas do evangelho pregado (Fp 1.27), 3. ministrando com zelo e fidelidade as verdades que receberam (2 Tm 2.15; 1 Co 4.2), 4. na esperança que não frustra (Gl 5.5; Cl 1.5; Tt 1.2; Hb 6.11) que Deus soberana e graciosamente agirá através deles como seus instrumentos (1 Pe 1.12; 1 Co 3.5; 4.1) na captura de seus escolhidos e edificação e crescimento dos já capturados (Jo 4.23; 1 Co 3.6; 1 Pe 4.10; Rm 14.19; Ef 4.12).
 
Dito isso, prosseguimos na busca por servir a Deus, servindo ao próximo naquilo que for bom para edificação (Rm 15.2). Ajudar ao nosso irmão/próximo aconselhado a interpretar os acontecimentos e nossas reações a eles, sob a ótica (ou cosmovisão se preferir) da fé cristã tal qual disposta nas Escrituras Sagradas serve bem a este propósito.
 
O convite ao exame nem sempre vem de modo direto. Na maioria das vezes ele vem formatado na conversa simples e aparentemente despretensiosa do aconselhamento, servida como pergunta, que põe junto o princípio esquecido e a reação prática. Na busca por ouvir coerência entre princípio e comportamento, como numa dança haverão movimentos que visam se esquivar das conclusões lógicas mais óbvias. Endurecer sem perder a ternura não vai adiantar. Será preciso mais.  Será preciso mais paciência, mais amor e mais criatividade principalmente. O que ajuda muito nesse processo é refazer a pergunta de outras formas ou refazer o quadro com outros personagens ou situação. Entretanto, não esqueça de manter a conclusão estritamente igual. Se quiser aprender mais sobre isso, procure o professor e profeta Natan. Ele dá uma aula de como fazer seu aconselhado chegar à conclusão de que a profissão de fé não "bate" com a atitude tomada (ou pretendida). [A aula pode ser encontrada aqui: 2 Sm 12.1-14].
 
Como numa dança (ou num embate no tatame, se preferir), pode haver muita movimentação mental. Corre pra lá, esquiva de cá. O importante é não desistir de fazer a confrontação entre teoria e prática, mantendo a criatividade em amor e graça nos movimentos, porque o aconselhado precisa reconhecer seus padrões de procedimento.
 
A importância do reconhecimento do esquema (estrutura) de interpretação de um aconselhado dá aquela consciência que ajuda na sondagem dos padrões que dominam o pensamento e as ideias que moldam as ações humanas. À isso há quem chame de "ato antes do ato". É o mesmo que dizer que o esquema de interpretação revela a base teórica para a prática. Veja que tais coisas não são elementos distintos, ou seja, como coração e atitude não estão dissociados, quando houver entendimento de um, haverá compreensão do outro, e quando houver mudança em um, haverá alteração no outro... Então, é importante que tenhamos em mente a importância central que este processo inicial do coração tem sobre as atitudes, e de igual modo, a crescente consciência e habilidade para fazer nosso irmão aconselhado enxergar isso na vida dele também, pelas lentes transformadoras da Escritura Sagrada.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Perdão, uma forte marca do cristianismo.


perdao1Uma das grandes marcas do cristianismo foi a prática do perdão. Foi, sem dúvida alguma, uma das práticas estranhas dos cristãos ao mundo pagão. O conceito estritamente bíblico, testemunhado pelos cristãos, era de difícil compreensão pelos ímpios contemporâneos da igreja primitiva.

Naqueles primeiros séculos de perseguição intensa contra a igreja, o que se constata não é uma geração amarga, desanimada, destruída pelo ódio. O que encontramos é uma igreja buscando refúgio em Deus e encontrando em Cristo todo o consolo necessário para aqueles momentos mais difíceis, em que de fato a fé pressionada pela dor do luto ameaçava declinar e esmorecer.

É evidente que este breve artigo não tem a intenção de detalhar historicamente esta marca distinta do cristianismo. Apresentei somente uma singela introdução sobre o perdão para ponderar pastoralmente como o perdão é bíblico, e por ser bíblico é importante e quais são os nossos desafios atuais. Vejamos:

Há uma estranha postura na cultura cristã evangélica atual que cria frases como:

· Não consigo me perdoar;

· Você precisa se perdoar;

· Deus perdoa e você, se perdoa?;

· Se o outro não se arrepender eu não tenho que perdoar;

· Você deve perdoar para ser perdoado;

· Não acredito no perdão;

· Perdoe para que você possa se sentir melhor;

· Não preciso perdoar ninguém, só Deus pode perdoar.

