terça-feira, 8 de agosto de 2017

Confissão de fé desalinhada com a prática: o que fazer?

Normalmente as pessoas vivem a vida sem preocupações maiores com a relação que os eventos cotidianos possam ter com seus compromissos de fé. Este já poderia ser considerado como um quadro ruim, mas pode piorar: as pessoas podem reagir a estes eventos ainda menos conscientes do quanto seus compromissos de fé devam interferir e guiar estas mesmas reações.
 
Normalmente é o pastor quem costuma ver e se preocupar com esta lacuna no entendimento prático das pessoas. Esta preocupação (no bom sentido) pode ser vista pela constante abordagem do tema "cosmovisão" e das consequentes exortações para que o crente viva de acordo com a visão de mundo defendida por sua fé cristã. Em outra ocasião me referi ao fenômeno resumindo-o na anedótica frase "na prática a teoria é outra!", que intitulou post em outro blog. Lá eu escrevia sobre a incoerente inconsistência de uma vida que, na prática, acaba mostrando valores opostos (ou no mínimo desalinhados) com aqueles valores que alguém diz "oficialmente" defender. Sob a premissa de que aquilo que temos arraigado no coração será invariavelmente o controlador da conduta, defendi que a teoria internalizada é aquela que conduz a prática.
 
O problema todo reside na ausência de reflexão e exame dessa teoria, que já pode estar enraizada no coração, mas não feita explícita em confissão pública. O resultado final era (e ainda é) uma esquizofrenia cosmovisional: vivo pelo que não professo - professo o que não conheço - não conheço aquilo pelo que vivo... Apesar de todos os esforços pastorais, parece que o incômodo permanece.
 
Toda vez, porém, que um aconselhado apresenta essa característica tão comum a todos nós, somos desafiados a, mais uma vez, vasculhar o tema e a melhor forma de abordá-lo. Você reconhecerá facilmente o problema quando, após algum tempo de atenta coleta de dados, perceber que apesar da confissão cristã, seu aconselhado toma decisões práticas pautadas num entendimento alheio ao evangelho de Cristo. Confusos, eles pedem por ajuda uma vez que os resultados pretendidos, ou a satisfação prometida (pelo ídolo), não foi alcançada. Em alguns dos casos, Deus é discretamente mencionado como um elemento incógnito, visto que abertamente é difícil assumir que nossa frustração é dirigida contra Ele.
 
 
À guisa de corrigir esta lacuna importante, muitas vezes ainda escondida do entendimento do aconselhado, nosso primeiro ímpeto é apresentar uma bem-estruturada aula de cosmovisão bíblico-cristã. Compreendo que até seja necessária uma boa dose de ensino no processo, mas uma coisas precisa ficar clara para o conselheiro de início: que somente Deus pode realmente alterar a cosmovisão de alguém.
 
A maneira como interpretamos o mundo e como sobre ele agimos são afluentes do coração ("Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, porque dele procedem as fontes da vida". Pv 4:23). Como afluentes de um rio, recebemos de fora dos nossos leitos as águas amargas e doces que nos vêm, e também despejamos de nossas águas para fora de nós. À menos que a nascente do rio do coração seja alterada, tanto a maneira como recebemos águas, como a maneira como as despejamos, será contaminada pela forma como interpretamos ambos os fenômenos, e tudo nasce no mesmo ponto: do homem interior do coração (1 Pe 3.4). Ainda assim, a missão dos pastores de alma, quer na condição oficial de pastores (de ofício), quer no chamamento por Deus no corpo de Cristo como conselheiros, não podem realmente mudar o ser interior de ninguém. Tanto um como outro não foram chamados para mudar pessoas, mas para 1. proclamar as virtudes daquele nos chamou das trevas para sua maravilhosa luz (1 Pe 2.9), 2. vivendo vidas dignas do evangelho pregado (Fp 1.27), 3. ministrando com zelo e fidelidade as verdades que receberam (2 Tm 2.15; 1 Co 4.2), 4. na esperança que não frustra (Gl 5.5; Cl 1.5; Tt 1.2; Hb 6.11) que Deus soberana e graciosamente agirá através deles como seus instrumentos (1 Pe 1.12; 1 Co 3.5; 4.1) na captura de seus escolhidos e edificação e crescimento dos já capturados (Jo 4.23; 1 Co 3.6; 1 Pe 4.10; Rm 14.19; Ef 4.12).
 
Dito isso, prosseguimos na busca por servir a Deus, servindo ao próximo naquilo que for bom para edificação (Rm 15.2). Ajudar ao nosso irmão/próximo aconselhado a interpretar os acontecimentos e nossas reações a eles, sob a ótica (ou cosmovisão se preferir) da fé cristã tal qual disposta nas Escrituras Sagradas serve bem a este propósito.
 
O convite ao exame nem sempre vem de modo direto. Na maioria das vezes ele vem formatado na conversa simples e aparentemente despretensiosa do aconselhamento, servida como pergunta, que põe junto o princípio esquecido e a reação prática. Na busca por ouvir coerência entre princípio e comportamento, como numa dança haverão movimentos que visam se esquivar das conclusões lógicas mais óbvias. Endurecer sem perder a ternura não vai adiantar. Será preciso mais.  Será preciso mais paciência, mais amor e mais criatividade principalmente. O que ajuda muito nesse processo é refazer a pergunta de outras formas ou refazer o quadro com outros personagens ou situação. Entretanto, não esqueça de manter a conclusão estritamente igual. Se quiser aprender mais sobre isso, procure o professor e profeta Natan. Ele dá uma aula de como fazer seu aconselhado chegar à conclusão de que a profissão de fé não "bate" com a atitude tomada (ou pretendida). [A aula pode ser encontrada aqui: 2 Sm 12.1-14].
 
Como numa dança (ou num embate no tatame, se preferir), pode haver muita movimentação mental. Corre pra lá, esquiva de cá. O importante é não desistir de fazer a confrontação entre teoria e prática, mantendo a criatividade em amor e graça nos movimentos, porque o aconselhado precisa reconhecer seus padrões de procedimento.
 
A importância do reconhecimento do esquema (estrutura) de interpretação de um aconselhado dá aquela consciência que ajuda na sondagem dos padrões que dominam o pensamento e as ideias que moldam as ações humanas. À isso há quem chame de "ato antes do ato". É o mesmo que dizer que o esquema de interpretação revela a base teórica para a prática. Veja que tais coisas não são elementos distintos, ou seja, como coração e atitude não estão dissociados, quando houver entendimento de um, haverá compreensão do outro, e quando houver mudança em um, haverá alteração no outro... Então, é importante que tenhamos em mente a importância central que este processo inicial do coração tem sobre as atitudes, e de igual modo, a crescente consciência e habilidade para fazer nosso irmão aconselhado enxergar isso na vida dele também, pelas lentes transformadoras da Escritura Sagrada.
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