quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Em busca da felicidade

Eu gosto de definições. Sei que isso está sendo empurrado para fora dos holofotes sociais, como quem quer envelhecer à força um conceito como se fosse uma "banana" atrás da geladeira do pós-modernismo. Mas... eu gosto de definições. Acredito que elas ajudam a estabelecer conceitos e a dar uma ideia clara do que queremos. E é exatamente o que queremos o foco desse post.
De um modo peculiar Paul Tripp oferece a seguinte definição de felicidade: "Felicidade é o resultado de obtermos o que nosso coração deseja" (2002:266). Peço que olhe com atenção para essa definiçao, pois atrevo-me a dizer que ele acertou. Ainda que haja quem se apresse em discordar creio que essa definição de felicidade como resultado da obtenção do que desejamos no coração capta com perspicácia o conceito geral de felicidade.
Se você vê algum problema em definirmos felicidade assim, me permita adiantar que, bem pode ser que o problema não esteja na definição em si. Explico: é curioso notar que todos buscamos com considerável avidez a felicidade. Afinal, quem quer ser pobre e doente podendo ser rico e saudável? Você prefere escolher a dor ou o prazer? Alegria ou tristeza? Bom... queremos a felicidade, ao que tudo indica. Acontece que essa bem pode ser um movimento do coração (em diretação a felicidade) deixado lá por Deus como um movimento natural.
Quando penso nisso, me lembro de que John Piper estruturou seu ministério pastoral em torno da defesa do que ele chamou de "hedonismo cristão". Ainda que sua ênfase recaia sobre o prazer - que ele acredita que só possa se realizar plenamente em Deus - a felicidade lhe é irmã, ou seja, prazer e felicidade andam juntas, ainda que não sejam a mesma coisa.
Esse homens de Deus, estudiosos em suas áreas, estão vendo alguma coisa de diferentes perspectivas, mas que acabam convergindo para o mesmo ponto. Um ponto que, como acredito, foi objeto de observação do salmista, que inspirado escreveu: "Agrada-te do SENHOR, e ele satisfará os desejos do teu coração" (Psalms 37:4).
Uma leitura mais atenta vai revelar que na definição de felicidade dada acima a pessoa de Deus está "faltando". Mas essa mesma leitura atenta revelará que o salmista não discodaria da definição dada. Na verdade, o salmista não está definindo felicidade, mas é como se ele concordasse com essa definição, contudo explicando somente Deus é capaz de "dar o que seu coração deseja". E é aqui que muitos se perdem...
Nem P. Tripp, nem J. Piper nem o Rei Davi estão dizendo que você deve se voltar para Deus para ter o desejos do seu coração atendido, como se Deus fosse uma entidade cósmica impessoal e sem vontade própria, cuja existência se justifica no atender de nossas necessidades sentidas. Nada poderia estar mais longe da verdade. Entretanto, é justamente desta forma que muitos abordam a questão da felicidade, Deus e a própria fé. E assim se apresentam diante de você, conselheiro: frustrados porque Deus não lhes deu o que queriam.
Creio que desde o salmista, o que esses homens de Deus estão nos ensinando é a enxergar o caráter duplo da felicidade. De um lado, está sua dinâmica: a felicidade nada mais é do que a satisfação dos desejos do coração. Uma vez que o coração esteja "satisfeito", a felicidade se instala. Mas do outro lado, temos aquilo que tem o poder de satisfazer o coração. E antes que você se apresse a dizer que este é Deus, olhe primeiro para o seu coração e para os desejos que abrotam dele. Tiago, com seu espelho cristalino nos aponta o problema: Cobiçais e nada tendes; matais, e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras. Nada tendes, porque não pedis; pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres. (Tg 4.2-3). O problema é o coração! O que o nosso coração deseja é uma expressão dele mesmo, e portanto, nossos desejos não são puros, muitas vezes não são legítimos nem mesmo condizem com aquilo que vá nos satisfazer.
Mesmo nessa condição lastimável de perdição, nosso coração não descansa em sua busca por felicidade. Ele, o nosso coração, mesmo assim perdido, ainda acredita que sua felicidade está na satisfação de seus desejos (egoísas, mesquinhos, pecaminosos, etc...).
Para que Deus seja a satisfação de nosso coração, é necessário que seja operada uma transformação fundamental. Essa transformação é tão grande e tão profunda que chamamos isso de "novo nascimento".
Quando essa transformação ocorre, os desejos de nosso coração mudam, porque nosso coração mudou. Nesse ponto, a felicidade é finalmente alcançada, pois Deus satisfaz o coração redimido. E caso você esteja se perguntando se a felicidade muda de pessoa para pessoa, a depender do estado do coração da pessoa em questão, me permita responder com Agostinho, que era santo como todo crente o é, assim resumiu: "Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti". Seu gênio traduzia com acuidade a poesia inspirada do salmista, mas dizia mais!
Ainda que seja uma afirmação um tanto ousada, é a ela que nos encaminhamos: não existe felicidade sem Deus. O coração enganado por sua própria cobiça até pode acreditar ser possível alcançar a felicidade na satisfação de seus desejos, mas enquanto esse coração não aprender a desejar a Deus, a felicidade andará ao redor, sem contudo poder ser encontrada, pois nenhum desejo pode realmente ser satisfeito em um coração vazio (de Deus).
O primeiro passo, portanto, é se conscientizar dessa verdade, pois felicidade não pode ser um alvo. Mas quando Deus é o alvo, a felicidade é seu efeito colateral, certo e bendito.
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