Se você se identificou? Faz uso de algumas destas expressões? A dor causada contra você foi tão grande que até hoje você revive tal tormento? Bem, há uma boa notícia. Na realidade, há uma boa nova. Vamos juntos contemplar a perfeita Palavra de Deus que pode trazer alívio e refrigério para aquele que está abatido.

Minha primeira consideração: a Palavra de Deus é a única que pode corrigir os rumos do nosso coração. Então precisamos lembrar sempre e crer continuamente neste fato. A Palavra de Deus é a nossa única e suficiente regra de fé e prática. A Palavra de Deus tem poder para fazer o que ela mesma diz que faz.

A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices. Salmo 19.7

Segunda consideração: Perdão pressupõe pecado.

Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. 1João 1.8,9

Pecado é errar o alvo, é afrontar deliberadamente a Lei do Senhor. Pense a respeito da gravidade e profundidade deste erro. Quando pecamos, ignoramos a presença de Deus e de Jesus Cristo, rejeitamos o caminho da santidade, desprezamos a graça e tão somente procuramos satisfazer algum desejo pessoal inadiável.

Terceira consideração: palavras motivacionais ou frases de efeitos apreendidas em sermões pode aliviar temporariamente o conflito da alma. Porém, trazer cura para a alma, somente a Palavra de Deus.

Por que tal alerta? Há diversas mensagens que visam promover bem-estar aos ouvintes, porém, sem confronto com o pecado. Então, ao invés de procurar ter uma vida melhor, deveríamos buscar uma vida mais santa. Aí sim, teríamos uma vida melhor, pois estaríamos mais próximo de Deus.

Segui a paz com todos, e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor.  Hebreus 12.14

Há uma base bíblica para o perdão.

Com isso quero dizer que o perdão não depende de um sentimento de boa vontade.

Perdoar implica em obediência a Palavra de Deus.

Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós; Colossenses 3. 13

Perdoamos porque, antes de qualquer outro pensamento ou inclinação do coração, o Senhor nos perdoou.

Evidentemente que há benefícios para a prática do perdão. Sensação de liberdade, aquela impressão de “leveza”. Muitos pregadores enfatizam os benefícios do perdão como se fosse uma pílula. Erram ao ensinar que simplesmente você deve perdoar para sentir-se livre.

Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. 1 Coríntios 10.31

Perdoamos porque há uma orientação bíblica. Perdoamos porque queremos obedecer a Cristo. Perdoamos para a glória de Deus.

Quarta consideração: Aqui nesta consideração, gostaria de citar e recomendar o livro de Robert D. Jones, intitulado Perdão, publicado pela Editora Nutra. Vejamos o que ele disse:

“É possível ainda que essa pessoa nunca tenha conhecido verdadeiramente o perdão de Deus por meio do arrependimento e da fé salvadora em Cristo (MC 1.15; At. 20.21). Ela pode conhecer os fatos do evangelho, mas talvez nunca tenha tido um encontro pessoal com Cristo. Ou talvez tenha ideias distorcidas a respeito de arrependimento e fé.”

É possível encontrar muitas pessoas dentro da igreja que não tenham encontrado em Cristo, a razão completa da sua esperança. Homens e mulheres que se ambientaram em uma cultura cristã evangélica, de certo terão grandes problemas ao olharem para as exigências da Palavra de Deus que envolvam aspectos tão íntimos. Quanto a estes, minha oração é que se arrependam dos seus pecados e se submetam ao senhorio de Jesus Cristo.

Quinta e última consideração: As pessoas não deveriam “forçar a barra” na autojustiça. Em algum dado momento parece que começaram a legislar como se fossem juízes, para os outros e para si mesmas. Pessoas que não conseguem perdoar ou se perdoar por algum motivo pessoal, ou, por terem recebido uma instrução errada e ruim, necessitam de ser reconduzidas para a Palavra de Deus.

O perdão é realmente libertador! É um dos atos que praticamos que demonstra que não somos mais escravos do pecado. Cristo nos libertou para que pudéssemos ser parecidos com ele. Esta é uma grande e maravilhosa obra que ele mesmo começou e um dia há de termina-la. Esta é uma magnífica e santa esperança.

Perdão bíblico não é movido por sentimento, mas por obediência a Cristo e a sua Palavra.

O maior prazer daqueles que nasceram de novo, daqueles que experimentaram a regeneração e o perdão de pecados em Cristo, não é o alívio temporário em seus próprios méritos. O maior prazer do cristão é desfrutar da presença de Jesus Cristo, seu senhor. Honrá-lo e obedecê-lo enquanto o adoramos é o verdadeiro anseio do nosso coração.

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