quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Você acha que isso é certo?

Na lida do aconselhemento bíblico é preciso aprender a fazer as peguntas certas. Este é um aprendizado constante. A pergunta certa tem o poder de confrontar, fazer parar pra pensar, acalmar ou despertar. Já uma pergunta mal feita pode colocar tudo a perder, indispor o aconselhado ou colocar o conselheiro numa situação difícil ou desconfortável.

Recentemente ouvi a pergunta do título sendo feita num outro contexto, mas me lembrei que vez por outra a gente luta com a vontade de fazer essa pergunta na sessão de aconselhamento. Entretanto, suponho que as pessoas possam usar essa pergunta sem ponderar sobre ela. Eu digo o porquê.

A pessoa que usa essa pergunta geralmente o faz por acreditar que existe um padrão moral universal sob o qual todos deveriam se enquadrar. A pessoa, mesmo que não articule isso conscientemente, no fim, acaba crendo assim. A pergunta fatídica brota num contexto muito similar repetidas vezes. Quando, então, alguém faz uso da pergunta, é como se uma tal atitude que ela considera reprovável devesse encontrar na mente do outro a mesma reprovação. É assim, repito, que essa pessoa pressupõe um padrão válido para todos, que ela crê que deveria ser obviamente perceptível.

Se você é uma conselheiro bíblico, saiba desde já que a primeira coisa que o pecado anula em nós é o poder de detectar o óbvio. Quando perguntamos pra alguém se ela pensa que a atitude em questão (seja qual for) está certa, a expectativa parece ser que o caráter óbvio dessa "potente" confrontação surja como um foguete sainda do chão. Mas, e se o óbvio não foir tão óbvio assim? E se a cegueira que o pecado causa impede a pessoa de ver a questão do seu ângulo? Pior: e se o pecado estiver agindo no raciocínio, impedindo também que as conclusões óbvias sejam alcançadas pelo simples contemplar da questão?

Parecem questões sem muito propósito, mas a verdade é que muitas alternativas da psicologia secular estão justamente amparadas nessas bases. Por exemplo, a terapia que visa devolver o conteúdo da conversa de volta ao aconselhado, espera que este ao se ouvir "veja" que suas atitudes ou conceitos estejam errados e passem por revisão. Baseado em quê ninguém diz...

Ver, de verdade ou metaforicamente, não é suficiente. Certa feita uma senhora que lecionava para as crianças tentou usar recurso semelhante, buscando fazer com a uma delas, a mais "arteira", se conscientizasse de suas atitudes. Ela perguntou: "Por que, então, você está aqui?". Esperando pela tradicional cena na qual a cabeça baixa demonstra a vergonha por não valorizar o momento, no lugar, ele ouve um desaforado: "Mas eu nem queria vir... venho porque meus pais me obrigam". E assim, chegamos ao ponto crítico da questão: O que vai acontecer quando você, no mesmo ímpeto, perguntar se ela acha certo que ele fez, e ouvir um confortável e descompromissado: "Sim, acho sim"?

A reflexão sobre o tema me levou a indagar se conselheiros bíblicos deveriam fazer uso desse recurso e "confrontar" seu aconselhados usando essa pergunta. Eu acredito que não.

Filósofos do passado defenderam a idea de que as pessoas só experimentariam liberdade quando conseguissem agir em rebelião aos ditames sociais de seu meio. Ou seja, somente quando eu faço o que eu acho certo é que realmente sou livre, independente do que os outros pesam. Hoje em dia essa infeliz ideia já ganhou status de lugar comum e sua aceitação é quase unanimidade. Alguém poderia até dizer que é obvio que a gente só faz o que acha ser certo.

O problema está justamente aí. Como é que alguém pode achar que vá fazer outrem pensar, meditar, reavaliar, repensar suas atitudes se valendo de pergunta tão obviamente errada? Explico: imagine que você pegou alguém pegando uma nota de dinheiro no chão, que ela viu ser deixada cair pela senhora que estava na frente da fila do caixa. Você que está atrás, pergunta com ar de desaprovação: "você acha que isso é certo?" Não vejo como alguém sem padrões morais estabelecidos fora de si mesmo, não poderia responder com tranquilidade: "Sim, acho!" Afinal, sem Cristo e Deus no mundo, crendo que somos seres evoluídos, a lei do mais forte e mais esperto não é uma lei natural?

E quando as pessoas começarem a achar que é certo roubar? Opa, na verdade já tem muitoa gente que acha... Vale a pergunta? E quando a resposta for "sim", você estará preparado?

O que ninguém pergunta, porém, é como se chega à conclusão de que exista uma padrão moral comum sob o qual todos deveria se encaixar? Quem o disse? Onde ele está? Essa sensação de que existe o tal padrão moral universal é a lei de Deus gravada no coração humano, contra a qual lutamos diária, incessante e rebeldemente.

Conselheiro bíblico, jamais use essa pergunta, à menos que queira verificar o que já sabe: que a pessoa reconhece tal atitude como correta. Afinal, mesmo que ela negue, se ela fez, é porque em algúm nível, achou certo. Obviamente que existem aqueles momento que a gente faz o que sabe ser errado. Faz apesar de saber que é errado. Erra consciente do erro. Mas pergunto: até mesmo aí, não será que estamos achando certo fazer errado, e chamando de justa a injustiça?

A grande e grave pergunta, quer do aconselhamento, quer da vida, é se você sabe responder se Deus acha certo isto ou aquilo? Essa é a pergunta com qual você, conselheiro cristão, deve se ocupar. Ainda falaremos muito sobre isso, mas por hora, vale o aviso de ficarmos mais conscientes das implicações e pressupostos das perguntas que fazemos àqueles que precisam de nossa ajuda.

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